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Wednesday, 7 August 2013

Immersion by Aliette de Bodard

Finalmente li Immersion, a história de Aliette de Bodard que ganhou o Nebula, o Locus e foi nomeada para o Hugo e os BSFA. Desde que li a sinopse, na altura em que ouvi falar das nomeações, fiquei interessado e deixei um separador do Chrome aberto na página da Clarkesworld onde foi publicada. Agora descobri que estava também disponível em audio, pelo que decidi experimentar ouvir. Apesar da interpretação da leitora não ter sido particularmente do meu agrado, dada a sobre-enfatização de certos diálogos ou pensamentos e a sua voz por demais suspirada, o facto é que adorei a história.
Sem querer revelar demasiado, até por correr o risco de estragar a leitura de quem ainda não conhece, basta-me dizer que Immersion é uma exploração bastante interessante da interacção entre culturas quando uma é dominante - do ponto de vista bélico ou económico por exemplo - e do quanto isso pode levar ao extremo problemas como a necessidade de aceitação ou o preconceito, principalmente quando se torna natural a assimilação da cultura dominante. Nesta história a questão é abordada através de um mecanismo que permite mais que uma tradução da linguagem, uma transformação completa de um indivíduo para a cultura da qual depende.
Com este pequeno conto, Aliette de Bodard pode chamar-nos à atenção quanto a vários problemas que a nossa civilização atravessa e com os quais devemos aprender a lidar da melhor forma, desde a assimilação da cultura americana pelos países desenvolvidos - por exemplo através do cinema e literatura que são produzidos e comercializados em massa e que afogam quase todos os outros mercados culturais - a confusão que se faz na Europa entre a pertença à comunidade europeia e a obediência às decisões dos países economicamente dominantes, a comunicação através de redes sociais, que não só nos dão imagens falsas como nos definem a forma de comunicar - por exemplo, a ausência do silêncio intencional: ou se comenta um post ou ninguém sabe que se leu o post e se optou por ignorar - até à limitação que uma pessoa pode sentir em ser ela própria quando tem que se adaptar a outra cultura - até que ponto pode um indivíduo ser tudo aquilo que é, manifestar a sua personalidade em pleno, quando tem que usar uma língua diferente, em situações quotidianas diferentes, com costumes diferentes e interpretações variáveis para os mesmos gestos ou comportamentos e até que ponto é ele capaz de se reconhecer depois de passar muito tempo a sustentar uma imagem culturalmente aceite?
Assim sendo, não posso deixar de recomendar a leitura de Immersion a todos e pondero agora ler algo mais da autora.


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I finally got to read Aliette de Bodard's Immersion, a short story that won the Nebula and the Locus awards and was nominated to the Hugo and BSFA. Ever since I heard of it I've been willing to check it out and kept a tab in Chrome with Clarkesworld where it was initially published. I found out it was also available in audio version, so I decided to listen and share it with a friend. Though the reader's interpretation wasn't particularly to my liking, I ended up really enjoying the story.
Without revealing too much and spoiling it, it's enough to say Immersion is a quite interesting exploration of the interaction between cultures when one of them is dominant and of how it can aggravate problems such as prejudice or need for acceptance and more so if people start considering its only natural to assimilate the dominant culture. In this story the issue is addressed through a machine that allows not only to automatically translate language but also to completely transform a person into what is expected in the culture that created it.
With this short tale, Aliette de Bodard makes us think on multiple problems that our civilization is going through right now and with which we must deal with in the best way, such as the assimilation of american culture by most developed countries - for example through cinema and literature with massive marketing - the confusion in Europe between belonging to the European Union and obedience to the decisions made by the economically dominant countries, the communication through social networks that not only give us false avatars but also define the ways we communicate - for example, the absence of intentional silence: or you comment a post or no one knows that you read it and decided to ignore it - or the limitation that one can feel when adapting to another culture - how can a person express herself fully, actually be her real self, when using a different language, in different daily situations, with different traditions and interpretations and how can that person recognize herself after a long period holding this culturally accepted avatar?
I can't recommend Immersion enough and I'm now looking forward to reading more from this author.

Sunday, 30 June 2013

The Inner City by Karen Heuler

Mais um livro que tive oportunidade de ler através da NetGalley, desta feita uma aposta às cegas, dado que desconhecia a autora e a descrição era apenas indicativa de que estava prestes a ler ficção curta especulativa. A aposta foi, sem dúvida, ganha. Embora, como é inevitável nestas antologias, haja contos que goste mais e outros que goste menos, no computo geral a leitura foi interessante, com algumas ideias originais e uma abordagem diferente daquilo a que estou habituado.
Karen Heuler diz na sua página que escreve realismo mágico, instigada a isso pela leitura de Gabriel García Márquez, e de facto vejo a proximidade entre algumas das suas histórias e o pouco que li de Haruki Murakami, outro autor associado a este género literário. Apesar de tudo, não consigo escapar à impressão que isto não passa de mais um filho da ficção especulativa, do fantástico, com um isolamento da fantasia ou ficção científica e uma aproximação à chamada ficção literária provavelmente mais por motivos comerciais do que pelas características intrínsecas da obra.
Comentário aparte, como antologia de contos sejam de ficção especulativa sejam de realismo mágico, The Inner City é um trabalho interessante que permite uma exploração da reacção do indivíduo a uma série de situações caricatas - por vezes absolutamente surreais - e que terminam quase sempre numa nota auto-analítica, em tom de descoberta ou de transformação do sujeito. Os enredos, esses são de uma multiplicidade e heterogeneidade que só se compreende sabendo que os quinze contos foram publicados separadamente entre 1997 e 2011. Desde crianças que se transformam em animais, híbridos genéticos de humano e cão criados para serem servis a pessoas que nascem da terra como plantas mas já adultos, vestidos e com intenções bem definidas e outras que se tornam parte de um oceano alienígena que mais parece um sincício, tudo pode acontecer nas obras de Karen Heuler. Tocando em temáticas como a experimentação biológica e genética, a ecologia, a religião e a engenharia social, a novidade aqui reside principalmente na naturalidade com que a maioria das personagens encaram estes fenómenos, o que permite à autora guiar o leitor por caminhos inesperados. O foco recai sempre sobre uma pessoa, a sua visão dos acontecimentos, a sua participação neles ou comportamento perante eles e aquilo em que a pessoa se torna ou que descobre ser, algo que de certa forma se aproxima de Kafka ou mesmo Camus. Há constantemente um interpelação à mente do leitor, a quem são mostradas realidades que dificilmente não o farão questionar o seu conceito de pessoa, de sociedade, de humanidade ou de moralidade.
Uma obra recomendada a quem gostar de ficção curta especulativa. Fico com vontade de ler algo mais desta autora, venham daí as sugestões.


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Another book I had the opportunity to read through NetGalley, and this time a blind bet, considering I didn't even know the author and the description wasn't really specific. No regrets. Though, as is unavoidable in anthologies, there were some stories I liked much more than others, in general the book was very interesting, with some original ideas and approaches different from what I'm used to.
On her website, Karen Heuler says she writes magic realism, lead there by reading Gabriel García Márquez, and I do see some similarity between some of her stories and the little I've read of Haruki Murakami, other author associated with this genre. I still can't move past my feeling that this is but another part of speculative fiction isolated from science fiction and fantasy and associated with literary fiction for commercial reasons.
Side note apart, as an anthology of short tales - be them whatever genre one says - The Inner City is an interesting work that allows for an exploration of the individual's reaction to some odd situations - often quite surreal - which end in a self-analytical tone. The plots are of such an heterogeneity that one can only understand it knowing that they were published separately between 1997 and 2011. From kids that turn into animals, human-dog hybrids to people born from the ground like plants (though adult, dressed and decided) and others that become part of an alien ocean that reminded me of a syncytium, anything can happen in the works of Karen Heuler. Addressing themes such as bio-genetic experimentation, ecology, religion and social engineering, what's new here is the simple and natural way in which characters deal with the awkward situations, allowing the author to lead the reader through unexpected paths. The focus is always on the person, her vision of the phenomena, her participation in or behaviour facing them and what she turns into or finds out about herself, creating a narrative that reminds me of Kafka or even Camus. The reader is shown realities that constantly question his concept of person, of society, of humanity or morality.
A recommended work to all those who enjoy speculative short fiction. I now want to read more of this author, any suggestions?

Saturday, 16 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 - comentário geral

Finalmente consegui contactar com trabalhos de vários autores de língua portuguesa. Era algo que já queria ter feito antes, mas que nunca tive o entusiasmo necessário ou sequer uma oportunidade como esta para o levar a cabo. Os Contos Digitais do Diário de Notícias permitiram-me, de uma forma relativamente simples e gratuita, conhecer a escrita (ou pelo menos um exemplo dela) tanto de autores nos quais já tinha interesse como de outros que desconhecia por completo. Estão todos disponíveis actualmente na biblioteca digital do DN. Infelizmente, se é verdade que não parti com expectativas elevadas, mesmo assim a leitura desiludiu-me. A maioria dos 31 contos foram maus ou medíocres e são mesmo poucos os que recomendo ou que ponderaria reler.

A título de revisão, os contos que gostei e recomendo a quem estiver interessado em ficção curta de qualidade em português são:
- Cidade Líquida de João Tordo (#2), do qual comprei entretanto o livro Anatomia dos Mártires e, se gostar deste, pondero ler também As Três Vidas ou O Livro dos Homens sem Luz;
- A Queda de um Anjo de Afonso Cruz (#7), autor cuja obra já estava interessado em experimentar, comprei A Carne de Deus e tenho em vista ler também A Boneca de Kokoshka;
- A Moeda de Gonçalo M. Tavares (#8), do qual tenho já tinha lido Histórias Falsas e pretendo experimentar a série O Reino;
- Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos de Dulce Maria Cardoso (#11), autora da qual pretendo eventualmente ler O Retorno;
- Monólogo do Oriente de Patrícia Portela (#27), autora que desconhecia por completo e me deixou curioso quanto ao que fará num formato mais longo, a explorar n'O Banquete.

O meu favorito foi sem dúvida A Queda de um Anjo de Afonso Cruz. Foi uma leitura agradável, surpreendente, que resulta bem como um conto e instiga a mente a reflectir. Este, tal como os contos de Dulce Maria Cardoso e Patrícia Portela são textos que eu diria fáceis de gostar e que me parece que qualquer leitor vai encontrar facilmente algo que lhe agrade. Cidade Líquida e A Moeda, por outro lado, são contos que implicam outro esforço, uma certa abertura e mentalização para serem aproveitados ao máximo. A minha opinião do conto de João Tordo melhorou consideravelmente à segunda leitura e, quanto a Gonçalo M. Tavares, parece-me que é típico da sua obra pedir ao leitor que interprete, que leia nas entrelinhas, que faça ele próprio a maior parte do raciocínio que lhe permitirá alcançar toda a mensagem que a história traz e assim sentir-se mesmo satisfeito com a leitura.

Houve outros contos que, não sendo maus, não me conseguiram cativar tanto mas que acredito que possam ser interessantes para alguns leitores, em especial para os fãs dos respectivos autores, como Quartos de Hotel de Inês Pedrosa, Acho que Posso Ajudar de David Machado, A Balada da Vala dos Velhos de J.P. Simões, O Progresso da Humanidade de Rui Cardoso Martins, A Terrível Criatura Sanguinária de Nuno Markl, A Mina do Deus Morto de João Barreiros e Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco de Sérgio Godinho.
Os restantes contos, a meu ver, nem vale a pena experimentar a não ser que haja um especial interesse na obra completa do autor e que a motivação se mantenha mesmo depois de ler alguns comentários já partilhados no Goodreads, seja porque estão francamente mal escritos, seja porque o enredo ou o assunto são absolutamente desinteressantes. Compreendo que este comentário é genérico e algo paternalista, mas por isso mesmo incluí no final do post os links para os meus comentários para quem queira informação mais detalhada.
Uma outra nota que devo fazer é que eu li alguns destes contos em voz alta com uma amiga. Parece-me que isto teve algum impacto na forma como decorreu a sua leitura, não só porque tive imediatamente alguém com quem conversar sobre eles mas mesmo porque ter que ler alto, pronunciar as frases e as palavras e parar para pensar pelo meio alteram mesmo a experiência.

Só recentemente comecei a ler ficção curta, sempre foi algo para o qual tive um certo preconceito, na típica linha: "um conto não chega para desenvolver e aprofundar um tema ao ponto que me interessa". Entretanto, e ainda bem, as minhas leituras provaram que estava redondamente enganado e que consigo mesmo adorar alguns contos e ficar a pensar neles noite dentro. Para isto contribuiu destacadamente um livro ao qual não pude fazer justiça - por falta de tempo e cabeça na altura em que o acabei de ler - com um comentário detalhado aqui no blog: Pequenos Mistérios (The Keyhole Opera) de Bruce Holland Rogers. Aproveito pelo menos para agradecer à Cat que insistiu comigo que eu tinha que ler uma antologia de ficção curta de qualidade e me emprestou o livro, mesmo sabendo que eu vivo com dois gatos loucos. Visitem o blog dela que vale a pena (ela acompanha-me na mania dos posts gigantes o que é óptimo). Voltando ao ponto, quero com isto dizer que apesar da minha parca experiência com ficção curta, parece-me que esta colecção não resultou nem individualmente em muitos casos nem como um conjunto. Desconheço se houve alguma linha editorial, algum pedido específico aos autores ou outro factor deste tipo que tenha influenciado negativamente o resultado final, mas de qualquer forma isto poderia explicar apenas algumas das falhas. De saudar a iniciativa e a participação dos autores que destaquei inicialmente, mais do que o resultado global.

Sendo assim, aqui ficam os links para os posts com os meus comentários conto por conto:
parte 1 (#1 a #5)
parte 2 (#6 a #10)
parte 3 (#11 a #15)
parte 4 (#16 a #20)
parte 5 (#21 a #25)
parte 6 (#26 a #31)

Mais alguém que tenha lido toda a colecção? O que acharam?

Thursday, 14 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (6)

Este é o sexto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

Começo agora pelo conto de Manuel João Vieira, A Princesa do Gelo que é nonsense puro, daquele que nos faz acabar a leitura sem ter percebido rigorosamente nada porque parece não haver mesmo nada para perceber. Não gostei nada do conto e custou-me a acabar porque não tem piada, enredo ou personagem que interesse. Admito que o blurb é bastante bem conseguido e avisa claramente o leitor quanto que está prestes a experimentar. Percebe-se aqui uma brincadeira com a típica história de aventura, só que infelizmente sem análise ou piada que justifiquem dedicar-lhe atenção.

O conto de Patrícia Portela - Monólogo do Oriente - é tão fiel como possível ao seu título: é um monólogo de um homem que acaba por esboçar um possível planeamento duma provável viagem ao Oriente. O homem fala, fala, fala sem parar, sempre a saltar de uma decisão para outra, à medida que pondera quais as preparações necessárias para levar cada plano a cabo. Faz lembrar um pródromo de uma crise de ansiedade, em que a mente da pessoa parece voar de problema em problema, de questiúncula em questiúncula, do futuro incerto para o passado que correu mal ou para a insatisfação com o presente, do planeamento de uma tarefa para a auto-comiseração em bola de neve a descer a montanha.
O discurso chama à atenção do leitor não só porque lembra aquela típica hesitação e exagero de preocupação que costumam fazer com que as ideias morram na praia, mas também porque simultâneamente evita o melodrama e acaba por ter mesmo piada em alguns momentos.
O ponto negativo foi somente o final que, embora expectável, me pareceu de certa forma demasiado anti-climático para uma leitura de resto tão engraçada e com mais potencial.
Pondero ler mais de Patrícia Portela no futuro, dependendo da temática a que se dedica nas suas outras obras.

Segue-se O Fim da Dívida de Nuno Costa Santos. Tal como o título indica, este conto fala de dívida e tudo nele parece ser intencionalmente construído para ser uma brincadeira séria com a dita dívida e decorrente situação portuguesa nos últimos anos. Infelizmente a passagem da ideia à prática não correu bem e o texto acaba por ser pouco estimulante e completamente desinteressante.

Numa óbvia crítica à sociedade actual, em que se vive de aparências mesmo com a crise a obrigar grande parte das pessoas a mudar completamente as suas vidas, o conto de Ricardo Adolfo conta-nos a história de dois casais que se escondem em casa enquanto fingem, para si e para os outros, que viajaram para o Brasil de férias. Os miúdos, sempre honestos quando os pais precisam que eles mintam, não colaboram tanto assim e servem de comparação com os adultos que tanto se dobram a este tipo de supostas exigências sociais. Há ainda uma referência ao Fifty Shades of Grey, provavelmente para adicionar à crítica que se faz a este tipo de pessoas, fúteis e idiotas. Se isto parece ter potencial, e se calhar tem, o facto é que o conto em si é absolutamente desinteressante. Em Férias com um Casal Amigo segue-se esta gente, os seus diálogos inconsequentes - sabe-se lá porquê sem letras maiúsculas ou pontos finais - até ao clímax da idiotice, que dá em loucura e que evita uma confrontação que talvez explorasse melhor o tema. Assim, limita-se a ser uma descrição superficial de um par de dias patetas.

O penúltimo conto da colecção é Dama Polaca Voando Em Limusine Preta de Lídia Jorge. Embora haja um aparente interesse em explorar as ideias de preconceito e de reacção ao desconhecido, na prática o conto acaba por ser um aborrecimento. A escrita não é má, em especial comparando com outros contos nesta colecção, mas o esboço de enredo não segura o interesse nem me deixa a pensar em nada e as personagens são irrelevantes.

Os contos digitais DN terminam com uma história da autoria de Sérgio Godinho, Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco. Este conto é uma leitura interessante em que se explora a mente de um carrasco que revê a sua vida no momento em que está prestes a ser submetido à pena de morte. A ironia da vida parece fazer algum sentido na cabeça do homem que vai ligando os pontos e explicando a si mesmo - e ao leitor - como é que tudo levou a esta situação. Não é um conto que me traga especial novidade, mas é sem dúvida uma leitura agradável na qual alguns pensamentos se destacam da narrativa e suscitam uma reflexão sobre o matar e o morrer.


Outros posts nesta série:
parte 1
parte 2
parte 3
parte 4

Tuesday, 12 February 2013

Brave New Worlds: Dystopian Stories edited by John Joseph Adams

I requested this anthology from NetGalley because of the name - who doesn't want to read anything good related to Brave New World? - and because it was edited by John Joseph Adams whose work I've been curious about for a while. I got this selection which consists in the three short stories added to its second edition. Another important factor was my being a fan of dystopian fiction.

The three stories have a previous sort of preface where the author is presented and the theme of the tale that follows is hinted or offered some background information.

The first story is The Cull by Robert Reed and was probably my favourite of the three. It reminded me of Wool, in which it follows a community shut off from the outside world where individuals are excluded when they step out of line apparently by sending them away from the place to an outside world where they surely can't survive. Similarities kind of end right there though. We are told the story by an android medical doctor who is a kind of keeper, simultaneously the doctor and the judge of the humans he "tends to". This tending involves the use of some brain implants that keep everyone in the community (or almost everyone) feeling happy all the time - and this is where I smiled and remembered Huxley's soma. He slowly unveils not only what happens to a kid who is becoming dangerous, behaving aggressively and rather unpredictably in various situations, but also what his intentions towards the whole community are. But he does it so slyly and slowly that the reader is as tricked as the kid or the people right to the very end and is still left questioning how to should judge the doctor's actions.

The second story, by Jennifer Pelland, is called Personal Jesus (yes, the Depeche Mode song). Here, this concept is given a very material interpretation: your Personal Jesus is an object that everyone in the country has connected to their body, forever controlling your social and personal behaviour by means of electric shocks full of divine love and care. The fact that it is written as an enumeration of rules, as if you were given the leaflet on how to live in the Ecclesiastical States of America, adds to the fun and had me laughing out loud.

The last story is The Perfect Match by Ken Liu and I'll start by saying it isn't just a romance in the dystopian age. It does have some of that, but the main focus is driven widely away from it and into the exploration of what this world of communications and informations directed by algorithms can lead us to. There were some moments where the narrator decides to tell you the interpretation you could be making on your own, which is a bit annoying specially in a story exploring this theme, but overall it's a good tale and does question very important issues. Ken Liu reminds us, on one side, that we are already being controlled by those who choose which news or updates to put up at the top of our lists or timelines, and on the other side, of what a world where we grow isolated, each one only seeing and doing what he supposedly wants or likes a priori, looks like.

The book ends with some recommendation pages, on dystopian films and books worth watching or reading. Something I should never read again, should I want to have money to buy food and pay bills and space in my room to live.
This selection worked really well as a sneak preview of the anthology, so much that I instantly added the book to my wishlist. Highly recommended for people who like dystopian works, short fiction or overall science fiction fans.


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Requisitei esta antologia no NetGalley por causa do nome - qualquer coisa relacionada com o Admirável Mundo Novo me interessa - por ter sido editada por John Joseph Adams, cujo trabalho me desperta bastante curiosidade, e por ser ficção distópica. Foi-me dado acesso a esta selecção de três histórias que foram adicionadas à primeira edição publicada.

Cada história começa com uma apresentação do seu autor e uma introdução ou referência relacionada com o tema a explorar de seguida.

A primeira história é The Cull de Robert Reed e foi provavelmente a minha favorita. Lembrou-me do Wool por ter uma sociedade isolada do mundo exterior onde indivíduos são expulsos para o exterior quando se tornam diferentes, perigosos, na expectativa de que morram sem recursos. As semelhanças, no entanto, ficam-se por aqui. Em The Cull a história é contada por um andróide que é uma espécie de pastor, simultaneamente médico e juiz dos humanos que "guarda". Tomar conta dos humanos aqui implica o uso de implantes cerebrais que o andróide controla de forma a manter toda a gente - ou quase toda - constantemente feliz (recordando-me a soma do Huxley). Ele vai-nos revelando lentamente não só o destino de um miúdo que se tornou perigoso, agressivo e imprevisível, mas também quais são as suas intenções para toda a comunidade. Mas fá-lo de tal forma, lenta e sorrateiramente, que nos engana tanto como às outras personagens e nos deixa, no final, a questionar como julgar as suas acções.

A segunda história, de Jennifer Pelland chama-se Personal Jesus (sim, a canção dos Depeche Mode). Aqui, o conceito é interpretado de uma forma muito material: o Personal Jesus é um objecto que cada pessoa no país tem inseparavelmente ligado ao seu corpo, controlando para sempre o seu comportamento pessoal e social através de choques eléctricos cheios de amor divino. O facto de estar escrito como uma enumeração de regras, como se se trata-se de um panfleto sobre como viver nos Ecclesiastical States of America, torna tudo ainda mais engraçado.

A última história é The Perfect Match de Ken Liu e começo já por informar que não é só uma história romântica como o nome poderia indicar. Aliás o conto foca-se principalmente na exploração da sociedade a que este mundo com algoritmos que controlam a informação que temos e as comunicações que vemos pode levar. Houve alguns momentos em que o narrador decide começar a oferecer a sua interpretação das coisas em vez de a deixar ao critério do leitor, algo irritante em especial dado o tema, mas em geral é uma boa história que questiona situações extremamente relevantes nos dias de hoje. O autor não só nos lembra do quão controlados somos por quem decide o que aparece nas nossas listas e timelines mas também de quais seriam as consequências de vivermos isolados, cada um exposto apenas às coisas que, a priori, é provável gostar.

O livro termina com algumas listas de recomendações de filmes ou livros distópicos, algo que eu nunca mais devia ver, sob pena de ficar sem dinheiro e espaço no quarto para viver.

Esta selecção funcionou muito bem como uma previsão da antologia, e gostei de tal forma que quero comprar o livro, que me parece de recomendar não só a quem como eu adora distopias como a fãs de ficção curta e ficção científica em geral.

Saturday, 26 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (5)

Este é o quinto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Cerimónia de João Bonifácio é o discurso de um homem a um agiota e seus capangas com cassetetes - entenda-se aqui a metáfora que aprouver - no momento em que este lhe tira os seus últimos bens. O homem fala da morte da mãe, da morte do pai, das chatices com a família e com a ex-família, da sua vida, frequentemente em relação a uma mesma música, que no fim se revela ser o mote para tamanha indignação e imparável discurso. Se por um lado é interessante esta forma de contar a história, com um narrador desesperado a falar sem parar na tentativa de convencer alguém insensível das suas necessidades, por outro também se torna cansativo porque o autor conta tudo o resto - o contexto, o passado pessoal do narrador e por aí fora - dentro de parêntesis. Ora parêntesis enormes no meio de um texto com frases de si enormes não gera uma boa experiência de leitura, não me faz empatizar com o homem, com a sua depressão, com a sua insónia, com o seu sofrimento, com as ridículas exigências que lhe fizeram a vida inteira, com o que quer que seja. Contada de outra forma, a ideia deste conto poderia originar uma história muito boa. Assim, não foi mau, mas foi sem dúvida abaixo do seu potencial, confuso e, dez minutos depois de acabar a leitura, pouco relevante.

No Muro é uma história que inclui duas ideias muito boas. A primeira é a do indivíduo que descobre a biblioteca que o pai lhe deixou e, embora inicialmente impelido a explorá-la em busca de dinheiro, acaba por decidir folhear os livros para contactar com as histórias que, no fundo e em conjunto, representam um pouco do seu pai. A outra é a sua decisão de a preservar no muro, livro por livro em cada tijolo, muro este que depois testemunha, de forma engraçada e até irónica, uma série de eventos, uns corriqueiros e outros longe disso. Infelizmente, ideias interessantes não fazem uma boa obra nem chegam para tornar a experiência de leitura agradável e David Soares falhou em tudo o resto. Por um lado temos a necessidade de demonstrar o seu conhecimento extenso do vocabulário não corrente, sem um texto interessante ao ponto de me fazer querer ir procurar os significados das palavras que desconhecia de todo. Por outro, e no seguimento desta ideia, temos um narrador que é quase uma outra personagem de tão diferente que é da personagem principal. A personagem nunca leu nada, falta-lhe a cultura e a inteligência, o narrador faz comentários e análises elaborados que se tornam estranhos, principalmente quando imediatamente apostos aos pensamentos do indivíduo. A leitura soa instantaneamente a uma mistura entre uma história e uma explicação do autor. Metáforas e comparações sobre-explicadas como a do faroleiro contribuem para esta sensação. Também não é compreensível que um indivíduo que tão recentemente se habituou a folhear os livros para estar mais próximo ou para conhecer melhor o pai (ou qualquer que seja o motivo) decida com tanta facilidade enfiá-los todos num muro onde jamais lhes poderá pegar.
Se escrito de outra forma, este conto poderia ter sido dos meus favoritos da colecção. Sendo assim, resta-me ter esperança de gostar mais da próxima obra de David Soares que vou ler, A Conspiração dos Antepassados, livro que comprei há uns anos mas que ainda não tive entusiasmo para começar.

Segue-se O Filho Do Pai Manel de Pedro Santo. Tenho alguma dificuldade em comentar este conto. Não porque esteja mal escrito - há muito piores nesta colecção - nem porque me tenha irritado especialmente - mais uma vez há outros que o conseguiram com incomparável eficácia. O problema deste conto é a sua inutilidade. A história não passa do que nos é dito na descrição, da vida de um homem entre os dois destinos que o pai lhe vaticinou e que na verdade nunca consegue alcançar realmente os seus objectivos nem cumprir destinos até ao final. Infelizmente isto não chegou para me despertar interesse no desfecho, na personagem, no que quer que fosse.

Jean-Charles, Amor de Calções de Onésimo Teotónio de Almeida é a colecção dos e-mails trocados entre um homem a escrever uma tese de mestrado na área da literatura e o seu orientador. Enquanto o orientador tenta que o aluno mantenha a sua concentração, abandone a sua obsessão por estar sempre a estudar mais e mais fundamentação teórica e finalmente escreva a tese, o aluno tenta convencer o orientador a escrever um conto. Nesse sentido vai-lhe pedindo para contar várias histórias do filho, um rapaz engraçado com hábito de ter sempre a resposta na ponta da língua, honesta, irónica e de certa forma desarmante. No meio destas conversas acabamos por ler várias histórias do rapaz que por vezes são realmente engraçadas e outras tantas são cliché do miúdo argumentativo precoce. Há ainda tempo para discutir um pouco o conceito de conto, os requisitos mínimos, o que é importante e o que é desnecessário ou irrelevante, uma discussão interessante mas que preferia ter lido noutro contexto. A nível da escrita tem apenas um defeito, talvez apenas uma questão pessoal, que é o facto das personagens porem constantemente a palavra em inglês do que estão a tentar dizer em português entre parêntesis. Mesmo quando já discutiram antes essa mesma tradução. Percebo a ideia, mas num pequeno conto torna-se cansativo e inconsequente excepto na quebra da fluidez da leitura. De resto a história em si não me trouxe especial mensagem nem fiquei com vontade de ler mais seja destas personagens (excepto talvez o Jean-Charles) seja do autor, a não ser que a temática em si me conquiste a priori.

O conto de Mário Zambujal - Um Velório Alegre - consiste no depoimento de um senhor ao inspector. O depoente fala tanto que o inspector não chega a ter que perguntar nada. Seguimos a história toda do que lhe aconteceu, cheia de rodeios e mal-entendidos, e no fim o conto acaba, sem nós percebermos exactamente o que se concluiu com a investigação, ou sequer com o conto em si. A escrita e o humor não estão mal, mas também não são uma maravilha que justifique por si só a leitura. No entanto talvez experimentasse ler outra obra do autor.


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Saturday, 19 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (4)

Este é o quarto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Balada da Vala dos Velhos é um conto em forma de carta de um senhor de 78 anos que está prestes a morrer por eutanásia dirigida a um director de um jornal contando o último episódio relevante da sua vida. J.P. Simões aproveita o mote para comentar várias situações da actualidade, fazendo crítica social e política, nomeadamente quanto à forma como as pessoas abandonam os seus velhos, ou a forma como são tratados em muitos lares, à antiga medicina paternalista, aos sucessivos governantes que nunca querem realmente mudar um sistema de si injusto, à classe média seduzida pelos empréstimos fáceis, e por aí fora. Tudo isto enquanto nos conta o que um amigo seu decidiu criar, no final da sua vida, no fundo em resposta a parte destes problemas e por outro lado lembrando que a idade não implica inactividade, nem física, mas muito menos mental.
É uma carta bem escrita, num tom credível de um homem algo farto do mundo em que viveu, de todas as coisas que vê mal resolvidas ou agravadas depois de tantos anos. Não é tanto um "Velho do Restelo" ou um pessimista, como alguém que percebe que a solução existe mas que não é pensada ou aplicada, seja intencionalmente seja por puro desinteresse. Há no entanto momentos em que a crítica é tão literal que parece que o autor está a mandar recados directos ao leitor, algo que nem sempre me pareceu estar bem integrado na carta prejudicando, por isso, o ritmo e sensação da leitura.

Rui Cardoso Martins traz-nos, em O Progresso da Humanidade, uma investigação policial da morte violenta de um indivíduo, em condições pouco claras, através do bloco de notas /  diário do falecido. Aparentemente era um homem estranho, misterioso, com afiliações com ideais fascistas e que parecia ficar facilmente obcecado com algumas ideias ou situações. A exploração do mistério é engraçada, a intercalação entre a leitura do diário e as conclusões do investigador está bem conseguida, e o final irónico finaliza bem o conto. No entanto não consegui deixar de sentir, constantemente, que estava a ler um esboço de uma história, na qual se explorariam muito mais cada um dos episódios da vida do Oliveira e até o que lhe teria passado pela cabeça, aludindo mais ainda à ideia de progresso da humanidade no geral, e não só naquela que é mais directamente consequente do último episódio da vida do indivíduo. Nunca tinha lido ficção de Rui Cardoso Martins e, embora este conto não me tenha convencido completamente, pondero ler algo mais do autor, noutro formato.

Para quem ouve os programas de rádio do Nuno Markl há algum tempo, um conto cómico não é de todo inesperado. A Terrível Criatura Sanguinária é uma história sobre um autor que é encorajado pelo editor a escrever sobre vampiros ou lobisomens e incluir muita sensualidade, porque é isso que está a vender de momento. O autor notoriamente não tem qualquer interesse nisso, mas por outro lado vê-se entre a espada e a parede e pondera começar por escrever o que o lhe é pedido até estar numa posição em que possa publicar o que quer. De seguida vemos o processo de criação de uma história em que o autor tenta fazer a vontade ao editor sem conseguir fugir às suas ideias, sendo o resultado algo estranho, surpreendente talvez tanto para o autor como para o editor.
Não é um conto para causar gargalhadas a toda o momento, mas não deixa de ser engraçado, fazendo uma crítica não tanto ao que as pessoas gostam mas ao vazio do conceito ou à parte a que nos agarramos naquilo que gostamos, tornando óbvia a sinédoque a que recorremos quando queremos explicar ou justificar porque gostamos de uma coisa ou outra. O importante não era ter sexo e uma criatura que da noite que bebe sangue? Não chega isto para corresponder à metáfora que anda aí desde o Dracula?

A Mina do Deus Morto deixou-me de certa forma com opiniões contraditórias. Por um lado, o começo é estranho, com uma escrita pesada, um texto que dá a sensação de ter sido demasiado planeado, palavra a palavra, tudo adjectivado e comparado à exaustão, com recurso a um linguajar atípico que nos faz quase contar palavras em vez de ler e se torna um entrave à entrada na história. Admito que se reconhece no narrador a voz do João Barreiros e lembrei-me que este conto resultaria bem em formato de audiobook, lido pelo autor. Por outro lado, e ultrapassada esta confusão, A Mina do Deus Morto traz umas ideias interessantes, abordadas superficialmente, desde partículas criadoras de vida e energia quase gratuita como um novo olhar sobre a nossa dependência de certos recursos limitados, à inteligência mecânica e exploração humana em nome da pátria (ou do que seja). Mas o melhor do conto é sem dúvida a descrição da descida dos mineiros às profundezas e o efeito das partículas do deus morto neles. É principalmente este conceito, uma novidade refrescante nestas conversas já gastas, que me deixa com vontade de ler mais do autor, coisa que de qualquer forma já vou fazer dado ter comprado o Lisboa no Ano 2000 – Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu, livro que partilha o mesmo universo ficcional deste conto.

Ninfas e Adamastores de Raquel Ochoa é um conto sobre um emigrante do Magrebe em S. Miguel e a sua família. Não estando mal escrito, também não foi história que me despertasse especial interesse, as personagens não são desenvolvidas ao ponto de nos ligarmos a elas e o enredo é o de "mais uma" novela televisiva. Aliás, só à terceira tentativa consegui ler o conto até ao fim. Há ali a possibilidade de explorar ideias, desde a da situação do imigrante, da interação entre o judeu e os católicos daquelas paragens, a luta contra preconceitos até do sacrifício pela família, mas ou a estrutura e tamanho não o permitiram ou a autora não as escreveu na história como que quereria.


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Tuesday, 8 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (3)

Este é o terceiro post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital

Um conto absolutamente contemporâneo, Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos é aparentemente escrito para o leitor dos dias de hoje, que, sob o manto de referências à internet na nossa vida e à televisão, mesmo as notícias, como distracção dos nossos problemas, trabalha principalmente a nossa expectativa e a forma como reagimos a ela e ao medo da sua violação. Isto visto em relação ao Bangladesh - "When's Bangladesh going to disappear?" - à pesquisa na internet e criação de uma ideia de algo antes de o conhecer - "(...) Podia ser só uma questão de estilo. Mas quis acreditar que não e li como se fosse verdade" - à vontade de criar uma boa primeira impressão e à falta de vontade de arriscar um encontro em condições menos que perfeitas (todas?) - à insegurança em relação a mudanças, à procura de soluções fáceis ainda que superficiais e disfarçadas, à vontade de desistir. É, no fundo, um conto sobre uma pessoa e o que lhe passa pela cabeça no decorrer do seu dia a dia, num equilíbrio entre a vontade de conhecer e o medo do desconhecido, da desilusão e da possibilidade de perda. A contraposição entre os dois psicólogos é também inteligente neste contexto - um referindo-se mais ao abismo vertiginoso do auto-(des)conhecimento e o outro à dor do contraste com os outros, que, superficialmente, como quem vê de fora, nos parecem melhores e nos magoam talvez por tornarem tão claros os defeitos que vemos em nós - e é fechada com chave de ouro com a decisão de controlar os ataques de pânico com químicos que, embora não lhe resolvam a origem do problema, pelo menos não a desiludem com outra tentativa de explicação metafórica das suas emoções.
Identifiquei-me muito com a personagem e claramente gostei muito da leitura, mas continuo com a sensação que esta história tem mais para dar, com uma leitura mais atenta que a minha. Nunca li nada de Dulce Maria Cardoso. Talvez seja altura de começar.

Conheço Pedro Mexia da sua participação no Governo Sombra e de alguns textos da revista Ler, mas Defensor do Vínculo foi o meu primeiro contacto com a sua ficção. Infelizmente, não fiquei bem impressionado. Este conto, sobre o defensor do vínculo que, num processo de pedido de anulação do casamento, tem a função de defender o casamento como instituição, explora a comparação entre o fracasso e a nulidade, no paralelo entre a verdade e a validade, ao mesmo tempo que a personagem tem uma crise de crença na sua própria função. Apesar de haver alguns pormenores engraçados e da visão ridicularizada do casamento como algo que se supõe superior à relação que representa, a prosa não é fluída, com frases longas, expressões e termos incomuns que contribuíram para alguma confusão na primeira leitura. Numa segunda tentativa o conto é melhor, ou pelo menos mais claro, mas ainda assim a prosa não me convenceu nem me deu especial prazer na leitura.
Apesar de tudo gostei da ideia que é explorada e continuo com curiosidade em ler um trabalho de Pedro Mexia noutro formato.

Nunca li nada de Fernando Alvim, embora o conheça dos meios audiovisuais. Amo-te Para Sempre parece ser uma tentativa de explorar a expectativa de um casal, um em relação ao outro, a vontade de mudar pelo outro ou a vontade de ver o outro mudado para corresponder a uma versão idealizada. Acaba recordando o leitor que, para além do problema inerente a levar estas vontades ao extremo, as vontades em si, as ideias, as opiniões, os sentimentos, tudo é efémero e é preciso ter cuidado com decisões e atitudes definitivas, sem retorno, com base neles. Não é uma simples crítica, e até há a personagem à qual o autor permite a mudança, a evolução, talvez por ter percebido que ama a pessoa e afinal não quer que ela seja vazia ao ponto de mudar completamente por vontade de outra. Não é uma ideia nova mas podia ter sido interessante, não fosse a escrita absolutamente contra-produtiva. O narrador não passa de um apresentador de um late night show, a contar a história aos bocados, interrompendo-a com os seus comentários com intenção de ter piada e parecer irreverente e talvez até gozar um pouco com quem quer parecer irreverente. Isto exagerado ao ponto de quase abafar a história e lhe remover a réstia de interesse que poderia ter.

O conto de Possidónio Cachapa - O Homem Que Existia Demais - não me disse mais do que o que se lê no título. O narrador conta alguns episódios da história de Savage Danny, um homem auto-confiante, com uma vida fora do comum e uma atitude na linha do carpe diem. Infelizmente o conto parece, ainda que bem escrito, absolutamente desnecessário. Eu até estou interessado numa história sobre um Savage Danny, mas não uma que serve somente para tentar dar contexto ao título e fica a saber a introdução. Apesar deste não me ter convencido, não está fora de questão ler outro trabalho do autor, talvez num formato diferente.

David Machado traz um conto com um tom mais infantil que os anteriores na colecção, mas nem por isso menos interessante. A história trata de uma rapariga que acha sempre que pode ajudar, seja o problema qual for, e rapidamente recorre à solução que imaginou sem especial ponderação. Acho que posso ajudar é uma breve e superficial referência à falta de análise das situações, à acção imprudente ou negligente e que nos lembra que por vezes mais vale dar um passo atrás que insistir num caminho com constantes danos colaterais. Pondero ler mais trabalhos de David Machado. Deixo uma nota final para as ilustrações de Mafalda Milhões, adequadas à história e ao tom em que é contada, dando-lhe um toque colorido que é muito bem-vindo.


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Wednesday, 2 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (2)

Este é o segundo post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

O sexto conto da colecção - Quartos de Hotel - é da autoria de Inês Pedrosa. O leitor vai espreitando os pensamentos de várias pessoas, uma após outra, conforme entram nos seus quartos de hotel. Inicialmente, a autora não revela o que os motiva a estar ali, não nos oferece contexto para além do que cada personagem vai mostrando, aos poucos. À medida que conhecemos as histórias de cada um, percebemos que todos já se encontraram neste mesmo hotel e estão de volta para mais um congresso. São autores, editores, críticos, organizadores, todos pertencentes à indústria dos livros. Mas neste conto a profissão deles não passa de um bom motivo para se encontrarem. O enfoque aqui é nas pessoas por detrás da profissão. Quem ama para sempre e quem desespera por regressar a paixões antigas, quem não esquece os bons tempos, quem viu a sua carreira destruída, quem quem se sente realizado, quem já olha a morte de frente e já só está disposto a viver se não tiver que sacrificar demasiado do que lhe apetece fazer. É uma narrativa simples mas interessante, bem elaborada e que sem almejar a ser inovadora acaba por ser refrescante excepto naqueles momentos em que há adjectivação estranhamente em demasia ou metáforas demasiado trabalhadas e mal integradas na restante prosa.

A Queda de um Anjo foi até agora o melhor conto da colecção. Afonso Cruz domina não só a arte de escrever como também este formato. A história segue uma mulher que se encontra no paraíso, onde sente falta do seu marido que, assume, terá ido para o inferno. Começa por nos descrever o que vai vendo, enquanto toma a decisão de, dado não lhe trazerem o marido, descer até ao inferno para ir ter com ele. Assim, de seguida é a altura de acompanharmos a sua passagem pelos sete "círculos" do paraíso até à chegada ao R/C, o prólogo e revelação final deste conto. A personagem vai, ao longo desta viagem, recordando vários momentos e pessoas da sua vida, revelando opiniões e pensamentos, hábitos e sentimentos, analisando tudo com o maior pragmatismo imaginável. A sensação é de estar a espreitar a mente de de uma pessoa tola, que se alegra e surpreende com as coisas mais simples, que faz o que quer porque a faz feliz, pouco se importando com o que os outros pensam, que ama o seu marido e assume que ele a ama de volta, ainda que ele dedique o seu tempo ao jornal desportivo. É como uma criança que já viveu várias décadas mas cujo espírito não amadureceu - ou envelheceu - nem um pouco (se calhar ainda bem!). É um texto naturalmente engraçado, que faz rir às gargalhadas sem forçar mas que termina de uma forma surpreendente que obriga o leitor a rever a história toda, como se agora tivesse toda uma nova narrativa para construir, ou reler. Já estava nos meus planos, principalmente desde que o vi e ouvi no Fórum Fantástico, mas agora não tenho qualquer dúvida que vou ler mais trabalhos da autoria de Afonso Cruz.

Gonçalo M. Tavares, do qual já tinha lido Histórias Falsas, traz-nos A Moeda, um conto pequeno e de leitura rápida, com uma escrita seca e directa, sem grande floreado, mas denso em food for thought e eficaz a transmitir mensagem. A história segue um indivíduo, Vass Kartopeck, um labrego que detesta ter que viver na cidade, que não se conforma àquele estilo de vida como a massa amorfa que o rodeia e que tem manchas estranhas a aparecer-lhe na pele da face. O que nos é mostrado aqui é a sua interação com uma prostituta, com pessoas numa sala de espera e com um médico. Um dos seus hábitos, que mostra a sua desadequação ao meio, é o do andar sempre com moedas com as quais espera pagar os favores que lhe fazem. A simbologia da moeda como meio de troca e transacção, chama logo à atenção numa história que explora a comunicação entre um indivíduo e a sociedade e a tentativa desta última de uniformizar os indivíduos (e as trocas) e talvez por isso seja ela a dar nome ao conto. Em contraponto com a moeda está a face, que no caso de Kartopeck, por estar manchada, o torna impróprio para comunicar com a sociedade. O seu valor é de tal forma diminuído que acaba por ser ainda mais incomodativo para as pessoas do que a presença da prostituta, que chega a gozar com ele. A sala de espera do consultório torna-se o cúmulo desta situação, no momento em que as pessoas abandonam o local e esquecem o que as levou lá por não quererm estar com ele. A figura do médico serve várias funções. Por um lado, ele permite o desenlace da metáfora das manchas na pele, no momento em que informa Kartopeck que ele não está doente, que as manchas não refletem nenhum problema orgânico - dando aqui a entender que um indivíduo que não de adapta, que não se conforma completamente, que é diferente das "massas", não tem necessariamente a culpa ou sequer um problema intrínseco, apontando de certa forma o dedo à sociedade, às suas convenções impostas. Por outro lado o médico é também representante dessa mesma sociedade e do poder, mostrando a típica reacção social à diferença quando diz a Kartopeck que dado não ter nenhuma doença, se ele se chateia por causa das manchas, problema dele, ele que resolva, que se adapte.
É também possível ver aqui uma referência ao paradigma da medicina tradicional, em que o que não é orgânico não é doença e o médico dá a entender que se ele não consegue lidar com as suas manchas (representativas de uma desadequação social, de certa forma uma objectivação de um problema psicológico) então é fraco, que se amanhe, que se conforme porque "o que tem que ser tem muita força".
Esta é uma história pejada de simbologia, onde não é por acaso que só a personagem principal tem nome, e todos os restantes funcionam principalmente como representantes metafóricos para se contrapor a ele. Só perde pela escrita pouco embelezada, algo seca e por isso menos empolgante do que poderia ser. Uma boa forma de mostrar a qualidade deste conto, é o facto de ter passado quase uma hora a discutir a sua interpretação e as temáticas que traz à luz.

O nono conto da colecção, de Manuel Jorge Marmelo, é As saudades que tenho de Inácia. Nunca li nada do autor, pelo que não tenho ponto de comparação ou conhecimento do seu estilo pessoal e temática habitual, mas posso dizer que, depois de ler isto, fiquei totalmente desinteressado. O texto não tem uma história ou um enredo, limita-se a dactilografar os pensamentos de um homem que tem saudades do sexo com Inácia. Gosto que o autor não tema usar calão e ir directo ao ponto enquanto descreve a mulher ou o que a personagem gostava que ela fizesse na cama. Mas convém que isto seja uma base para nos transmitir algo, e não nos pareça somente que estamos a ouvir um velho no café a falar com os amigos por entre cerveja e tremoços. Neste caso, não passou disso. Há duas mensagens principais que podemos encontrar nesta leitura, ambas entregues de bandeja pelo narrador: as aparências iludem ("quem vê caras não vê corações", "não julgues um livro pela capa", "nem tudo o que reluz é ouro" ou outra variação) e as memórias enganam, no sentido em que ao longo do tempo nos convencemos que nos lembramos de coisas que podem estar somente a ser fabricadas pela nossa mente para corresponder a uma ou outra ideia. Não é uma leitura agradável, não é interessante, não traz novidade.

Termino este post com o comentário ao conto de Mário de Carvalho, A Porrada. Este conto muito curto tem uma referência a dois temas, a vida caseira e de aparências de uma provável aristocracia e a vida secreta do marido num fight club lusitano. Infelizmente, a história fica-se pela ligeira referência e nem esboça o desenvolvimento do que quer que seja. Pode haver aqui um conto interessante, se Mário de Carvalho alguma vez o deixar germinar e voltar a escrever.

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Tuesday, 18 December 2012

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (1)

O Diário de Notícias está a publicar, entre Outubro de 2012 e Janeiro de 2013, uma colecção de 31 contosde autores portugueses em formato ebook. Os contos são de aparente tema livre, independentes uns dos outros e vão desde histórias supostamente baseadas em factos reais a pura ficção especulativa, desde drama a comédia ou suspense. Estão disponíveis na biblioteca digital do DN, à qual podem aceder aqui. Decidi ler toda a colecção dado conhecer pouco do trabalho dos autores portugueses contemporâneos e poder assim, em formato de conto relativamente rápido de ler, contactar com a escrita de vários. A colecção não se limita no entanto a escritores estabelecidos, incluindo igualmente histórias de outras personalidades do país. Este é o primeiro de vários posts a comentar os vários contos publicados.

O primeiro conto é de Pedro Paixão e foi para mim um mau começo. A Musa Irrequieta é um drama emocional romântico muito exagerado e com demasiado palavreado para a história que conta. Trata da relação entre um professor e uma aluna a que ele se refere como sua musa e por quem fica literalmente perdido de amores. O homem torna-se uma personagem insuportável na forma como se descontrola em relação aos seus sentimentos e de como fica obcecado pela rapariga. O conto acaba por ser uma enumeração dos seus pensamentos sobre ela. O final, apesar de triste e algo cliché, poderia ser a melhor parte, mais realista, mas uma referência à possível relação com factos reais deu-me a sensação de me quererem forçar reacções emocionais. Pode ter sido só impressão, mas piorou a minha opinião final.


Segue-se Cidade Líquida de João Tordo, este sim um conto bem escrito, que rapidamente coloca o leitor numa incerteza absoluta em relação ao que é real ou imaginado. Senti-me a ver a história através de uma mente cujos delírios são como que metáforas para o que lhe acontece e em especial para a separação ou ausência da esposa. Há personagens e situações cuja verdadeira essência (real ou delírio) ainda não consegui destrinçar (e acho que nem quero!). Entretanto o autor estabelece um certo paralelismo com o que ocorre no filme Cidade Líquida do realizador Roque dos Santos, ele próprio personagem, que o narrador vai descrevendo e que aponta para a confusão mental, a variedade de perspectivas sobre uma mesma história e ainda a ideia de esquecimento e  recalcamento. Um conto intrigante que explora a mente humana e que quero sem dúvida reler. Fiquei não só curioso em relação ao outro conto em que estas personagens aparecem mas também com vontade de ler algo mais e noutro formato da sua autoria.

Um Romance é um conto sobre um jantar "romântico" que o narrador observa da mesa ao lado e que serve de esqueleto - ou desculpa - para Rui Zink gozar com uma série de preconceitos e outras tolices da sociedade contemporânea. O narrador fala directamente para o leitor, o que ajuda para este tipo de mensagem e pode até conferir-lhe o pretendido tom humorístico. Infelizmente, a meu ver, o conto não resultou tão bem como poderia. Há uma tentativa de fazer o leitor repensar ideias pré-concebidas, com comentários sobre a inexistência dos telemóveis ou o hábito de ir ao teatro nos anos 80, algo muito engraçado não me parecesse desajustado do público alvo desta colecção (quem é que vai ler isto e não sabe ou pensa neste tipo de coisas?). A crítica, trazida aqui pela exposição do que é esperado do homem e da mulher num encontro e também pela forma como o Artur acaba por resolver a situação, resulta bem neste tipo de história. O conto é prejudicado principalmente pelo exagero de comentários, de piadas, de "bocas", que chegam ao ponto de fazer o leitor sentir que o autor o acha estúpido. Alguma subtileza ou pelo menos contenção no tom e quantidade destes reparos e acusações teria tornado o texto mais engraçado e a leitura agradável e, quiçá, provocado mais eficazmente as mentes a quem se dirigem.

O quarto conto desta colecção é Mania de Luísa Costa Gomes, autora de quem nunca li qualquer trabalho. Não consegui bem perceber o que a autora pretendeu criar com esta história, mas o resultado final foi um conto de mistério, cujo potencial suspense foi destruído pela absoluta confusão criada pela personagem e pela escrita. O enredo decorre de forma pouco linear, desconexa, o que poderia funcionar neste tipo de história, não estivesse aliado a uma personagem com completa dissonância entre o que é, o que diz e o que faz. Sáurio, em quem se centra a história, não sofre tanto de mania (indicada pelo título), como de má conceptualização por parte da autora. Um escritor que decide aproveitar-se de um telefonema enganado para ir ao mundo real procurar matéria prima para a escrita, Sáurio acaba por passar o conto a fazer o que diz não querer fazer, sem que isso faça sentido, que não seja para a progressão do enredo. Tira conclusões sobre as pessoas que mal conhece baseadas em dados nunca disponibilizados para o leitor, tem suspeições e toma decisões pouco ou nada explicadas e ainda consegue intercalar vários momentos com pensamentos sobre a morte, caídos "do céu", sem que nunca tenham conclusão ou ligação ao conto. Estes parecem-me apenas aforismos de suposta profundidade existencial sem ancoragem no enredo. Há no entanto bons exemplos de momentos de descrição, em especial enquanto a personagem caminha ou observa a rua. 
Talvez o objectivo fosse criar páginas de puro nonsense à volta de um escritor que, na senda por inspiração, se coloca numa situação arriscada e à volta da qual, por não a conhecer totalmente, vive de certa forma uma ficção dentro da ficção. Se era essa a intenção, só posso dizer que não resultou.

O pior conto até agora, Um rio chamado Angústia de Eduardo Madeira consiste na exploração da história do rio e dos povos e pessoas que com ele se relacionam, em busca da razão do seu nome. A escrita lembra um guião de stand-up comedy, cheio de nomes de países e pessoas que pretendem ser engraçados e cujas histórias vão sendo enumeradas sem grande sentido. Terminei a leitura sem me rir com o nonsense e sem me interessar pelo Angústia.


Continua num próximo post!

Monday, 17 December 2012

The DAY I swapped my DAD for TWO GOLDFISH by Neil Gaiman and Dave Mckean


The name of this book was enough to convince me to read it. The fact that it was written by Neil Gaiman and illustrated by Dave McKean just raises my expectations through the roof. This is a book that follows a typical family, mom, dad, son and daughter, on the day that the son actually managed to swap his dad for a couple of goldfish. We can't blame him, though, his dad pays attention to one thing only: the newspaper. Why does he need him? At least goldfish are cool to look at. But then mom comes home and makes him give the fish back and retrieve his father. How could he do that? How could he ever even consider trading his own father? And his sister, how could she let him? The world isn't never as simple as that, though. The boy to whom he traded his dad quickly understood how useless he is and has already traded him with another. And this other... and the next... The kids spend their day looking for their father, from house to house. It seems that no one finds a use for such a thing as a newspaper reading dad and there is always someone willing to trade, the ones who don't have that dad do believe he must be good for something. In the end (SPOILERS HERE) they find him on a girl's house who left him in her rabbit's former fence, and he's eating a carrot and reading the newspaper. They bring him home and the boy promises he'll never trade his dad again, he understands his dad's value, he must be a very good dad, in order for his mother to be so mad and for him to have to go through so much trouble to retrieve him, newspaper and all. He never promised not to trade his sister though, and she has been threatening to spread some rumours about him around the school so...

The illustration is, as usual from McKean, perfect. Even the lettering here adds to the feeling. The fact that the mother and father are never really characterized - the father never peeks from behind the newspaper - indicates a generalized interpretation is warranted. This story is about any dad, any mom, any children who feel in some way ignored by their parent and obviously answer in the same way, feeling the uselessness of that person in their house, considering how they would be better of with their neighbour's really cool pet, or toy or whatever. Add those details that determine the flow of the story and have the reader look around, such as "said my sister" written below and outside her speech balloons, and you got yourself a really good, fast paced, but also witty and interesting read.

This must be a really fun story to read as a kid or to a kid, but an adult also has something to think about after reading this. Isn't the boy right? From his point of view, how could he not trade dad for the goldfish? And in the end, even if we tell him how important a parent is, does he really understand? Or does he only get that it is forbidden for some reason. It's hard to make children accept these ideas that we take for granted, such as the importance of parents, when we don't show it on a daily basis in a way that they get to feel it for themselves.

Sunday, 9 December 2012

Nanozine nº 7

Confesso não ser um leitor habitual de revistas, impressas ou electrónicas, mas tive oportunidade de ler algumas recentemente, uma delas a Nanozine nº 6, dedicada ao Steampunk e à venda na EuroSteamCon 2012 - Porto.  Como gostei da experiência decidi, mal soube da disponibilidade do número seguinte, começar a ler de imediato. No entanto esta Nanozine nº 7 fica aquém das expectativas que criei com o número anterior. Desta feita o objectivo editorial temático na escolha dos contos parece ter sido a presença de elementos do horror, o que para mim não seria de todo um problema. Na minha opinião, o que mais prejudica a leitura deste número é a assimetria da qualidade dos contos.
Das várias submissões incluídas, gostei de ler O Solucionador de Telmo Marçal, A Última Viagem do Sud Expresso de Carlos Silva, O Livro das Horas de Célia Loureiro e O Fruto Proibido de Pedro Cipriano. São contos bem escritos, com temas interessantes sem no entanto encher realmente as medidas, seja pela abordagem relativamente simplista dos temas seja pela superficialidade do enredo. Destes destaco O Fruto Proibido, talvez aquele cuja resolução foi mais bem conseguida, com a referência à imagem bíblica da busca pelo conhecimento contra os avisos ou ordens de poderes superiores aplicada a um cenário pós-apocalíptico. Quero também deixar aqui uma nota positiva sobre O Desenho de Rui Tinoco, que me fez mandar uma gargalhada inesperada.
Pela negativa, não posso deixar de me questionar sobre a inclusão do conto Carrosséis de Marcelina Leandro. Não só a temática me parece mal explorada como o texto em si está mal escrito, com frases confusas e ideias misturadas que dificultam a leitura e impedem a imersão na história que, de outra forma, poderia ser de todas a mais aterradora. Já li melhor desta autora, nomeadamente na Lusitânia, já comentada aqui no blog. A leitura de Destilação de Olinda Gil, embora melhor, foi de certa forma banal e inconsequente, sem nenhum detalhe que o salve do esquecimento quase imediato.
Restam O Salteador de Joel Puga e A Sopa de Joel G. Gomes, nem especialmente bons nem maus, trazem ideias que, trabalhadas de outra forma, poderiam tornar-se bastante interessantes.
A revista termina com duas entrevistas, das quais destaco a primeira. Muito embora desconhecesse a autora Carla M. Soares e o seu livro Alma Rebelde se integre numa temática que não me desperta curiosidade, gostei bastante de ler a conversa.

Termino com desejos de que o próximo número volte à qualidade do anterior e me surpreenda com a temática erótica já anunciada.

Sunday, 2 December 2012

Z by Manuel Alves

Z é um conto de Manuel Alves, de quem já tinha lido o Coração Atómico incluído no Almanaque Steampunk 2012, de forma que parti para a sua leitura com alguma expectativa. 
A história aborda a inteligência artificial e os terrores que a busca pelo conhecimento científico podem trazer quando o investigador ignora as considerações éticas. Está muito bem escrito, começando por uma conversa inteligente que deixa o leitor imediatamente curioso, depois deixando o enrado revelar-se lentamente e acabando sem um final determinado. A alteração de ponto de vista num capítulo retrospectivo em que se associa a uma alteração da descrição das personagens (p.e. o "professor" passa a ser a máquina branca com garras) é um pormenor delicioso que me fez sorrir de satisfação.
Desconheço se é intenção do autor, mas esta ideia parece-me um esboço interessante para um romance que eu decerto compraria.


Disponível gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/255680

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Z is a short story about artificial intelligence and the terrors that come when the search for scientific knowledge has the investigator ignore all the ethical limitations. It's very well written, starting with a smart conversation to pique the readers interest, then slowly unfolding the plot and ending with no clear resolution. The shift in point of view allied with a change in the description of the characters (for example, the professor and his hands turn to the white monster and his claws) is really well done and actually made me smile. Though it might not be the author's intention, this does seem like a good idea for a full length novel, one that, having read this, I'd surely buy.

Available for free at https://www.smashwords.com/books/view/256358