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Friday, 2 January 2015

2014: Retrospectiva

Eu dizia num comentário com amigos há uns dias que 2014 foi essencialmente um ano esquisito para mim. Não preciso de recuar muito tempo para recordar um André que seria incapaz de prever um ano destes. Talvez também por isso 2015 me pareça imprevisível (de resto, não só a título pessoal). Bem, tudo isto à parte, a ideia de fazer uma retrospectiva é tanto forçar-me a reavaliar coisas como conseguir fazer algum tipo de recomendação a quem segue o blog desde os tempos em que estava mais activo.


Leituras

Houve tanto que gostei de ler este ano que se torna difícil fazer um top de favoritos ou recomendados, mas vou tentar.

Livros técnicos e não ficção:

Bad Pharma, de Ben Goldacre: livro obrigatório para médicos muito recomendado para qualquer profissional de saúde, bem como para quem procura informação sobre a relação entre a investigação científica, a indústria farmacêutica e a saúde. É uma visão provavelmente assustadora, mas que aponta um claro caminho para melhorar.

If This is a Man / The Truce, de Primo Levi: livro obrigatório para todo o ser humano que saiba ler. A história de um homem que passou pelo holocausto, por Auschwitz, pelo resgate russo, pelo regresso a casa e pelo retorno a uma suposta vida normal. Ler isto é conhecer a humanidade no seu pior e isso é essencial para conhecer a humanidade.

Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, de Mark Blyth: o título fala por si. De resto, acrescento apenas que é um livro interessante, compreensível para leigos e muito relevante para avaliar o que nos tem sido proposto/imposto nos últimos anos.

Fantástico:

NOS4A2, de Joe Hill: fantasia, algum horror, muito suspense, este livro é uma maravilha, seja pela prosa incólume do Joe Hill, seja pelas referências, as metáforas, o food for thought, questionar moralismo, valor da inocência, a diferença entre estar certo, saber a verdade e fazer bem, sei lá. Há uma personagem que rapta crianças e as leva no seu Wraith (o carro) para Christmasland (um parque na imaginação dele?), outra que sai de bicicleta e atravessa uma ponte (imaginária?) para onde precisa de ir, e ainda outra que adivinha (ou interpreta?) coisas com peças de Scrabble. Não quero dizer mais.

The Disposessed, de Ursula K. Le Guin: a autora dispensa apresentações, no entanto este foi o meu primeiro contacto com ela. Ficção científica com relevância sociopolítica? Sim, quero mais por favor.

The Boy Who Cast No Shadow, de Thomas Olde Heuvelt: uma pequena história sobre crianças "diferentes".

Transhuman, de Jonathan Hickman e J.M. Ringuet: o aparecimento de uma nova tecnologia, as guerras entre as empresas, o mercado, enfim, o capitalismo desenfreado mas desta vez a novidade são seres humanos modificados (melhorados?).

Pax Romana, de Jonathan Hickman: o Hickman é um génio. A igreja católica manda uma equipa ao passado para mudar a história a seu favor, mas o agente tem ideias próprias...

Iron Man: Fatal Frontier, de Al Ewing et al: o Iron Man é o típico idiota convencido de que é tão esperto e poderoso que tem sempre razão e tudo o que faz é justificado, em Fatal Frontier esta característica é particularmente bem explorada. Esta história tem o benefício de poder ser lida independentemente da continuidade das comics.

Doctor Strange: Season One, de Greg Pak e Emma Ríos: o Strange tem uma das melhores origens de super-heróis que conheço. Faz dele real, humano, dá-lhe significado para além das tretas habituais. Olhar novamente para a origem, de uma forma ligeiramente diferente, foi um prazer.

La Belle Mort, de Mathieu Bablet: como tudo o que já vi deste autor, este livro é lindo. A história é interessante. É num raio de uma língua que eu pouco percebo, mas para este compensa muito o investimento.


Séries ou relacionados:

Lazarus, de Greg Rucka e Michael Lark: uma representação futurista e distópica da nossa realidade, centrada numa mulher que foi concebida para ser quase imortal e lutar as guerras pela sua "família". Condicionamento, emoção, humanidade, sociedade, há aqui caminho para tudo. Li os primeiros dois volumes e vou continuar.

Über, de Kieron Gillen e Caanan White: história alternativa. E se os nazis conseguissem mesmo criar um super-humano? Só posso dizer que isto está mesmo muito bem escrito e que vale a pena experimentar.

East of West, de Jonathan Hickman e Nick Dragotta: não sei o que dizer sobre isto. É uma história esquisita, com personagens esquisitas saídas sei lá de onde. E os cavaleiros do apocalipse. E o próprio apocalipse? E um mundo dividido e controlado por meia dúzia de poderosos? Onde é que eu já vi isto...

The Manhattan Projects, de Jonathan Hickman e Nick Pitarra: história alternativa a partir da Segunda Guerra Mundial, com super-cientistas, super-loucos, alienígenas e dimensões alternativas. É confuso, mas só o suficiente para não se poder evitar ler o volume seguinte.

Mind MGMT, de Matt Kindt: acaba-se de ler e apetece reler. Li apenas o primeiro volume, mas os próximos estão na calha, sem qualquer dúvida. Ficção científica e poderes da mente resulta em dúvida constante, até mesmo para o leitor.

The Massive, de Brian Wood: a Terra depois de um apocalipse ambiental. Muito importante, muito relevante e muito bem feito.

Batwoman, de J.H. Williams III e Haden Blackman: quando se dá a alguém liberdade para explorar um super-herói, sem o interromper com eventos e afins, é isto que se espera. Só é pena que não pudessem ter continuado.

Fables, de Bill Willingham: cheguei este ano ao volume 16 e a série continua óptima, tanto pela subversão das histórias infantis como pelo que transmite através dela.

The Victories, de Michael Avon Oeming: heróis e vilões são pessoas, pessoas podem ser heróis e vilões, ideias que são exploradas hoje talvez mais do que nunca, mas particularmente bem nas mãos deste autor.

Suicide Risk, de Mike Carey e Elena Casagrande: O primeiro volume foi o melhor, mas a série continua a ter potencial na exploração de uma humanidade com super-poderosos.

Astonishing X-men, de Warren Ellis: A série "astonishing" tem o benefício de poder ser lida isoladamente do universo Marvel, bem como de ter tido autores tão bons como Warren Ellis, especialmente no Ghost Box.

Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples: uma série que vive na sobreposição dos temas típicos da fantasia e da ficção científica e explora questões relevantes. A fama de Saga é mais que merecida.

The Unwritten: Tommy Taylor and the Ship that Sank Twice, de Mike Carey e Peter Gross: De maior relevo para quem conhece a série, mas potencialmente uma porta de entrada para interessados.

Lucifer, de Mike Carey: li o primeiro volume e estou convicto que lerei toda a série.

Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodríguez: li este ano o volume final de uma das melhores séries de fantasia e weird que já li. 

The Absolute Sandman, de Neil Gaiman: li o primeiro volume da série Absolute e em 2015 vou ler o segundo. É do melhor que há em banda desenhada.

X-men: Days of Future Past, de Chris Claremont e John Byrne: diferente do filme e continua a valer a pena ler, embora tenha muito mais interesse para quem conheça os X-men.

Young Avengers, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie: outra vez o Kieron Gillen, outra vez bom. Aqui a representação super-humana do conceito geral da nossa actual "juventude". Vale a pena ler, conheça-se ou não o universo Marvel.

Elektra, de Haden Blackman e Mike del Mundo: pode ser lida independentemente do restante universo Marvel; o autor soube dar uma perspectiva mesmo interessante sobre a personagem, muito para além de ser uma assassina eficaz a "redescobrir" a vida, e Mike del Mundo é o meu ilustrador favorito do momento. Esta banda-desenhada merece ser lida, relida e exposta numa galeria de arte.

Moon Knight, de Warren Ellis e Declan Shalvey / Brian Wood e Greg Smallwood: pode ser lido independentemente do restante universo Marvel e é uma história sobre um louco com múltiplas personalidades a tentar ser um herói à(s) sua(s) maneira(s).

Black Science, de Rick Remender e Matteo Scalera: um princípio muito prometedor de uma série de ficção científica em que as personagens exploram realidades alternativas.


Super-heróis e BD seriada:
(separei aquela BD cuja leitura foi feita de forma seriada e cuja recomendação é diferente da isolada conforme fiz acima, tendo em conta que li várias que se intersectam e cuja história é influenciada por isso, bem como o facto de conhecer bem as personagens e histórias prévias)


Storm, de Greg Pak e Victor Ibañez: na verdade pode praticamente ser lido independentemente do resto do universo Marvel, mas beneficia disso. Personagem feminina forte, com uma história relevante, que quer abordar a vida de uma forma diferente, mais irreverente, mais heróica talvez, mais arriscada sem dúvida. A Storm já foi uma deusa, já foi uma ladra de rua, já foi líder de grupos de heróis, já foi casada e rainha, e muito mais. Com toda esta bagagem e tanta "humanidade" que a caracteriza, esta história torna-se ainda mais interessante.

Magneto, de Cullen Bunn e Gabriel Hernandez Walta: para quem conhece o Magneto e tem seguido a sua história e a dos mutantes, esta banda desenhada é uma delícia. A sua história de vida, a ambiguidade do que ele é e do que ele faz, as questões relevantes que coloca, Magneto continua a ser uma das personagens mais interessantes de todo o universo Marvel.

X-men Legacy, de Simon Spurrier: centrado numa personagem, mas mais interessante para quem conhece bem o universo. O David Haller / Legion é uma pessoa, mas é muitas pessoas, muitas capacidades, pode fazer tudo ou acabar por não fazer nada, e pode ainda fazer tudo bem ou tudo mal. Desta vez está a tentar por ordem na sua cabeça com demasiadas personalidades perturbadas. Mas quem é ele?

X-men, de Brian Wood: X-men como deviam ser escritos. Mulheres que não pedem para ser símbolos femininos. Pessoas que querem fazer coisas, que querem mandar, que acham que têm razão, que culpam e que perdoam, que lidam com o pior que há. Vale a pena.

Iron-man, de Kieron Gillen: Óptima perspectiva sobre o Iron-man e uma redescoberta de todo o seu passado (origem?) que muda a sua forma de ver o mundo (ou só temporariamente, porque vem aí outro evento). Kieron Gillen voltou a fazer um bom trabalho, como tem sido constante na Marvel, veremos onde aparece a seguir.

Uncanny X-men, de Brian Michael Bendis e Chris Bachalo e All-New X-men, de Brian Michael Bendis et al: vale a pena ler simultaneamente e por vezes também Wolverine & the X-men, são boas histórias de x-men, de maior interesse para quem conhece as personagens e tem seguido a sua história. A arte do Chris Bachalo continua a ser muito boa.

Avengers / New Avengers, de Jonathan Hickman: Hickman é um génio (já disse isto antes?). Nunca gostei tanto de ler Avengers como agora, na sua expansão e acção para além da Terra. Os New Avengers armam-se em donos do mundo e tomam para si decisões que, quiçá, nunca deveriam estar na mão de ninguém. Mas por vezes não há opção (ou há?). Do melhor que há na Marvel neste momento, mais ainda se acompanhado da leitura de Avengers World, de Jonathan Hickman e Nick Spencer, enquanto se vê as várias histórias a tornar-se uma só. O evento ainda decorre pelo que não posso comentar o final.

Thor: God of Thunder, Vol. 4: Last Days of Midgard, de Jason Aaron e Esad Ribic: Aaron começou bem, depois piorou no terceiro volume, mas voltou bem nesta última história de Thor, antes do rapaz deixar de conseguir pegar no martelo e aparecer uma mulher Thor. Quanto a essa, ainda não sei o que dizer.


Outros:

Inércia, de André Carrilho: para desfrutar lenta e repetidamente.

La Sombra del Viento, de Carlos Ruiz Zafón: eu li em espanhol e quando puder vou querer ler o seguinte. O livro é um prazer para amantes da leitura e da literatura, mas não se fica por aí. A exploração da natureza humana e a referência à ditadura e guerra civil espanholas dão-lhe um outro nível, e o desenvolvimento das personagens é maravilhoso. Recomendado a quem goste de um mistério revelado lentamente com um leve toque de fantasia.

To Kill a Mockingbird, de Harper Lee: clássico, sem dúvida.



Cinema e Televisão

Este ano fui pouco ao cinema e quase não vi séries, pelo que tenho muito pouco a recomendar.

Cinema:

A grande surpresa deste ano para mim foi o Boyhood (Richard Linklater). Esperava que fosse bom, mas foi quase perfeito. É um filme que é tanto melhor quanto quem vê esteja capaz de levar consigo, da sua própria história, das suas próprias emoções. É muito mais que uma obra original por ter sido filmado com as mesmas pessoas ao longo de mais de uma década. Ainda não me saiu da cabeça. Recomendo a toda a gente.

Outros filmes que gostei:

Her (Spike Jonze), um filme essencial sobre a contemporaneidade levada ao absurdo e os conceitos de personalidade e pessoa, isolamento e comunicação. Dos melhores filmes que já vi.

12 Years a Slave (Steve McQueen), um óptimo filme, que justifica bem os Oscars que ganhou e aborda uma temática essencial, mas que acaba por não conseguir ser o filme da minha vida. Recomendo a todos os que ainda não viram.

Blue Jasmine (Woody Allen), porque o realizador é bom, a história é relevante e a Cate Blanchett é perfeita.

Guardians of the Galaxy (James Gunn), porque há muito tempo que um filme não me proporcionava umas horas tão bem passadas e tanta boa disposição no meio de uma ameaça a toda a galáxia. E porque o Groot é óptimo. E a banda sonora também.

X-Men: Days of Future Past (Bryan Singer), com mutantes, bons actores e viagem no tempo. Não foi tão bom como o First Class, mas valeu bem a pena ver.

The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson), um filme estranho, esquisito, especial, que leva mais longe o que o realizador já tinha experimentado em Moonrise Kingdom. Foi uma óptima surpresa no cinema e tenho intenção de rever. É sobre um hotel, sobre pessoas, sobre o fascismo e a Europa e toda a enorme mudança e é engraçado e emotivo. E deve ser muito mais coisas.

The Amazing Spider-Man 2 (Marc Webb), um bom filme de super-herói, com o Andrew Garfield e a Emma Stone perfeitos nos seus papéis, que continua muito bem o trajecto iniciado no primeiro filme.

Captain America: The Winter Soldier (Anthony Russo e Joe Russo): eu não gosto do Captain America, não gostei particularmente do primeiro filme, não procuro ler as comics em que a personagem entra, excepto quando os autores pegam nele e o transformam totalmente. Dito isto, este filme é bom, os actores estão muito bem, a história com expansão para o restante universo Marvel só enriquece. Uma surpresa.

The Book Thief (Brian Percival), é baseado no livro com o mesmo nome que adorei. Não é tão bom como o livro, mas a história está em geral bem adaptada e os actores estão muito bem nos seus papéis. Mantenho a recomendação: vale a pena ler antes de ver. Mais sobre o livro aqui.

Televisão:

True Detective, dois detectives a investigar um caso com contornos potencialmente paranormais ou pelo menos bastante mais estranhos que o habitual. A história é fenomenal, Matthew McConaughey e Woody Harrelson estão verdadeiramente geniais.

Orphan Black, teve um início muito interessante, com uma actriz impecável num papel (ou papéis) difícil, mas sem ter terminado a primeira temporada não posso dizer mais.

Friday, 14 February 2014

East of West Vol.1: The Promise by Jonathan Hickman and Nick Dragotta

Em East of West, Jonathan Hickman e Nick Dragotta misturam alguma ficção científica com um enredo tipicamente fantástico - a besta do apocalipse - de uma forma extremamente importante. Este primeiro volume é uma apresentação das personagens, as suas histórias e motivações e a sua posição num planeta Terra com uma história alternativa. O leitor segue Morte que está aqui contra os seus três companheiros cavaleiros do apocalypse (aqui crianças) e a sua busca por vingança e pela mulher que ama. "Amar até à morte" tem todo um novo alcança em East of West, onde três personagens conseguem destruir exércitos inteiros ou determinar quem é presidente matando todos os restantes "candidatos".
É isto que quero num primeiro volume de uma série: uma história que me deixa curioso sem se revelar demasiado, personagens que de facto quero conhecer (e descobrir o que vão fazer a seguir) e um mundo intrigante, tanto tecnologica como politicamente, que mal posso esperar para ver explorado.
Li esta banda-desenhada inicialmente através do NetGalley, mas gostei tanto que acabei por comprar o volume em papel e encomendar o seguinte. Em East of West, Hickman está ao seu mais alto nível e Dragotta convence-me inevitavelmente, enquanto as suas personagens parecem viver entre o apocalipse e o armageddon.





In East of West, Jonathan Hickman and Nick Dragotta find a way to mix a few science fiction themes with a major typical fantasy plot - the beast of the apocalypse - in a very interesting way. This first volume is a presentation of the characters, their general background and drive and where they stand in this weirdly time displaced, wonderfully confused, alternate history Earth. The reader follows Death who is against his three apocalyptic siblings (here incarnated as children) and his quest for a human woman he seems to love. "I love you to death" gets a whole new meaning and scope in East of West, as a few characters get to murder entire armies or determine the results of a promotion by killing off the unwanted "candidates".
This is exactly what I enjoy in introductory volumes: a story that piques my curiosity without revealing itself too much, characters I really want to get to know, and a world intriguing enough (both technologically and politically) that I can hardly wait to see it further explored.
I got to read this first volume from NetGalley, but I liked it so much that I bought the paperback and will order the next ones This is Hickman at his usual best and Dragotta making me a fan, while their characters live between apocalypse and armageddon. 

Wednesday, 23 October 2013

The Victories Volume 1: Touched by Michael Avon Oeming

Eu conhecia Michael Avon Oeming do seu trabalho em Powers e também de uma ou outra ilustração para a Marvel pelo que comecei a segui-lo no twitter. Foi assim que acompanhei o processo de criação de The Victories, que o autor comentou frequentemente na rede social, e fiquei interessado em ler algo não só ilustrado mas também escrito por ele. Oeming não desiludiu. The Victories é uma visão pessimista de uma sociedade com "super-heróis". A história é-nos apresentada pelo ponto de vista  dos próprios "heróis" que, longe de serem indivíduos exemplares - epítomes das virtudes humanas - são afinal pessoas com imperfeições cuja posição civilizacional serve apenas para o autor as poder ampliar e explorar.
O contexto é uma civilização futurista mas algo distópica, em que as pessoas são vigiadas por câmaras em todo o lado mas a corrupção é ubíqua, a juventude está a tornar-se globalmente viciada numa nova droga e super-heróis parecem ser a única hipótese de limpar e salvar a sociedade. Parece tão familiar como a visão de um dia chuvoso quando olhamos pela janela (televisão?) de nossa casa com a devida atenção. De destacar aqui uma visão das drogas menos tradicionalista do que o habitual, dado que é aqui perfeitamente compreensível o apelo para a sua utilização. Faustus, a personagem principal deste primeiro volume, tem o interesse de ter uma personalidade em formação, parece algo incompleto, com assuntos por resolver (às vezes lembrando demasiado o típico anti-herói com passado doloroso) e em processo de auto-descoberta e auto-definição.
É assim que Oeming se propõe a explorar o papel que nós tendemos a dar a estas supostas figuras exemplares, ao mesmo tempo que lida com o que as pessoas têm de melhor e pior, com as suas reacções perante situações extremas e perante o risco de ganhar ou perder tudo. The Victories é uma banda-desenhada dirigida a leitores maduros e que a meu ver será de especial interesse a quem já passou pela leitura das BD de super-heróis tradicionais, mundos idealizados e épicos de auto-descoberta, porque verá aqui um contraponto inteligente.
A arte é tão adequada ao cenário criado que não lhe posso apontar um defeito. Quem gostar do desenho de Oeming não ficará desiludido com este livro.
A minha única crítica é que, como volume introdutório, há alguma perda de cadência por momentos de flashback e infodump que prejudicam ligeiramente a leitura.
Já encomendei o segundo volume.


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I knew Michael Avon Oeming from his work on Powers and some Marvel stuff and that's why I started following him on twitter. Through his account I was able to follow the creative process of The Victories, because the author often spoke about it. He got me interested enough in checking something that he wrote and illustrated himself. Oeming didn't disappoint. The Victories is a pessimistic view of a society with "super-heroes". The story is told through the heroes' point of view, themselves far from the usual exemplary people one would expect, are after all quite flawed. The author uses their status as super-heroes to further amplify and analyse such human flaws.
The context is a futuristic and rather dystopian civilization, where people are constantly spied by drone cameras but corruption is still ubiquitous, young people are addicted to some new kind of drug and super-heroes seem to be the only hope of cleaning it all up and saving society. It's as familiar as if one was looking outside the window (television?) in a rainy day and actually paying attention. Of note is the author's use of the drug, which far from the traditional cliché is presented here as a substance with an understandable appeal. Faustus, the main character of the first volume is interesting to follow because the author left him with an immature personality, somewhat incomplete and with unfinished business (sometimes reminding me of the typical anti-hero with past issues), a young man in a process of self-discovery and definition.
This is how Oeming sets out to explore the place we give to these supposed exemplary figures, at the same time dealing with what people have best and worst, their reactions to extreme situations where they risk winning or losing everything they care for. The Victories is a comic wrote for mature readers and will probably be enjoyed the most by those who have read the more typical comics with their traditional superheroes, idealized worlds and self-discovery epics because they will see here a smart counterpoint.
The illustration is so adequate to the setting and tone that I can't really point anything wrong with it. Whoever knows and likes Michael Avon Oeming's art won't be disappointed.
My only negative criticism towards this book is that, as an introductory volume, the storytelling often looses momentum with the flashbacks and some infodumping that disturb an otherwise enjoyable read.
I'm now waiting for the next volume!

Sunday, 6 October 2013

The Steamworld Chronicles #1 by Steven Hoveke, Mike Scigliano, Ben Risbeck et al

Participei na campanha do Kickstarter que financiou o projecto e como recompensa recebi a versão digital do primeiro número de "The Steamworld Chronicles - The Constantine Quest: Part 1".



Esta é uma típica história de mistério e aventura posta num mundo em tudo familiar aos fãs de steampunk, com dirigíveis, comboios e helicópteros a vapor e uma personagem principal que lembra o Indiana Jones.
A arte é competente mas de certa forma banal, sem surpresas nem um estilo que a destaque ou a faça trazer algo mais à obra.
Sendo esta apenas uma parte introdutória deste "The Constantine Quest", é demasiado cedo para me pronunciar em relação ao desenvolvimento do enredo ou das personagens que têm para já um tratamento bastante superficial e limitado aos clichés habituais.

Sendo assim, The Steamworld Chronicles será um entretenimento de interesse essencialmente para os fãs do visual e contexto steampunk. O enquadramento é suficientemente indefinido para que haja potencial para muito mais e espero que ao longo dos próximos números a história se torne complexa e vá permitindo explorar alguns temas a que o steampunk de qualidade se costuma associar.
Mais informações sobre esta e as próximas histórias estarão disponíveis em steamworldchronicles.com.


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I contributed to the Kickstarter campaign that financed this project and as a reward I got a digital version of "The Steamworld Chronicles - The Constantine Quest: Part 1".

This is a rather typical adventure and mystery story in a world quite familiar to steampunk fans - with blimps, steam trains and helicopters -  and a main character similar do Indiana Jones.
The illustration is competent but kind of trivial and unsurprising, with a commonplace style.
Being this just an introduction to "The Constantine Quest", it's far too soon for me to comment the plot's development or the characters, for now quite cliché and superficial.

The Steamworld Chronicles is entertaining, though of interest mostly for fans of steampunk visuals and context. The frame is still undefined so there is potential to use the next numbers or stories to make these chronicles ever more complex and explore some of the themes that good quality steampunk works usually tackle.
More information available at steamworldchronicles.com.

Saturday, 14 September 2013

Saga Volume 2 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Depois de ter adorado o primeiro volume, não tive dúvidas em encomendar o segundo e lê-lo mal chegasse. Continuando a história interessante iniciada no primeiro, este não tem no entanto o factor surpresa que tornou o primeiro espectacular. Gostei especialmente de conhecer os pais do Marko e da história com que este segundo volume termina. À parte disso, este livro dá uma sensação de ser essencialmente uma ponte entre a introdução e o próximo evento relevante. No entanto há que admitir Brian K. Vaughan e Fiona Staples conseguem ainda assim manter o interesse e entusiasmo com a história, de forma que mal posso esperar pelo próximo.
Continuo a recomendar a leitura de Saga sem reservas e estou especialmente interessado em ver como vão explorar aquela realeza com televisões em vez de cabeças.


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After loving the first volume, I didn't hesitate in ordering the second and reading it as soon as I got it. Is spite of being an interesting continuation of the story began in the previous book, this lacks that "wow factor" that made the first one spectacular. I specially liked getting to know Marko's parents and also enjoyed the final part of this volume. Other than these, this book does seem like a filler. However, one must admit that Brian K. Vaughan and Fiona Staples still manage to keep the reader interested and enthusiastic with their story.
I still recommend reading Saga with no reservations and I'm looking forward to finding out how they are going to explore that royalty with TV set's for heads.

Wednesday, 11 September 2013

Great Pacific Vol.1: Trashed! by Joe Harris and Martin Morazzo

Foi-me dada a oportunidade de ler esta BD através do NetGalley. A ideia de uma história em que o protagonista decide fazer dum monte de lixo flutuante um país criou-me expectativas muito altas para um princípio que, ainda que longe de ser mau, não me conseguiu convencer.
Joe Harris tem muitas ideias para esta obra e talvez tenha tentado usar demasiadas logo nos primeiros números, de forma que antes de conseguir sequer perceber com que tipo de protagonista estou a lidar já ele foi exposto a um sem número de situações mais ou menos descabidas que apesar de tudo parecem nunca ter o devido impacto nele. Há, para além disto, uma mistura mal definida entre elementos de ficção científica ambientalista utópica e uma série de acontecimentos e elementos de dúbia credibilidade que me recordaram a minha recente experiência com o pós-modernismo. Esta mistura podia claramente originar uma BD genial, mas no caso, talvez por alguma falha na forma de contar a história, na fluidez do enredo ou da falta de um princípio mais consistente e convincente, simplesmente não me entusiasmou.
A ilustração, a cargo de Martin Morazzo, é competente, em especial a nível de background e mesmo de alguns elementos, mas é medíocre na caracterização de algumas personagens,  tendo painéis muito bons e momentos em que não está de todo bem conseguida e acaba por ser contra-producente para a leitura.

Sendo assim, esta é a meu ver uma BD mediana, que nem me faria prosseguir nem desaconselhar a sua leitura. No entanto, tenho visto na internet que os números seguintes - a ser coleccionados num segundo volume - são substancialmente melhores, pelo que pondero dar-he mais essa oportunidade, até porque quero muito que este conceito resulte.

Resta-me lembrar que o Great Pacific garbage patch existe mesmo e talvez devesse justificar uma alteração considerável da forma como nós fazemos uma grande parte das nossas actividades, não?


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I had access to Great Pacific Volume 1: Trashed through NetGalley. The concept of a guy trying to turn a heap of trash into a nation really raised my expectations ever since I heard of it, probably too much for a beginning that, though far from bad, didn't really make my day.
Joe Harris has a lot of ideas for this work and maybe he just tried to use too many right from the start, resulting in a protagonist that is exposed to too many odd situations before I even know who he really is and that seem to have no palpable impact on him. I also had some trouble with the strange mixture between ecological utopian science fiction items and a series of events and elements that reminded me of post-modern narrative, something that could have been awesome but ended up uninteresting, perhaps due to some failure in storytelling, lack of flow or of a consistent and convincing beginning.
Martin Morazzo's illustration  is competent, specially in terms of background and some specific elements, but is mediocre when considering some character's characterization, ending up with some very good panels and moments where it fails to help the storytelling.

This is an average comic, that would neither convince me to keep reading it nor really advise people to avoid it. In spite of this, I have heard that the next issues are much better than the one collected in Trashed, so I am actually considering giving it another go, if for nothing else, because I really want this concept to work out.

Last but not least, I must remind anyone reading this that the Great Pacific garbage patch is quite real and should probably, by itself, be making us change how we do a lot of stuff, shouldn't it?

Monday, 29 July 2013

Hän Solo de Rui Lacas

Ora aqui está uma BD que li apesar de ter sido desaconselhada. A verdade é que gosto de ir dando uma vista de olhos ao que é publicado a nível de banda desenhada em Portugal e ainda que os primeiros leitores de Hän Solo me tenham dito que não valia a pena o esforço, a minha teimosia venceu, agora que a minha memória foi reavivada pelo facto deste livro ter sido premiado numa convenção de BD recente.
Hän Solo é um trabalho que versa um momento da vida de Hän, um holandês bipolar que depois de fazer Erasmus em Portugal acaba por decidir cá ficar a tentar a sua sorte. Rui Lacas tem aqui uma base que lhe permitiria imensas possibilidades de exploração, desde a situação de um estrangeiro em Portugal, o preconceito, a xenofobia ou a aculturação; a relação amorosa estranha com uma portuguesa; o facto de querer trabalhar como fotógrafo, a desvalorização da profissão, os problemas de desemprego jovem; a doença bipolar em si ou a sua relação com todos os restantes problemas de Hän. A verdade é que o autor falhou em toda a linha. Depois de criar esta personagem, todas estas coisas foram simplesmente atiradas para o enredo - ou falta dele - até se alcançar um final que resolve uma parte dos problemas quase por magia ou acaso e ignora os restantes.
A ilustração é mediana, sem ser original nem interessante nem especialmente mal conseguida.
Assim sendo, só me falta perceber como é que esta obra foi sequer nomeada para prémios como melhor arte, melhor publicação nacional ou, pior ainda, melhor argumento. Menos ainda percebo como é que o público votou de forma a esta obra ser a vencedora destes três Troféus Central Comics, especialmente considerando que conheço muitos dos outros nomeados e que são trabalhos bastante superiores.
Não recomendo perder tempo com esta obra, a não ser que tenham uma obsessão por conhecer tudo o que é publicado em Portugal.

Wednesday, 24 July 2013

Skim by Jillian and Mariko Tamaki

Pedi Skim emprestado depois de ler esta opinião. Esta banda-desenhada usa a vida de uma rapariga de 16 anos com excesso de peso e a tentar tornar-se uma bruxa Wiccan para fazer uma exploração de várias vertentes da adolescência.
A história de Skim - igualmente a alcunha pelo qual a personagem principal é conhecida - está num ponto de viragem. Ao longo do livro ela é exposta a situações que vão tocando, mais ou menos superficialmente, em vários dos reconhecidos dramas da adolescência. Fala-se da aceitação pelos colegas, da ideia de normalidade e preconceito, de paixão, de auto-descoberta, de amizades verdadeiras ou de circunstância, de vontade de desaparecer ou de suicídio. Os três principais paralelos que sustentam esta exploração são o suicídio de um colega, a paixão por uma professora e a amizade estranha e assimétrica com Lisa. O ritmo do desenvolvimento da história é estruturado pelos momentos em que Kim escreve no seu diário, momentos esses que originam páginas com organização diferente das típicas vinhetas e que incluem comentários que mostram as várias coisas que ela vai descobrindo ou concluindo. Estes são frequentemente irónicos e vão ajudando a transmitir a mensagem do livro ao leitor.
A ilustração é eficaz embora não especialmente bonita ou original.
Skim é uma BD sobre a adolescência que lembra e comenta os vários problemas associados à sua vivência e arranha algumas lições sem ser paternalista e sem se deixar cair no dramatismo tão frequentemente associado a histórias nesta faixa etária, sem dúvida de interesse a fãs do meio ou da temática, ainda que fique aquém do seu potencial no que toca à profundidade de análise.


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I borrowed Skim after reading a friend's review. This graphic novel uses the life of a 16 year old overweight Wiccan-in-training girl to explore various aspects of being a teenager.
The story of Skim - also the girls nickname - is at a turning point. Throughout the book she experiences some situations that question the typical dramas of adolescence. Themes such as peer acceptance, normality and prejudice, passion, self-discovery, true or circumstantial friendships or the will to disappear or suicide are tackled more or less superficial as the story progresses. The three main issues that support this exploration are a friend's suicide, falling in love with a teacher and a strange asymmetric friendship with Lisa. The pace is set and kept by moments when Kim writes on her diary, in pages with a different organization and illustration, which include comments that show what she is learning or discovering and, with no lack of irony, help to transmit the message to the reader.
The illustration is effective though not specially beautiful or original.
Skim is a graphic novel about teenage that goes through multiple of its characteristic problems and points to some lessons though never feeling patronizing or overly dramatic, doubtlessly of interest to fans of comics or of this theme, despite not being as deep in its analysis as it could have been.

Friday, 19 July 2013

O Baile por Nuno Duarte e Joana Afonso

Fiquei interessado nesta BD pela sua ilustração e a leitura mostrou-me que a minha primeira impressão foi certeira.
O Baile é uma história de horror em que um inspector da PIDE se vê a braços com zombies, como a capa já dá a entender. O argumento de Nuno Duarte é simples, sem especiais erros a apontar mas igualmente sem nada a destacar. As personagens não têm tempo de ser exploradas mais do que superficialmente e até a personagem principal passa a história a ser empurrado pelo enredo até ao final. O próprio não é especialmente original, sendo no fundo mais uma versão das histórias de bruxaria em que o culpado, lembrando os policiais, é revelado num clímax final.
Por outro lado, o desenho de Joana Afonso é a jóia deste livro. Com um traço diferente do habitual, a autora tem uma excelente capacidade de contar a história por imagens, como compete a um ilustrador em banda-desenhada. As cores que complementam o desenho estão adequadas à historia e ao contexto proposto.
Sendo assim, um livro a que vale a pena dar uma oportunidade essencialmente pela arte gráfica, com uma história que entretém sem surpreender. Estarei atento a novos trabalhos de Joana Afonso.

Friday, 11 January 2013

Siegfried Volume 1 by Alex Alice

Siegfried é o primeiro de três volumes do projecto de Alex Alice, em que pretende reinterpretar a história desta figura da mitologia nórdica, não só em forma de banda-desenhada como em filme de animação. Admite inspirar-se no Anel dos Nibelungos de Wagner, na Völsungasaga e outras fontes menos directas como por exemplo a obra de Tolkien. Este volume inclui, para além da história propriamente dita, um entrevista com o autor em que ele fala da elaboração do projecto. Li a tradução em inglês.
O enredo aqui não é surpresa nenhuma para quem conhece a mitologia nórdica. Pareceu-me no entanto algo rápido demais para um primeiro de três volumes. Há algumas alterações em relação à história original, mas nada que não faça sentido.
O melhor de Siegfried é, sem dúvida, a ilustração. Embora as personagens estejam bem desenhadas, em especial o Mime, é tudo o resto que é realmente espectacular, as outras personagens, os animais, a casa deles, a floresta...
O meu momento favorito desta leitura foi a conversa entre o Odin e o Mime, mas não posso deixar de destacar a escolha do autor de utilizar a Völva como narradora, algo que funcionou extremamente bem.
Em conclusão, uma leitura que vale a pena para qualquer fã de banda-desenhada, mas que recomendo principalmente para os interessados na mitologia.

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Alex Alice set himself up to reinterpret the Saga of the Völsungs, The Ring of the Nibelung, inspired by Wagner and some other sources, and make both a graphic novel and an animated film.  This is the first of the three volumes of the resulting graphic novel. Apart from the story itself, this also includes an interview with the artist where he explains the creative process of the project. I read it in English.
The story here is no surprise for anyone who knows the old Norse Mythology, though it felt a bit too quick. There were some changes from the original tales, but it all makes sense anyway. 
The strong point of Siegfried is, without a doubt, the art. The main characters are nicely drawn, mostly Mime, but it's everything else that is truly surprising, the other characters, the animals, the house, the forest...
My favourite moment was the riddling conversation between Odin and Mime, but I also want to praise the use of the Völva as a narrator which worked out really well helping the story progress.
All in all, it's worth reading for any comics fan but recommended the most for those who like Norse Mythology.

Can't wait for the film!


Thursday, 3 January 2013

Tale of Sand by Jim Henson, Jerry Juhl and Ramón Pérez

A minha decisão de ler Tale of Sand foi algo instintiva. Li um ou dois textos sobre o livro na altura em que foi publicado, vi-o na loja de BD habitual - Mundo Fantasma - e comprei. Depois passou cerca de um ano sem eu lhe pegar. Entretanto soube que ganhou o Eisner Award, o que poderia ter motivado a minha leitura, mas a verdade é que só agora cheguei a ele. Foi a minha primeira leitura de 2013, um começo definitivamente estranho.
Tale of Sand é uma obra existencialista, de exploração do ser humano pela exteriorização do seu íntimo através de uma história surreal, absurda que por motivos indefinidos é imposta a um protagonista sem grande introdução. Dito isto, é uma obra muito confusa. Não sei se por ser um guião (encontrado recentemente, nunca convertido em filme) transformado em banda-desenhada, se o guião em si já implicava todo este absurdo incompreensível, o que faz algum sentido tratando-se dos autores por trás do The Muppet Show. Para os fãs e conhecedores da obra de Jim Henson e Jerry Juhl, que para além dos Marretas inclui igualmente a Rua Sésamo, há aqui um bónus, a utilização de várias ideias que foram mais tarde aproveitadas noutros trabalhos mundialmente famosos.
Seguimos um homem numa travessia do deserto numa aparente corrida ou fuga / perseguição da qual desconhece condições ou regras e para a qual tem apenas um aparente mapa do percurso mas que não é de fiar. No deserto acontecem-lhe as coisas mais inesperadas possível, desde passar por um homem a correr que carrega um cubo de gelo gigante o qual vai derretendo até ao momento em que, chegado ao tamanho normal, é colocado num cocktail de uma mulher a apanhar sol à beira de uma piscina com um tubarão, até encontrar um interruptor dia/noite numa pedra e ser perseguido por uma equipa de futebol americano, tudo isto enquanto é perseguido por um inimigo misterioso com uma pala num olho.
A arte de Ramón Pérez, por outro lado, não deixa quaisquer dúvidas. Este livro tem da melhor arte que já vi em banda-desenhada, em especial considerando que é a ilustração que conta a história, com muito pouca ajuda do texto. O desenho, o arranjo gráfico, a cor, tudo aqui está próximo da perfeição e merece sem dúvida as nomeações e prémio que ganhou.
Se eu percebi o livro, a tal análise absurdista da existência do indivíduo? Não, embora a revelação final mostre bem o objectivo da história. Mas fiquei com vontade de o reler, noutro momento, com outra atenção. Porque definitivamente vale a pena.


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I first decided to buy Tale of Sand out of instinct, having read a couple of news about it being published and taking a brief look at it at my usual comics store. Later I heard it won the Eisner Award, but still I kept postponing it until now. It became my first read of 2013, and an odd start at that.
Tale of Sand is existentialist  an exploration of the human being through the external materialization of himself in an absurd and surreal story imposed to an unknown individual for unknown reasons. Having said that, it is a very confusing work of art. I don't know if that stems from it being an adaptation of a lost script for a film that never was or if the script itself already defined all that incomprehensible plot. Probably the latter, seeing that Jim Henson and Jerry Juhl were the creators of The Muppet Show and Sesame Street. For their fans, there's a bonus in this book, considering all the ideas that are both present here and used later on their work.
One follows a man traversing the desert (what's more metaphoric for a depressive introspection than that?) in an apparent race / escape of which he knows no rules or conditions apart from a map that he's told is not to be trusted. In the desert, the most unpredictable stuff happen to him, from a man carrying a giant ice cube that melts to the perfect size right when he puts it on a woman's drink (one who is sunbathing by a pool with a shark), to finding a day/night switch on a rock and being followed by a football team, all this while being persecuted by a mysterious enemy with an eye-patch.
Ramón Pérez's art, on the other hand, convinced me right away. This book has some of the best illustration I've seen in sequential art, specially considering it is the image that tells the story with little occasional help from text. The drawing, the design, the colour, everything here is near perfection and deserves all the nominations and award it got.
Did I understand that absurdist analysis of the human or the man's existence? Not at all, though the final revelation does show the purpose of the story more clearly. But I do mean to read it again, on a more appropriate moment, when I can dedicate more time and pay much more attention to it. Because it's definitely worthwhile.

Wednesday, 26 December 2012

Saga Volume 1 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Esta série foi tão recomendada na internet e na minha loja habitual de BD que eu não resisti a comprar. Ainda por cima já tinha lido um pouco e gostado de Y: The Last Man de Brian K. Vaughan pelo que parti para a leitura com elevadas expectativas.
A história segue uma família improvável - Alana pertencia às forças de um planeta há muito tempo em guerra com uma lua e tem asas como uma fada; Marko pertencia ao exército da lua, tem cornos como um fauno e sabe magia, mas decidiu recusar a violência pelo que se entregou ao inimigo, tendo encontrado Alana - e começa pelo parto da filha deles.
Claro que, dado o contexto, somos logo de seguida embrenhados numa fuga interplanetária, combates inevitáveis e conversas sobre que nome dar à criança. Mas isto é ao mesmo tempo o ponto central do enredo e a desculpa para o autor mostrar os limites da sua imaginação. Desde assassinos a soldo galácticos, um com demasiadas patas para o conforto de aracnofóbicos, outro com um gato que avisa quando alguém mente, uma suposta floresta de naves espaciais, a fantasmas que defendem um planeta e uma realeza cujas cabeças são televisores, não é possível adivinhar o que vamos encontrar de seguida no mundo de Saga. Há aqui um elemento típico destas histórias, o facto de um dos lados usar magia e o outro ser mais evoluído ao nível da tecnologia que, dependendo de como for desenvolvido ou deixado como contexto, pode aproximar-se ou divergir do cliché. A avaliar pelo primeiro volume, vai valer a pena. Mas não é só desta mistura de fantasia e ficção científica e de amores proibidos que vive Saga. Logo no primeiro volume, o autor não teve qualquer problema em tocar questões como as crenças, tradições pessoais, familiares ou planetárias, a guerra do ponto de vista do cumprimento cego de ordens superiores, a facilidade com que se mata alguém quando há acesso a armas e até o tráfico e exploração sexual de crianças.
A arte é fenomenal, tanto a nível de desenho como de coloração. As personagens têm personalidade, expressões faciais e corporais que não podiam contar melhor a história. A ilustração do mundo, de vários locais em diferentes planetas, é rica e variada e ajuda a mente a acreditar que estamos a viajar pelo espaço. A magia tem sido desenhada de uma forma subtil, o que a torna mais credível do que os raios e coriscos a que nos fomos habituando, mas a necessitar por vezes de ingredientes imprevisíveis o que lhe dá uma plausibilidade interessante.
Como começo de uma série, coleccionando os primeiros seis fascículos, misturando magia, ficção científica, personagens genuínas com diálogos engraçados, sexo inter-racial, eventos e locais imprevisíveis e temas relevantes, não posso pedir mais. Vou comprar o segundo volume sem dúvida e mal esteja disponível.


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Saga was so recommended all over the internet and at my local comics store that I couldn't have avoided buying it. I had read a bit of  Y: The Last Man by Brian K. Vaughan before and liked it, so I had high expectations for this one.
The story follows an unlikely couple - Alana, from the planetary forces long at war with a moon and with vestigial "fairy" wings; Marko, horned as a faun, spellcaster, soldier of the moon's army, renounced violence and surrendered to the enemy and meeting Alana while imprisioned - and starts off with Alana giving birth to their daughter.
After this, we are right away thrown into an interplanetary escape, unavoidable fights and talks about the child's name. But this is at the same time the central focus of the plot and an excuse for the author to show the limits of his imagination. From professional assassins for hire, one with too many legs (beware arachnophobia) and other with a cat that works as a lie detector, a legendary spaceship forest to ghosts that are supposed to defend their planet and a royal family with television sets for heads, one cannot guess what is going to appear next in the world of Saga. It includes a typical element of these stories, the fact that one side of the war uses magic and the other is more tech-savy, which, depending on how it is developed or kept as background, might become or totally diverge from the cliché. If the first part is any indication, it's going to be worth paying attention. But it's not only of this blending of fantasy and science fiction and forbidden loves that Saga lives. Right on the first volume, the author has no trouble handling problems such as belief, tradition, war from the soldier following orders point of view, the ease with which one kills when weapons are accessible and even sexual abuse and exploitation of children.
The art is phenomenal, both in terms of the drawing and the colours. The characters have personality, facial and body expressions that couldn't do better storytelling. The illustration of the worlds, the multiple places and planets, is rich and varied and helps trick the mind into believing we are really travelling through space. The magic is subtly added to scenes, making it more credible than the lightning and sparking on might be used to and sick of. The fact that some spells need odd unpredictable ingredients (and I'm not talking about mushrooms or crystals or such typical stuff) makes the whole setting more plausible.
As the starting point of a series - the first six numbers - mixing magic, sci-fi, genuine characters with funny remarks, interracial sex, unpredictable places and relevant themes, I can't really ask for more. I'll definitely buy the next volume as soon as possible.

Monday, 10 December 2012

Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa

Tive o prazer de ver a exposição e estar presente no lançamento de Sobrevida no Mundo Fantasma e conhecer os seus autores. Carlos Pinheiro e Nuno Sousa ainda fizeram o favor de autografar, com direito a desenho personalizado e tudo, a cópia que decidi imediatamente comprar. Agora que li, fico ainda mais contente por ter aproveitado a oportunidade.

Sobrevida é um trabalho a dois com paralelismos a vários níveis entre as visões de cada autor, explorando a área semântica do conceito que lhe dá nome. Temos a primeira e a segunda parte, a noite e o dia, um grupo e um individuo, a acção e a introspecção, duas demonstrações do que pode ser sobreviver, continuar a viver depois da morte de outro ou da morte de parte de nós ou resistir e escapar a situações potencialmente fatais, mas também significar viver pouco, sem qualidade, no limiar, satisfazendo somente as necessidades básicas. Mesmo a palavra sobrevida pode ter aqui uma interpretação dupla, por um lado a ideia de ser um trabalho sobre a vida, por outro referir-se ao conceito médico de sobrevida que corresponde ao tempo de vida após diagnóstico de doença fatal. A capa funde estas duas visões na capa, em que o estilo do Nuno Sousa ilustra uma cena da história de Carlos Pinheiro e avisa o leitor de que, mesmo havendo as duas partes, é no todo que se interpreta esta obra.
A primeira parte da história é "a noite" de Carlos Pinheiro, onde seguimos um grupo de jovens que fingem morrer (ou morrem mesmo de tédio) e depois, libertados por essa transição, pela perda do que os prende à vida - ou será do que os prende na vida? - saem pela cidade onde, sozinhos e sem controlo externo, a exercem a sua liberdade através de atitudes desde a violência à sexualidade. Aqui temos um desenho a preto e branco, com poucas pistas descritivas da acção que decorre, em jeito de diário. A segunda parte é "o dia" de Nuno Sousa, no qual espreitamos a mente de um indivíduo mais velho cuja vida - estilo de vida? qualidade de vida? - foi destruída e avalia o seu quotidiano, quase em discurso directo para o leitor. Aqui o tédio e a desmotivação permeiam toda a história até ao apogeu final. A ilustração é agora a cores, com o texto, seja descrição, seja pensamento do personagem, seja até diálogo entre dois, sempre numa só caixa.
Sobrevida é uma banda-desenhada simples e intimista, que pede algum envolvimento emocional ao leitor e que acabou por me deixar a pensar que sobreviver não tem qualquer interesse, que mais vale viver com tudo o que a vida parece ter para oferecer ou então morrer mesmo, que o intermédio, a espera, a moratória, o limiar, o básico não passa de uma tortura.
Não consigo deixar de relacionar o que senti com esta leitura com o que acontece no mundo hoje em dia. A ideia de austeridade, de sacrificar tudo em nome de um qualquer futuro, de outra geração, de cumprir compromissos de outros não passa de um embuste cujo objectivo é criar um grupo de indivíduos sobreviventes conformados que na verdade nunca vão viver, vão apenas ser escravos entre o tédio e o suplício à espera da sua libertação, nem que seja pela morte.

Se ainda encontrarem cópias à venda folheiem e se, como eu, forem fãs da ilustração e da temática, comprem que não se vão arrepender e vale sempre a pena apoiar estes projectos e seus autores. Para espicaçar a curiosidade, deixo-vos com o texto que serve tanto de blurb como de final da história:

"Dizem que a Sobrevida é a existência - ou coisa parecida - de quem já não vive neste mundo, mas ainda não encontrou o seu rumo. Da vida real apenas conserva a semelhança. Alimenta-se das suas imagens (venera-as, são o seu amuleto), ronda-as em círculos a cada volta mais distantes do centro.
A Sobrevida, diz-se, é uma espécie de revivescência - sensação de vida.
Espíritos, espectros, almas penadas perseguem aquilo que já foram, podiam ter sido ou virão a ser (para sempre, nunca mais).
Diz-se que da Sobrevida apenas podemos conhecer aquilo que se conta. Diz-se muita coisa e tudo é insuficiente (ainda).
De qualquer forma, já cá não está quem falou."