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Monday, 25 April 2016

Elantris, Brandon Sanderson

Sou oficialmente fã do Brandon Sanderson. Depois de ler Elantris - o livro que vários amigos e opiniões na internet dizem ser o menos bom - e gostar, tenho que o admitir. Concordo que de facto o livro não é tão bom como os da saga Mistborn, seja pela menor experiência do autor na altura, seja porque trabalhou menos bem certos temas ou eventos no enredo. Apesar disso, gostei bastante da leitura, da apresentação do mundo, da lenta revelação dos seus segredos, do que ficou por explicar, de algumas personagens, da transformação das personagens secundárias e, como já me habituou, da forma como Sanderson opõe certas formas de viver em sociedade e põe as próprias personagens a questionar-se sem respostas absolutas.


Elantris - que dá o nome ao livro - era a cidade onde viviam as pessoas que, aleatoriamente, sofriam uma transformação e tinham acesso a magia poderosa, vivendo e sendo até venerados como deuses na terra, até que há dez anos um evento que mudou a face da terra os fez perder o poder, transformando todos os elantrians e os que foram sendo aleatoriamente transformados em seres que lembram zombies, coração parado, não se curam, não morrem, mas continuam a pensar e a sentir. É uma distopia literal. O principal enredo do livro, ou pelo menos o mais interessante, centra-se neste local e em Raoden, o príncipe do reino de Arelon que se torna elantrian e é lá enfiado - como a sociedade tantas vezes faz com aqueles de quem não gosta, de quem se envergonha ou tem medo - e no seu eterno optimismo na face do manifesto desespero que comanda Elantris. Raoden é provavelmente a personagem de que menos gostei, embora seja um bom motor para a exploração de algumas questões muito relevantes (e de gostar de livros e ler para resolver problemas!).

Fora de Elantris, a noiva deste príncipe - Sarene, princesa de outro reino - julga-se viúva e fica em Arelon, sendo o veículo e a força motriz para a evolução do sistema político e da sociedade do reino, tanto na luta feminista - infelizmente por vezes algo cliché - como na luta contra o despotismo, a escravatura e valorização política do dinheiro. A forma como lida com o rei, com nobres e com as mulheres que se deixam minimizar mantém Sarene uma personagem sempre interessante de seguir.

O terceiro eixo da história é o grande inimigo, que nunca falha nos livros de fantasia. Aqui o "mal" é representado por um império centrado numa religião totalmente hierarquizada, na qual cada pessoa deve absoluta obediência ao seu superior directo e assim sucessivamente, até ao imperador que é o único que fala com deus e só a ele obedece. No enredo conhecemos este inimigo - cuja intenção é controlar todo o mundo, eliminando quaisquer outras crenças ou resquícios delas - através de um dos seus agentes, Hrathen. Vendo-se enviado a Arelon para converter o reino dentro de um prazo apertado, para que o seu imperador não "tenha" que o conquistar à força com as mortes que isso implica, a relação de Hrathen com a sua religião torna-o na mais interessante das personagens principais, se bem que os seus capítulos são frequentemente menos agradáveis de ler pela quantidade de informação que o autor aproveita para fornecer nos seus monólogos reflexivos.

Este livro tem dois pontos fortes: os movimentos de grandes forças e as mudanças globais das comunidades - algo que me parece que Sanderson consegue sempre fazer bem - e a evolução de algumas personagens secundárias.
Não vou fazer spoilers, não direi nada do que acontece ao longo da história. Desta introdução já se percebe que ao mesmo tempo temos uma força conquistadora, luta entre diferentes visões da sociedade e um local lendário a precisar amargamente de obras de reabilitação. Ao longo do enredo pensa-se a monarquia, pensa-se a democracia, pensa-se o poder do dinheiro, pensa-se a tradição e o progresso, pensa-se a comunidade e o indivíduo, pensa-se a motivação e a depressão, pensa-se a ideia feita, o preconceito, a perfeição aparente, a imperfeição constante.

A questão da evolução das personagens é sempre relevante, nomeadamente porque muitas vezes é a acompanhar a mudança individual, a aprendizagem, os erros, o crescimento da personagem principal que o leitor sente ganhar com a história. Em Elantris, Raoden e Sarene pouca ou nenhuma evolução têm, aquilo que os motiva e o que os preocupa é o mesmo no princípio e no fim. As suas forças e as suas fraquezas mantém-se ao longo de todo o livro. Pode ser uma fraqueza na história, mas não tem que ser. Na verdade, eles são os pilares à volta do qual tudo o resto acontece. Hrathen tem uma evolução interessantíssima. As personagens secundárias, tocadas de uma forma ou outra pelos principais, vão-se transformando e são do que mais gostei em Elantris. Na nossa vida parecemos muitas vezes personagens principais, mas a verdade é que não passamos de mais um indivíduo no mundo e a nossa relação com a esmagadora maioria das coisas é secundária, tal como acontece com estas personagens. A sua importância está nos seus actos nos momentos em que lhes é possível serem relevantes e não no facto de todo um enredo se centrar neles por qualquer destino ou porque todos os olhos recaem neles ou porque por sorte estão constantemente no local certo com a arma certa para a luta necessária.


Volto a dizer, Elantris não está ao nível de outros livros de Sanderson. Há momentos forçados no enredo, há falta de subtileza, há eventos que uma leitura atenta mostra desnecessários, há clichés de que não gostei - detesto deus ex machina predestinados -, há capítulos em que há mais informação despejada no leitor do que progressão da história e a prosa de livros mais recentes é mais polida. Mas os pontos positivos, particularmente para quem, como eu, gosta de ver uma história que lida com comunidades inteiras, com religiões, tradições e políticas, com a humanidade, ao mesmo tempo que as pequenas coisas se mostram importantes para cada personagem, facilmente suplantam os pontos negativos. E sim, há coisas que ficam por explicar, como tantas vezes já li em opiniões sobre este livro. Quanto a isso só posso dizer deal with it. A vida é assim, há coisas que nunca percebemos e por vezes é mais interessante ficarmos a lidar com a pergunta do que levarmos com a resposta de bandeja. De resto, há espaço para sequelas - se bem que não são obrigatórias, o livro vale por si só -, portanto, é questão de aguardar.

Recomendo Elantris para fãs de fantasia épica e principalmente para os fãs de Sanderson, é interessante ver como começou e ler mais uma entrada do seu universo partilhado.


“To live is to have worries and uncertainties. Keep them inside, and they will destroy you for certain - leaving behind a person so callused that emotion can find no root in his heart.”

Review in English here.

Saturday, 14 September 2013

Saga Volume 2 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Depois de ter adorado o primeiro volume, não tive dúvidas em encomendar o segundo e lê-lo mal chegasse. Continuando a história interessante iniciada no primeiro, este não tem no entanto o factor surpresa que tornou o primeiro espectacular. Gostei especialmente de conhecer os pais do Marko e da história com que este segundo volume termina. À parte disso, este livro dá uma sensação de ser essencialmente uma ponte entre a introdução e o próximo evento relevante. No entanto há que admitir Brian K. Vaughan e Fiona Staples conseguem ainda assim manter o interesse e entusiasmo com a história, de forma que mal posso esperar pelo próximo.
Continuo a recomendar a leitura de Saga sem reservas e estou especialmente interessado em ver como vão explorar aquela realeza com televisões em vez de cabeças.


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After loving the first volume, I didn't hesitate in ordering the second and reading it as soon as I got it. Is spite of being an interesting continuation of the story began in the previous book, this lacks that "wow factor" that made the first one spectacular. I specially liked getting to know Marko's parents and also enjoyed the final part of this volume. Other than these, this book does seem like a filler. However, one must admit that Brian K. Vaughan and Fiona Staples still manage to keep the reader interested and enthusiastic with their story.
I still recommend reading Saga with no reservations and I'm looking forward to finding out how they are going to explore that royalty with TV set's for heads.

Monday, 22 July 2013

Bloodlight - The Apocalypse of Robert Goldner by Harambee K. Grey-Sun

Bloodlight foi mais uma aposta no NetGalley. O autor propõe-se a escrever uma obra de ficção que lhe permita explorar simultaneamente a vida de um adolescente inseguro e questões metafísicas como a religião e o conceito de realidade. Se a ideia do autor me agrada bastante, infelizmente o resultado final ficou bastante aquém das expectativas.
O livro de Grey-Sun é uma história de fantasia que se aproxima bastante da literatura weird sem no entanto ser tão eficaz a transmitir sensações como escritores de horror que li anteriormente como H. P. Lovecraft ou Laird Barron. A fantasia que tem por base a religião cristã não é tanto uma exploração da religião mas uma simples transformação conceptual de algumas das suas figuras para dar contexto à história. Robert Goldner, a personagem principal, é um adolescente de 17 anos com graves problemas de auto-confiança e uma ideia estranha e imatura de afirmação pessoal que se torna plausível num contexto de bullying e racismo e numa escola completamente dividida em grupos quase estanques como estamos habituados a ver em filmes ou séries sobre adolescentes americanos. Como personagem principal, Robert não me convenceu e a sua história de insegurança não tem, em si, especial novidade que a distinga de tantas outras.  Enquanto lida com a sua vida já de si complicada, Robert começa a sentir alucinações cada vez mais vívidas e complexas e é na descrição destas que o livro se destaca. Por um lado, há que admitir a enorme imaginação do autor na criação das várias alucinações e na forma como conseguiu que algumas acabassem por fazer sentido tendo em conta o final. Por outro lado, há uma tal quantidade de momentos alucinatórios que as suas descrições ao pormenor se tornam cansativas e desnecessárias.
A prosa de Grey-Sun não é de resto especialmente bem conseguida, nem no que toca à narração nem no que toca ao pensamento da personagem principal. Os diálogos são em geral simples e directos, adicionando pouco à história que não uma interrupção da narração.
Ainda que não terrível, Bloodlight foi, por tudo isto, uma leitura desapontante que não atingiu os objectivos que o autor definiu e que me tirou a vontade de ler a trilogia da qual é prequela.


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Bloodlight was another NetGalley bet. The author set himself to write a work of fiction that would allow him to explore simultaneously the insecurities of a teenager and metaphysical issues such as religion and reality. If this idea seemed really good, unfortunately the final result ended up being below expectations.
Grey-Sun's book is a fantasy history quite close to weird fiction though far from the effectiveness of horror writers I've read before such as H. P. Lovecraft or Laird Barron. The fantasy has its basis on christianism but it's not so much an exploration of religion but a simple transformation of some of its faces to give this story context. Robert Goldner, the main character, is a seventeen year old boy with severe issues of self-confidence and an odd concept of self-affirmation that is believable considering a context of bullying and racism and a school divided in cliques typical of american teen TV series. As the main focus of the story, Robert didn't grab me and his story doesn't differ from so many others about these issues that abound nowadays. While he deals with his already complicated life, Robert starts having hallucinations that grow more vivid and complex and its in their description that the book stands out. On one hand, one must admit the author's huge imagination shown by these hallucinations and by his ability to create some delirious moments that actually make sense considering the ending. On the other hand, the hallucinations where often overdone and the moments are so frequent that their descriptions end up being boring and unnecessary.
Grey-Sun's prose isn't specially well achieved neither in event narration nor in the wording of the main character's thoughts. The dialogues were in general simple and straightforward, adding little or nothing to the story apart from a needed interruption to the otherwise never-ending narration.
Although not terrible, Bloodlight was a disappointing read that failed to achieve the author's purposes and ended up making me give up on reading the trilogy that follows this prequel.

Friday, 19 July 2013

O Baile por Nuno Duarte e Joana Afonso

Fiquei interessado nesta BD pela sua ilustração e a leitura mostrou-me que a minha primeira impressão foi certeira.
O Baile é uma história de horror em que um inspector da PIDE se vê a braços com zombies, como a capa já dá a entender. O argumento de Nuno Duarte é simples, sem especiais erros a apontar mas igualmente sem nada a destacar. As personagens não têm tempo de ser exploradas mais do que superficialmente e até a personagem principal passa a história a ser empurrado pelo enredo até ao final. O próprio não é especialmente original, sendo no fundo mais uma versão das histórias de bruxaria em que o culpado, lembrando os policiais, é revelado num clímax final.
Por outro lado, o desenho de Joana Afonso é a jóia deste livro. Com um traço diferente do habitual, a autora tem uma excelente capacidade de contar a história por imagens, como compete a um ilustrador em banda-desenhada. As cores que complementam o desenho estão adequadas à historia e ao contexto proposto.
Sendo assim, um livro a que vale a pena dar uma oportunidade essencialmente pela arte gráfica, com uma história que entretém sem surpreender. Estarei atento a novos trabalhos de Joana Afonso.

Wednesday, 26 December 2012

Saga Volume 1 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Esta série foi tão recomendada na internet e na minha loja habitual de BD que eu não resisti a comprar. Ainda por cima já tinha lido um pouco e gostado de Y: The Last Man de Brian K. Vaughan pelo que parti para a leitura com elevadas expectativas.
A história segue uma família improvável - Alana pertencia às forças de um planeta há muito tempo em guerra com uma lua e tem asas como uma fada; Marko pertencia ao exército da lua, tem cornos como um fauno e sabe magia, mas decidiu recusar a violência pelo que se entregou ao inimigo, tendo encontrado Alana - e começa pelo parto da filha deles.
Claro que, dado o contexto, somos logo de seguida embrenhados numa fuga interplanetária, combates inevitáveis e conversas sobre que nome dar à criança. Mas isto é ao mesmo tempo o ponto central do enredo e a desculpa para o autor mostrar os limites da sua imaginação. Desde assassinos a soldo galácticos, um com demasiadas patas para o conforto de aracnofóbicos, outro com um gato que avisa quando alguém mente, uma suposta floresta de naves espaciais, a fantasmas que defendem um planeta e uma realeza cujas cabeças são televisores, não é possível adivinhar o que vamos encontrar de seguida no mundo de Saga. Há aqui um elemento típico destas histórias, o facto de um dos lados usar magia e o outro ser mais evoluído ao nível da tecnologia que, dependendo de como for desenvolvido ou deixado como contexto, pode aproximar-se ou divergir do cliché. A avaliar pelo primeiro volume, vai valer a pena. Mas não é só desta mistura de fantasia e ficção científica e de amores proibidos que vive Saga. Logo no primeiro volume, o autor não teve qualquer problema em tocar questões como as crenças, tradições pessoais, familiares ou planetárias, a guerra do ponto de vista do cumprimento cego de ordens superiores, a facilidade com que se mata alguém quando há acesso a armas e até o tráfico e exploração sexual de crianças.
A arte é fenomenal, tanto a nível de desenho como de coloração. As personagens têm personalidade, expressões faciais e corporais que não podiam contar melhor a história. A ilustração do mundo, de vários locais em diferentes planetas, é rica e variada e ajuda a mente a acreditar que estamos a viajar pelo espaço. A magia tem sido desenhada de uma forma subtil, o que a torna mais credível do que os raios e coriscos a que nos fomos habituando, mas a necessitar por vezes de ingredientes imprevisíveis o que lhe dá uma plausibilidade interessante.
Como começo de uma série, coleccionando os primeiros seis fascículos, misturando magia, ficção científica, personagens genuínas com diálogos engraçados, sexo inter-racial, eventos e locais imprevisíveis e temas relevantes, não posso pedir mais. Vou comprar o segundo volume sem dúvida e mal esteja disponível.


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Saga was so recommended all over the internet and at my local comics store that I couldn't have avoided buying it. I had read a bit of  Y: The Last Man by Brian K. Vaughan before and liked it, so I had high expectations for this one.
The story follows an unlikely couple - Alana, from the planetary forces long at war with a moon and with vestigial "fairy" wings; Marko, horned as a faun, spellcaster, soldier of the moon's army, renounced violence and surrendered to the enemy and meeting Alana while imprisioned - and starts off with Alana giving birth to their daughter.
After this, we are right away thrown into an interplanetary escape, unavoidable fights and talks about the child's name. But this is at the same time the central focus of the plot and an excuse for the author to show the limits of his imagination. From professional assassins for hire, one with too many legs (beware arachnophobia) and other with a cat that works as a lie detector, a legendary spaceship forest to ghosts that are supposed to defend their planet and a royal family with television sets for heads, one cannot guess what is going to appear next in the world of Saga. It includes a typical element of these stories, the fact that one side of the war uses magic and the other is more tech-savy, which, depending on how it is developed or kept as background, might become or totally diverge from the cliché. If the first part is any indication, it's going to be worth paying attention. But it's not only of this blending of fantasy and science fiction and forbidden loves that Saga lives. Right on the first volume, the author has no trouble handling problems such as belief, tradition, war from the soldier following orders point of view, the ease with which one kills when weapons are accessible and even sexual abuse and exploitation of children.
The art is phenomenal, both in terms of the drawing and the colours. The characters have personality, facial and body expressions that couldn't do better storytelling. The illustration of the worlds, the multiple places and planets, is rich and varied and helps trick the mind into believing we are really travelling through space. The magic is subtly added to scenes, making it more credible than the lightning and sparking on might be used to and sick of. The fact that some spells need odd unpredictable ingredients (and I'm not talking about mushrooms or crystals or such typical stuff) makes the whole setting more plausible.
As the starting point of a series - the first six numbers - mixing magic, sci-fi, genuine characters with funny remarks, interracial sex, unpredictable places and relevant themes, I can't really ask for more. I'll definitely buy the next volume as soon as possible.

Friday, 7 December 2012

The Alloy of Law by Brandon Sanderson

I read Brandon Sanderson's Mistborn trilogy last year and it is one of my favourite epic fantasy works. I hope that one day I can actually review those books here, maybe after reading them again, but for now I'll just say that I became a fan of Sanderson's writing, his world building and the way he tackles a lot of interesting and important issues throughout the trilogy's plots. He has said, to my absolute delight, that his intention for that world was to produce three trilogies in different times. Meanwhile, he seems to have decided to give Mistborn fans a dessert with The Alloy of Law.
This book has a short story, a typical gunslinger-western plot with the addition of Mistborn's magic system, happening 300 years after the events of the original trilogy. It follows Waxillium Ladrian, a noble turned lawkeeper, initially in the Roughs (the rural part of that civilization) and then as he comes back to the big city somewhat forced to assume his role as the family's heir. Although there are some references to Wax relearning to live with the aristocracy after spending years away, that's by no means the main focus of the book. There are also some steampunk elements, namely the introduction of guns, cars, trains, lamps in a magical and somewhat unindustrialised world, the emancipation of women, or even the main character with his tendency to individualism - a typical "I'll change the world by myself" kind of mind - and his do-it-yourself science (here in the form of alloying). Despite all this I wouldn't consider The Alloy of Law a steampunk novel. The plot is first and foremost that of a crime thriller and a very good one at that, with a bit of mystery kept until the end. The reference and description of the multiple weapons used adds to the western feel of the book. The characters are very believable, if somewhat predictable, though the plans they concoct aren't as obvious and keep the story quite interesting all the way through. The action is also constantly present, giving the plot a fluid and exciting development.
The fusion of magic and technology was very well done and I actually wish I could read more stories exploring the possibilities Sanderson's allomancy/feruchemy/hemalurgy system allows in multiple contexts (in other words, I can't wait for his urban fantasy and sci-fi story arcs). The way the gun fights are enhanced by the movement the magic allows, the increased bullet power, a kind of kinetic shield, the time warps and the healing ability had really cool consequences. Another marvellous addition is the association with the previous trilogy, mostly through religious (which for those who have read Mistborn is particularly good) and historical references. The characters I knew and liked became legends for this society, used as moral examples but also as everyday expressions, in Scadrial's own versions of "oh my god" or the even the boogieman.
One particular theme I enjoyed seeing explored was the effects of taking ideals as your only compass, here shown by a character who doesn't mind harming or killing innocent people in the name of his own revolution, his war against injustice and exploration. For those who have read the previous trilogy, another thing one must notice is the recurrence of nobility systems. It seems that whatever cataclysm this world goes through, the society ends up organizing itself in a similar manner, despite the consequences such injustices have had before.
The one negative claim I can make is that, probably to try to make the book readable as a stand alone story, there are some moments where the narrator slows the action and dumps some information. But I should add that this is by no means too frequent or considerably damaging to the reading experience.
With The Alloy of Law, Brandon Sanderson offers both a bonus read for Mistborn fans and a genre bending humorous and very refreshing story, probably as a bridge to his second arc in that same world, establishing a new social and technological context and defining a mythology based on the events of the first trilogy. If this is in any way a sample of what's to come, good for us all.

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A versão portuguesa desta opinião foi publicada no Clockwork Portugal.

Tuesday, 27 November 2012

Lusitânia - Número 1


Comprei a Lusitânia no dia do seu lançamento, no Fórum Fantástico 2012, e li-a quase de uma assentada só. Trata-se, no fundo, duma pequena antologia de contos que não só se localizam geograficamente em Portugal como pretendem explorar a mitologia e cultura típicas do país. Na maioria dos casos os contos que a constituem contribuem para a sensação geral de que se está a ler sobre Portugal e os portugueses, se não os reais, pelo menos o país ou o povo que podem ou poderiam ser, dado se tratar de ficção especulativa.

Quanto à edição em geral há algumas coisas que merecem referência. A opção de colocar um padrão de fundo nas páginas de cada conto e que varia de um para outro, de certa forma individualizando cada história, parece-me uma ideia interessante, contribui até para a atmosfera que o conjunto cria, mas em dois casos - "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" e "A Cidade das Luzes" - o padrão foi demasiado forte ou confuso prejudicando a leitura do texto. Uma outra questão, a melhorar em posteriores edições ou números, foi a existência de erros ortográficos ou de edição, destacando aqui o conto "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata", de todos o único cuja leitura foi afectada significativamente por este facto. Outra situação que me parece de relevo, da qual me parece que muitos trabalhos deste tipo sofrem, é a grande diferença de qualidade entre os vários textos. Não sei se isto se deve à falta de submissões de qualidade, se à vontade de cumprir uma certa deadline, se é somente uma questão de perspectiva e opinião pessoal, mas vejo isto em muitas antologias e revistas.

Quanto aos contos em si, vou tentar fazer-lhes justiça comentando-os individualmente.
"Sonhos Numa Noite de Natal" de Marcelina Leandro é uma história pequena e simples que traz consigo uma ideia muito interessante sobre o mundo dos sonhos e a previsão do futuro que sem dúvida merece ser explorada num texto maior e mais elaborado para atingir o seu potencial.
"Vinho Fino" de Inês Montenegro é na minha opinião o melhor conto desta Lusitânia. O conceito já sobejamente utilizado de alienígenas parasitas tem aqui uma visão refrescante, com uma escrita e um contexto diferentes dos da ficção científica "habitual" e que me deixaram com vontade de ler mais, tanto desta história como da sua autora.
"Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" de Catarina Lima é para mim o pior dos contos incluídos o que não se deve somente aos erros acima referidos, mas essencialmente a uma história que parece forçada e mal desenvolvida. Se a ideia na qual se baseia é interessante: as bruxas a voar nas suas vassouras Portugal fora, uma Hogwarts / Brakebills no Chiado e até um mercado mágico no Martim Moniz, o enredo e a cadência da escrita não envolvem o leitor, pelo que acabei por dar comigo a ler alguns parágrafos "na diagonal".
"A Guerra do Fogo" por Nuno Almeida é um conto de especulação fantástica e histórica - como o próprio nome indica - em simultâneo, que está bastante bem imaginado e escrito e que cumpre à medida as intenções anunciadas da Lusitânia. Como única crítica negativa poderia apontar talvez o desenvolvimento lento da história relativamente ao enredo que traz.
"A Cidade das Luzes" deixou-me algo confuso. É um conto eminentemente visual, que nos pede para visualizar cada cena (perdoem-me o pleonasmo) e fazer um filme imaginado com o enredo que nos é entregue, algo que destaco como a sua melhor característica. Infelizmente o enredo nem sempre consegue manter o interesse, é uma distopia à qual falta mais contexto para se tornar credível e nos fazer esquecer a estranheza de imaginar luzes/cores sair do peito das pessoas em direcção aos céus. Por um lado, a ideia da investigação do tratamento do daltonismo em macacos, ainda que dê alguma explicação, aparentemente assumindo o texto como típica ficção científica, não consegue dar à história toda a verosimilhança que necessitaria. Por outro lado cansa esta comum associação da emoção ao peito, ao coração, aqui referida pela forma como as luzes saem do corpo, ainda por cima em direcção aos céus, que corresponde decerto mais a um problema pessoal do que a falta de qualidade do conto em si.
"A Passagem Uivante" de Pedro Cipriano é uma história breve mas arrepiante que lembra o leitor que por detrás das máquinas de guerra estão pessoas que muitas vezes levam pouco mais que ordens e instinto de sobrevivência, sem saber as reais motivações da sua liderança para arriscar as suas vidas e as dos inimigos naquele momento ou naquela situação. Isto é particularmente verdade dos cidadãos de países sujeitos a sistemas totalitários para os quais a única liberdade, ainda que relativa, pode ser, quando muito, a de escolher a hora da morte.

Lusitânia afigura-se assim um projecto que se distingue por se afirmar português não só na autoria, mas na temática em si, dando oportunidade a vários autores de mostrar o que valem na ficção especulativa curta e na exploração da nossa história, da nossa mitologia, da nossa cultura, no fundo, de parte do que nos dá uma identidade colectiva. Os meus parabéns pela iniciativa e pelo resultado final, fica aqui o meu desejo de que continue, que melhore sempre, e que para a próxima seja maior! O entusiasmo da equipa, em especial do Carlos Silva com quem falei mais proximamente, permite-me acreditar que assim será.

Em jeito de disclaimer devo informar que participei neste número através da Clockwork Portugal que teve a oportunidade de contribuir com um pequeno texto em jeito de referência ao nosso trabalho.