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Monday, 25 April 2016

Elantris, Brandon Sanderson

Sou oficialmente fã do Brandon Sanderson. Depois de ler Elantris - o livro que vários amigos e opiniões na internet dizem ser o menos bom - e gostar, tenho que o admitir. Concordo que de facto o livro não é tão bom como os da saga Mistborn, seja pela menor experiência do autor na altura, seja porque trabalhou menos bem certos temas ou eventos no enredo. Apesar disso, gostei bastante da leitura, da apresentação do mundo, da lenta revelação dos seus segredos, do que ficou por explicar, de algumas personagens, da transformação das personagens secundárias e, como já me habituou, da forma como Sanderson opõe certas formas de viver em sociedade e põe as próprias personagens a questionar-se sem respostas absolutas.


Elantris - que dá o nome ao livro - era a cidade onde viviam as pessoas que, aleatoriamente, sofriam uma transformação e tinham acesso a magia poderosa, vivendo e sendo até venerados como deuses na terra, até que há dez anos um evento que mudou a face da terra os fez perder o poder, transformando todos os elantrians e os que foram sendo aleatoriamente transformados em seres que lembram zombies, coração parado, não se curam, não morrem, mas continuam a pensar e a sentir. É uma distopia literal. O principal enredo do livro, ou pelo menos o mais interessante, centra-se neste local e em Raoden, o príncipe do reino de Arelon que se torna elantrian e é lá enfiado - como a sociedade tantas vezes faz com aqueles de quem não gosta, de quem se envergonha ou tem medo - e no seu eterno optimismo na face do manifesto desespero que comanda Elantris. Raoden é provavelmente a personagem de que menos gostei, embora seja um bom motor para a exploração de algumas questões muito relevantes (e de gostar de livros e ler para resolver problemas!).

Fora de Elantris, a noiva deste príncipe - Sarene, princesa de outro reino - julga-se viúva e fica em Arelon, sendo o veículo e a força motriz para a evolução do sistema político e da sociedade do reino, tanto na luta feminista - infelizmente por vezes algo cliché - como na luta contra o despotismo, a escravatura e valorização política do dinheiro. A forma como lida com o rei, com nobres e com as mulheres que se deixam minimizar mantém Sarene uma personagem sempre interessante de seguir.

O terceiro eixo da história é o grande inimigo, que nunca falha nos livros de fantasia. Aqui o "mal" é representado por um império centrado numa religião totalmente hierarquizada, na qual cada pessoa deve absoluta obediência ao seu superior directo e assim sucessivamente, até ao imperador que é o único que fala com deus e só a ele obedece. No enredo conhecemos este inimigo - cuja intenção é controlar todo o mundo, eliminando quaisquer outras crenças ou resquícios delas - através de um dos seus agentes, Hrathen. Vendo-se enviado a Arelon para converter o reino dentro de um prazo apertado, para que o seu imperador não "tenha" que o conquistar à força com as mortes que isso implica, a relação de Hrathen com a sua religião torna-o na mais interessante das personagens principais, se bem que os seus capítulos são frequentemente menos agradáveis de ler pela quantidade de informação que o autor aproveita para fornecer nos seus monólogos reflexivos.

Este livro tem dois pontos fortes: os movimentos de grandes forças e as mudanças globais das comunidades - algo que me parece que Sanderson consegue sempre fazer bem - e a evolução de algumas personagens secundárias.
Não vou fazer spoilers, não direi nada do que acontece ao longo da história. Desta introdução já se percebe que ao mesmo tempo temos uma força conquistadora, luta entre diferentes visões da sociedade e um local lendário a precisar amargamente de obras de reabilitação. Ao longo do enredo pensa-se a monarquia, pensa-se a democracia, pensa-se o poder do dinheiro, pensa-se a tradição e o progresso, pensa-se a comunidade e o indivíduo, pensa-se a motivação e a depressão, pensa-se a ideia feita, o preconceito, a perfeição aparente, a imperfeição constante.

A questão da evolução das personagens é sempre relevante, nomeadamente porque muitas vezes é a acompanhar a mudança individual, a aprendizagem, os erros, o crescimento da personagem principal que o leitor sente ganhar com a história. Em Elantris, Raoden e Sarene pouca ou nenhuma evolução têm, aquilo que os motiva e o que os preocupa é o mesmo no princípio e no fim. As suas forças e as suas fraquezas mantém-se ao longo de todo o livro. Pode ser uma fraqueza na história, mas não tem que ser. Na verdade, eles são os pilares à volta do qual tudo o resto acontece. Hrathen tem uma evolução interessantíssima. As personagens secundárias, tocadas de uma forma ou outra pelos principais, vão-se transformando e são do que mais gostei em Elantris. Na nossa vida parecemos muitas vezes personagens principais, mas a verdade é que não passamos de mais um indivíduo no mundo e a nossa relação com a esmagadora maioria das coisas é secundária, tal como acontece com estas personagens. A sua importância está nos seus actos nos momentos em que lhes é possível serem relevantes e não no facto de todo um enredo se centrar neles por qualquer destino ou porque todos os olhos recaem neles ou porque por sorte estão constantemente no local certo com a arma certa para a luta necessária.


Volto a dizer, Elantris não está ao nível de outros livros de Sanderson. Há momentos forçados no enredo, há falta de subtileza, há eventos que uma leitura atenta mostra desnecessários, há clichés de que não gostei - detesto deus ex machina predestinados -, há capítulos em que há mais informação despejada no leitor do que progressão da história e a prosa de livros mais recentes é mais polida. Mas os pontos positivos, particularmente para quem, como eu, gosta de ver uma história que lida com comunidades inteiras, com religiões, tradições e políticas, com a humanidade, ao mesmo tempo que as pequenas coisas se mostram importantes para cada personagem, facilmente suplantam os pontos negativos. E sim, há coisas que ficam por explicar, como tantas vezes já li em opiniões sobre este livro. Quanto a isso só posso dizer deal with it. A vida é assim, há coisas que nunca percebemos e por vezes é mais interessante ficarmos a lidar com a pergunta do que levarmos com a resposta de bandeja. De resto, há espaço para sequelas - se bem que não são obrigatórias, o livro vale por si só -, portanto, é questão de aguardar.

Recomendo Elantris para fãs de fantasia épica e principalmente para os fãs de Sanderson, é interessante ver como começou e ler mais uma entrada do seu universo partilhado.


“To live is to have worries and uncertainties. Keep them inside, and they will destroy you for certain - leaving behind a person so callused that emotion can find no root in his heart.”

Review in English here.

Sunday, 5 April 2015

Centuries of Change - Which Century Saw the Most Change and Why it Matters to Us by Ian Mortimer

Com este livro Ian Mortimer propõe-se a analisar os últimos dez séculos ao nível das mudanças que se observaram na civilização humana - centrado na sociedade ocidental - num exercício que pretende determinar qual foi o século que viu maior mudança.

O autor começa por explicar a sua abordagem, justificando a opção de se dedicar ao ocidente, e depois faz uma descrição de cada século tendo em conta as mudanças e os agentes de mudança a cada momento. Este caminho acaba por ser uma óptima forma de recordar a nossa história o caminho que a nossa civilização percorreu até se tornar no que é agora.
No final, o autor olha para trás e recorre a alguns critérios para poder determinar as principais mudanças e agentes e consequentemente, os séculos em que maiores mudanças ocorreram, até à decisão final.
Se é verdade que nem sempre concordei com a eleição do autor - o que obviamente se relaciona com os valores individuais e perspectivas a priori, como o próprio refere - é igualmente verdade que o autor soube sempre justificar as suas opções de forma lógica e credível.

O interesse deste livro, mais do que o cálculo ou a comparação para determinar o vencedor, é o que lembra o próprio subtítulo - porquê que isso é importante? 

"Breaking down the overarching concept of change into smaller facets has allowed us to glimpse the dynamics of long-term human development. We can see that not all change is technological: it includes language, individualism, philosophy, religious division, secularisation, geographical discovery, social reform and the weather."

Mortimer termina com uma análise muito relevante da nossa evolução civilizacional e uma previsão do que poderá ser o nosso caminho no futuro a médio-longo prazo. 

O século vencedor? É um pormenor.


Tive acesso gratuito a este livro através do NetGalley.



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With this work, Ian Mortimer intends to a analyse the last ten centuries and determine the changes in human civilization - focused on the so called western world - with the purpose of finding the one which saw the biggest changes.

The author starts by explaining his approach, justifying the option for the western civilization, and then, chapter by chapter, describes each century taking into account the changes and the agents of those changes at the time. This method ends up becoming a good way to remember history and the pathway our civilization has treaded before it became what it is today.
After this, the author looks back and uses some criteria to be able to determine the main changes and agents and the centuries that saw them happen.
I didn't always agree with the author's choices or opinions - something that is obviously related to individual values and perspectives, as the author himself refers - but he does explain his options showing sound logic and justification.

The main relevance of the book, in my opinion, much more than finding out in which century we changed the most, is what the subtitle asks - "Why it Matters to Us?"

"Breaking down the overarching concept of change into smaller facets has allowed us to glimpse the dynamics of long-term human development. We can see that not all change is technological: it includes language, individualism, philosophy, religious division, secularisation, geographical discovery, social reform and the weather."

Mortimer ends with a very relevant analysis of our civilization's evolution and a prediction of what our future can hold.

The winning century? It is but a detail.


I had free access to this book through NetGalley.

Friday, 2 January 2015

2014: Retrospectiva

Eu dizia num comentário com amigos há uns dias que 2014 foi essencialmente um ano esquisito para mim. Não preciso de recuar muito tempo para recordar um André que seria incapaz de prever um ano destes. Talvez também por isso 2015 me pareça imprevisível (de resto, não só a título pessoal). Bem, tudo isto à parte, a ideia de fazer uma retrospectiva é tanto forçar-me a reavaliar coisas como conseguir fazer algum tipo de recomendação a quem segue o blog desde os tempos em que estava mais activo.


Leituras

Houve tanto que gostei de ler este ano que se torna difícil fazer um top de favoritos ou recomendados, mas vou tentar.

Livros técnicos e não ficção:

Bad Pharma, de Ben Goldacre: livro obrigatório para médicos muito recomendado para qualquer profissional de saúde, bem como para quem procura informação sobre a relação entre a investigação científica, a indústria farmacêutica e a saúde. É uma visão provavelmente assustadora, mas que aponta um claro caminho para melhorar.

If This is a Man / The Truce, de Primo Levi: livro obrigatório para todo o ser humano que saiba ler. A história de um homem que passou pelo holocausto, por Auschwitz, pelo resgate russo, pelo regresso a casa e pelo retorno a uma suposta vida normal. Ler isto é conhecer a humanidade no seu pior e isso é essencial para conhecer a humanidade.

Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, de Mark Blyth: o título fala por si. De resto, acrescento apenas que é um livro interessante, compreensível para leigos e muito relevante para avaliar o que nos tem sido proposto/imposto nos últimos anos.

Fantástico:

NOS4A2, de Joe Hill: fantasia, algum horror, muito suspense, este livro é uma maravilha, seja pela prosa incólume do Joe Hill, seja pelas referências, as metáforas, o food for thought, questionar moralismo, valor da inocência, a diferença entre estar certo, saber a verdade e fazer bem, sei lá. Há uma personagem que rapta crianças e as leva no seu Wraith (o carro) para Christmasland (um parque na imaginação dele?), outra que sai de bicicleta e atravessa uma ponte (imaginária?) para onde precisa de ir, e ainda outra que adivinha (ou interpreta?) coisas com peças de Scrabble. Não quero dizer mais.

The Disposessed, de Ursula K. Le Guin: a autora dispensa apresentações, no entanto este foi o meu primeiro contacto com ela. Ficção científica com relevância sociopolítica? Sim, quero mais por favor.

The Boy Who Cast No Shadow, de Thomas Olde Heuvelt: uma pequena história sobre crianças "diferentes".

Transhuman, de Jonathan Hickman e J.M. Ringuet: o aparecimento de uma nova tecnologia, as guerras entre as empresas, o mercado, enfim, o capitalismo desenfreado mas desta vez a novidade são seres humanos modificados (melhorados?).

Pax Romana, de Jonathan Hickman: o Hickman é um génio. A igreja católica manda uma equipa ao passado para mudar a história a seu favor, mas o agente tem ideias próprias...

Iron Man: Fatal Frontier, de Al Ewing et al: o Iron Man é o típico idiota convencido de que é tão esperto e poderoso que tem sempre razão e tudo o que faz é justificado, em Fatal Frontier esta característica é particularmente bem explorada. Esta história tem o benefício de poder ser lida independentemente da continuidade das comics.

Doctor Strange: Season One, de Greg Pak e Emma Ríos: o Strange tem uma das melhores origens de super-heróis que conheço. Faz dele real, humano, dá-lhe significado para além das tretas habituais. Olhar novamente para a origem, de uma forma ligeiramente diferente, foi um prazer.

La Belle Mort, de Mathieu Bablet: como tudo o que já vi deste autor, este livro é lindo. A história é interessante. É num raio de uma língua que eu pouco percebo, mas para este compensa muito o investimento.


Séries ou relacionados:

Lazarus, de Greg Rucka e Michael Lark: uma representação futurista e distópica da nossa realidade, centrada numa mulher que foi concebida para ser quase imortal e lutar as guerras pela sua "família". Condicionamento, emoção, humanidade, sociedade, há aqui caminho para tudo. Li os primeiros dois volumes e vou continuar.

Über, de Kieron Gillen e Caanan White: história alternativa. E se os nazis conseguissem mesmo criar um super-humano? Só posso dizer que isto está mesmo muito bem escrito e que vale a pena experimentar.

East of West, de Jonathan Hickman e Nick Dragotta: não sei o que dizer sobre isto. É uma história esquisita, com personagens esquisitas saídas sei lá de onde. E os cavaleiros do apocalipse. E o próprio apocalipse? E um mundo dividido e controlado por meia dúzia de poderosos? Onde é que eu já vi isto...

The Manhattan Projects, de Jonathan Hickman e Nick Pitarra: história alternativa a partir da Segunda Guerra Mundial, com super-cientistas, super-loucos, alienígenas e dimensões alternativas. É confuso, mas só o suficiente para não se poder evitar ler o volume seguinte.

Mind MGMT, de Matt Kindt: acaba-se de ler e apetece reler. Li apenas o primeiro volume, mas os próximos estão na calha, sem qualquer dúvida. Ficção científica e poderes da mente resulta em dúvida constante, até mesmo para o leitor.

The Massive, de Brian Wood: a Terra depois de um apocalipse ambiental. Muito importante, muito relevante e muito bem feito.

Batwoman, de J.H. Williams III e Haden Blackman: quando se dá a alguém liberdade para explorar um super-herói, sem o interromper com eventos e afins, é isto que se espera. Só é pena que não pudessem ter continuado.

Fables, de Bill Willingham: cheguei este ano ao volume 16 e a série continua óptima, tanto pela subversão das histórias infantis como pelo que transmite através dela.

The Victories, de Michael Avon Oeming: heróis e vilões são pessoas, pessoas podem ser heróis e vilões, ideias que são exploradas hoje talvez mais do que nunca, mas particularmente bem nas mãos deste autor.

Suicide Risk, de Mike Carey e Elena Casagrande: O primeiro volume foi o melhor, mas a série continua a ter potencial na exploração de uma humanidade com super-poderosos.

Astonishing X-men, de Warren Ellis: A série "astonishing" tem o benefício de poder ser lida isoladamente do universo Marvel, bem como de ter tido autores tão bons como Warren Ellis, especialmente no Ghost Box.

Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples: uma série que vive na sobreposição dos temas típicos da fantasia e da ficção científica e explora questões relevantes. A fama de Saga é mais que merecida.

The Unwritten: Tommy Taylor and the Ship that Sank Twice, de Mike Carey e Peter Gross: De maior relevo para quem conhece a série, mas potencialmente uma porta de entrada para interessados.

Lucifer, de Mike Carey: li o primeiro volume e estou convicto que lerei toda a série.

Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodríguez: li este ano o volume final de uma das melhores séries de fantasia e weird que já li. 

The Absolute Sandman, de Neil Gaiman: li o primeiro volume da série Absolute e em 2015 vou ler o segundo. É do melhor que há em banda desenhada.

X-men: Days of Future Past, de Chris Claremont e John Byrne: diferente do filme e continua a valer a pena ler, embora tenha muito mais interesse para quem conheça os X-men.

Young Avengers, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie: outra vez o Kieron Gillen, outra vez bom. Aqui a representação super-humana do conceito geral da nossa actual "juventude". Vale a pena ler, conheça-se ou não o universo Marvel.

Elektra, de Haden Blackman e Mike del Mundo: pode ser lida independentemente do restante universo Marvel; o autor soube dar uma perspectiva mesmo interessante sobre a personagem, muito para além de ser uma assassina eficaz a "redescobrir" a vida, e Mike del Mundo é o meu ilustrador favorito do momento. Esta banda-desenhada merece ser lida, relida e exposta numa galeria de arte.

Moon Knight, de Warren Ellis e Declan Shalvey / Brian Wood e Greg Smallwood: pode ser lido independentemente do restante universo Marvel e é uma história sobre um louco com múltiplas personalidades a tentar ser um herói à(s) sua(s) maneira(s).

Black Science, de Rick Remender e Matteo Scalera: um princípio muito prometedor de uma série de ficção científica em que as personagens exploram realidades alternativas.


Super-heróis e BD seriada:
(separei aquela BD cuja leitura foi feita de forma seriada e cuja recomendação é diferente da isolada conforme fiz acima, tendo em conta que li várias que se intersectam e cuja história é influenciada por isso, bem como o facto de conhecer bem as personagens e histórias prévias)


Storm, de Greg Pak e Victor Ibañez: na verdade pode praticamente ser lido independentemente do resto do universo Marvel, mas beneficia disso. Personagem feminina forte, com uma história relevante, que quer abordar a vida de uma forma diferente, mais irreverente, mais heróica talvez, mais arriscada sem dúvida. A Storm já foi uma deusa, já foi uma ladra de rua, já foi líder de grupos de heróis, já foi casada e rainha, e muito mais. Com toda esta bagagem e tanta "humanidade" que a caracteriza, esta história torna-se ainda mais interessante.

Magneto, de Cullen Bunn e Gabriel Hernandez Walta: para quem conhece o Magneto e tem seguido a sua história e a dos mutantes, esta banda desenhada é uma delícia. A sua história de vida, a ambiguidade do que ele é e do que ele faz, as questões relevantes que coloca, Magneto continua a ser uma das personagens mais interessantes de todo o universo Marvel.

X-men Legacy, de Simon Spurrier: centrado numa personagem, mas mais interessante para quem conhece bem o universo. O David Haller / Legion é uma pessoa, mas é muitas pessoas, muitas capacidades, pode fazer tudo ou acabar por não fazer nada, e pode ainda fazer tudo bem ou tudo mal. Desta vez está a tentar por ordem na sua cabeça com demasiadas personalidades perturbadas. Mas quem é ele?

X-men, de Brian Wood: X-men como deviam ser escritos. Mulheres que não pedem para ser símbolos femininos. Pessoas que querem fazer coisas, que querem mandar, que acham que têm razão, que culpam e que perdoam, que lidam com o pior que há. Vale a pena.

Iron-man, de Kieron Gillen: Óptima perspectiva sobre o Iron-man e uma redescoberta de todo o seu passado (origem?) que muda a sua forma de ver o mundo (ou só temporariamente, porque vem aí outro evento). Kieron Gillen voltou a fazer um bom trabalho, como tem sido constante na Marvel, veremos onde aparece a seguir.

Uncanny X-men, de Brian Michael Bendis e Chris Bachalo e All-New X-men, de Brian Michael Bendis et al: vale a pena ler simultaneamente e por vezes também Wolverine & the X-men, são boas histórias de x-men, de maior interesse para quem conhece as personagens e tem seguido a sua história. A arte do Chris Bachalo continua a ser muito boa.

Avengers / New Avengers, de Jonathan Hickman: Hickman é um génio (já disse isto antes?). Nunca gostei tanto de ler Avengers como agora, na sua expansão e acção para além da Terra. Os New Avengers armam-se em donos do mundo e tomam para si decisões que, quiçá, nunca deveriam estar na mão de ninguém. Mas por vezes não há opção (ou há?). Do melhor que há na Marvel neste momento, mais ainda se acompanhado da leitura de Avengers World, de Jonathan Hickman e Nick Spencer, enquanto se vê as várias histórias a tornar-se uma só. O evento ainda decorre pelo que não posso comentar o final.

Thor: God of Thunder, Vol. 4: Last Days of Midgard, de Jason Aaron e Esad Ribic: Aaron começou bem, depois piorou no terceiro volume, mas voltou bem nesta última história de Thor, antes do rapaz deixar de conseguir pegar no martelo e aparecer uma mulher Thor. Quanto a essa, ainda não sei o que dizer.


Outros:

Inércia, de André Carrilho: para desfrutar lenta e repetidamente.

La Sombra del Viento, de Carlos Ruiz Zafón: eu li em espanhol e quando puder vou querer ler o seguinte. O livro é um prazer para amantes da leitura e da literatura, mas não se fica por aí. A exploração da natureza humana e a referência à ditadura e guerra civil espanholas dão-lhe um outro nível, e o desenvolvimento das personagens é maravilhoso. Recomendado a quem goste de um mistério revelado lentamente com um leve toque de fantasia.

To Kill a Mockingbird, de Harper Lee: clássico, sem dúvida.



Cinema e Televisão

Este ano fui pouco ao cinema e quase não vi séries, pelo que tenho muito pouco a recomendar.

Cinema:

A grande surpresa deste ano para mim foi o Boyhood (Richard Linklater). Esperava que fosse bom, mas foi quase perfeito. É um filme que é tanto melhor quanto quem vê esteja capaz de levar consigo, da sua própria história, das suas próprias emoções. É muito mais que uma obra original por ter sido filmado com as mesmas pessoas ao longo de mais de uma década. Ainda não me saiu da cabeça. Recomendo a toda a gente.

Outros filmes que gostei:

Her (Spike Jonze), um filme essencial sobre a contemporaneidade levada ao absurdo e os conceitos de personalidade e pessoa, isolamento e comunicação. Dos melhores filmes que já vi.

12 Years a Slave (Steve McQueen), um óptimo filme, que justifica bem os Oscars que ganhou e aborda uma temática essencial, mas que acaba por não conseguir ser o filme da minha vida. Recomendo a todos os que ainda não viram.

Blue Jasmine (Woody Allen), porque o realizador é bom, a história é relevante e a Cate Blanchett é perfeita.

Guardians of the Galaxy (James Gunn), porque há muito tempo que um filme não me proporcionava umas horas tão bem passadas e tanta boa disposição no meio de uma ameaça a toda a galáxia. E porque o Groot é óptimo. E a banda sonora também.

X-Men: Days of Future Past (Bryan Singer), com mutantes, bons actores e viagem no tempo. Não foi tão bom como o First Class, mas valeu bem a pena ver.

The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson), um filme estranho, esquisito, especial, que leva mais longe o que o realizador já tinha experimentado em Moonrise Kingdom. Foi uma óptima surpresa no cinema e tenho intenção de rever. É sobre um hotel, sobre pessoas, sobre o fascismo e a Europa e toda a enorme mudança e é engraçado e emotivo. E deve ser muito mais coisas.

The Amazing Spider-Man 2 (Marc Webb), um bom filme de super-herói, com o Andrew Garfield e a Emma Stone perfeitos nos seus papéis, que continua muito bem o trajecto iniciado no primeiro filme.

Captain America: The Winter Soldier (Anthony Russo e Joe Russo): eu não gosto do Captain America, não gostei particularmente do primeiro filme, não procuro ler as comics em que a personagem entra, excepto quando os autores pegam nele e o transformam totalmente. Dito isto, este filme é bom, os actores estão muito bem, a história com expansão para o restante universo Marvel só enriquece. Uma surpresa.

The Book Thief (Brian Percival), é baseado no livro com o mesmo nome que adorei. Não é tão bom como o livro, mas a história está em geral bem adaptada e os actores estão muito bem nos seus papéis. Mantenho a recomendação: vale a pena ler antes de ver. Mais sobre o livro aqui.

Televisão:

True Detective, dois detectives a investigar um caso com contornos potencialmente paranormais ou pelo menos bastante mais estranhos que o habitual. A história é fenomenal, Matthew McConaughey e Woody Harrelson estão verdadeiramente geniais.

Orphan Black, teve um início muito interessante, com uma actriz impecável num papel (ou papéis) difícil, mas sem ter terminado a primeira temporada não posso dizer mais.

Friday, 14 February 2014

East of West Vol.1: The Promise by Jonathan Hickman and Nick Dragotta

Em East of West, Jonathan Hickman e Nick Dragotta misturam alguma ficção científica com um enredo tipicamente fantástico - a besta do apocalipse - de uma forma extremamente importante. Este primeiro volume é uma apresentação das personagens, as suas histórias e motivações e a sua posição num planeta Terra com uma história alternativa. O leitor segue Morte que está aqui contra os seus três companheiros cavaleiros do apocalypse (aqui crianças) e a sua busca por vingança e pela mulher que ama. "Amar até à morte" tem todo um novo alcança em East of West, onde três personagens conseguem destruir exércitos inteiros ou determinar quem é presidente matando todos os restantes "candidatos".
É isto que quero num primeiro volume de uma série: uma história que me deixa curioso sem se revelar demasiado, personagens que de facto quero conhecer (e descobrir o que vão fazer a seguir) e um mundo intrigante, tanto tecnologica como politicamente, que mal posso esperar para ver explorado.
Li esta banda-desenhada inicialmente através do NetGalley, mas gostei tanto que acabei por comprar o volume em papel e encomendar o seguinte. Em East of West, Hickman está ao seu mais alto nível e Dragotta convence-me inevitavelmente, enquanto as suas personagens parecem viver entre o apocalipse e o armageddon.





In East of West, Jonathan Hickman and Nick Dragotta find a way to mix a few science fiction themes with a major typical fantasy plot - the beast of the apocalypse - in a very interesting way. This first volume is a presentation of the characters, their general background and drive and where they stand in this weirdly time displaced, wonderfully confused, alternate history Earth. The reader follows Death who is against his three apocalyptic siblings (here incarnated as children) and his quest for a human woman he seems to love. "I love you to death" gets a whole new meaning and scope in East of West, as a few characters get to murder entire armies or determine the results of a promotion by killing off the unwanted "candidates".
This is exactly what I enjoy in introductory volumes: a story that piques my curiosity without revealing itself too much, characters I really want to get to know, and a world intriguing enough (both technologically and politically) that I can hardly wait to see it further explored.
I got to read this first volume from NetGalley, but I liked it so much that I bought the paperback and will order the next ones This is Hickman at his usual best and Dragotta making me a fan, while their characters live between apocalypse and armageddon. 

Wednesday, 11 December 2013

Pela Sua Saúde de Pedro Pita Barros (Ensaios da Fundação #33)

A Fundação Francisco Manuel dos Santos tem publicado nesta colecção "Ensaios da Fundação" trabalhos sobre temas relevantes para pensar e repensar Portugal de uma forma informada. Fiquei logo com vontade de ler alguns, de várias áreas, com algum destaque para a saúde, a economia e o estado social. A Daniela ofereceu-me o Pela Sua Saúde, pelo que foi por este que comecei a explorar a colecção. O autor - Pedro Pita Barros - é um economista, professor catedrático e investigador nessa área e editor de revistas de Economia da Saúde, pelo que se propõe a olhar para o Serviço Nacional de Saúde analisando os seus problemas, as possíveis melhorias e os caminhos para a sua evolução, tendo particularmente em conta a limitação de recursos do estado português.
A leitura deste pequeno ensaio foi bastante enriquecedora, mesmo tendo em conta que já parti com bastante informação sobre o tema. O autor aborda de forma lúcida e relativamente isenta as principais questões de relevo na discussão da dita "sustentabilidade" de um serviço de saúde financiado pelo estado. O livro começa por uma descrição geral do SNS, segue para a análise directa da sua sustentabilidade financeira, examina a organização e funcionamento do SNS e por fim a relação entre o cidadão e o sistema, terminando com algumas considerações gerais.
Como ensaio curto, este não é um livro em que os temas sejam explorados à exaustão, com bases científicas e ideológicas explicitadas e bem destrinçadas. Um exemplo disto é a sua abordagem das taxas moderadoras, que discute tendo em conta o seu aumento e aplicação diferencial mas nunca analisando as provas (ou ausência delas) da sua eficácia como factor redutor de desperdício em saúde ou da possível criação de desigualdade e potencial impedimento de acesso a cuidados que se querem universais. No entanto, o autor consegue atingir o seu objectivo: fornecer ao leitor as bases e os pontos fulcrais para que possa pensar sobre o assunto, informar-se mais detalhadamente e participar activamente na sua discussão.
Assim sendo, recomendo a leitura de "Pela Sua Saúde" como ponto de partida para quem quer participar activamente na discussão eterna sobre o SNS, sabendo desde já que terão que progredir de seguida para outras leituras no sentido de criar e fundamentar opiniões. Pretendo ler mais livros desta colecção e agradeço recomendações a quem já tenha lido alguns.

Tuesday, 5 November 2013

Anatomia dos Mártires de João Tordo

Depois de ter lido e gostado bastante do seu conto Cidade Líquida na colecção do DN e dado ter lido algumas opiniões positivas sobre os seus livros (por exemplo no Metáfora de Refúgio), decidi prosseguir na minha leitura da obra de João Tordo. Escolhi o Anatomia dos Mártires porque gostei do tema que se propõe abordar, muito embora não soubesse ao certo o que esperar dele.

Este livro segue a vida de um jornalista em busca do seu "furo", de um artigo que comprove a sua qualidade de trabalho perante o seu editor (e, aparentemente, perante o próprio). Inicialmente é-lhe proposto entrevistar o biógrafo de um homem que, após ter cometido suicídio, parece ter-se tornado numa espécie mártir religioso. No seu artigo, por entre um tom jocoso em que fala do entrevistado, decide estabelecer um paralelismo entre esta história e a de Catarina Eufémia, ela própria uma suposta mártir usada como símbolo da luta do Partido Comunista contra a ditadura fascista. São as várias reacções a este artigo (do editor, de leitores, do entrevistado) que fazem avançar o enredo por várias linhas, culminando numa obsessão do jornalista pela história "verdadeira" de Catarina Eufémia. A busca por esta verdade e o seu paralelismo com a análise do que faz um mártir constituem uma segunda parte do romance.

A prosa de Tordo é em geral fluída, sem exagero de embelezamento mas com utilização suficiente e útil de figuras de estilo. Infelizmente é o assunto que a prejudica aqui. O autor começa por escrever uma história razoavelmente interessante, embora nunca excepcionalmente estimulante, dedicada à luta interior do jornalista e o seu paralelismo com os eventos, mas perde-se quando decide entrar pelo mito de Catarina Eufémia dentro. Se a primeira parte tinha alguns momentos mortos, a segunda parte é quase até ao final um tédio do ponto de vista da ficção. Nota-se por demais a extensa pesquisa que o autor fez em relação a esta figura e sente-se a falta de uma edição mais "intensa" nesta parte. Há ainda uma terceira e última parte - "Os Apoderados" - que funde o final do enredo com um tom de epílogo, num estilo mais surreal, simultaneamente interessante mas estranho em contraposição com o restante livro.

Assim, este foi um livro que não tendo correspondido às expectativas criadas pela leitura do conto que referi, manteve o meu interesse em ler mais obras do autor, em especial pela exploração da vida, mente e personalidade do jornalista, a sua relação com o pai e com o amigo, por alguns paralelismos inteligentes com as figuras mártires e pela terceira parte.
De acordo com o Jorge, autor do Metáfora de Refúgio, este será o menos interessante dos romances de João Tordo. Sendo assim, após recorrer às opiniões lá publicadas - e de acordo com as sinopses - decidi ler de seguida o Livro dos Homens sem Luz ou o Hotel Memória (provavelmente o primeiro que encontrar em promoção decente).

Wednesday, 23 October 2013

The Victories Volume 1: Touched by Michael Avon Oeming

Eu conhecia Michael Avon Oeming do seu trabalho em Powers e também de uma ou outra ilustração para a Marvel pelo que comecei a segui-lo no twitter. Foi assim que acompanhei o processo de criação de The Victories, que o autor comentou frequentemente na rede social, e fiquei interessado em ler algo não só ilustrado mas também escrito por ele. Oeming não desiludiu. The Victories é uma visão pessimista de uma sociedade com "super-heróis". A história é-nos apresentada pelo ponto de vista  dos próprios "heróis" que, longe de serem indivíduos exemplares - epítomes das virtudes humanas - são afinal pessoas com imperfeições cuja posição civilizacional serve apenas para o autor as poder ampliar e explorar.
O contexto é uma civilização futurista mas algo distópica, em que as pessoas são vigiadas por câmaras em todo o lado mas a corrupção é ubíqua, a juventude está a tornar-se globalmente viciada numa nova droga e super-heróis parecem ser a única hipótese de limpar e salvar a sociedade. Parece tão familiar como a visão de um dia chuvoso quando olhamos pela janela (televisão?) de nossa casa com a devida atenção. De destacar aqui uma visão das drogas menos tradicionalista do que o habitual, dado que é aqui perfeitamente compreensível o apelo para a sua utilização. Faustus, a personagem principal deste primeiro volume, tem o interesse de ter uma personalidade em formação, parece algo incompleto, com assuntos por resolver (às vezes lembrando demasiado o típico anti-herói com passado doloroso) e em processo de auto-descoberta e auto-definição.
É assim que Oeming se propõe a explorar o papel que nós tendemos a dar a estas supostas figuras exemplares, ao mesmo tempo que lida com o que as pessoas têm de melhor e pior, com as suas reacções perante situações extremas e perante o risco de ganhar ou perder tudo. The Victories é uma banda-desenhada dirigida a leitores maduros e que a meu ver será de especial interesse a quem já passou pela leitura das BD de super-heróis tradicionais, mundos idealizados e épicos de auto-descoberta, porque verá aqui um contraponto inteligente.
A arte é tão adequada ao cenário criado que não lhe posso apontar um defeito. Quem gostar do desenho de Oeming não ficará desiludido com este livro.
A minha única crítica é que, como volume introdutório, há alguma perda de cadência por momentos de flashback e infodump que prejudicam ligeiramente a leitura.
Já encomendei o segundo volume.


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I knew Michael Avon Oeming from his work on Powers and some Marvel stuff and that's why I started following him on twitter. Through his account I was able to follow the creative process of The Victories, because the author often spoke about it. He got me interested enough in checking something that he wrote and illustrated himself. Oeming didn't disappoint. The Victories is a pessimistic view of a society with "super-heroes". The story is told through the heroes' point of view, themselves far from the usual exemplary people one would expect, are after all quite flawed. The author uses their status as super-heroes to further amplify and analyse such human flaws.
The context is a futuristic and rather dystopian civilization, where people are constantly spied by drone cameras but corruption is still ubiquitous, young people are addicted to some new kind of drug and super-heroes seem to be the only hope of cleaning it all up and saving society. It's as familiar as if one was looking outside the window (television?) in a rainy day and actually paying attention. Of note is the author's use of the drug, which far from the traditional cliché is presented here as a substance with an understandable appeal. Faustus, the main character of the first volume is interesting to follow because the author left him with an immature personality, somewhat incomplete and with unfinished business (sometimes reminding me of the typical anti-hero with past issues), a young man in a process of self-discovery and definition.
This is how Oeming sets out to explore the place we give to these supposed exemplary figures, at the same time dealing with what people have best and worst, their reactions to extreme situations where they risk winning or losing everything they care for. The Victories is a comic wrote for mature readers and will probably be enjoyed the most by those who have read the more typical comics with their traditional superheroes, idealized worlds and self-discovery epics because they will see here a smart counterpoint.
The illustration is so adequate to the setting and tone that I can't really point anything wrong with it. Whoever knows and likes Michael Avon Oeming's art won't be disappointed.
My only negative criticism towards this book is that, as an introductory volume, the storytelling often looses momentum with the flashbacks and some infodumping that disturb an otherwise enjoyable read.
I'm now waiting for the next volume!

Sunday, 20 October 2013

Os Leões de Al-Rassan de Guy Gavriel Kay

Depois de muito recomendada, finalmente a edição d'Os Leões de Al-Rassan em português da Saída de Emergência foi-me emprestada e impingida a sua leitura assim que possível. Obedeci aos espíritos bibliófilos que populam a minha comunidade no twitter e li-o nos últimos 15 dias. Só lhes posso ficar agradecido. Se é verdade que este livro não se tornou num favorito instantâneo, como no caso delas, tenho que admitir que foi uma leitura muito interessante e recompensadora. Não tenho neste momento disponibilidade para lhe fazer uma resenha da qualidade e pormenor merecidos, mas partilho aqui, para os interessados, as opiniões de algumas pessoas que adoraram esta obra de Guy Gavriel Kay: a Catarina e a Célia. De qualquer forma, esta é uma fantasia histórica baseada na reconquista da península ibérica aos mouros, sendo Al-Rassan o teritório por eles ocupado, Asharitas os muçulmanos, Jaditas os cristãos, Kindates os Judeus e há até um personagem baseada no El Cid.

Sendo assim, vou limitar-me a referir alguns momentos e temas que não só fazem a leitura atenta valer a pena como me convencem a querer ler outros livros do autor.
Começo pelo primeiro evento que me mostrou que esta leitura ia ser recompensadora, uma conversa entre Jehane e Velaz em que facilmente se percebe que o autor não se limita a fantasiar uma história alternativa, mas que vai procurar utilizar o enredo criado para deixar o leitor a pensar. Jehane é posta perante uma situação em que se opõem valores como a lealdade ao seu povo, a obrigação ou responsabilidade profissional e o seu sentido moral e ético individual. A conversa, em que Velaz tenta convencê-la a não se arriscar, chama à atenção para as consequências da neutralidade e da passividade perante a injustiça.
De forma a evitar spoilers, vou tentar apenas enumerar os restantes momentos chave, em que a prosa de Guy Gavriel Kay está especialmente bem conseguida, de forma a partilha-los com aqueles que já conhecerem o livro: o massacre em Orvilla - em que o autor contrasta a glória e a desgraça da guerra; o Carnaval de Ragosa - provavelmente o apogeu da prosa desta obra; e o incêndio em Fezana - pela tomada de decisão de cada personagem, pelas transformações que a situação opera em algumas delas e pela utilização do fogo como arma de purificação e de terror.
Por fim, é de destacar não só o prazer de ler o epílogo como finalização do enredo, mas especialmente pela forma como o autor foi fazendo acelerar a cadência da história com a aproximação ao clímax e depois, tal qual crise de ansiedade, faz com que o leitor "perca" alguns momentos e consiga analisar os acontecimentos finais somente em retrospectiva.

As temáticas que o autor explora bem com esta obra incluem, tal como esperado, a religião e as consequências da guerra, mas há também uma análise muito bem conseguida da história de uma pessoa tendo em contraste o seu referencial cultural, o seu contexto mutável e a sua auto-imagem e noção de valor e realização pessoal.
Quanto à religião, a história de Al-Rassan ilustra bem como por um lado ela serve para unir grupos e comunidades mas por outro lado por vezes o faz à custa de isolar ou maltratar outros. É também explorada a sua utilização como bode expiatório para a guerra, para motivar o povo a seguir a ganância ou busca por glória dos seus líderes. Há ainda tempo para as personagens serem forçadas a questionar as suas crenças, a sua cultura moral, pelos eventos que acontecem à sua volta.
Quanto à guerra, ela existe aqui, como esperado de uma interpretação da reconquista da península ibérica, como o motor das alterações geopolíticas, mas é explorada principalmente do ponto de vista do seu impacto nas pessoas, não como um grupo mas como indivíduos, como vidas, como histórias, planos, vontades, sentimentos.
Há muito mais a destacar na obra de Guy Gavriel Kay, como por exemplo a visão do médico como pessoa que trata o doente independentemente da nação ou religião, a pessoa que quer ser soldado pela glória mas perde a vontade quando constata a carnificina, a falta de glória inerente à chacina de outros seres humanos, a manipulação típica da guerra, quer quando são os indivíduos a manipular, quer quando são eles os manipulados pelo que acontece à sua volta, a escolha das personagens entre o sentimento de amizade e a honra, o juramento, a lealdade ou a crença e ainda pessoas que se vêem obrigadas a submeter-se ao inimigo, actual ou anterior, para viver, para salvar outros, para amar.

Uma nota final para a tradução (a cargo de João Henrique Pinto) que, se em geral me pareceu muito bem conseguida, teve óbvios tropeços agregados em determinados capítulos cuja leitura foi algo prejudicada. Tenho intenção de ler algo mais de Guy Gavriel Kay, talvez Tigana ou Under Heaven, mas, tal como é meu hábito com autores de língua inglesa, irei tentar obter a versão original.


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After being widely recommended, finally a friend lent me her copy of The Lions of Al-Rassan translated to Portuguese. I am quite thankful. Though it didn't become an instant favourite, as was the case with some of my friends, it still was a very interesting and rewarding book to read. This is often considered a historical fantasy work, for its indirect depiction of the wars of reconquest of the Iberian peninsula from the Moor occupiers by the Christians of the north. Al-Rassan represents the Moorish Iberian territory, Asharites are Muslims, Jaddites are Christians, Kindath are Jews and there is even a character based on El Cid.
Because I don't have enough time to write a very detailed and thoughtful review, I'll try to talk about some moments and themes that not only make reading it mindfully worthwhile, but also convinced me to try another of Guy Gavriel Kay's works.

I must start with the first event that showed how rewarding reading this book would be, a conversation between Jehane and Velaz where one easily understands that the author won't just fantasize an alternative history, but will mostly use it to make the reader think. Jehane is in a situation in which she feels the opposing forces of loyalty to her people, her professional obligations and her individual moral and ethics. As Velaz tries to convince her not to risk herself, their conversation brings forward the consequences of being neutral or passive before injustice.
In order to share them with those who read the book, but avoiding spoilers, I'll just enumerate the other key moments where Guy Gavriel Kay's prose is specially well accomplished: the massacre in Orvilla - where the author explores the contrast between the glory and the tragedy inherent to war; the Carnival in Ragosa - probably the epitome of the book's prose; and the fire in Fezana - because of each characters decision, of the transformations forced upon them by the event and the use of the fire as a weapon both of purification and terror.
Last, I must highlight the epilogue, not only because it closes the plot beautifully, but specially for the way the author made the storytelling accelerate with the approximation of the climax and then, as if experiencing an anxiety crisis, makes the author loose some of the crucial moments, being only able to look at and analyse them in retrospective. A mark of a great writer.

As for the themes explored in The Lions of Al-Rassan, they include as expected, religion and the consequences of war, but there is also a well accomplished analysis of a person's story taking into account and confronting her cultural background, her mutating context, her self-image and her idea of valour and personal fulfilment.
On religion, the story of Al-Rassan illustrates quite well how it can unite groups and communities but on the other hand do it while isolating or hurting others. Its use as an excuse for war, as a motivation to get people to follow their leaders' greed and lust for glory. There is still time for the characters to be forced to question their beliefs and morality by all the events happening around them.
On war, its obviously all over the place, as expected of an interpretation of the reconquest, superficially as a motor for geopolitical changes, but more deeply explored from the point of view of its impact on people, not as a group but as individuals, as lives, as stories, plans, dreams, feelings.
There is still more to highlight in Guy Gavriel Kay's work, as for example the perspective of the doctor as a person who helps a patient in need with no regard for his country or religion; the person who dreams of becoming a soldier in search of glory but looses heart before the carnage inherent to real war; the manipulation typical of war, be it when the characters are the manipulators be it when they are the ones manipulated by events around them; the choice characters are put upon, between friendship and honour, oath, loyalty or belief; and people who are forced to submit to their enemies, current or past, in order to live, to save someone they care for, to be with those they love.
A final note for the translation (by João Henrique Pinto, published by Saída de Emergência) that is generally quite well done but with some mistakes mostly focused on few chapters which were slightly spoiled. As I said above, reading The Lions of Al-Rassan convinced me to read more of Guy Gavriel Kay's books, probably Tigana or Under Heaven, but, as is usual with English speaking authors, I'll try getting the original versions.

Saturday, 14 September 2013

Saga Volume 2 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Depois de ter adorado o primeiro volume, não tive dúvidas em encomendar o segundo e lê-lo mal chegasse. Continuando a história interessante iniciada no primeiro, este não tem no entanto o factor surpresa que tornou o primeiro espectacular. Gostei especialmente de conhecer os pais do Marko e da história com que este segundo volume termina. À parte disso, este livro dá uma sensação de ser essencialmente uma ponte entre a introdução e o próximo evento relevante. No entanto há que admitir Brian K. Vaughan e Fiona Staples conseguem ainda assim manter o interesse e entusiasmo com a história, de forma que mal posso esperar pelo próximo.
Continuo a recomendar a leitura de Saga sem reservas e estou especialmente interessado em ver como vão explorar aquela realeza com televisões em vez de cabeças.


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After loving the first volume, I didn't hesitate in ordering the second and reading it as soon as I got it. Is spite of being an interesting continuation of the story began in the previous book, this lacks that "wow factor" that made the first one spectacular. I specially liked getting to know Marko's parents and also enjoyed the final part of this volume. Other than these, this book does seem like a filler. However, one must admit that Brian K. Vaughan and Fiona Staples still manage to keep the reader interested and enthusiastic with their story.
I still recommend reading Saga with no reservations and I'm looking forward to finding out how they are going to explore that royalty with TV set's for heads.

Thursday, 5 September 2013

The Book Thief by Markus Zusak

No dia em que este livro chegou às minhas mãos, o céu estava cinzento e chorava desesperadamente. A dona do livro trouxe-o junto com outro que tinha prometido emprestar-me, porque achou que eu devia ler. Ficámos os dois completamente encharcados. Ela estava mais certa do que alguma vez poderia imaginar.


Este livro conta a história de Liesel - A Rapariga que Roubava Livros (título da tradução para português) - uma criança alemã que vive perto de Munique na altura da Segunda Guerra Mundial, da Alemanhã Nazi e do Holocausto e que despertou o interesse do nosso narrador - A Morte. Através da vivência da rapariga e do olhar da Morte, o autor permite-se contar uma história que ao mesmo tempo é absolutamente credível mas que nos faz querer não acreditar nela nem um minuto. A vida extremamente difícil de Liesel e sua família vão ombreando na narração com episódios arrepiantes daquele período, desde a institucionalização do anti-semitismo associada às dificuldades económicas, à transformação dos judeus em criaturas inferiores aos seres humanos, desde a tentativa de convencer os alemães de que estavam somente a reconquistar o que era seu por direito à requisição forçada de gente para os campos de batalha. Ao mesmo tempo que seguimos a história desta rapariga que nos vai conquistando, não há como escapar de uma constante sensação de terror do que pode a qualquer momento acontecer às pessoas (não as consigo ver apenas como personagens) que já sentimos conhecer. Para além da alusão à guerra, The Book Thief toca mais de perto naquilo que afecta cada indivíduo, neste caso as consequências da dissidência política, a necessidade de manter uma aparência de total conivência com o regime, os problemas de querer ao mesmo tempo sobreviver e evitar perder aquilo que nos define como pessoa, ainda que ser quem somos seja arriscar diariamente o pescoço. A simbologia espalhada ao longo da narrativa torna a leitura uma verdadeira maravilha, desde a visão das palavras como ideias - a linguagem como libertação -, dos livros como esperanças, da escrita como salvação, das caves como factor de equilíbrio entre os judeus escondidos da Gestapo e os alemães protegidos dos bombardeamentos. Markus Zusak não entrega, no entanto, uma simples amálgama de situações dramáticas como seria certamente plausível dado o contexto da história. Há uma subtileza na forma como transmite as ideias e emoções e uma narração que intercala  os dramas com quotidiano e até com momentos de humor e doçura que eleva a complexidade de uma obra que entrou directamente para os meus livros favoritos.
Por fim, resta-me mencionar A Morte, um narrador com o qual me identifiquei desde logo, cujos comentários o autor destaca de uma forma gráfica e até cómica e que vão desde dados históricos a simples opiniões, por vezes revelando até acontecimentos futuros, muitas vezes surpreendentes seja na sua leveza seja na crueza com que acompanham a história.
Haveria, claro, muito mais a dizer sobre os eventos narrados, sobre a simbologia, sobre a escrita, mas parece-me melhor não dar mais pormenores. Espero que o que escrevi seja suficiente como recomendação para este livro, que estendo a qualquer pessoa que goste de ler.


No dia em que terminei a leitura do The Book Thief o céu estava azul, limpo com a excepção de algumas nuvens de fumo dos incêndios que circundavam Vila Real - quem chorava era eu.


"I am haunted by humans."



Obrigado Catarina.


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When this book got to me, the sky was grey and tearful. The owner brought it together with another one that she had promised to lend to me, because she thought I should read it. We ended up both soaking wet. She was right, much more at that than what we both could have guessed at the time.

This book shows the story of Liesel, a German child living near Munich in Nazi Germany as the World War II and the Holocaust unfolded that was able to pique our narrator's - Death - curiosity. Through her experience and Death's "eyes" the author tells a story that at the same time is absolutely believable but also has the reader wishing it wasn't credible at all. Liesel and her family's extremely difficult life are explored in parallel with terrifying episodes of that time, such as the general installation of anti-Semitism associated with the economic problems and the transformation of Jews into lesser creatures, the attempt to convince Germans that a war was needed to get what is rightfully theirs and even the forced conscription to the army. As one follows and falls for the girl, one can't escape a constant terror of what can at any point happen to these people (I can't bring myself to think of them as just characters) that we feel we know and like. Beyond the allusion to the war, The Book Thief explores in more detail what affects each person, in this case the consequences of political dissidence, the need to appear totally supportive of the regime, the problems of wanting to survive as much as wanting to be true to oneself. The symbology interwoven through the narrative adds to the reading experience, from the association of words, writing, reading and books with ideas, hope, salvation and freedom to the use of basements to place a parallelism between Germans taking cover from air raids and Jews hiding from Gestapo. However, Markus Zusak doesn't simply deliver a mesh of dramatic events, as the context might have lead him to. He has subtlety in how he conveys ideas and emotions and he knows to intersperse drama, everyday life and even humour and sweetness giving complexity to a work of art that is already one of my favourites.
Finally, I must write about Death, a narrator with whom I immediately related and whose comments the author emphasizes graphically and comically, that go from historical data to simple opinions sometimes even spoiling future events and often surprising be it for their easiness be it for their crudity.
There would be much more to say about the events, the symbols and the writing in The Book Thief, but I don't want to give more details. I hope that what I wrote is enough a recommendation to this book, one that I send out to anyone that enjoys reading.


The day I finished reading The Book Thief the sky was blue, clear but for some smoke from forest fires around Vila Real - I was the one crying.


"I am haunted by humans."


Thank you Catarina.

Wednesday, 7 August 2013

Immersion by Aliette de Bodard

Finalmente li Immersion, a história de Aliette de Bodard que ganhou o Nebula, o Locus e foi nomeada para o Hugo e os BSFA. Desde que li a sinopse, na altura em que ouvi falar das nomeações, fiquei interessado e deixei um separador do Chrome aberto na página da Clarkesworld onde foi publicada. Agora descobri que estava também disponível em audio, pelo que decidi experimentar ouvir. Apesar da interpretação da leitora não ter sido particularmente do meu agrado, dada a sobre-enfatização de certos diálogos ou pensamentos e a sua voz por demais suspirada, o facto é que adorei a história.
Sem querer revelar demasiado, até por correr o risco de estragar a leitura de quem ainda não conhece, basta-me dizer que Immersion é uma exploração bastante interessante da interacção entre culturas quando uma é dominante - do ponto de vista bélico ou económico por exemplo - e do quanto isso pode levar ao extremo problemas como a necessidade de aceitação ou o preconceito, principalmente quando se torna natural a assimilação da cultura dominante. Nesta história a questão é abordada através de um mecanismo que permite mais que uma tradução da linguagem, uma transformação completa de um indivíduo para a cultura da qual depende.
Com este pequeno conto, Aliette de Bodard pode chamar-nos à atenção quanto a vários problemas que a nossa civilização atravessa e com os quais devemos aprender a lidar da melhor forma, desde a assimilação da cultura americana pelos países desenvolvidos - por exemplo através do cinema e literatura que são produzidos e comercializados em massa e que afogam quase todos os outros mercados culturais - a confusão que se faz na Europa entre a pertença à comunidade europeia e a obediência às decisões dos países economicamente dominantes, a comunicação através de redes sociais, que não só nos dão imagens falsas como nos definem a forma de comunicar - por exemplo, a ausência do silêncio intencional: ou se comenta um post ou ninguém sabe que se leu o post e se optou por ignorar - até à limitação que uma pessoa pode sentir em ser ela própria quando tem que se adaptar a outra cultura - até que ponto pode um indivíduo ser tudo aquilo que é, manifestar a sua personalidade em pleno, quando tem que usar uma língua diferente, em situações quotidianas diferentes, com costumes diferentes e interpretações variáveis para os mesmos gestos ou comportamentos e até que ponto é ele capaz de se reconhecer depois de passar muito tempo a sustentar uma imagem culturalmente aceite?
Assim sendo, não posso deixar de recomendar a leitura de Immersion a todos e pondero agora ler algo mais da autora.


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I finally got to read Aliette de Bodard's Immersion, a short story that won the Nebula and the Locus awards and was nominated to the Hugo and BSFA. Ever since I heard of it I've been willing to check it out and kept a tab in Chrome with Clarkesworld where it was initially published. I found out it was also available in audio version, so I decided to listen and share it with a friend. Though the reader's interpretation wasn't particularly to my liking, I ended up really enjoying the story.
Without revealing too much and spoiling it, it's enough to say Immersion is a quite interesting exploration of the interaction between cultures when one of them is dominant and of how it can aggravate problems such as prejudice or need for acceptance and more so if people start considering its only natural to assimilate the dominant culture. In this story the issue is addressed through a machine that allows not only to automatically translate language but also to completely transform a person into what is expected in the culture that created it.
With this short tale, Aliette de Bodard makes us think on multiple problems that our civilization is going through right now and with which we must deal with in the best way, such as the assimilation of american culture by most developed countries - for example through cinema and literature with massive marketing - the confusion in Europe between belonging to the European Union and obedience to the decisions made by the economically dominant countries, the communication through social networks that not only give us false avatars but also define the ways we communicate - for example, the absence of intentional silence: or you comment a post or no one knows that you read it and decided to ignore it - or the limitation that one can feel when adapting to another culture - how can a person express herself fully, actually be her real self, when using a different language, in different daily situations, with different traditions and interpretations and how can that person recognize herself after a long period holding this culturally accepted avatar?
I can't recommend Immersion enough and I'm now looking forward to reading more from this author.

Monday, 29 July 2013

Hän Solo de Rui Lacas

Ora aqui está uma BD que li apesar de ter sido desaconselhada. A verdade é que gosto de ir dando uma vista de olhos ao que é publicado a nível de banda desenhada em Portugal e ainda que os primeiros leitores de Hän Solo me tenham dito que não valia a pena o esforço, a minha teimosia venceu, agora que a minha memória foi reavivada pelo facto deste livro ter sido premiado numa convenção de BD recente.
Hän Solo é um trabalho que versa um momento da vida de Hän, um holandês bipolar que depois de fazer Erasmus em Portugal acaba por decidir cá ficar a tentar a sua sorte. Rui Lacas tem aqui uma base que lhe permitiria imensas possibilidades de exploração, desde a situação de um estrangeiro em Portugal, o preconceito, a xenofobia ou a aculturação; a relação amorosa estranha com uma portuguesa; o facto de querer trabalhar como fotógrafo, a desvalorização da profissão, os problemas de desemprego jovem; a doença bipolar em si ou a sua relação com todos os restantes problemas de Hän. A verdade é que o autor falhou em toda a linha. Depois de criar esta personagem, todas estas coisas foram simplesmente atiradas para o enredo - ou falta dele - até se alcançar um final que resolve uma parte dos problemas quase por magia ou acaso e ignora os restantes.
A ilustração é mediana, sem ser original nem interessante nem especialmente mal conseguida.
Assim sendo, só me falta perceber como é que esta obra foi sequer nomeada para prémios como melhor arte, melhor publicação nacional ou, pior ainda, melhor argumento. Menos ainda percebo como é que o público votou de forma a esta obra ser a vencedora destes três Troféus Central Comics, especialmente considerando que conheço muitos dos outros nomeados e que são trabalhos bastante superiores.
Não recomendo perder tempo com esta obra, a não ser que tenham uma obsessão por conhecer tudo o que é publicado em Portugal.

Wednesday, 24 July 2013

Skim by Jillian and Mariko Tamaki

Pedi Skim emprestado depois de ler esta opinião. Esta banda-desenhada usa a vida de uma rapariga de 16 anos com excesso de peso e a tentar tornar-se uma bruxa Wiccan para fazer uma exploração de várias vertentes da adolescência.
A história de Skim - igualmente a alcunha pelo qual a personagem principal é conhecida - está num ponto de viragem. Ao longo do livro ela é exposta a situações que vão tocando, mais ou menos superficialmente, em vários dos reconhecidos dramas da adolescência. Fala-se da aceitação pelos colegas, da ideia de normalidade e preconceito, de paixão, de auto-descoberta, de amizades verdadeiras ou de circunstância, de vontade de desaparecer ou de suicídio. Os três principais paralelos que sustentam esta exploração são o suicídio de um colega, a paixão por uma professora e a amizade estranha e assimétrica com Lisa. O ritmo do desenvolvimento da história é estruturado pelos momentos em que Kim escreve no seu diário, momentos esses que originam páginas com organização diferente das típicas vinhetas e que incluem comentários que mostram as várias coisas que ela vai descobrindo ou concluindo. Estes são frequentemente irónicos e vão ajudando a transmitir a mensagem do livro ao leitor.
A ilustração é eficaz embora não especialmente bonita ou original.
Skim é uma BD sobre a adolescência que lembra e comenta os vários problemas associados à sua vivência e arranha algumas lições sem ser paternalista e sem se deixar cair no dramatismo tão frequentemente associado a histórias nesta faixa etária, sem dúvida de interesse a fãs do meio ou da temática, ainda que fique aquém do seu potencial no que toca à profundidade de análise.


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I borrowed Skim after reading a friend's review. This graphic novel uses the life of a 16 year old overweight Wiccan-in-training girl to explore various aspects of being a teenager.
The story of Skim - also the girls nickname - is at a turning point. Throughout the book she experiences some situations that question the typical dramas of adolescence. Themes such as peer acceptance, normality and prejudice, passion, self-discovery, true or circumstantial friendships or the will to disappear or suicide are tackled more or less superficial as the story progresses. The three main issues that support this exploration are a friend's suicide, falling in love with a teacher and a strange asymmetric friendship with Lisa. The pace is set and kept by moments when Kim writes on her diary, in pages with a different organization and illustration, which include comments that show what she is learning or discovering and, with no lack of irony, help to transmit the message to the reader.
The illustration is effective though not specially beautiful or original.
Skim is a graphic novel about teenage that goes through multiple of its characteristic problems and points to some lessons though never feeling patronizing or overly dramatic, doubtlessly of interest to fans of comics or of this theme, despite not being as deep in its analysis as it could have been.

Friday, 19 July 2013

O Baile por Nuno Duarte e Joana Afonso

Fiquei interessado nesta BD pela sua ilustração e a leitura mostrou-me que a minha primeira impressão foi certeira.
O Baile é uma história de horror em que um inspector da PIDE se vê a braços com zombies, como a capa já dá a entender. O argumento de Nuno Duarte é simples, sem especiais erros a apontar mas igualmente sem nada a destacar. As personagens não têm tempo de ser exploradas mais do que superficialmente e até a personagem principal passa a história a ser empurrado pelo enredo até ao final. O próprio não é especialmente original, sendo no fundo mais uma versão das histórias de bruxaria em que o culpado, lembrando os policiais, é revelado num clímax final.
Por outro lado, o desenho de Joana Afonso é a jóia deste livro. Com um traço diferente do habitual, a autora tem uma excelente capacidade de contar a história por imagens, como compete a um ilustrador em banda-desenhada. As cores que complementam o desenho estão adequadas à historia e ao contexto proposto.
Sendo assim, um livro a que vale a pena dar uma oportunidade essencialmente pela arte gráfica, com uma história que entretém sem surpreender. Estarei atento a novos trabalhos de Joana Afonso.

Monday, 15 July 2013

14 by Peter Clines

Decidi requisitar este livro no NetGalley por ter lido um comentário de um autor dizendo que seria uma leitura ao estilo de Lost. De facto, a estrutura da história lembra facilmente a série, mas as semelhanças ficam-se por aí. Peter Clines não tem a subtileza do suspense da série e cruza o seu mistério com outros estilos de horror, de forma que o resultado final é algo estranho.
14 é a história de como a chegada de Nate ao edifício Kavach despoleta uma série de investigações dos inquilinos sobre a sua casa, culminando não só na descoberta do que o Kavach é mas também na possibilidade de se destruir a humanidade.
O prédio é, de facto, muito estranho. Nenhuma das pessoas que lá vive tem sonhos durante a noite, há baratas verdes com pernas extra, cada apartamento tem um tamanho e organização diferentes e há portas trancadas para nunca serem abertas. Facilmente se compreende como os inquilinos não conseguem segurar a sua curiosidade e, à medida que vão ganhando confiança uns com os outros, vão formando um grupo de investigadores à revelia do encarregado que parece estar determinado a impedi-los.
A escrita de Clines é pouco elaborada e as suas personagens são em geral simples peões num enredo em que a estrela é sem dúvida o edifício. Nota-se que este livro é, essencialmente, fruto da sua vontade de contar esta história, não havendo espaço para especial evolução das personagens que a povoam, com a notável excepção de Nate. O mistério é interessante e vai sendo revelado aos poucos, nunca deixando o ritmo abrandar mas sem revelar demasiado do que se espera ser o final. Tentando não contar demasiado para não estragar a leitura aos interessados, limito-me a dizer que podem contar com uma mistura entre Lost, steampunk e H.P. Lovecraft. O livro está pejado de referências à cultura popular e geek actual, desde Lost e Fringe a Star Trek ou Twilight Sone, ao ponto de se tornarem cansativas. Gosto bastante de detectar referências nas minhas leituras mas quando isso parece ser o único ornamento da escrita do autor a piada sucumbe à exaustão.

Para quem não se incomodar com SPOILERS, há mais a dizer sobre a obra de Peter Clines. Um ponto positivo é o seu tratamento das relações interpessoais. Não lhes dá demasiado foco mas mostra a sua influência nas decisões das personagens e não se preocupa com encaixes bonitos ou lições de moral. Um homem acha uma mulher atraente mas acaba por se apaixonar por outra, sem que nenhuma tenha que ser melhor ou pior pessoa, simplesmente porque acontece. Um ponto negativo é o final mal explorado, em que criaturas imortais capazes de viagens interdimensionais são burras ao ponto de dar tempo e oportunidade aos humanos para lhes impedir a entrada na Terra.

Não sendo uma obra-prima, 14 é no entanto competente como entretenimento, segurando o leitor migalha a migalha e sempre com algo inesperado à espreita, resultando numa leitura leve e rápida. Ponderaria ler outros trabalhos do autor, em especial se os soubesse mais refinados ao nível da escrita.


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I decided to request this book on NetGalley after reading a comment which stated it was similar to Lost. In fact, the structure of the story reminds one of the TV series, but Peter Clines doesn't have the subtlety of its suspense and he crosses his mystery story with horror which ends up originating a rather weird novel.
14 is the story of how Nate moving into the Kavach building starts a chain reaction of events that culminate in the tenants discovery of exactly what is Kavach but also on the possibility of bringing about the end of humanity as we know it.
The building is in fact really weird. None of the tenants have dreams at night, there are green cockroaches with extra legs, each apartment has different size and organization and there are doors locked so they would never be opened. One can easily understand how they can't get a grip on their curiosity and, as they get to know each other, eventually become a group of investigators, much to the despair of the caretaker.
Clines' writing is simple and straightforward and his characters are generally all but pawns to his plot where the true star is the building itself. One can tell the book is, in essence, the result of the authors will to tell this story, without much dedication to the evolution of the characters, with the notable exception of Nate. The mystery is interesting and is revealed step by step, never slowing down the pace or showing too much of what's ahead. Trying not to spoil too much, if you're going to read 14 expect a mix of Lost, steampunk and H.P. Lovecraft. The book is teeming with cultural and geeky references, from Lost and Fringe to Star Trek and Twilight Zone, to the point where they become tiresome. I usually enjoy finding these small nods to cultural icons but when that is the author's sole means of adorning his text, the fun is drowned by exhaustion.

For those who don't mind SPOILERS, there's of course much more to say about 14. One of its strengths is his approach to human relations. He doesn't give them centre stage but he does show their influence on people's decision-making and he avoids those typical fittings or moralised endings. A guy finds a woman attractive but he ends up falling in love for another, not because one of them is shown to be better or worse, but simply because it happens. A weakness would be the ending, where immortal inter-dimensional travellers are dumb enough to give the puny humans time and chance to stop them from entering Earth.

Far from being a masterpiece, 14 is still competent as entertainment, leading the reader with breadcrumbs of revelations and always something unexpected waiting just around the corner, resulting in a quick and light read. I might read other works by Peter Clines, if I knew them to be more refined in terms of writing.