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Monday, 25 August 2014

Pensamento do dia

A vida é de facto impressionante e os seres humanos são capazes de nos surpreender, tanto para o bem como para o mal, sejamos optimistas, pessimistas ou mesmo autênticos misantropos. 
Num mesmo dia, é possível:

  • dizer a uma pessoa que tem um cancro e orientá-la com a máxima urgência para a consulta hospitalar;
  • falar com uma filha sobre a doença degenerativa da sua mãe que a acamou, depois de ela ter visto a mãe quase a morrer asfixiada;
  • intercalar estas coisas com duas dezenas de consultas incluindo de grávidas todas contentes e recém-nascidos celebrados;
  • falar com uma pessoa que já tentou o suicídio mais que uma vez sobre as suas perspectivas de vida, entre ir estudar para fora e matar-se;
  • diagnosticar uma gravidez inesperada;

  • E, depois de tudo isto, ao partilhar um destes momentos, ler alguém a desvalorizar completamente a minha profissão com um displicente "MGF nem chateia muito".

Não venho para aqui defender a Medicina Geral e Familiar, ou sequer a medicina. Nem é preciso. Só quero partilhar, tanto quanto possível, a sensação que fica depois de um dia de trabalho como este. Valha-me o sorriso do senhor que, apesar do seu cancro, me diz obrigado e boa semana. Valha-me conhecer uma filha que luta com tudo o que tem e o que não tem pelo conforto da sua mãe que já não tem como se defender e me pede desculpa porque ocupei toda a minha hora de almoço a ouvi-la. Valha-me a sensação de que posso ter contribuído minimamente para ajudar uma pessoa cuja vida está no fio da navalha. Mas valham-me também os idiotas, para eu nunca me esquecer, nem por um dia, que os humanos são o trigo e o joio, a paz e a guerra, os médicos sem fronteiras e o genocídio. Somos o bem e o mal, somos o génio e a besta, somos por vezes, para nós mesmos, o tudo e o nada.

Tuesday, 15 January 2013

Pensamento

Desde há muito tenho um caderno guardado para escrever. Foi-me oferecido e imediatamente decidi que só escreveria lá algo que valesse a pena. Passou-me pela cabeça escrever lá esboços de histórias que invento, citações de outros que julgasse de interesse para mim, coisas que não quisesse nunca esquecer. É um caderno que gosto muito, como objecto e como objectivo. Talvez seja esse o motivo de tanta hesitação quanto ao que fazer com ele. Talvez seja mais por eu ser como sou, e nunca achar que é desta que tenho a ideia certa para o começar, ou nunca achar que estou no momento certo para começar a escrever, ou então achar mas não ter a certeza e precisar de ter a certeza.

Assim chego ao dia em que finalmente, depois de muito tempo, me apeteceu escrever no bloco. Não tenho o pensamento perfeito, nem sequer um novo, mas tenho vontade. Fui buscar o bloco e deparei-me com um novo problema. Perdi a caneta com que queria iniciar a escrita no bloco. Ela sempre esteve aqui, já a usei para muita coisa, mas hoje não a consigo encontrar. Na minha ânsia de inaugurar o bloco, procurei debaixo da cama, dos tapetes, arredei móveis, usei a lanterna, esvaziei gavetas. Nada. A caneta desapareceu, talvez escondida pelos gatos, talvez levada por alguém que precisou de uma. Afinal, a caneta sempre esteve por aí pela casa, disponível. Menos agora.
Fui buscar outra caneta. Finjo que tem o mesmo significado que a outra e que não tem problema. Depois constato que isto não é verdade. Tento associar a inauguração do bloco à de uma caneta nova, guardada numa caixa bonita que alguém me ofereceu em tempos. É mentira. Nenhuma caneta tem o significado daquela. Talvez nem aquela. A verdade é que talvez ainda não tenha ultrapassado o primeiro problema, talvez ainda não esteja convencido que deva começar a escrever no meu bloco. Mas não passa de hoje. Vou escrever agora mesmo. Mal pare de escrever aqui. Porque raio vim eu escrever para o blog num momento destes, em que devia estar a escrever no bloco?

Hesitações. A vida é uma mistura de oportunidades, ideias, meios e motivação. Eu sempre tive a caneta, o pensamento, o bloco. Agora que pensei que tinha a motivação, perder a caneta fez-me pensar que desperdicei muitas oportunidades.


De escrever no bloco? Também. Culpa minha? Tantas vezes quantas tive o controlo da minha motivação, da minha força de vontade e da minha autoconfiança. Alguma vez? Não sei.

Um gato está a miar, deve querer comida.