Monday, 5 May 2014

É a bida, Bidarra

Não tenho por hábito escrever respostas directas a coisas destas, em especial quando não me são dirigidas, mas às vezes não consigo evitar. Um Sr. Pedro Bidarra publicou há dias um texto no Dinheiro Vivo que foi de uma falta de senso que me recorda alguns esforços dos Henriques no Expresso.

Em referência a uma crónica do Rui Tavares no Público sobre a "mesmocracia", começa por dizer que lhe parece que a inovação e a criatividade estão há muito na clandestinidade, no que toca a Portugal. Pergunto-me onde foi buscar esta ideia. Um país que há meio século era um buraco e conseguiu não só escapar da ditadura como aproximar-se de países que tinham décadas de desenvolvimento de vantagem, unir-se a eles na união europeia, competir com eles a nível de alguns produtos, a nível científico, a nível cultural. Um país onde até a nível de legislação se inova, sendo dos pioneiros na abordagem de coisas como a redução de riscos na toxicodependência ou na igualdade de género. Bem, fica por explicar.
Segue para uma citação mal amanhada para nos informar que somos um país com uma enorme quantidade de imbecis. "Parece-me mesmo que, para se chegar à elite, é precisa uma razoável dose de imbecilidade, ou seja, de pensamento convencional, de saber fazer o que sempre se fez, de falar como sempre se falou, de pensar o que sempre se pensou." Então que elites serão estas, tão mais imbecis que as dos restantes países? E justificação para esta classificação, nem vê-la, a não ser que o próprio texto seja amostra que chegue.
Calma que o Pedro Bidarra afinal dá exemplos. Passando ao lado dos empresários e capitalistas, identifica as direcções das TV como imbecis por exemplo por terem todos programas de comentário desportivo semelhantes. "Diz ele que todos a fazer o mesmo à espera de resultados diferentes. Imbecilidade, lá está." Alguém informe o senhor que se enganou. Eles não estão à espera de resultados diferentes. Eles estão todos, aliás, a trabalhar para o mesmo, numa guerra de audiências em que o que não faz o programa perde. Vão mudando as pessoas, o moderador, o formato, o cenário, mas se não houver o grupo de representantes dos "três grandes" a discutir à bruta a maioria muda de canal para o programa do costume, não será?
"A cultura, por exemplo, está cheia de imbecis muito eruditos: gente que sabe tudo o que se fez e por isso insiste em fazer, premiar e aplaudir o que se faz como sempre se fez." Não sendo eu conhecedor que chegue da cultura portuguesa para poder avalia-la como merece, basta-me lembrar esta excelência que temos tido prémios literários a autores estreantes e desempregados, temos vozes novas originais como o Gonçalo M. Tavares ou o Afonso Cruz a fazer sucesso e a serem reconhecidos pelos parceiros da cultura, ao mesmo tempo que somos reconhecidos lá fora por gente como o Saramago. A nossa actividade cultural tem muito que andar? Tem. Agora diminui-la a um conjunto de imbecis que se repetem a si próprios é sinal de pura ignorância.
"E estão no povo que, desde há 40 anos, alternadamente vota PS e PSD e espera resultados diferentes." Sinto que foi aqui, quase no fim, que a mensagem do texto se revelou. Mas será que os portugueses são mesmo imbecis? Será só uma imbecilidade que os impele a votar ciclicamente nos mesmos dois partidos? Ou serão outras questões, por demais complexas para serem cuspidas num texto escrito em cima do joelho à sexta-feira?
Afinal não. Afinal voltamos ao tema do título e é aqui que está o fulcro da questão: o Bidarra quer gozar com o Rui Tavares. No final do texto o Pedro Bidarra informa-nos que o Rui Tavares perdeu a virgindade, porque, tal qual adolescente, descobriu a vida real, descobriu que os portugueses políticos e mediáticos (que antes eram imbecis) não ligam nada às europeias que, segundo o próprio, são aquilo que o Rui Tavares e o LIVRE, pelo qual é candidato, precisam para existir. Não percebeu, quiçá, que o problema é muito maior que o Rui Tavares não ser eleito ou o LIVRE ter que esperar pelo próximo acto eleitoral para ganhar notoriedade ou implantação no eleitorado. O problema aqui, goste-se ou não das ideias do Rui Tavares, é que nisto ele tem mesmo razão: a falta de atenção às europeias é que é a verdadeira imbecilidade. Porque os políticos e os media sabem muito bem a importância do que se vai decidir agora para todos nós, só que têm neste momento outros interesses e não estão minimamente preocupados em fazer "serviço público". Complementa este gozo com uma critica ao LIVRE. Pergunta o Bidarra se o dito partido não será mais do mesmo. Mas depois diz que o LIVRE "ainda não lhe chegou".
"Talvez porque os seus gestos e propostas sejam o mesmo de sempre. Talvez porque falem para os mesmos de sempre. Ou talvez porque a sua maneira de comunicar seja a mesma de sempre: convencional e imbecil – no sentido einsteiniano, claro." Ora, notam-se aqui duas coisas que finalmente são de facto importantes em toda esta imbecilidade. A primeira é que este senhor acaba de demonstrar que não sabe mesmo nada do LIVRE, se acha que o partido que organizou as primeiras primárias abertas de Portugal e que permite o acesso a processos de decisão política a apoiantes não membros não está a fazer nada de diferente. A segunda é que este senhor demonstra aqui mais uma imbecilidade, esta sim, que talvez se relacione com tudo o resto: a passividade. Se calhar é por este senhor (e tantos outros em Portugal) ser tão passivo que desconhece o que se passa de inovador no nosso país, na nossa cultura e até mesmo no LIVRE. Enquanto continuarmos com esta mania de que as coisas têm que chegar a nós, mesmo aquelas que são do nosso interesse (como é o caso dos agentes políticos), não vamos sair da "mesmocracia".

Saturday, 3 May 2014

Manifesto

Como aqueles que me conhecem e os que seguem este blog ou a minha presença nas redes sociais sabem, a minha preocupação política tem vindo em constante crescendo, tanto ao nível do que sigo (na TV, na rádio, na net) como ao nível do que comento. Apesar disso, até recentemente, nunca senti a proximidade necessária a um partido específico para me tornar seu militante. Esta situação mudou com o aparecimento do LIVRE. São três as principais razões que causam esta mudança e que decidi partilhar com quem lê este espaço, não só porque gosto de ser claro quando apoio um projecto, como porque talvez se tornem motivos para vocês mesmos irem conhecê-lo.

Aquilo que primeiro me chamou à atenção no LIVRE foi a sua organização e política interna. Um partido não abraça verdadeiramente a transparência e a colaboração com a sociedade civil se o seu próprio funcionamento for fechado, obtuso ou feito em bastidores. O LIVRE tornou-se diferente logo à partida, ao tornar públicas as suas reuniões e processos de deliberação política, mas também ao permitir a participação na sua elaboração de apoiantes. Sendo assim, aqueles que se identifiquem com o partido, ainda que não membros, podem participar em tudo excepto na votação daquilo que diz respeito aos regulamentos internos do LIVRE. Pude sentir o efeito extraordinário deste aparente detalhe no congresso fundador, onde gente não militante, como eu próprio, puderam ajudar a definir politicamente o caminho do partido, de certa forma fazendo-o e, por isso mesmo, criando uma estrutura na qual pudessem votar mais tarde. O outro pilar desta questão é a existência de primárias abertas. Entretanto já realizadas, é para mim incomparavelmente melhor ver uma lista que foi construída de raiz por membros, apoiantes e independentes que se candidataram e foram submetidos a sufrágio, do que vê-la aparecer criada pela direcção do partido. Isto não só porque é um passo para afastar a política do controlo dos aparelhos partidários e dos interesses e troca de favores, mas também porque se torna mais transparente e mais ao gosto não do líder ou da direcção mas daqueles que de facto pretendem mais tarde elege-los para seus representantes.

Por outro lado tenho obrigatoriamente que falar de ideologia política. Só um partido progressista e de esquerda me poderia convencer, a minha visão do que quero para a civilização humana não se coaduna com conservadorismos nem com a direita. Aquilo que o LIVRE me traz, para além de se localizar "no meio da esquerda" onde frequentemente eu próprio me sinto, é uma atitude diferente de base. Assume-se como ecologista e europeísta, tanto como progressista e esquerdista. Isto é importante para mim porque permite ter confiança nos pilares base do partido, saber que a ideia de sociedade que estes pilares implicam se sobrepõe bastante à a minha. Por um lado, porque não me interessa a ecologia como principio único do partido, interessa-me, como aliás se discutiu no congresso fundador, que todas as medidas, sejam em que área for, passem por uma consideração de efeito a nível ambiental - não faz sentido deixar a ecologia como um nicho onde se vai comprar apoios com meia-dúzia de medidas que "lhes interessem", a ecologia tem que ser um princípio geral. O europeísmo aqui é importante a dois níveis: a vontade de progredir na União Europeia e a vontade de a mudar. A vontade de aumentar a integração europeia coaduna-se com a minha opinião de que só se poderá ter uma política socialista de longo prazo quando ela for obtida no máximo de locais possível. Não vejo futuro no isolamento nem em rodearmo-nos de uma Europa capitalista e neoliberal. A vontade de mudar a UE é uma necessidade que é hoje óbvia pelo menos para os países atingidos pelos troikismos recentes. Precisamos de uma UE mais democrática, mais dependente do voto do cidadão e com responsabilização perante este, de forma a fugirmos à tendência para criar uma simples máquina burocrática que dê seguimento aos decretos dos países mais poderosos da união, como tem ocorrido até agora e em especial agora.

O terceiro ponto que me atrai no LIVRE é a sua vontade de convergir. Estou farto de uma esquerda partida em bocados que lutam tanto para ser a "verdadeira esquerda" ou a "esquerda realista" que se deixam constantemente rodear por uma direita que tem tido, admita-se, mais vontade de se entender ou pelo menos menos pruridos em deixar cair algumas das suas ideias para poder governar. Se a esquerda portuguesa não mudar, vai continuar a defender as coisas certas mas sempre na oposição, lutando tanto com a direita como entre os seus vários sub-grupos. Podemos aqui, claro, ponderar onde recai a responsabilidade deste sectarismo. Na história? Será ela tão intransponível? No PS, que com medo de perder a sua aparência de realismo, de "arco da governabilidade", de "centrão", raramente se entende à esquerda (às vezes nem com a esquerda interna)? No PCP e no BE, que vivem no parlamento a definir-se como a "verdadeira esquerda" por oposição ao PS e prontamente o empurram para esse mesmo "centrão" do qual o acusam diariamente? Será que se deve a uma tão forte ligação à sua ideologia, que nenhum grupo está capaz de ceder numa coisa que seja para conseguir arrastar a governação portuguesa para a esquerda, mesmo que não seja exactamente para a esquerda que sonham? O LIVRE, por estar no meio da esquerda mas essencialmente por assumir esse princípio de querer procurar entendimentos com outros partidos, pode ser uma ponte ou até uma força em si mesmo para gerar este governo. Seja em coligação com o PS, que tem tido a maioria dos votos da ala esquerda do parlamento, seja com o BE, ou até mesmo com ambos, há aqui o potencial de ultrapassar diferenças e governar Portugal, talvez não exactamente de acordo com os princípios de cada partido, mas decerto muito mais próximos disso do que em qualquer legislatura anterior.

Foi isto que me chamou ao LIVRE, e foi por isto que me fiz apoiante. Mais tarde, foi por isto, pelo encorajamento de alguns membros e por achar que tinha algo a oferecer que me candidatei às primárias para as eleições europeias. Olhando para trás, é com orgulho que digo que participei nas primeiras primárias abertas da nossa democracia e que trouxe ideias próprias para actuação no Parlamento Europeu, minhas, diferentes das de outros candidatos mas de acordo, claramente, com os princípios gerais e o programa aprovado pelo partido para as europeias. Perdi as eleições, no sentido em que não faço parte da lista, mas ganhei, não só pela participação mas também porque algumas das pessoas de que apoiei durante o processo das primárias acabaram eleitas e até mesmo no top 6. O resultado das primárias está à vista, os seis mais votados incluem um eurodeputado e gente que nunca teve cargos políticos, membros e independentes, gente que vive cá e gente que emigrou, candidatos que se revêem nos verdes europeus e candidatos que se revêem nos socialistas europeus. Se antes queria votar por gostar do partido e do seu programa, agora quero votar LIVRE também por conhecer os seus candidatos e ter ajudado a fazer deles candidatos, por querer algumas destas pessoas a representar Portugal no PE.

Resta-me, por fim, abordar uma última questão. Se o partido me convenceu de tal forma, porque sou apenas apoiante? Porque não me fiz membro oficial do LIVRE? Inicialmente, pela minha reticência em ser "militante" de uma estrutura que não depende do meu controlo mas que ficará associada a mim eternamente. Talvez também por alguma reticência em ser considerado "político". Talvez ainda por o projecto ser tão recente que não é fácil entregar-me a ele de tal forma.
Mas agora? Porque ainda não sou membro do LIVRE? Porque estou à espera da oficialização. Estou a tratar disso, porque, ultrapassadas as reticências acima, quero não só ajudar construir o LIVRE como obrigar-me a ser responsável por ele, na medida em que qualquer membro o é.

Convido-vos a visitar o LIVRE, a conhecer os documentos, os princípios, a organização, o programa político para as europeias. E, se concordarem, juntem-se a mim.

Friday, 25 April 2014

25 de Abril

Hoje celebra-se o dia em que soubemos procurar o Portugal que queríamos, o dia em que passamos a poder lutar activamente pelo Portugal que queremos sem medo de censuras ou represálias, o dia em que caíram os poderosos, substituídos por quem soube dar o poder à democracia. Que nunca o esqueçamos, que nunca caiamos no erro de sequer pensar que não estamos melhor mas também que nunca fiquemos convencidos que a luta terminou. O facto de podermos falar nisto mostra que estamos infinitamente melhor do que antes, mas o facto de ainda confundirmos a liberdade democrática com tantos outros desejos que temos para o país mostra que ainda não alcançámos essa civilização com que sonhámos e ainda sonhamos.

A luta continua, mas hoje, celebre-se a liberdade e critique-se a falta de transparência, a falta de abertura, as meias verdades, as inverdades e o newspeak - os tiques autoritários que nos lembram tão bem o valor do 25 de Abril.


Carnation by Kondratij

Thursday, 17 April 2014

Cenas (10)

Começo por partilhar um artigo do NYTimes que me trouxe de volta um tema a que há muito não me dedico, a redução do habitual horário semanal de trabalho. Há alguma evidência de que semanas menos lotadas de trabalho para cada indivíduo levaria a libertação de postos de trabalho, redistribuição de dinheiro e até benefícios ambientais. Algo a pensar, até mesmo ou talvez principalmente considerando a melhoria potencial da qualidade de vida de cada indivíduo trabalhador. 

Segue-se um post da Ana Matos Pires no Jugular que vos convido a visitar sem mais comentários porque de facto "lê-se e não se acredita".

Por fim, uma imagem do Atlas of Prejudice, que deve dar que pensar numa altura em que se preparam as eleições para o parlamento europeu e em que o nosso fenomenal primeiro-ministro parece concordar com a tese da divisão europeia entre os que pagam e os que gastam feita pela crise das dívidas soberanas.


Saturday, 12 April 2014

Homeopatia

Como funciona a homeopatia? A resposta definitiva está aqui. Não tenho mais nada a acrescentar.

Governação a dois tempos


É inacreditável como ainda não aprendemos. Os meios de comunicação social continuam a colaborar com o governo na sua estratégia de modular a reacção dos portugueses às medidas que tomam.

Pela enésima vez, tivemos comentadores profissionais e "fugas" de informação que previam cortes de um determinado número de milhares ou milhões ou milhares de milhões de euros e depois o governo avisa que o corte vai ser inferior. Claro, a comunicação social abre os telejornais e enche as primeiras páginas com a notícia: "afinal os cortes não vão ser tão maus". E assim, gerindo as expectativas, o governo consegue sempre dar um ar de benevolente a cada momento de "ajustamento" orçamental, sejam lá quem forem os prejudicados desta feita. Só nos falta agora a última fase, os comentadores habituais terminarão o assunto mostrando-se contentes por estar enganados, comentando como o esforço hercúleo do governo ou os efeitos da confiança dos mercados e dos parceiros e dos credores estão a permitir um processo de ajustamento muito "menos mau" do que poderia ter sido. Daqui a pouco começarão novamente a trazer informações privilegiadas sobre uma outra medida terrível, uma nova obrigação de austeridade, um valor astronómico assustador de cortes. Talvez desta vez esperem para depois das eleições, a ver se chegamos ao acto eleitoral com a temática do possível aumento do salário mínimo, para ver se os partidos da coligação perdem menos votos.

Entretanto, o país continua a estar melhor (medíocre) apesar das pessoas estarem pior (miseráveis). É uma tristeza enorme pensar que estamos prestes a comemorar o aniversário da revolução que nos trouxe à democracia com o governo mais orwelliano que tivemos desde então.

Tuesday, 1 April 2014

No dia das mentiras, nada como apelar à memória

Para celebrar o dia das mentiras, decidi ir revisitar um texto que escrevi como reacção à formação do nosso actual Governo, na sua apresentação original. Na altura, talvez acicatado pela revolta em relação à eleição "desta gente" (para usar a linguagem corrente), talvez pelo desespero de saber o quão mal seriam os anos seguintes, decidi tentar analisar escolhas para cada cargo do "mais pequeno governo de sempre". Claro que não acertei em tudo, mas é no mínimo engraçado pensar que isto foi escrito no facebook antes de tudo o que aconteceu desde Junho de 2011. Divirtam-se:


XIX Governo Constitucional de Portugal

18 June 2011 

"Abre-se o pano, ligam-se as luzes, senhores e senhoras: as bestas estão finalmente à vista desarmada.
Se quanto ao PM não há dúvidas, o governo que a direita nos cozinhou tem algumas surpresas nas quais vale bem a pena atentar.

O co-governador, Paulo Portas, lá conseguiu ser Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, onde tem a visibilidade nacional e internacional que suporta o seu ego e a pasta que, segundo a comunicação social, ele preferia. Ele estará satisfeito, mas estaremos nós? Quereremos nós um homem da direita conservadora a opinar por Portugal la fora? Será que a maioria de facto concorda com a visão de Portas? Lembro que as eleições já passaram e que ele não está na pasta onde poderia continuar os seus discursos populistas sobre os "pobres agricultores". Eu sei que não. Mas cá estarei, atento.

Daqui para a pasta em voga, o Ministério das Finanças. Quem teremos a substituir Teixeira dos Santos? Vítor Gaspar é um conhecido "europeísta", já tendo trabalhado com o BCE, tendo representado o Ministro das Finanças na altura do Tratado de Maastricht e mais recentemente tendo pertencido à BEPA. É um homem decerto informado, com bagagem para uma pasta destas, mas sabendo o que foi dito e de acordo com o discurso do PM, não me parece que fará muito mais do que abanar a cabeça às ordens do FMI-BCE tanto quanto possível, feito brinquedo na traseira de um carro com a suspensão demasiado laxa. Veremos se não leva as "políticas de austeridade" ao extremo, naquele exagero megalómano típico dos portugueses, que têm a mania que conseguem ser fenomenais e imbatíveis mas só nas coisas mais estranhas.

Por falar em austeridade, mais um apoiante destas políticas foi incluído no governo e claro, na pasta da Economia e do (Des)emprego. Uma leitura na diagonal do seu blog dá a ideia de um reformista acérrimo, mas aparentemente não tão cego em relação ao debate empréstimo do FMI / reestruturação como as gentes dos partidos eleitos. No entanto, pelo comentário que fez em relação aos efeitos do plano do FMI nos próximos anos, não me parece que vá fazer muito mais do que o que eles mandam e tentar, tal como o PM, ser o bom aluno da Europa, a planear défices 0 para 2016 com o Gaspar independentemente do que isso implique para a economia e o emprego nacionais (afinal, a sua pasta).

Já que comento o desemprego que aí vem, porque não falar também da agricultura, mar, território e ambiente? Porque Assunção Cristas, licenciada em Direito, dá a sensação de ter sido eleita como tacho para o CDS e não me parece vir a ter muito a dizer na orientação das áreas que o seu ministério se propõe regular e pode ser tão somente uma marioneta do Paulo Portas. O futuro o dirá e espero que me surpreenda.

A única outra mulher a integrar os altos cargos deste governo será Paula Teixeira da Cruz. Não a conheço bem o suficiente para prever o que fará no Ministério da Justiça, mas pelo menos neste caso a formação em Direito e o percurso no Conselho Superior da Magistratura, Conselho Geral da Ordem dos Advogados e no Conselho Superior do Ministério Público fazem sentido. Espero comentários de alguém mais informado do que eu sobre tal pessoa, cujos discursos na comunicação social nunca me pareceram valer a pena ouvir até ao final ou recordar. Resta alguma, mas pouca, esperança.

Há três tachos muito previsíveis de que vale a pena falar em conjunto: José Pedro Aguiar-Branco na Defesa Nacional, Miguel Relvas nos Assuntos Parlamentares e Miguel Macedo na Administração interna. Podiam estar aqui como noutro sítio qualquer, mas tinham que aparecer e cá estão. A medir pelos discursos que lhes conheço, serão do pior que pode haver e pouca diferença faria trocá-los de pasta. Medo? Muito medo.

Tacho por tacho, lembrar o do nascido e criado na JP, cuja formação em direito e legislação laboral o terá preparado muito bem para assumir um dos mais difíceis cargos governamentais nos próximos anos, a Solidariedade e Segurança Social. Talvez tenha sido por ter pertencido à Comissão de Saúde e Toxicodependência que se lembraram dele, talvez não. Alguém da direita conservadora nos assuntos sociais não augura nada de bom para os portugueses, mas sejamos honestos, se fosse um jotinha do neoliberalismo travestido de social democracia seria melhor? Provavelmente não. É o parente pobre, cada vez mais pobre do estado português.

Por falar em cada vez mais pobre, falemos da saúde. Aqui está uma área da qual sei falar não só mas também por que lhe pertenço por formação académica e actual emprego. Por esta altura já todos saberão que Paulo Macedo é vice-presidente do conselho de administração de várias empresas do grupo BCP, incluindo, claro, a Médis. Sabendo isto, sabendo que é formado em organização e gestão de empresas e sabendo o que Pedro Passos Coelho planeia para a Saúde, concluir que vem aí desastre é fácil. É provável não só o corte nas despesas da saúde que acontece até por imposição externa, mas parece agora que ele será cego, matemático, ignorante do que significa o serviço nacional de saúde e das necessidades dos portugueses. É também provável que, ao mesmo tempo que se dá os passos necessários para oferecer a saúde deste país de bandeja ao sector privado, se inicie o processo de permitir a formação em medicina nas universidades privadas. A medir pelo resultado da abertura de outros cursos no ensino privado como são bons exemplos a enfermagem, a psicologia e até a medicina dentária, não só não haverá garante de formação de qualidade como não haverá controlo de vagas, pelo que a medicina ficará no estado em que estão as restantes profissões da área e que é francamente mau, com muito mais formados do que oferta de emprego, com as cunhas a ser critério de escolha acima de qualquer outro e com a fuga dos mais desesperados ou dos insatisfeitos que não se conformem (e bem) para o estrangeiro. E se prevejo piores condições para os médicos e as mesmas ou ainda piores para os restantes trabalhadores desta área, o que dizer do que acontecerá aos utentes do SNS? Serão contabilizados na comentada taxa de sacrifício para "salvar" a pobre economia e perderão a pouca qualidade de vida que ainda tenham, sem grande preocupação dos senhores das finanças que mandam lá no cimo da pirâmide das classes sociais. Faremos os possíveis, enquanto pudermos, mas não serão mantidos bons cuidados de saúde com ainda menos recursos e com um gestor a mandar no ministério.

Nuno Crato, na educação, parece ser o nome em que mais pessoas têm esperança. Será que ele vai por ordem na Educação que tanto tem sido maltratada, tendo que acumular também o Ensino Superior e a Ciência? Tenho mais esperança nele do que tinha em Isabel Alçada? Sim. Mas sabendo que terá poucos recursos e muitas necessidades para malabar, tenho dúvidas. Só posso desejar que Nuno Crato não seja mais um puro burocrata ou populista e se lembre das 3 pastas, não só da educação por estar mais em voga.

Por último, e apesar de não valer ainda a pena falar de Pedro Passos Coelho, é necessário lembrar o seu secretário de estado da Cultura, Francisco José Viegas, outro senhor em quem se tem depositado alguma esperança mas cujo trabalho será mais provavelmente um desespero. Saber de perto as necessidades múltiplas e profundas deste sector, ter vontade para agir e estar permanentemente limitado por ser secretário de alguém que tanto desvaloriza o papel essencial da cultura hoje e sempre não pode ser bom. Boa sorte, para si e para a cultura em Portugal.

Assim se iniciam as próximas festividades, assim continua a luta (não sei com qual alegria), assim se cavam mais uns metros cúbicos de areia na vala comum deste povo à beira-mar plantado. A ver vamos."

Sunday, 23 March 2014

Art (28)



Morocco

Cenas (9)

Esta semana começo por partilhar uma previsão dos resultados das próximas eleições europeias pelo electionista (no twitter em @electionista). Sendo só uma previsão e anterior à campanha eleitoral, é ainda assim interessante verificar que se mantêm os votos nos grupos do costume e que há uma equivalência entre os votos em partidos do EPP e da S&D. É estranho ver isto num momento em que há tanta contestação em vários países não só à condução do projecto europeu nos últimos anos como em particular à austeridade imposta aos países periféricos. Será isto resultado do medo de arriscar dos povos europeus? Do pouco peso da periferia na condução da UE? Será que não querem mudar agora que o PE se vai tornar ainda mais relevante? Se há momento em que seria de esperar uma grande divisão dos votos em direcção aos extremos, sejam os proponentes de uma federação europeia, sejam os eurocépticos, este é o momento. Pode isto, por outro lado, mostrar que os europeus, temendo a sua destruição, queiram manter o equilíbrio que tem conseguido, mal ou bem, gerir o projecto europeu até hoje sem o deixar colapsar?


O que me parece mais provável, no entanto, é que as pessoas não mudem o seu voto porque, em escolhas complicadas, em situações complexas cujo conhecimento profundo lhes escapa, têm tendência em fazer a opção do costume, a fácil, a óbvia. Vem com isto uma sensação de estabilidade, mas também o perigo de nos perdermos por não saber escolher um caminho alternativo.

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No seguimento disto, trago agora um texto do Diogo Moreira no 365 Forte, onde comenta a teimosia do pedido de consenso do Presidente da República. Por coincidência, estou a ouvir agora mesmo o Eixo do Mal, onde o Daniel Oliveira se diz contra o forçoso consenso PSD-PS, pela necessidade de haver uma alternativa capaz de governar caso a actual política falhe. Concordo com os argumentos de ambos. Por um lado, porque as eleições são precisamente um momento em que deve haver discussão, em que se deve contrapor propostas, para que exista - como até o Cavaco disse - verdadeiro debate de ideias. Por outro lado, porque haver um consenso nos partidos ditos da governabilidade (um dia hei-de dedicar-me a criticar esta expressão) pode levar precisamente ao problema que expliquei acima quanto ao parlamento europeu.

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Mudando radicalmente de assunto, partilho uma ferramenta que pode ser interessante para quem queira comprar computadores ou telemóveis: o Ethical Consumer. É um website que avalia as marcas pelo seu respeito pelo ambiente, pelos animais e pelas pessoas, quanto a algumas políticas específicas e ética laboral e ainda pela sustentabilidade dos produtos. Conhecem outras ferramentas semelhantes? Têm experiência com esta?


Sunday, 16 March 2014

Quote / Citação (37)

Aí está o Templo. Visto assim de perto, do plano inferior em que estamos, é uma construção que dá vertigens, uma montanha de pedras sobre pedras, algumas que nenhum poder do mundo pareceria ser capaz de aparelhar, levantar, assentar e ajustar e contudo estão ali, unidas pelo próprio peso, sem argamassa, tão simplesmente como se o mundo fosse todo ele uma construção de armar, até às altíssimas cimalhas que, olhadas de baixo, parecem roçar o céu, como outra e diferente torre de Babel que a protecção de Deus, contudo, não logrará salvar, pois um igual destino a espera, ruína, confusão, sangue derramado, vozes que mil vezes perguntarão, Porquê, imaginando que há uma resposta, e que mais cedo ou mais tarde acabam por calar-se, porque só o silêncio é certo.


José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)

Art (27)



Jewel Wasp

Sunday, 2 March 2014

Saturday, 1 March 2014

Cenas (8)

Não concordando com tudo o que Daniel Oliveira dá a entender nesta crónica, a sua leitura não deixa de ter interesse para a análise do discurso político actual. Por um lado, não se pode comparar a atitude do PS perante a vinda da troika e seu memorando com a do PSD e CDS. Não nos podemos esquecer que o governo socialista tentou evitar este processo (bem ou mal, é outra questão) e foi a oposição dos outros dois, aliados aos restantes partidos da esquerda parlamentar, que levou ao isolamento do dito governo, ao falhanço da estratégia dos PEC (se ia servir para alguma coisa ou não é, mais uma vez, outra questão) que nos obrigou ao pedido de ajuda externa. Mais, foram o PSD e o CDS (aqui já diametralmente opostos à esquerda novamente) que celebraram a vinda da troika e o memorando que seria "o seu programa de governo" e que, uma vez lá chegados, se dispuseram até a "ir mais longe do que o memorando". Por outro lado, tem razão o Daniel Oliveira quando se queixa das "costas-largas" do memorando. Desde que ele passou a ser mau (falei disto noutro post) o governo tenta atirar para a responsabilidade do memorando (que agora diz que é do PS) as medidas mais impopulares. Se há coisa que se evita nesta governação é informar os governados com a honestidade que lhes é devida.

Por falar em honestidade, trago mais um caso em que tem faltado muita. As referências ao Rui Tavares, desde que saiu do BE mas principalmente desde que se dispôs a ajudar a criar um novo partido de esquerda, o LIVRE, têm sido sempre desde exageradas a totalmente falsas. É óbvia a tentativa de descredibilizar aquela que é a pessoa mais conhecida do novo partido, no sentido de impedir a sua implantação, vinda do típico medo do "roubo de votos" à esquerda (que interessa se o partido viria a representar melhor as ideias de alguns portugueses, votantes ou abstencionistas até então). O Rui Tavares responde neste artigo no Jornal i a várias dessas criticas, nomeadamente quanto à sua actividade no Parlamento Europeu. Vale a pena ler com atenção, para evitar "ser levado" pelas tretas de gente com intenções tudo menos francas. De resto, quanto ao LIVRE, do qual o actual porta-voz nem sequer é o Rui Tavares, faça-se uma visita ao site oficial, até porque as várias políticas e metodologias que defende estão lá bem explicitas e é nisso que se deve basear a nossa opinião de um partido, até que nos apresente candidatos específicos a cada eleição.
(disclaimer: eu sou apoiante do LIVRE, ainda não militante nem pertencente a nenhuma organização interna do partido)

Segue-se uma publicação no site do Sindicato Independente dos Médicos, que é apenas uma pequena amostra do que se tem feito ao dia a dia dos médicos, neste caso dos médicos de família, à custa de novos programas informáticos e novos processos de controlo da actividade de prescrição. Desta feita, a referência é à avaliação das prescrições médicas, sendo que, em vez de se avaliar aquilo que cada médico efectivamente leva a gastar a nível de comparticipação de medicamentos e exames auxiliares, passa-se a avaliar aquilo que é prescrito, mesmo que não seja comprado ou feito pelo utente. Ora isto vai sobrestimar os gastos associados à actividade de cada médico (pelos erros informáticos, pelas receitas que os utentes não levantam por esquecimento da validade ou por falta de dinheiro, etc.) sem qualquer benefício para o SNS. Aliás, só traz prejuízo por ser um progresso na cruzada desta governação que pretende culpabilizar o médico, como se ele fosse um ladrão do dinheiro público por prescrever os medicamentos e exames que são parte integrante da actividade clínica, dos cuidados de saúde que a população pretende e para os quais paga os seus impostos. Se isto continua assim, qualquer dia o médico tem que escolher a qual doente trata o colesterol, a qual trata a diabetes, a qual trata a hipertensão, sob pena de, tratando tudo como deve ser, ultrapassar os limites de "gastos" que lhe são impostos. Ou então, numa bela cena de hipocrisia histórica, passar a mandar os doentes pedir as prescrições num médico privado, ao contrário do que se fez em tempos.

Por fim, uma leitura essencial sobre a forma como os regimes democráticos europeus lidam com regiões ou povos com tendências separatistas, com reflexões em relação à forma como se decide da sua independência e da sua pertença ou adesão à União Europeia.
Tinha guardado este texto do Filipe Henriques para o partilhar há alguns dias, mas de repente todo este assunto se tornou ainda mais relevante pela emergência de um novo local onde se vai discutir isto, a Crimeia na Ucrânia, onde, a somar-se à autonomia da região e à quantidade de população de origem russa, temos ainda os interesses estratégicos da própria Rússia, a provável ocupação militar que já está a decorrer, a confusão ao nível da governação central ucraniana, as pressões da UE e dos EUA e a proximidade a outros territórios algo complicados. Já não era simples lidar com os separatistas dentro dos países com democracias relativamente estáveis e dentro da união, vejamos como se porta agora como força geopolítica à escala mundial.