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Saturday, 16 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 - comentário geral

Finalmente consegui contactar com trabalhos de vários autores de língua portuguesa. Era algo que já queria ter feito antes, mas que nunca tive o entusiasmo necessário ou sequer uma oportunidade como esta para o levar a cabo. Os Contos Digitais do Diário de Notícias permitiram-me, de uma forma relativamente simples e gratuita, conhecer a escrita (ou pelo menos um exemplo dela) tanto de autores nos quais já tinha interesse como de outros que desconhecia por completo. Estão todos disponíveis actualmente na biblioteca digital do DN. Infelizmente, se é verdade que não parti com expectativas elevadas, mesmo assim a leitura desiludiu-me. A maioria dos 31 contos foram maus ou medíocres e são mesmo poucos os que recomendo ou que ponderaria reler.

A título de revisão, os contos que gostei e recomendo a quem estiver interessado em ficção curta de qualidade em português são:
- Cidade Líquida de João Tordo (#2), do qual comprei entretanto o livro Anatomia dos Mártires e, se gostar deste, pondero ler também As Três Vidas ou O Livro dos Homens sem Luz;
- A Queda de um Anjo de Afonso Cruz (#7), autor cuja obra já estava interessado em experimentar, comprei A Carne de Deus e tenho em vista ler também A Boneca de Kokoshka;
- A Moeda de Gonçalo M. Tavares (#8), do qual tenho já tinha lido Histórias Falsas e pretendo experimentar a série O Reino;
- Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos de Dulce Maria Cardoso (#11), autora da qual pretendo eventualmente ler O Retorno;
- Monólogo do Oriente de Patrícia Portela (#27), autora que desconhecia por completo e me deixou curioso quanto ao que fará num formato mais longo, a explorar n'O Banquete.

O meu favorito foi sem dúvida A Queda de um Anjo de Afonso Cruz. Foi uma leitura agradável, surpreendente, que resulta bem como um conto e instiga a mente a reflectir. Este, tal como os contos de Dulce Maria Cardoso e Patrícia Portela são textos que eu diria fáceis de gostar e que me parece que qualquer leitor vai encontrar facilmente algo que lhe agrade. Cidade Líquida e A Moeda, por outro lado, são contos que implicam outro esforço, uma certa abertura e mentalização para serem aproveitados ao máximo. A minha opinião do conto de João Tordo melhorou consideravelmente à segunda leitura e, quanto a Gonçalo M. Tavares, parece-me que é típico da sua obra pedir ao leitor que interprete, que leia nas entrelinhas, que faça ele próprio a maior parte do raciocínio que lhe permitirá alcançar toda a mensagem que a história traz e assim sentir-se mesmo satisfeito com a leitura.

Houve outros contos que, não sendo maus, não me conseguiram cativar tanto mas que acredito que possam ser interessantes para alguns leitores, em especial para os fãs dos respectivos autores, como Quartos de Hotel de Inês Pedrosa, Acho que Posso Ajudar de David Machado, A Balada da Vala dos Velhos de J.P. Simões, O Progresso da Humanidade de Rui Cardoso Martins, A Terrível Criatura Sanguinária de Nuno Markl, A Mina do Deus Morto de João Barreiros e Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco de Sérgio Godinho.
Os restantes contos, a meu ver, nem vale a pena experimentar a não ser que haja um especial interesse na obra completa do autor e que a motivação se mantenha mesmo depois de ler alguns comentários já partilhados no Goodreads, seja porque estão francamente mal escritos, seja porque o enredo ou o assunto são absolutamente desinteressantes. Compreendo que este comentário é genérico e algo paternalista, mas por isso mesmo incluí no final do post os links para os meus comentários para quem queira informação mais detalhada.
Uma outra nota que devo fazer é que eu li alguns destes contos em voz alta com uma amiga. Parece-me que isto teve algum impacto na forma como decorreu a sua leitura, não só porque tive imediatamente alguém com quem conversar sobre eles mas mesmo porque ter que ler alto, pronunciar as frases e as palavras e parar para pensar pelo meio alteram mesmo a experiência.

Só recentemente comecei a ler ficção curta, sempre foi algo para o qual tive um certo preconceito, na típica linha: "um conto não chega para desenvolver e aprofundar um tema ao ponto que me interessa". Entretanto, e ainda bem, as minhas leituras provaram que estava redondamente enganado e que consigo mesmo adorar alguns contos e ficar a pensar neles noite dentro. Para isto contribuiu destacadamente um livro ao qual não pude fazer justiça - por falta de tempo e cabeça na altura em que o acabei de ler - com um comentário detalhado aqui no blog: Pequenos Mistérios (The Keyhole Opera) de Bruce Holland Rogers. Aproveito pelo menos para agradecer à Cat que insistiu comigo que eu tinha que ler uma antologia de ficção curta de qualidade e me emprestou o livro, mesmo sabendo que eu vivo com dois gatos loucos. Visitem o blog dela que vale a pena (ela acompanha-me na mania dos posts gigantes o que é óptimo). Voltando ao ponto, quero com isto dizer que apesar da minha parca experiência com ficção curta, parece-me que esta colecção não resultou nem individualmente em muitos casos nem como um conjunto. Desconheço se houve alguma linha editorial, algum pedido específico aos autores ou outro factor deste tipo que tenha influenciado negativamente o resultado final, mas de qualquer forma isto poderia explicar apenas algumas das falhas. De saudar a iniciativa e a participação dos autores que destaquei inicialmente, mais do que o resultado global.

Sendo assim, aqui ficam os links para os posts com os meus comentários conto por conto:
parte 1 (#1 a #5)
parte 2 (#6 a #10)
parte 3 (#11 a #15)
parte 4 (#16 a #20)
parte 5 (#21 a #25)
parte 6 (#26 a #31)

Mais alguém que tenha lido toda a colecção? O que acharam?

Thursday, 14 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (6)

Este é o sexto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

Começo agora pelo conto de Manuel João Vieira, A Princesa do Gelo que é nonsense puro, daquele que nos faz acabar a leitura sem ter percebido rigorosamente nada porque parece não haver mesmo nada para perceber. Não gostei nada do conto e custou-me a acabar porque não tem piada, enredo ou personagem que interesse. Admito que o blurb é bastante bem conseguido e avisa claramente o leitor quanto que está prestes a experimentar. Percebe-se aqui uma brincadeira com a típica história de aventura, só que infelizmente sem análise ou piada que justifiquem dedicar-lhe atenção.

O conto de Patrícia Portela - Monólogo do Oriente - é tão fiel como possível ao seu título: é um monólogo de um homem que acaba por esboçar um possível planeamento duma provável viagem ao Oriente. O homem fala, fala, fala sem parar, sempre a saltar de uma decisão para outra, à medida que pondera quais as preparações necessárias para levar cada plano a cabo. Faz lembrar um pródromo de uma crise de ansiedade, em que a mente da pessoa parece voar de problema em problema, de questiúncula em questiúncula, do futuro incerto para o passado que correu mal ou para a insatisfação com o presente, do planeamento de uma tarefa para a auto-comiseração em bola de neve a descer a montanha.
O discurso chama à atenção do leitor não só porque lembra aquela típica hesitação e exagero de preocupação que costumam fazer com que as ideias morram na praia, mas também porque simultâneamente evita o melodrama e acaba por ter mesmo piada em alguns momentos.
O ponto negativo foi somente o final que, embora expectável, me pareceu de certa forma demasiado anti-climático para uma leitura de resto tão engraçada e com mais potencial.
Pondero ler mais de Patrícia Portela no futuro, dependendo da temática a que se dedica nas suas outras obras.

Segue-se O Fim da Dívida de Nuno Costa Santos. Tal como o título indica, este conto fala de dívida e tudo nele parece ser intencionalmente construído para ser uma brincadeira séria com a dita dívida e decorrente situação portuguesa nos últimos anos. Infelizmente a passagem da ideia à prática não correu bem e o texto acaba por ser pouco estimulante e completamente desinteressante.

Numa óbvia crítica à sociedade actual, em que se vive de aparências mesmo com a crise a obrigar grande parte das pessoas a mudar completamente as suas vidas, o conto de Ricardo Adolfo conta-nos a história de dois casais que se escondem em casa enquanto fingem, para si e para os outros, que viajaram para o Brasil de férias. Os miúdos, sempre honestos quando os pais precisam que eles mintam, não colaboram tanto assim e servem de comparação com os adultos que tanto se dobram a este tipo de supostas exigências sociais. Há ainda uma referência ao Fifty Shades of Grey, provavelmente para adicionar à crítica que se faz a este tipo de pessoas, fúteis e idiotas. Se isto parece ter potencial, e se calhar tem, o facto é que o conto em si é absolutamente desinteressante. Em Férias com um Casal Amigo segue-se esta gente, os seus diálogos inconsequentes - sabe-se lá porquê sem letras maiúsculas ou pontos finais - até ao clímax da idiotice, que dá em loucura e que evita uma confrontação que talvez explorasse melhor o tema. Assim, limita-se a ser uma descrição superficial de um par de dias patetas.

O penúltimo conto da colecção é Dama Polaca Voando Em Limusine Preta de Lídia Jorge. Embora haja um aparente interesse em explorar as ideias de preconceito e de reacção ao desconhecido, na prática o conto acaba por ser um aborrecimento. A escrita não é má, em especial comparando com outros contos nesta colecção, mas o esboço de enredo não segura o interesse nem me deixa a pensar em nada e as personagens são irrelevantes.

Os contos digitais DN terminam com uma história da autoria de Sérgio Godinho, Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco. Este conto é uma leitura interessante em que se explora a mente de um carrasco que revê a sua vida no momento em que está prestes a ser submetido à pena de morte. A ironia da vida parece fazer algum sentido na cabeça do homem que vai ligando os pontos e explicando a si mesmo - e ao leitor - como é que tudo levou a esta situação. Não é um conto que me traga especial novidade, mas é sem dúvida uma leitura agradável na qual alguns pensamentos se destacam da narrativa e suscitam uma reflexão sobre o matar e o morrer.


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Saturday, 26 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (5)

Este é o quinto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Cerimónia de João Bonifácio é o discurso de um homem a um agiota e seus capangas com cassetetes - entenda-se aqui a metáfora que aprouver - no momento em que este lhe tira os seus últimos bens. O homem fala da morte da mãe, da morte do pai, das chatices com a família e com a ex-família, da sua vida, frequentemente em relação a uma mesma música, que no fim se revela ser o mote para tamanha indignação e imparável discurso. Se por um lado é interessante esta forma de contar a história, com um narrador desesperado a falar sem parar na tentativa de convencer alguém insensível das suas necessidades, por outro também se torna cansativo porque o autor conta tudo o resto - o contexto, o passado pessoal do narrador e por aí fora - dentro de parêntesis. Ora parêntesis enormes no meio de um texto com frases de si enormes não gera uma boa experiência de leitura, não me faz empatizar com o homem, com a sua depressão, com a sua insónia, com o seu sofrimento, com as ridículas exigências que lhe fizeram a vida inteira, com o que quer que seja. Contada de outra forma, a ideia deste conto poderia originar uma história muito boa. Assim, não foi mau, mas foi sem dúvida abaixo do seu potencial, confuso e, dez minutos depois de acabar a leitura, pouco relevante.

No Muro é uma história que inclui duas ideias muito boas. A primeira é a do indivíduo que descobre a biblioteca que o pai lhe deixou e, embora inicialmente impelido a explorá-la em busca de dinheiro, acaba por decidir folhear os livros para contactar com as histórias que, no fundo e em conjunto, representam um pouco do seu pai. A outra é a sua decisão de a preservar no muro, livro por livro em cada tijolo, muro este que depois testemunha, de forma engraçada e até irónica, uma série de eventos, uns corriqueiros e outros longe disso. Infelizmente, ideias interessantes não fazem uma boa obra nem chegam para tornar a experiência de leitura agradável e David Soares falhou em tudo o resto. Por um lado temos a necessidade de demonstrar o seu conhecimento extenso do vocabulário não corrente, sem um texto interessante ao ponto de me fazer querer ir procurar os significados das palavras que desconhecia de todo. Por outro, e no seguimento desta ideia, temos um narrador que é quase uma outra personagem de tão diferente que é da personagem principal. A personagem nunca leu nada, falta-lhe a cultura e a inteligência, o narrador faz comentários e análises elaborados que se tornam estranhos, principalmente quando imediatamente apostos aos pensamentos do indivíduo. A leitura soa instantaneamente a uma mistura entre uma história e uma explicação do autor. Metáforas e comparações sobre-explicadas como a do faroleiro contribuem para esta sensação. Também não é compreensível que um indivíduo que tão recentemente se habituou a folhear os livros para estar mais próximo ou para conhecer melhor o pai (ou qualquer que seja o motivo) decida com tanta facilidade enfiá-los todos num muro onde jamais lhes poderá pegar.
Se escrito de outra forma, este conto poderia ter sido dos meus favoritos da colecção. Sendo assim, resta-me ter esperança de gostar mais da próxima obra de David Soares que vou ler, A Conspiração dos Antepassados, livro que comprei há uns anos mas que ainda não tive entusiasmo para começar.

Segue-se O Filho Do Pai Manel de Pedro Santo. Tenho alguma dificuldade em comentar este conto. Não porque esteja mal escrito - há muito piores nesta colecção - nem porque me tenha irritado especialmente - mais uma vez há outros que o conseguiram com incomparável eficácia. O problema deste conto é a sua inutilidade. A história não passa do que nos é dito na descrição, da vida de um homem entre os dois destinos que o pai lhe vaticinou e que na verdade nunca consegue alcançar realmente os seus objectivos nem cumprir destinos até ao final. Infelizmente isto não chegou para me despertar interesse no desfecho, na personagem, no que quer que fosse.

Jean-Charles, Amor de Calções de Onésimo Teotónio de Almeida é a colecção dos e-mails trocados entre um homem a escrever uma tese de mestrado na área da literatura e o seu orientador. Enquanto o orientador tenta que o aluno mantenha a sua concentração, abandone a sua obsessão por estar sempre a estudar mais e mais fundamentação teórica e finalmente escreva a tese, o aluno tenta convencer o orientador a escrever um conto. Nesse sentido vai-lhe pedindo para contar várias histórias do filho, um rapaz engraçado com hábito de ter sempre a resposta na ponta da língua, honesta, irónica e de certa forma desarmante. No meio destas conversas acabamos por ler várias histórias do rapaz que por vezes são realmente engraçadas e outras tantas são cliché do miúdo argumentativo precoce. Há ainda tempo para discutir um pouco o conceito de conto, os requisitos mínimos, o que é importante e o que é desnecessário ou irrelevante, uma discussão interessante mas que preferia ter lido noutro contexto. A nível da escrita tem apenas um defeito, talvez apenas uma questão pessoal, que é o facto das personagens porem constantemente a palavra em inglês do que estão a tentar dizer em português entre parêntesis. Mesmo quando já discutiram antes essa mesma tradução. Percebo a ideia, mas num pequeno conto torna-se cansativo e inconsequente excepto na quebra da fluidez da leitura. De resto a história em si não me trouxe especial mensagem nem fiquei com vontade de ler mais seja destas personagens (excepto talvez o Jean-Charles) seja do autor, a não ser que a temática em si me conquiste a priori.

O conto de Mário Zambujal - Um Velório Alegre - consiste no depoimento de um senhor ao inspector. O depoente fala tanto que o inspector não chega a ter que perguntar nada. Seguimos a história toda do que lhe aconteceu, cheia de rodeios e mal-entendidos, e no fim o conto acaba, sem nós percebermos exactamente o que se concluiu com a investigação, ou sequer com o conto em si. A escrita e o humor não estão mal, mas também não são uma maravilha que justifique por si só a leitura. No entanto talvez experimentasse ler outra obra do autor.


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Saturday, 19 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (4)

Este é o quarto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Balada da Vala dos Velhos é um conto em forma de carta de um senhor de 78 anos que está prestes a morrer por eutanásia dirigida a um director de um jornal contando o último episódio relevante da sua vida. J.P. Simões aproveita o mote para comentar várias situações da actualidade, fazendo crítica social e política, nomeadamente quanto à forma como as pessoas abandonam os seus velhos, ou a forma como são tratados em muitos lares, à antiga medicina paternalista, aos sucessivos governantes que nunca querem realmente mudar um sistema de si injusto, à classe média seduzida pelos empréstimos fáceis, e por aí fora. Tudo isto enquanto nos conta o que um amigo seu decidiu criar, no final da sua vida, no fundo em resposta a parte destes problemas e por outro lado lembrando que a idade não implica inactividade, nem física, mas muito menos mental.
É uma carta bem escrita, num tom credível de um homem algo farto do mundo em que viveu, de todas as coisas que vê mal resolvidas ou agravadas depois de tantos anos. Não é tanto um "Velho do Restelo" ou um pessimista, como alguém que percebe que a solução existe mas que não é pensada ou aplicada, seja intencionalmente seja por puro desinteresse. Há no entanto momentos em que a crítica é tão literal que parece que o autor está a mandar recados directos ao leitor, algo que nem sempre me pareceu estar bem integrado na carta prejudicando, por isso, o ritmo e sensação da leitura.

Rui Cardoso Martins traz-nos, em O Progresso da Humanidade, uma investigação policial da morte violenta de um indivíduo, em condições pouco claras, através do bloco de notas /  diário do falecido. Aparentemente era um homem estranho, misterioso, com afiliações com ideais fascistas e que parecia ficar facilmente obcecado com algumas ideias ou situações. A exploração do mistério é engraçada, a intercalação entre a leitura do diário e as conclusões do investigador está bem conseguida, e o final irónico finaliza bem o conto. No entanto não consegui deixar de sentir, constantemente, que estava a ler um esboço de uma história, na qual se explorariam muito mais cada um dos episódios da vida do Oliveira e até o que lhe teria passado pela cabeça, aludindo mais ainda à ideia de progresso da humanidade no geral, e não só naquela que é mais directamente consequente do último episódio da vida do indivíduo. Nunca tinha lido ficção de Rui Cardoso Martins e, embora este conto não me tenha convencido completamente, pondero ler algo mais do autor, noutro formato.

Para quem ouve os programas de rádio do Nuno Markl há algum tempo, um conto cómico não é de todo inesperado. A Terrível Criatura Sanguinária é uma história sobre um autor que é encorajado pelo editor a escrever sobre vampiros ou lobisomens e incluir muita sensualidade, porque é isso que está a vender de momento. O autor notoriamente não tem qualquer interesse nisso, mas por outro lado vê-se entre a espada e a parede e pondera começar por escrever o que o lhe é pedido até estar numa posição em que possa publicar o que quer. De seguida vemos o processo de criação de uma história em que o autor tenta fazer a vontade ao editor sem conseguir fugir às suas ideias, sendo o resultado algo estranho, surpreendente talvez tanto para o autor como para o editor.
Não é um conto para causar gargalhadas a toda o momento, mas não deixa de ser engraçado, fazendo uma crítica não tanto ao que as pessoas gostam mas ao vazio do conceito ou à parte a que nos agarramos naquilo que gostamos, tornando óbvia a sinédoque a que recorremos quando queremos explicar ou justificar porque gostamos de uma coisa ou outra. O importante não era ter sexo e uma criatura que da noite que bebe sangue? Não chega isto para corresponder à metáfora que anda aí desde o Dracula?

A Mina do Deus Morto deixou-me de certa forma com opiniões contraditórias. Por um lado, o começo é estranho, com uma escrita pesada, um texto que dá a sensação de ter sido demasiado planeado, palavra a palavra, tudo adjectivado e comparado à exaustão, com recurso a um linguajar atípico que nos faz quase contar palavras em vez de ler e se torna um entrave à entrada na história. Admito que se reconhece no narrador a voz do João Barreiros e lembrei-me que este conto resultaria bem em formato de audiobook, lido pelo autor. Por outro lado, e ultrapassada esta confusão, A Mina do Deus Morto traz umas ideias interessantes, abordadas superficialmente, desde partículas criadoras de vida e energia quase gratuita como um novo olhar sobre a nossa dependência de certos recursos limitados, à inteligência mecânica e exploração humana em nome da pátria (ou do que seja). Mas o melhor do conto é sem dúvida a descrição da descida dos mineiros às profundezas e o efeito das partículas do deus morto neles. É principalmente este conceito, uma novidade refrescante nestas conversas já gastas, que me deixa com vontade de ler mais do autor, coisa que de qualquer forma já vou fazer dado ter comprado o Lisboa no Ano 2000 – Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu, livro que partilha o mesmo universo ficcional deste conto.

Ninfas e Adamastores de Raquel Ochoa é um conto sobre um emigrante do Magrebe em S. Miguel e a sua família. Não estando mal escrito, também não foi história que me despertasse especial interesse, as personagens não são desenvolvidas ao ponto de nos ligarmos a elas e o enredo é o de "mais uma" novela televisiva. Aliás, só à terceira tentativa consegui ler o conto até ao fim. Há ali a possibilidade de explorar ideias, desde a da situação do imigrante, da interação entre o judeu e os católicos daquelas paragens, a luta contra preconceitos até do sacrifício pela família, mas ou a estrutura e tamanho não o permitiram ou a autora não as escreveu na história como que quereria.


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Tuesday, 8 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (3)

Este é o terceiro post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital

Um conto absolutamente contemporâneo, Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos é aparentemente escrito para o leitor dos dias de hoje, que, sob o manto de referências à internet na nossa vida e à televisão, mesmo as notícias, como distracção dos nossos problemas, trabalha principalmente a nossa expectativa e a forma como reagimos a ela e ao medo da sua violação. Isto visto em relação ao Bangladesh - "When's Bangladesh going to disappear?" - à pesquisa na internet e criação de uma ideia de algo antes de o conhecer - "(...) Podia ser só uma questão de estilo. Mas quis acreditar que não e li como se fosse verdade" - à vontade de criar uma boa primeira impressão e à falta de vontade de arriscar um encontro em condições menos que perfeitas (todas?) - à insegurança em relação a mudanças, à procura de soluções fáceis ainda que superficiais e disfarçadas, à vontade de desistir. É, no fundo, um conto sobre uma pessoa e o que lhe passa pela cabeça no decorrer do seu dia a dia, num equilíbrio entre a vontade de conhecer e o medo do desconhecido, da desilusão e da possibilidade de perda. A contraposição entre os dois psicólogos é também inteligente neste contexto - um referindo-se mais ao abismo vertiginoso do auto-(des)conhecimento e o outro à dor do contraste com os outros, que, superficialmente, como quem vê de fora, nos parecem melhores e nos magoam talvez por tornarem tão claros os defeitos que vemos em nós - e é fechada com chave de ouro com a decisão de controlar os ataques de pânico com químicos que, embora não lhe resolvam a origem do problema, pelo menos não a desiludem com outra tentativa de explicação metafórica das suas emoções.
Identifiquei-me muito com a personagem e claramente gostei muito da leitura, mas continuo com a sensação que esta história tem mais para dar, com uma leitura mais atenta que a minha. Nunca li nada de Dulce Maria Cardoso. Talvez seja altura de começar.

Conheço Pedro Mexia da sua participação no Governo Sombra e de alguns textos da revista Ler, mas Defensor do Vínculo foi o meu primeiro contacto com a sua ficção. Infelizmente, não fiquei bem impressionado. Este conto, sobre o defensor do vínculo que, num processo de pedido de anulação do casamento, tem a função de defender o casamento como instituição, explora a comparação entre o fracasso e a nulidade, no paralelo entre a verdade e a validade, ao mesmo tempo que a personagem tem uma crise de crença na sua própria função. Apesar de haver alguns pormenores engraçados e da visão ridicularizada do casamento como algo que se supõe superior à relação que representa, a prosa não é fluída, com frases longas, expressões e termos incomuns que contribuíram para alguma confusão na primeira leitura. Numa segunda tentativa o conto é melhor, ou pelo menos mais claro, mas ainda assim a prosa não me convenceu nem me deu especial prazer na leitura.
Apesar de tudo gostei da ideia que é explorada e continuo com curiosidade em ler um trabalho de Pedro Mexia noutro formato.

Nunca li nada de Fernando Alvim, embora o conheça dos meios audiovisuais. Amo-te Para Sempre parece ser uma tentativa de explorar a expectativa de um casal, um em relação ao outro, a vontade de mudar pelo outro ou a vontade de ver o outro mudado para corresponder a uma versão idealizada. Acaba recordando o leitor que, para além do problema inerente a levar estas vontades ao extremo, as vontades em si, as ideias, as opiniões, os sentimentos, tudo é efémero e é preciso ter cuidado com decisões e atitudes definitivas, sem retorno, com base neles. Não é uma simples crítica, e até há a personagem à qual o autor permite a mudança, a evolução, talvez por ter percebido que ama a pessoa e afinal não quer que ela seja vazia ao ponto de mudar completamente por vontade de outra. Não é uma ideia nova mas podia ter sido interessante, não fosse a escrita absolutamente contra-produtiva. O narrador não passa de um apresentador de um late night show, a contar a história aos bocados, interrompendo-a com os seus comentários com intenção de ter piada e parecer irreverente e talvez até gozar um pouco com quem quer parecer irreverente. Isto exagerado ao ponto de quase abafar a história e lhe remover a réstia de interesse que poderia ter.

O conto de Possidónio Cachapa - O Homem Que Existia Demais - não me disse mais do que o que se lê no título. O narrador conta alguns episódios da história de Savage Danny, um homem auto-confiante, com uma vida fora do comum e uma atitude na linha do carpe diem. Infelizmente o conto parece, ainda que bem escrito, absolutamente desnecessário. Eu até estou interessado numa história sobre um Savage Danny, mas não uma que serve somente para tentar dar contexto ao título e fica a saber a introdução. Apesar deste não me ter convencido, não está fora de questão ler outro trabalho do autor, talvez num formato diferente.

David Machado traz um conto com um tom mais infantil que os anteriores na colecção, mas nem por isso menos interessante. A história trata de uma rapariga que acha sempre que pode ajudar, seja o problema qual for, e rapidamente recorre à solução que imaginou sem especial ponderação. Acho que posso ajudar é uma breve e superficial referência à falta de análise das situações, à acção imprudente ou negligente e que nos lembra que por vezes mais vale dar um passo atrás que insistir num caminho com constantes danos colaterais. Pondero ler mais trabalhos de David Machado. Deixo uma nota final para as ilustrações de Mafalda Milhões, adequadas à história e ao tom em que é contada, dando-lhe um toque colorido que é muito bem-vindo.


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Wednesday, 2 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (2)

Este é o segundo post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

O sexto conto da colecção - Quartos de Hotel - é da autoria de Inês Pedrosa. O leitor vai espreitando os pensamentos de várias pessoas, uma após outra, conforme entram nos seus quartos de hotel. Inicialmente, a autora não revela o que os motiva a estar ali, não nos oferece contexto para além do que cada personagem vai mostrando, aos poucos. À medida que conhecemos as histórias de cada um, percebemos que todos já se encontraram neste mesmo hotel e estão de volta para mais um congresso. São autores, editores, críticos, organizadores, todos pertencentes à indústria dos livros. Mas neste conto a profissão deles não passa de um bom motivo para se encontrarem. O enfoque aqui é nas pessoas por detrás da profissão. Quem ama para sempre e quem desespera por regressar a paixões antigas, quem não esquece os bons tempos, quem viu a sua carreira destruída, quem quem se sente realizado, quem já olha a morte de frente e já só está disposto a viver se não tiver que sacrificar demasiado do que lhe apetece fazer. É uma narrativa simples mas interessante, bem elaborada e que sem almejar a ser inovadora acaba por ser refrescante excepto naqueles momentos em que há adjectivação estranhamente em demasia ou metáforas demasiado trabalhadas e mal integradas na restante prosa.

A Queda de um Anjo foi até agora o melhor conto da colecção. Afonso Cruz domina não só a arte de escrever como também este formato. A história segue uma mulher que se encontra no paraíso, onde sente falta do seu marido que, assume, terá ido para o inferno. Começa por nos descrever o que vai vendo, enquanto toma a decisão de, dado não lhe trazerem o marido, descer até ao inferno para ir ter com ele. Assim, de seguida é a altura de acompanharmos a sua passagem pelos sete "círculos" do paraíso até à chegada ao R/C, o prólogo e revelação final deste conto. A personagem vai, ao longo desta viagem, recordando vários momentos e pessoas da sua vida, revelando opiniões e pensamentos, hábitos e sentimentos, analisando tudo com o maior pragmatismo imaginável. A sensação é de estar a espreitar a mente de de uma pessoa tola, que se alegra e surpreende com as coisas mais simples, que faz o que quer porque a faz feliz, pouco se importando com o que os outros pensam, que ama o seu marido e assume que ele a ama de volta, ainda que ele dedique o seu tempo ao jornal desportivo. É como uma criança que já viveu várias décadas mas cujo espírito não amadureceu - ou envelheceu - nem um pouco (se calhar ainda bem!). É um texto naturalmente engraçado, que faz rir às gargalhadas sem forçar mas que termina de uma forma surpreendente que obriga o leitor a rever a história toda, como se agora tivesse toda uma nova narrativa para construir, ou reler. Já estava nos meus planos, principalmente desde que o vi e ouvi no Fórum Fantástico, mas agora não tenho qualquer dúvida que vou ler mais trabalhos da autoria de Afonso Cruz.

Gonçalo M. Tavares, do qual já tinha lido Histórias Falsas, traz-nos A Moeda, um conto pequeno e de leitura rápida, com uma escrita seca e directa, sem grande floreado, mas denso em food for thought e eficaz a transmitir mensagem. A história segue um indivíduo, Vass Kartopeck, um labrego que detesta ter que viver na cidade, que não se conforma àquele estilo de vida como a massa amorfa que o rodeia e que tem manchas estranhas a aparecer-lhe na pele da face. O que nos é mostrado aqui é a sua interação com uma prostituta, com pessoas numa sala de espera e com um médico. Um dos seus hábitos, que mostra a sua desadequação ao meio, é o do andar sempre com moedas com as quais espera pagar os favores que lhe fazem. A simbologia da moeda como meio de troca e transacção, chama logo à atenção numa história que explora a comunicação entre um indivíduo e a sociedade e a tentativa desta última de uniformizar os indivíduos (e as trocas) e talvez por isso seja ela a dar nome ao conto. Em contraponto com a moeda está a face, que no caso de Kartopeck, por estar manchada, o torna impróprio para comunicar com a sociedade. O seu valor é de tal forma diminuído que acaba por ser ainda mais incomodativo para as pessoas do que a presença da prostituta, que chega a gozar com ele. A sala de espera do consultório torna-se o cúmulo desta situação, no momento em que as pessoas abandonam o local e esquecem o que as levou lá por não quererm estar com ele. A figura do médico serve várias funções. Por um lado, ele permite o desenlace da metáfora das manchas na pele, no momento em que informa Kartopeck que ele não está doente, que as manchas não refletem nenhum problema orgânico - dando aqui a entender que um indivíduo que não de adapta, que não se conforma completamente, que é diferente das "massas", não tem necessariamente a culpa ou sequer um problema intrínseco, apontando de certa forma o dedo à sociedade, às suas convenções impostas. Por outro lado o médico é também representante dessa mesma sociedade e do poder, mostrando a típica reacção social à diferença quando diz a Kartopeck que dado não ter nenhuma doença, se ele se chateia por causa das manchas, problema dele, ele que resolva, que se adapte.
É também possível ver aqui uma referência ao paradigma da medicina tradicional, em que o que não é orgânico não é doença e o médico dá a entender que se ele não consegue lidar com as suas manchas (representativas de uma desadequação social, de certa forma uma objectivação de um problema psicológico) então é fraco, que se amanhe, que se conforme porque "o que tem que ser tem muita força".
Esta é uma história pejada de simbologia, onde não é por acaso que só a personagem principal tem nome, e todos os restantes funcionam principalmente como representantes metafóricos para se contrapor a ele. Só perde pela escrita pouco embelezada, algo seca e por isso menos empolgante do que poderia ser. Uma boa forma de mostrar a qualidade deste conto, é o facto de ter passado quase uma hora a discutir a sua interpretação e as temáticas que traz à luz.

O nono conto da colecção, de Manuel Jorge Marmelo, é As saudades que tenho de Inácia. Nunca li nada do autor, pelo que não tenho ponto de comparação ou conhecimento do seu estilo pessoal e temática habitual, mas posso dizer que, depois de ler isto, fiquei totalmente desinteressado. O texto não tem uma história ou um enredo, limita-se a dactilografar os pensamentos de um homem que tem saudades do sexo com Inácia. Gosto que o autor não tema usar calão e ir directo ao ponto enquanto descreve a mulher ou o que a personagem gostava que ela fizesse na cama. Mas convém que isto seja uma base para nos transmitir algo, e não nos pareça somente que estamos a ouvir um velho no café a falar com os amigos por entre cerveja e tremoços. Neste caso, não passou disso. Há duas mensagens principais que podemos encontrar nesta leitura, ambas entregues de bandeja pelo narrador: as aparências iludem ("quem vê caras não vê corações", "não julgues um livro pela capa", "nem tudo o que reluz é ouro" ou outra variação) e as memórias enganam, no sentido em que ao longo do tempo nos convencemos que nos lembramos de coisas que podem estar somente a ser fabricadas pela nossa mente para corresponder a uma ou outra ideia. Não é uma leitura agradável, não é interessante, não traz novidade.

Termino este post com o comentário ao conto de Mário de Carvalho, A Porrada. Este conto muito curto tem uma referência a dois temas, a vida caseira e de aparências de uma provável aristocracia e a vida secreta do marido num fight club lusitano. Infelizmente, a história fica-se pela ligeira referência e nem esboça o desenvolvimento do que quer que seja. Pode haver aqui um conto interessante, se Mário de Carvalho alguma vez o deixar germinar e voltar a escrever.

Outros posts nesta série:
parte 1

Tuesday, 18 December 2012

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (1)

O Diário de Notícias está a publicar, entre Outubro de 2012 e Janeiro de 2013, uma colecção de 31 contosde autores portugueses em formato ebook. Os contos são de aparente tema livre, independentes uns dos outros e vão desde histórias supostamente baseadas em factos reais a pura ficção especulativa, desde drama a comédia ou suspense. Estão disponíveis na biblioteca digital do DN, à qual podem aceder aqui. Decidi ler toda a colecção dado conhecer pouco do trabalho dos autores portugueses contemporâneos e poder assim, em formato de conto relativamente rápido de ler, contactar com a escrita de vários. A colecção não se limita no entanto a escritores estabelecidos, incluindo igualmente histórias de outras personalidades do país. Este é o primeiro de vários posts a comentar os vários contos publicados.

O primeiro conto é de Pedro Paixão e foi para mim um mau começo. A Musa Irrequieta é um drama emocional romântico muito exagerado e com demasiado palavreado para a história que conta. Trata da relação entre um professor e uma aluna a que ele se refere como sua musa e por quem fica literalmente perdido de amores. O homem torna-se uma personagem insuportável na forma como se descontrola em relação aos seus sentimentos e de como fica obcecado pela rapariga. O conto acaba por ser uma enumeração dos seus pensamentos sobre ela. O final, apesar de triste e algo cliché, poderia ser a melhor parte, mais realista, mas uma referência à possível relação com factos reais deu-me a sensação de me quererem forçar reacções emocionais. Pode ter sido só impressão, mas piorou a minha opinião final.


Segue-se Cidade Líquida de João Tordo, este sim um conto bem escrito, que rapidamente coloca o leitor numa incerteza absoluta em relação ao que é real ou imaginado. Senti-me a ver a história através de uma mente cujos delírios são como que metáforas para o que lhe acontece e em especial para a separação ou ausência da esposa. Há personagens e situações cuja verdadeira essência (real ou delírio) ainda não consegui destrinçar (e acho que nem quero!). Entretanto o autor estabelece um certo paralelismo com o que ocorre no filme Cidade Líquida do realizador Roque dos Santos, ele próprio personagem, que o narrador vai descrevendo e que aponta para a confusão mental, a variedade de perspectivas sobre uma mesma história e ainda a ideia de esquecimento e  recalcamento. Um conto intrigante que explora a mente humana e que quero sem dúvida reler. Fiquei não só curioso em relação ao outro conto em que estas personagens aparecem mas também com vontade de ler algo mais e noutro formato da sua autoria.

Um Romance é um conto sobre um jantar "romântico" que o narrador observa da mesa ao lado e que serve de esqueleto - ou desculpa - para Rui Zink gozar com uma série de preconceitos e outras tolices da sociedade contemporânea. O narrador fala directamente para o leitor, o que ajuda para este tipo de mensagem e pode até conferir-lhe o pretendido tom humorístico. Infelizmente, a meu ver, o conto não resultou tão bem como poderia. Há uma tentativa de fazer o leitor repensar ideias pré-concebidas, com comentários sobre a inexistência dos telemóveis ou o hábito de ir ao teatro nos anos 80, algo muito engraçado não me parecesse desajustado do público alvo desta colecção (quem é que vai ler isto e não sabe ou pensa neste tipo de coisas?). A crítica, trazida aqui pela exposição do que é esperado do homem e da mulher num encontro e também pela forma como o Artur acaba por resolver a situação, resulta bem neste tipo de história. O conto é prejudicado principalmente pelo exagero de comentários, de piadas, de "bocas", que chegam ao ponto de fazer o leitor sentir que o autor o acha estúpido. Alguma subtileza ou pelo menos contenção no tom e quantidade destes reparos e acusações teria tornado o texto mais engraçado e a leitura agradável e, quiçá, provocado mais eficazmente as mentes a quem se dirigem.

O quarto conto desta colecção é Mania de Luísa Costa Gomes, autora de quem nunca li qualquer trabalho. Não consegui bem perceber o que a autora pretendeu criar com esta história, mas o resultado final foi um conto de mistério, cujo potencial suspense foi destruído pela absoluta confusão criada pela personagem e pela escrita. O enredo decorre de forma pouco linear, desconexa, o que poderia funcionar neste tipo de história, não estivesse aliado a uma personagem com completa dissonância entre o que é, o que diz e o que faz. Sáurio, em quem se centra a história, não sofre tanto de mania (indicada pelo título), como de má conceptualização por parte da autora. Um escritor que decide aproveitar-se de um telefonema enganado para ir ao mundo real procurar matéria prima para a escrita, Sáurio acaba por passar o conto a fazer o que diz não querer fazer, sem que isso faça sentido, que não seja para a progressão do enredo. Tira conclusões sobre as pessoas que mal conhece baseadas em dados nunca disponibilizados para o leitor, tem suspeições e toma decisões pouco ou nada explicadas e ainda consegue intercalar vários momentos com pensamentos sobre a morte, caídos "do céu", sem que nunca tenham conclusão ou ligação ao conto. Estes parecem-me apenas aforismos de suposta profundidade existencial sem ancoragem no enredo. Há no entanto bons exemplos de momentos de descrição, em especial enquanto a personagem caminha ou observa a rua. 
Talvez o objectivo fosse criar páginas de puro nonsense à volta de um escritor que, na senda por inspiração, se coloca numa situação arriscada e à volta da qual, por não a conhecer totalmente, vive de certa forma uma ficção dentro da ficção. Se era essa a intenção, só posso dizer que não resultou.

O pior conto até agora, Um rio chamado Angústia de Eduardo Madeira consiste na exploração da história do rio e dos povos e pessoas que com ele se relacionam, em busca da razão do seu nome. A escrita lembra um guião de stand-up comedy, cheio de nomes de países e pessoas que pretendem ser engraçados e cujas histórias vão sendo enumeradas sem grande sentido. Terminei a leitura sem me rir com o nonsense e sem me interessar pelo Angústia.


Continua num próximo post!

Tuesday, 27 November 2012

Lusitânia - Número 1


Comprei a Lusitânia no dia do seu lançamento, no Fórum Fantástico 2012, e li-a quase de uma assentada só. Trata-se, no fundo, duma pequena antologia de contos que não só se localizam geograficamente em Portugal como pretendem explorar a mitologia e cultura típicas do país. Na maioria dos casos os contos que a constituem contribuem para a sensação geral de que se está a ler sobre Portugal e os portugueses, se não os reais, pelo menos o país ou o povo que podem ou poderiam ser, dado se tratar de ficção especulativa.

Quanto à edição em geral há algumas coisas que merecem referência. A opção de colocar um padrão de fundo nas páginas de cada conto e que varia de um para outro, de certa forma individualizando cada história, parece-me uma ideia interessante, contribui até para a atmosfera que o conjunto cria, mas em dois casos - "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" e "A Cidade das Luzes" - o padrão foi demasiado forte ou confuso prejudicando a leitura do texto. Uma outra questão, a melhorar em posteriores edições ou números, foi a existência de erros ortográficos ou de edição, destacando aqui o conto "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata", de todos o único cuja leitura foi afectada significativamente por este facto. Outra situação que me parece de relevo, da qual me parece que muitos trabalhos deste tipo sofrem, é a grande diferença de qualidade entre os vários textos. Não sei se isto se deve à falta de submissões de qualidade, se à vontade de cumprir uma certa deadline, se é somente uma questão de perspectiva e opinião pessoal, mas vejo isto em muitas antologias e revistas.

Quanto aos contos em si, vou tentar fazer-lhes justiça comentando-os individualmente.
"Sonhos Numa Noite de Natal" de Marcelina Leandro é uma história pequena e simples que traz consigo uma ideia muito interessante sobre o mundo dos sonhos e a previsão do futuro que sem dúvida merece ser explorada num texto maior e mais elaborado para atingir o seu potencial.
"Vinho Fino" de Inês Montenegro é na minha opinião o melhor conto desta Lusitânia. O conceito já sobejamente utilizado de alienígenas parasitas tem aqui uma visão refrescante, com uma escrita e um contexto diferentes dos da ficção científica "habitual" e que me deixaram com vontade de ler mais, tanto desta história como da sua autora.
"Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" de Catarina Lima é para mim o pior dos contos incluídos o que não se deve somente aos erros acima referidos, mas essencialmente a uma história que parece forçada e mal desenvolvida. Se a ideia na qual se baseia é interessante: as bruxas a voar nas suas vassouras Portugal fora, uma Hogwarts / Brakebills no Chiado e até um mercado mágico no Martim Moniz, o enredo e a cadência da escrita não envolvem o leitor, pelo que acabei por dar comigo a ler alguns parágrafos "na diagonal".
"A Guerra do Fogo" por Nuno Almeida é um conto de especulação fantástica e histórica - como o próprio nome indica - em simultâneo, que está bastante bem imaginado e escrito e que cumpre à medida as intenções anunciadas da Lusitânia. Como única crítica negativa poderia apontar talvez o desenvolvimento lento da história relativamente ao enredo que traz.
"A Cidade das Luzes" deixou-me algo confuso. É um conto eminentemente visual, que nos pede para visualizar cada cena (perdoem-me o pleonasmo) e fazer um filme imaginado com o enredo que nos é entregue, algo que destaco como a sua melhor característica. Infelizmente o enredo nem sempre consegue manter o interesse, é uma distopia à qual falta mais contexto para se tornar credível e nos fazer esquecer a estranheza de imaginar luzes/cores sair do peito das pessoas em direcção aos céus. Por um lado, a ideia da investigação do tratamento do daltonismo em macacos, ainda que dê alguma explicação, aparentemente assumindo o texto como típica ficção científica, não consegue dar à história toda a verosimilhança que necessitaria. Por outro lado cansa esta comum associação da emoção ao peito, ao coração, aqui referida pela forma como as luzes saem do corpo, ainda por cima em direcção aos céus, que corresponde decerto mais a um problema pessoal do que a falta de qualidade do conto em si.
"A Passagem Uivante" de Pedro Cipriano é uma história breve mas arrepiante que lembra o leitor que por detrás das máquinas de guerra estão pessoas que muitas vezes levam pouco mais que ordens e instinto de sobrevivência, sem saber as reais motivações da sua liderança para arriscar as suas vidas e as dos inimigos naquele momento ou naquela situação. Isto é particularmente verdade dos cidadãos de países sujeitos a sistemas totalitários para os quais a única liberdade, ainda que relativa, pode ser, quando muito, a de escolher a hora da morte.

Lusitânia afigura-se assim um projecto que se distingue por se afirmar português não só na autoria, mas na temática em si, dando oportunidade a vários autores de mostrar o que valem na ficção especulativa curta e na exploração da nossa história, da nossa mitologia, da nossa cultura, no fundo, de parte do que nos dá uma identidade colectiva. Os meus parabéns pela iniciativa e pelo resultado final, fica aqui o meu desejo de que continue, que melhore sempre, e que para a próxima seja maior! O entusiasmo da equipa, em especial do Carlos Silva com quem falei mais proximamente, permite-me acreditar que assim será.

Em jeito de disclaimer devo informar que participei neste número através da Clockwork Portugal que teve a oportunidade de contribuir com um pequeno texto em jeito de referência ao nosso trabalho.