Friday, 2 January 2015

2014: Retrospectiva

Eu dizia num comentário com amigos há uns dias que 2014 foi essencialmente um ano esquisito para mim. Não preciso de recuar muito tempo para recordar um André que seria incapaz de prever um ano destes. Talvez também por isso 2015 me pareça imprevisível (de resto, não só a título pessoal). Bem, tudo isto à parte, a ideia de fazer uma retrospectiva é tanto forçar-me a reavaliar coisas como conseguir fazer algum tipo de recomendação a quem segue o blog desde os tempos em que estava mais activo.


Leituras

Houve tanto que gostei de ler este ano que se torna difícil fazer um top de favoritos ou recomendados, mas vou tentar.

Livros técnicos e não ficção:

Bad Pharma, de Ben Goldacre: livro obrigatório para médicos muito recomendado para qualquer profissional de saúde, bem como para quem procura informação sobre a relação entre a investigação científica, a indústria farmacêutica e a saúde. É uma visão provavelmente assustadora, mas que aponta um claro caminho para melhorar.

If This is a Man / The Truce, de Primo Levi: livro obrigatório para todo o ser humano que saiba ler. A história de um homem que passou pelo holocausto, por Auschwitz, pelo resgate russo, pelo regresso a casa e pelo retorno a uma suposta vida normal. Ler isto é conhecer a humanidade no seu pior e isso é essencial para conhecer a humanidade.

Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, de Mark Blyth: o título fala por si. De resto, acrescento apenas que é um livro interessante, compreensível para leigos e muito relevante para avaliar o que nos tem sido proposto/imposto nos últimos anos.

Fantástico:

NOS4A2, de Joe Hill: fantasia, algum horror, muito suspense, este livro é uma maravilha, seja pela prosa incólume do Joe Hill, seja pelas referências, as metáforas, o food for thought, questionar moralismo, valor da inocência, a diferença entre estar certo, saber a verdade e fazer bem, sei lá. Há uma personagem que rapta crianças e as leva no seu Wraith (o carro) para Christmasland (um parque na imaginação dele?), outra que sai de bicicleta e atravessa uma ponte (imaginária?) para onde precisa de ir, e ainda outra que adivinha (ou interpreta?) coisas com peças de Scrabble. Não quero dizer mais.

The Disposessed, de Ursula K. Le Guin: a autora dispensa apresentações, no entanto este foi o meu primeiro contacto com ela. Ficção científica com relevância sociopolítica? Sim, quero mais por favor.

The Boy Who Cast No Shadow, de Thomas Olde Heuvelt: uma pequena história sobre crianças "diferentes".

Transhuman, de Jonathan Hickman e J.M. Ringuet: o aparecimento de uma nova tecnologia, as guerras entre as empresas, o mercado, enfim, o capitalismo desenfreado mas desta vez a novidade são seres humanos modificados (melhorados?).

Pax Romana, de Jonathan Hickman: o Hickman é um génio. A igreja católica manda uma equipa ao passado para mudar a história a seu favor, mas o agente tem ideias próprias...

Iron Man: Fatal Frontier, de Al Ewing et al: o Iron Man é o típico idiota convencido de que é tão esperto e poderoso que tem sempre razão e tudo o que faz é justificado, em Fatal Frontier esta característica é particularmente bem explorada. Esta história tem o benefício de poder ser lida independentemente da continuidade das comics.

Doctor Strange: Season One, de Greg Pak e Emma Ríos: o Strange tem uma das melhores origens de super-heróis que conheço. Faz dele real, humano, dá-lhe significado para além das tretas habituais. Olhar novamente para a origem, de uma forma ligeiramente diferente, foi um prazer.

La Belle Mort, de Mathieu Bablet: como tudo o que já vi deste autor, este livro é lindo. A história é interessante. É num raio de uma língua que eu pouco percebo, mas para este compensa muito o investimento.


Séries ou relacionados:

Lazarus, de Greg Rucka e Michael Lark: uma representação futurista e distópica da nossa realidade, centrada numa mulher que foi concebida para ser quase imortal e lutar as guerras pela sua "família". Condicionamento, emoção, humanidade, sociedade, há aqui caminho para tudo. Li os primeiros dois volumes e vou continuar.

Über, de Kieron Gillen e Caanan White: história alternativa. E se os nazis conseguissem mesmo criar um super-humano? Só posso dizer que isto está mesmo muito bem escrito e que vale a pena experimentar.

East of West, de Jonathan Hickman e Nick Dragotta: não sei o que dizer sobre isto. É uma história esquisita, com personagens esquisitas saídas sei lá de onde. E os cavaleiros do apocalipse. E o próprio apocalipse? E um mundo dividido e controlado por meia dúzia de poderosos? Onde é que eu já vi isto...

The Manhattan Projects, de Jonathan Hickman e Nick Pitarra: história alternativa a partir da Segunda Guerra Mundial, com super-cientistas, super-loucos, alienígenas e dimensões alternativas. É confuso, mas só o suficiente para não se poder evitar ler o volume seguinte.

Mind MGMT, de Matt Kindt: acaba-se de ler e apetece reler. Li apenas o primeiro volume, mas os próximos estão na calha, sem qualquer dúvida. Ficção científica e poderes da mente resulta em dúvida constante, até mesmo para o leitor.

The Massive, de Brian Wood: a Terra depois de um apocalipse ambiental. Muito importante, muito relevante e muito bem feito.

Batwoman, de J.H. Williams III e Haden Blackman: quando se dá a alguém liberdade para explorar um super-herói, sem o interromper com eventos e afins, é isto que se espera. Só é pena que não pudessem ter continuado.

Fables, de Bill Willingham: cheguei este ano ao volume 16 e a série continua óptima, tanto pela subversão das histórias infantis como pelo que transmite através dela.

The Victories, de Michael Avon Oeming: heróis e vilões são pessoas, pessoas podem ser heróis e vilões, ideias que são exploradas hoje talvez mais do que nunca, mas particularmente bem nas mãos deste autor.

Suicide Risk, de Mike Carey e Elena Casagrande: O primeiro volume foi o melhor, mas a série continua a ter potencial na exploração de uma humanidade com super-poderosos.

Astonishing X-men, de Warren Ellis: A série "astonishing" tem o benefício de poder ser lida isoladamente do universo Marvel, bem como de ter tido autores tão bons como Warren Ellis, especialmente no Ghost Box.

Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples: uma série que vive na sobreposição dos temas típicos da fantasia e da ficção científica e explora questões relevantes. A fama de Saga é mais que merecida.

The Unwritten: Tommy Taylor and the Ship that Sank Twice, de Mike Carey e Peter Gross: De maior relevo para quem conhece a série, mas potencialmente uma porta de entrada para interessados.

Lucifer, de Mike Carey: li o primeiro volume e estou convicto que lerei toda a série.

Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodríguez: li este ano o volume final de uma das melhores séries de fantasia e weird que já li. 

The Absolute Sandman, de Neil Gaiman: li o primeiro volume da série Absolute e em 2015 vou ler o segundo. É do melhor que há em banda desenhada.

X-men: Days of Future Past, de Chris Claremont e John Byrne: diferente do filme e continua a valer a pena ler, embora tenha muito mais interesse para quem conheça os X-men.

Young Avengers, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie: outra vez o Kieron Gillen, outra vez bom. Aqui a representação super-humana do conceito geral da nossa actual "juventude". Vale a pena ler, conheça-se ou não o universo Marvel.

Elektra, de Haden Blackman e Mike del Mundo: pode ser lida independentemente do restante universo Marvel; o autor soube dar uma perspectiva mesmo interessante sobre a personagem, muito para além de ser uma assassina eficaz a "redescobrir" a vida, e Mike del Mundo é o meu ilustrador favorito do momento. Esta banda-desenhada merece ser lida, relida e exposta numa galeria de arte.

Moon Knight, de Warren Ellis e Declan Shalvey / Brian Wood e Greg Smallwood: pode ser lido independentemente do restante universo Marvel e é uma história sobre um louco com múltiplas personalidades a tentar ser um herói à(s) sua(s) maneira(s).

Black Science, de Rick Remender e Matteo Scalera: um princípio muito prometedor de uma série de ficção científica em que as personagens exploram realidades alternativas.


Super-heróis e BD seriada:
(separei aquela BD cuja leitura foi feita de forma seriada e cuja recomendação é diferente da isolada conforme fiz acima, tendo em conta que li várias que se intersectam e cuja história é influenciada por isso, bem como o facto de conhecer bem as personagens e histórias prévias)


Storm, de Greg Pak e Victor Ibañez: na verdade pode praticamente ser lido independentemente do resto do universo Marvel, mas beneficia disso. Personagem feminina forte, com uma história relevante, que quer abordar a vida de uma forma diferente, mais irreverente, mais heróica talvez, mais arriscada sem dúvida. A Storm já foi uma deusa, já foi uma ladra de rua, já foi líder de grupos de heróis, já foi casada e rainha, e muito mais. Com toda esta bagagem e tanta "humanidade" que a caracteriza, esta história torna-se ainda mais interessante.

Magneto, de Cullen Bunn e Gabriel Hernandez Walta: para quem conhece o Magneto e tem seguido a sua história e a dos mutantes, esta banda desenhada é uma delícia. A sua história de vida, a ambiguidade do que ele é e do que ele faz, as questões relevantes que coloca, Magneto continua a ser uma das personagens mais interessantes de todo o universo Marvel.

X-men Legacy, de Simon Spurrier: centrado numa personagem, mas mais interessante para quem conhece bem o universo. O David Haller / Legion é uma pessoa, mas é muitas pessoas, muitas capacidades, pode fazer tudo ou acabar por não fazer nada, e pode ainda fazer tudo bem ou tudo mal. Desta vez está a tentar por ordem na sua cabeça com demasiadas personalidades perturbadas. Mas quem é ele?

X-men, de Brian Wood: X-men como deviam ser escritos. Mulheres que não pedem para ser símbolos femininos. Pessoas que querem fazer coisas, que querem mandar, que acham que têm razão, que culpam e que perdoam, que lidam com o pior que há. Vale a pena.

Iron-man, de Kieron Gillen: Óptima perspectiva sobre o Iron-man e uma redescoberta de todo o seu passado (origem?) que muda a sua forma de ver o mundo (ou só temporariamente, porque vem aí outro evento). Kieron Gillen voltou a fazer um bom trabalho, como tem sido constante na Marvel, veremos onde aparece a seguir.

Uncanny X-men, de Brian Michael Bendis e Chris Bachalo e All-New X-men, de Brian Michael Bendis et al: vale a pena ler simultaneamente e por vezes também Wolverine & the X-men, são boas histórias de x-men, de maior interesse para quem conhece as personagens e tem seguido a sua história. A arte do Chris Bachalo continua a ser muito boa.

Avengers / New Avengers, de Jonathan Hickman: Hickman é um génio (já disse isto antes?). Nunca gostei tanto de ler Avengers como agora, na sua expansão e acção para além da Terra. Os New Avengers armam-se em donos do mundo e tomam para si decisões que, quiçá, nunca deveriam estar na mão de ninguém. Mas por vezes não há opção (ou há?). Do melhor que há na Marvel neste momento, mais ainda se acompanhado da leitura de Avengers World, de Jonathan Hickman e Nick Spencer, enquanto se vê as várias histórias a tornar-se uma só. O evento ainda decorre pelo que não posso comentar o final.

Thor: God of Thunder, Vol. 4: Last Days of Midgard, de Jason Aaron e Esad Ribic: Aaron começou bem, depois piorou no terceiro volume, mas voltou bem nesta última história de Thor, antes do rapaz deixar de conseguir pegar no martelo e aparecer uma mulher Thor. Quanto a essa, ainda não sei o que dizer.


Outros:

Inércia, de André Carrilho: para desfrutar lenta e repetidamente.

La Sombra del Viento, de Carlos Ruiz Zafón: eu li em espanhol e quando puder vou querer ler o seguinte. O livro é um prazer para amantes da leitura e da literatura, mas não se fica por aí. A exploração da natureza humana e a referência à ditadura e guerra civil espanholas dão-lhe um outro nível, e o desenvolvimento das personagens é maravilhoso. Recomendado a quem goste de um mistério revelado lentamente com um leve toque de fantasia.

To Kill a Mockingbird, de Harper Lee: clássico, sem dúvida.



Cinema e Televisão

Este ano fui pouco ao cinema e quase não vi séries, pelo que tenho muito pouco a recomendar.

Cinema:

A grande surpresa deste ano para mim foi o Boyhood (Richard Linklater). Esperava que fosse bom, mas foi quase perfeito. É um filme que é tanto melhor quanto quem vê esteja capaz de levar consigo, da sua própria história, das suas próprias emoções. É muito mais que uma obra original por ter sido filmado com as mesmas pessoas ao longo de mais de uma década. Ainda não me saiu da cabeça. Recomendo a toda a gente.

Outros filmes que gostei:

Her (Spike Jonze), um filme essencial sobre a contemporaneidade levada ao absurdo e os conceitos de personalidade e pessoa, isolamento e comunicação. Dos melhores filmes que já vi.

12 Years a Slave (Steve McQueen), um óptimo filme, que justifica bem os Oscars que ganhou e aborda uma temática essencial, mas que acaba por não conseguir ser o filme da minha vida. Recomendo a todos os que ainda não viram.

Blue Jasmine (Woody Allen), porque o realizador é bom, a história é relevante e a Cate Blanchett é perfeita.

Guardians of the Galaxy (James Gunn), porque há muito tempo que um filme não me proporcionava umas horas tão bem passadas e tanta boa disposição no meio de uma ameaça a toda a galáxia. E porque o Groot é óptimo. E a banda sonora também.

X-Men: Days of Future Past (Bryan Singer), com mutantes, bons actores e viagem no tempo. Não foi tão bom como o First Class, mas valeu bem a pena ver.

The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson), um filme estranho, esquisito, especial, que leva mais longe o que o realizador já tinha experimentado em Moonrise Kingdom. Foi uma óptima surpresa no cinema e tenho intenção de rever. É sobre um hotel, sobre pessoas, sobre o fascismo e a Europa e toda a enorme mudança e é engraçado e emotivo. E deve ser muito mais coisas.

The Amazing Spider-Man 2 (Marc Webb), um bom filme de super-herói, com o Andrew Garfield e a Emma Stone perfeitos nos seus papéis, que continua muito bem o trajecto iniciado no primeiro filme.

Captain America: The Winter Soldier (Anthony Russo e Joe Russo): eu não gosto do Captain America, não gostei particularmente do primeiro filme, não procuro ler as comics em que a personagem entra, excepto quando os autores pegam nele e o transformam totalmente. Dito isto, este filme é bom, os actores estão muito bem, a história com expansão para o restante universo Marvel só enriquece. Uma surpresa.

The Book Thief (Brian Percival), é baseado no livro com o mesmo nome que adorei. Não é tão bom como o livro, mas a história está em geral bem adaptada e os actores estão muito bem nos seus papéis. Mantenho a recomendação: vale a pena ler antes de ver. Mais sobre o livro aqui.

Televisão:

True Detective, dois detectives a investigar um caso com contornos potencialmente paranormais ou pelo menos bastante mais estranhos que o habitual. A história é fenomenal, Matthew McConaughey e Woody Harrelson estão verdadeiramente geniais.

Orphan Black, teve um início muito interessante, com uma actriz impecável num papel (ou papéis) difícil, mas sem ter terminado a primeira temporada não posso dizer mais.

Tuesday, 16 December 2014

Novamente o concurso de acesso ao internato de especialidade

Paulo Macedo deflecte as queixas em relação ao concurso de acesso ao internato de especialidade vangloriando-se por se ter conseguido um número de vagas suficiente para todos os potenciais candidatos. Quanto a isto, permito-me adicionar alguns esclarecimentos às declarações do senhor ministro.

1 - o facto de se criar oferta de vagas não justifica que, com um ano para preparar o concurso, se revele o mapa de vagas dezoito horas antes do seu início e duas semanas antes do primeiro dia de trabalho no novo local;

2 - a obtenção de um número suficiente de vagas não tem nem pode ter qualquer relação com a má organização do concurso que limita de várias formas as condições de uma escolha ponderada e informada de uma "vaga" que na verdade é tanto um local de trabalho dos próximos quatro a seis anos como a determinação da profissão propriamente dita;

 2.1 - não é aceitável fazer-se uma escolha destas quando se descobre a disponibilidade de especialidades e de locais de formação no dia anterior e se tem que ter em conta uma mudança de vida desta magnitude;

 2.2 - não é aceitável pedir a pessoas deslocadas em trabalho em 2014 - o internato de ano comum - que escolham sem ter tempo de visitar as localidades e unidades de formação ou de se informar sobre as mesmas adequadamente, bem como de procurar casa e fazer mudanças em menos de 15 dias em que potencialmente estão ocupados a trabalhar;

3 - a dificuldade em conseguir especialidade para todos os candidatos vem de um problema há muito conhecido, o aumento das vagas nos cursos de medicina acima das necessidades do país bem como das capacidades formativas de um SNS atacado por cortes;

4 - o aumento da capacidade formativa ocorre essencialmente à custa do aumento de vagas para Medicina Geral e Familiar (olhando apenas aos últimos três concursos gerais, as vagas de MGF aumentaram de 355 em 2012 para 433 em 2013 e agora 498) o que me leva a um novo conjunto de questões ou esclarecimentos:

 4.1 - foi necessário mudar o plano de formação do internato, segundo o que me informam através da redução dos estágios obrigatórios em áreas tão relevantes como a Pediatria e a Psiquiatria (aguardo fonte oficial em relação a isto, há apenas uma referência vaga aqui), para que os hospitais de referência pudessem acomodar a quantidade de internos que lhes impingem, ou seja, foi preciso uma perda de formação para um aumento de formandos;

 4.2 - não se compreende porque se pode fazer isto na MGF e não se faz o mesmo em outras especialidades cujas insuficiências se reconhecem nas listas de espera para consultas e procedimentos hospitalares e que continuam a empurrar portugueses para a medicina privada por não quererem ou aguentarem esperar tanto (afinal compreende-se);

 4.3 - o que ocorre na MGF relaciona-se com o popular objectivo de conseguir médico de família para todos os portugueses, que se pretende atingir à custa da criação de excesso de oferta que empurrará os que não tiverem alternativa para os locais menos desejados - o que mantém o local menos desejado, o profissional insatisfeito e, pelo meio, contribui para a emigração, como é fácil de prever - sem ter que resolver os verdadeiros problemas que tornam as várias colocações menos desejáveis (para os médicos e para a generalidade dos profissionais que possam ainda fazer escolhas);


Temos portanto um Ministro da Saúde que se regozija com falácia enquanto desvia a atenção dos múltiplos problemas que criou ou agravou, desrespeitando não só os internos candidatos à especialidade como todos os portugueses que por eles serão tratados. Seja pelos objectivos perniciosos em relação ao SNS, seja pelos danos ao processo de formação médica, seja pela falta de consideração e sensibilidade, a única solução é mesmo a substituição do ministro, do ministério e do governo.

A cereja no topo do bolo é que bastou um dia para que a tutela percebesse que o calendário de escolhas "à pressão" não seria plausível. Infelizmente há outros problemas que já não são reversíveis.

Concurso de acesso ao internato médico de especialidade

O mapa de vagas para acesso à especialidade foi publicado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) no final da tarde de 15 de Dezembro de 2014. A escolha inicia-se às 14h30 de 16-12-2014, nem 24 horas depois, e está prevista a sua conclusão em quatro dias. Isto é um processo para escolha sequencial de vagas por parte de 1548 candidatos, por ordem de seriação e distribuidos pelas cinco Administrações Regionais de Saúde (ARS). Portanto as faltas de respeito e consideração pelos médicos nesta situação são múltiplas e adicionam-se a um processo com problemas constantes de há muito reconhecidos mas nunca tão mal conseguido. Lembro que esta escolha é dupla e com impacto determinante na vida de um indivíduo e potencialmente da sua família, dado que corresponde a uma escolha não só de um local de trabalho para os próximos 4 a 6 anos, pelo menos, como de uma especialidade, ou seja, da profissão propriamente dita.
É inaceitável que não haja tempo para analisar o mapa de vagas e tomar decisões ponderadas e partilhadas com a sua família. É inaceitável que não haja tempo para o interno se informar sobre os serviços e os locais que poderão vir a ser a sua vida nos próximos anos. É incompreensível que um mapa destes - que relembro, é uma tarefa regular anual destas estruturas - seja concluido e apresentado aos candidatos menos de um dia antes de estes terem que fazer uma escolha destas. Para cúmulo, a ACSS ainda determina como prazo para o início de funções a data de 02 de Janeiro de 2015, ou seja, alguém que está a trabalhar como interno de ano comum em trás-os-montes pode descobrir dia 18 de dezembro que a partir de 02 de Janeiro está a trabalhar em S. Miguel. Como vai ajustar toda a sua vida (e potencialmente dos seus) em menos de duas semanas? E escuso-me a fazer considerações em relação ao Natal e Passagem de Ano que são das celebrações mais relevantes para a cultura portuguesa, acho que a referência fala por si.

Por fim, não consigo esquecer que até há dias as USF aqui ainda não sabiam se iam ter internos em 2015 ou não. Falava-se na necessidade de diminuir o número de vagas de MGF por falta de capacidade formativa do HSJ onde os internos estagiam em vários serviços. Falava-se em alternativa de uma necessária reestruturação do internato a esse nível, para permitir a manutenção do número de vagas de internato na zona. Agora descubro que afinal já há confirmação de vagas para várias unidades daqui, temo que à revelia das estruturas locais ou à custa da qualidade da formação. Aguardo por mais informação quanto a isto, bem como quanto ao número de vagas de MGF que parece ter aumentado imenso novamente, o que me faz temer ainda mais pela qualidade da formação médica.

Este governo e as estruturas centrais que dependem dele já têm mostrado incompetência e falta de respeito pelos portugueses em demasiadas situações (lembremo-nos dos professores, por exemplo). Esta ilustra, para quem está de fora e ainda não tinha percebido, que também no Ministério da Saúde a máxima passa pelo país estar melhor (em alguns belos números) mesmo que as pessoas estejam pior.

Monday, 15 December 2014

"The Brain on Trial" por David Eaglemen

Um artigo de 2011 do The Atlantic que andava aqui perdido num rascunho no blog há imenso tempo e que decidi ir buscar agora. Recomendo a leitura, apesar de deixar abaixo alguns destaques que apontam para as conclusões mais relevantes, a meu ver. O artigo é simultaneamente uma crítica ao sistema judicial - e nisto, muito mais aplicável ao americano que ao nosso - e uma proposta para um caminho futuro na sua definição, tendo em conta os desenvolvimentos na compreensão dos indivíduos e dos fenómenos que a investigação científica tem permitido e influenciado por um sentido ético libertário com que me identifico.


"While our current style of punishment rests on a bedrock of personal volition and blame, our modern understanding of the brain suggests a different approach. Blameworthiness should be removed from the legal argot. It is a backward-looking concept that demands the impossible task of untangling the hopelessly complex web of genetics and environment that constructs the trajectory of a human life."

"Instead of debating culpability, we should focus on what to do, moving forward, with an accused lawbreaker. I suggest that the legal system has to become forward-looking, primarily because it can no longer hope to do otherwise. As science complicates the question of culpability, our legal and social policy will need to shift toward a different set of questions: How is a person likely to behave in the future? Are criminal actions likely to be repeated? Can this person be helped toward pro-social behavior? How can incentives be realistically structured to deter crime?"

"The important change will be in the way we respond to the vast range of criminal acts. Biological explanation will not exculpate criminals; we will still remove from the streets lawbreakers who prove overaggressive, underempathetic, and poor at controlling their impulses."

"We will never know with certainty what someone will do upon release from prison, because real life is complicated. But greater predictive power is hidden in the numbers than people generally expect. Statistically based sentencing is imperfect, but it nonetheless allows evidence to trump folk intuition, and it offers customization in place of the blunt guidelines that the legal system typically employs. The current actuarial approaches do not require a deep understanding of genes or brain chemistry, but as we introduce more science into these measures—for example, with neuroimaging studies—the predictive power will only improve. (To make such a system immune to government abuse, the data and equations that compose the sentencing guidelines must be transparent and available online for anyone to verify.)"

"Beyond customized sentencing, a forward-thinking legal system informed by scientific insights into the brain will enable us to stop treating prison as a one-size-fits-all solution. To be clear, I’m not opposed to incarceration, and its purpose is not limited to the removal of dangerous people from the streets. The prospect of incarceration deters many crimes, and time actually spent in prison can steer some people away from further criminal acts upon their release. But that works only for those whose brains function normally."

"A forward-thinking legal system will also parlay biological understanding into customized rehabilitation, viewing criminal behavior the way we understand other medical conditions such as epilepsy, schizophrenia, and depression—conditions that now allow the seeking and giving of help. These and other brain disorders find themselves on the not-blameworthy side of the fault line, where they are now recognized as biological, not demonic, issues."

"Many people recognize the long-term cost-effectiveness of rehabilitating offenders instead of packing them into overcrowded prisons. The challenge has been the dearth of new ideas about how to rehabilitate them. A better understanding of the brain offers new ideas."

"Along any axis that we use to measure human beings, we discover a wide-ranging distribution, whether in empathy, intelligence, impulse control, or aggression. People are not created equal. Although this variability is often imagined to be best swept under the rug, it is in fact the engine of evolution. In each generation, nature tries out as many varieties as it can produce, along all available dimensions.
Variation gives rise to lushly diverse societies—but it serves as a source of trouble for the legal system, which is largely built on the premise that humans are all equal before the law."

"Some people wonder whether it’s unfair to take a scientific approach to sentencing—after all, where’s the humanity in that? But what’s the alternative? As it stands now, ugly people receive longer sentences than attractive people; psychiatrists have no capacity to guess which sex offenders will reoffend; and our prisons are overcrowded with drug addicts and the mentally ill, both of whom could be better helped by rehabilitation. So is current sentencing really superior to a scientifically informed approach?"