Wednesday, 2 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (2)

Este é o segundo post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

O sexto conto da colecção - Quartos de Hotel - é da autoria de Inês Pedrosa. O leitor vai espreitando os pensamentos de várias pessoas, uma após outra, conforme entram nos seus quartos de hotel. Inicialmente, a autora não revela o que os motiva a estar ali, não nos oferece contexto para além do que cada personagem vai mostrando, aos poucos. À medida que conhecemos as histórias de cada um, percebemos que todos já se encontraram neste mesmo hotel e estão de volta para mais um congresso. São autores, editores, críticos, organizadores, todos pertencentes à indústria dos livros. Mas neste conto a profissão deles não passa de um bom motivo para se encontrarem. O enfoque aqui é nas pessoas por detrás da profissão. Quem ama para sempre e quem desespera por regressar a paixões antigas, quem não esquece os bons tempos, quem viu a sua carreira destruída, quem quem se sente realizado, quem já olha a morte de frente e já só está disposto a viver se não tiver que sacrificar demasiado do que lhe apetece fazer. É uma narrativa simples mas interessante, bem elaborada e que sem almejar a ser inovadora acaba por ser refrescante excepto naqueles momentos em que há adjectivação estranhamente em demasia ou metáforas demasiado trabalhadas e mal integradas na restante prosa.

A Queda de um Anjo foi até agora o melhor conto da colecção. Afonso Cruz domina não só a arte de escrever como também este formato. A história segue uma mulher que se encontra no paraíso, onde sente falta do seu marido que, assume, terá ido para o inferno. Começa por nos descrever o que vai vendo, enquanto toma a decisão de, dado não lhe trazerem o marido, descer até ao inferno para ir ter com ele. Assim, de seguida é a altura de acompanharmos a sua passagem pelos sete "círculos" do paraíso até à chegada ao R/C, o prólogo e revelação final deste conto. A personagem vai, ao longo desta viagem, recordando vários momentos e pessoas da sua vida, revelando opiniões e pensamentos, hábitos e sentimentos, analisando tudo com o maior pragmatismo imaginável. A sensação é de estar a espreitar a mente de de uma pessoa tola, que se alegra e surpreende com as coisas mais simples, que faz o que quer porque a faz feliz, pouco se importando com o que os outros pensam, que ama o seu marido e assume que ele a ama de volta, ainda que ele dedique o seu tempo ao jornal desportivo. É como uma criança que já viveu várias décadas mas cujo espírito não amadureceu - ou envelheceu - nem um pouco (se calhar ainda bem!). É um texto naturalmente engraçado, que faz rir às gargalhadas sem forçar mas que termina de uma forma surpreendente que obriga o leitor a rever a história toda, como se agora tivesse toda uma nova narrativa para construir, ou reler. Já estava nos meus planos, principalmente desde que o vi e ouvi no Fórum Fantástico, mas agora não tenho qualquer dúvida que vou ler mais trabalhos da autoria de Afonso Cruz.

Gonçalo M. Tavares, do qual já tinha lido Histórias Falsas, traz-nos A Moeda, um conto pequeno e de leitura rápida, com uma escrita seca e directa, sem grande floreado, mas denso em food for thought e eficaz a transmitir mensagem. A história segue um indivíduo, Vass Kartopeck, um labrego que detesta ter que viver na cidade, que não se conforma àquele estilo de vida como a massa amorfa que o rodeia e que tem manchas estranhas a aparecer-lhe na pele da face. O que nos é mostrado aqui é a sua interação com uma prostituta, com pessoas numa sala de espera e com um médico. Um dos seus hábitos, que mostra a sua desadequação ao meio, é o do andar sempre com moedas com as quais espera pagar os favores que lhe fazem. A simbologia da moeda como meio de troca e transacção, chama logo à atenção numa história que explora a comunicação entre um indivíduo e a sociedade e a tentativa desta última de uniformizar os indivíduos (e as trocas) e talvez por isso seja ela a dar nome ao conto. Em contraponto com a moeda está a face, que no caso de Kartopeck, por estar manchada, o torna impróprio para comunicar com a sociedade. O seu valor é de tal forma diminuído que acaba por ser ainda mais incomodativo para as pessoas do que a presença da prostituta, que chega a gozar com ele. A sala de espera do consultório torna-se o cúmulo desta situação, no momento em que as pessoas abandonam o local e esquecem o que as levou lá por não quererm estar com ele. A figura do médico serve várias funções. Por um lado, ele permite o desenlace da metáfora das manchas na pele, no momento em que informa Kartopeck que ele não está doente, que as manchas não refletem nenhum problema orgânico - dando aqui a entender que um indivíduo que não de adapta, que não se conforma completamente, que é diferente das "massas", não tem necessariamente a culpa ou sequer um problema intrínseco, apontando de certa forma o dedo à sociedade, às suas convenções impostas. Por outro lado o médico é também representante dessa mesma sociedade e do poder, mostrando a típica reacção social à diferença quando diz a Kartopeck que dado não ter nenhuma doença, se ele se chateia por causa das manchas, problema dele, ele que resolva, que se adapte.
É também possível ver aqui uma referência ao paradigma da medicina tradicional, em que o que não é orgânico não é doença e o médico dá a entender que se ele não consegue lidar com as suas manchas (representativas de uma desadequação social, de certa forma uma objectivação de um problema psicológico) então é fraco, que se amanhe, que se conforme porque "o que tem que ser tem muita força".
Esta é uma história pejada de simbologia, onde não é por acaso que só a personagem principal tem nome, e todos os restantes funcionam principalmente como representantes metafóricos para se contrapor a ele. Só perde pela escrita pouco embelezada, algo seca e por isso menos empolgante do que poderia ser. Uma boa forma de mostrar a qualidade deste conto, é o facto de ter passado quase uma hora a discutir a sua interpretação e as temáticas que traz à luz.

O nono conto da colecção, de Manuel Jorge Marmelo, é As saudades que tenho de Inácia. Nunca li nada do autor, pelo que não tenho ponto de comparação ou conhecimento do seu estilo pessoal e temática habitual, mas posso dizer que, depois de ler isto, fiquei totalmente desinteressado. O texto não tem uma história ou um enredo, limita-se a dactilografar os pensamentos de um homem que tem saudades do sexo com Inácia. Gosto que o autor não tema usar calão e ir directo ao ponto enquanto descreve a mulher ou o que a personagem gostava que ela fizesse na cama. Mas convém que isto seja uma base para nos transmitir algo, e não nos pareça somente que estamos a ouvir um velho no café a falar com os amigos por entre cerveja e tremoços. Neste caso, não passou disso. Há duas mensagens principais que podemos encontrar nesta leitura, ambas entregues de bandeja pelo narrador: as aparências iludem ("quem vê caras não vê corações", "não julgues um livro pela capa", "nem tudo o que reluz é ouro" ou outra variação) e as memórias enganam, no sentido em que ao longo do tempo nos convencemos que nos lembramos de coisas que podem estar somente a ser fabricadas pela nossa mente para corresponder a uma ou outra ideia. Não é uma leitura agradável, não é interessante, não traz novidade.

Termino este post com o comentário ao conto de Mário de Carvalho, A Porrada. Este conto muito curto tem uma referência a dois temas, a vida caseira e de aparências de uma provável aristocracia e a vida secreta do marido num fight club lusitano. Infelizmente, a história fica-se pela ligeira referência e nem esboça o desenvolvimento do que quer que seja. Pode haver aqui um conto interessante, se Mário de Carvalho alguma vez o deixar germinar e voltar a escrever.

Outros posts nesta série:
parte 1

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