Tuesday, 1 April 2014

No dia das mentiras, nada como apelar à memória

Para celebrar o dia das mentiras, decidi ir revisitar um texto que escrevi como reacção à formação do nosso actual Governo, na sua apresentação original. Na altura, talvez acicatado pela revolta em relação à eleição "desta gente" (para usar a linguagem corrente), talvez pelo desespero de saber o quão mal seriam os anos seguintes, decidi tentar analisar escolhas para cada cargo do "mais pequeno governo de sempre". Claro que não acertei em tudo, mas é no mínimo engraçado pensar que isto foi escrito no facebook antes de tudo o que aconteceu desde Junho de 2011. Divirtam-se:


XIX Governo Constitucional de Portugal

18 June 2011 

"Abre-se o pano, ligam-se as luzes, senhores e senhoras: as bestas estão finalmente à vista desarmada.
Se quanto ao PM não há dúvidas, o governo que a direita nos cozinhou tem algumas surpresas nas quais vale bem a pena atentar.

O co-governador, Paulo Portas, lá conseguiu ser Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, onde tem a visibilidade nacional e internacional que suporta o seu ego e a pasta que, segundo a comunicação social, ele preferia. Ele estará satisfeito, mas estaremos nós? Quereremos nós um homem da direita conservadora a opinar por Portugal la fora? Será que a maioria de facto concorda com a visão de Portas? Lembro que as eleições já passaram e que ele não está na pasta onde poderia continuar os seus discursos populistas sobre os "pobres agricultores". Eu sei que não. Mas cá estarei, atento.

Daqui para a pasta em voga, o Ministério das Finanças. Quem teremos a substituir Teixeira dos Santos? Vítor Gaspar é um conhecido "europeísta", já tendo trabalhado com o BCE, tendo representado o Ministro das Finanças na altura do Tratado de Maastricht e mais recentemente tendo pertencido à BEPA. É um homem decerto informado, com bagagem para uma pasta destas, mas sabendo o que foi dito e de acordo com o discurso do PM, não me parece que fará muito mais do que abanar a cabeça às ordens do FMI-BCE tanto quanto possível, feito brinquedo na traseira de um carro com a suspensão demasiado laxa. Veremos se não leva as "políticas de austeridade" ao extremo, naquele exagero megalómano típico dos portugueses, que têm a mania que conseguem ser fenomenais e imbatíveis mas só nas coisas mais estranhas.

Por falar em austeridade, mais um apoiante destas políticas foi incluído no governo e claro, na pasta da Economia e do (Des)emprego. Uma leitura na diagonal do seu blog dá a ideia de um reformista acérrimo, mas aparentemente não tão cego em relação ao debate empréstimo do FMI / reestruturação como as gentes dos partidos eleitos. No entanto, pelo comentário que fez em relação aos efeitos do plano do FMI nos próximos anos, não me parece que vá fazer muito mais do que o que eles mandam e tentar, tal como o PM, ser o bom aluno da Europa, a planear défices 0 para 2016 com o Gaspar independentemente do que isso implique para a economia e o emprego nacionais (afinal, a sua pasta).

Já que comento o desemprego que aí vem, porque não falar também da agricultura, mar, território e ambiente? Porque Assunção Cristas, licenciada em Direito, dá a sensação de ter sido eleita como tacho para o CDS e não me parece vir a ter muito a dizer na orientação das áreas que o seu ministério se propõe regular e pode ser tão somente uma marioneta do Paulo Portas. O futuro o dirá e espero que me surpreenda.

A única outra mulher a integrar os altos cargos deste governo será Paula Teixeira da Cruz. Não a conheço bem o suficiente para prever o que fará no Ministério da Justiça, mas pelo menos neste caso a formação em Direito e o percurso no Conselho Superior da Magistratura, Conselho Geral da Ordem dos Advogados e no Conselho Superior do Ministério Público fazem sentido. Espero comentários de alguém mais informado do que eu sobre tal pessoa, cujos discursos na comunicação social nunca me pareceram valer a pena ouvir até ao final ou recordar. Resta alguma, mas pouca, esperança.

Há três tachos muito previsíveis de que vale a pena falar em conjunto: José Pedro Aguiar-Branco na Defesa Nacional, Miguel Relvas nos Assuntos Parlamentares e Miguel Macedo na Administração interna. Podiam estar aqui como noutro sítio qualquer, mas tinham que aparecer e cá estão. A medir pelos discursos que lhes conheço, serão do pior que pode haver e pouca diferença faria trocá-los de pasta. Medo? Muito medo.

Tacho por tacho, lembrar o do nascido e criado na JP, cuja formação em direito e legislação laboral o terá preparado muito bem para assumir um dos mais difíceis cargos governamentais nos próximos anos, a Solidariedade e Segurança Social. Talvez tenha sido por ter pertencido à Comissão de Saúde e Toxicodependência que se lembraram dele, talvez não. Alguém da direita conservadora nos assuntos sociais não augura nada de bom para os portugueses, mas sejamos honestos, se fosse um jotinha do neoliberalismo travestido de social democracia seria melhor? Provavelmente não. É o parente pobre, cada vez mais pobre do estado português.

Por falar em cada vez mais pobre, falemos da saúde. Aqui está uma área da qual sei falar não só mas também por que lhe pertenço por formação académica e actual emprego. Por esta altura já todos saberão que Paulo Macedo é vice-presidente do conselho de administração de várias empresas do grupo BCP, incluindo, claro, a Médis. Sabendo isto, sabendo que é formado em organização e gestão de empresas e sabendo o que Pedro Passos Coelho planeia para a Saúde, concluir que vem aí desastre é fácil. É provável não só o corte nas despesas da saúde que acontece até por imposição externa, mas parece agora que ele será cego, matemático, ignorante do que significa o serviço nacional de saúde e das necessidades dos portugueses. É também provável que, ao mesmo tempo que se dá os passos necessários para oferecer a saúde deste país de bandeja ao sector privado, se inicie o processo de permitir a formação em medicina nas universidades privadas. A medir pelo resultado da abertura de outros cursos no ensino privado como são bons exemplos a enfermagem, a psicologia e até a medicina dentária, não só não haverá garante de formação de qualidade como não haverá controlo de vagas, pelo que a medicina ficará no estado em que estão as restantes profissões da área e que é francamente mau, com muito mais formados do que oferta de emprego, com as cunhas a ser critério de escolha acima de qualquer outro e com a fuga dos mais desesperados ou dos insatisfeitos que não se conformem (e bem) para o estrangeiro. E se prevejo piores condições para os médicos e as mesmas ou ainda piores para os restantes trabalhadores desta área, o que dizer do que acontecerá aos utentes do SNS? Serão contabilizados na comentada taxa de sacrifício para "salvar" a pobre economia e perderão a pouca qualidade de vida que ainda tenham, sem grande preocupação dos senhores das finanças que mandam lá no cimo da pirâmide das classes sociais. Faremos os possíveis, enquanto pudermos, mas não serão mantidos bons cuidados de saúde com ainda menos recursos e com um gestor a mandar no ministério.

Nuno Crato, na educação, parece ser o nome em que mais pessoas têm esperança. Será que ele vai por ordem na Educação que tanto tem sido maltratada, tendo que acumular também o Ensino Superior e a Ciência? Tenho mais esperança nele do que tinha em Isabel Alçada? Sim. Mas sabendo que terá poucos recursos e muitas necessidades para malabar, tenho dúvidas. Só posso desejar que Nuno Crato não seja mais um puro burocrata ou populista e se lembre das 3 pastas, não só da educação por estar mais em voga.

Por último, e apesar de não valer ainda a pena falar de Pedro Passos Coelho, é necessário lembrar o seu secretário de estado da Cultura, Francisco José Viegas, outro senhor em quem se tem depositado alguma esperança mas cujo trabalho será mais provavelmente um desespero. Saber de perto as necessidades múltiplas e profundas deste sector, ter vontade para agir e estar permanentemente limitado por ser secretário de alguém que tanto desvaloriza o papel essencial da cultura hoje e sempre não pode ser bom. Boa sorte, para si e para a cultura em Portugal.

Assim se iniciam as próximas festividades, assim continua a luta (não sei com qual alegria), assim se cavam mais uns metros cúbicos de areia na vala comum deste povo à beira-mar plantado. A ver vamos."

Sunday, 23 March 2014

Art (28)



Morocco

Cenas (9)

Esta semana começo por partilhar uma previsão dos resultados das próximas eleições europeias pelo electionista (no twitter em @electionista). Sendo só uma previsão e anterior à campanha eleitoral, é ainda assim interessante verificar que se mantêm os votos nos grupos do costume e que há uma equivalência entre os votos em partidos do EPP e da S&D. É estranho ver isto num momento em que há tanta contestação em vários países não só à condução do projecto europeu nos últimos anos como em particular à austeridade imposta aos países periféricos. Será isto resultado do medo de arriscar dos povos europeus? Do pouco peso da periferia na condução da UE? Será que não querem mudar agora que o PE se vai tornar ainda mais relevante? Se há momento em que seria de esperar uma grande divisão dos votos em direcção aos extremos, sejam os proponentes de uma federação europeia, sejam os eurocépticos, este é o momento. Pode isto, por outro lado, mostrar que os europeus, temendo a sua destruição, queiram manter o equilíbrio que tem conseguido, mal ou bem, gerir o projecto europeu até hoje sem o deixar colapsar?


O que me parece mais provável, no entanto, é que as pessoas não mudem o seu voto porque, em escolhas complicadas, em situações complexas cujo conhecimento profundo lhes escapa, têm tendência em fazer a opção do costume, a fácil, a óbvia. Vem com isto uma sensação de estabilidade, mas também o perigo de nos perdermos por não saber escolher um caminho alternativo.

____________________________________________________________________


No seguimento disto, trago agora um texto do Diogo Moreira no 365 Forte, onde comenta a teimosia do pedido de consenso do Presidente da República. Por coincidência, estou a ouvir agora mesmo o Eixo do Mal, onde o Daniel Oliveira se diz contra o forçoso consenso PSD-PS, pela necessidade de haver uma alternativa capaz de governar caso a actual política falhe. Concordo com os argumentos de ambos. Por um lado, porque as eleições são precisamente um momento em que deve haver discussão, em que se deve contrapor propostas, para que exista - como até o Cavaco disse - verdadeiro debate de ideias. Por outro lado, porque haver um consenso nos partidos ditos da governabilidade (um dia hei-de dedicar-me a criticar esta expressão) pode levar precisamente ao problema que expliquei acima quanto ao parlamento europeu.

____________________________________________________________________


Mudando radicalmente de assunto, partilho uma ferramenta que pode ser interessante para quem queira comprar computadores ou telemóveis: o Ethical Consumer. É um website que avalia as marcas pelo seu respeito pelo ambiente, pelos animais e pelas pessoas, quanto a algumas políticas específicas e ética laboral e ainda pela sustentabilidade dos produtos. Conhecem outras ferramentas semelhantes? Têm experiência com esta?


Sunday, 16 March 2014

Quote / Citação (37)

Aí está o Templo. Visto assim de perto, do plano inferior em que estamos, é uma construção que dá vertigens, uma montanha de pedras sobre pedras, algumas que nenhum poder do mundo pareceria ser capaz de aparelhar, levantar, assentar e ajustar e contudo estão ali, unidas pelo próprio peso, sem argamassa, tão simplesmente como se o mundo fosse todo ele uma construção de armar, até às altíssimas cimalhas que, olhadas de baixo, parecem roçar o céu, como outra e diferente torre de Babel que a protecção de Deus, contudo, não logrará salvar, pois um igual destino a espera, ruína, confusão, sangue derramado, vozes que mil vezes perguntarão, Porquê, imaginando que há uma resposta, e que mais cedo ou mais tarde acabam por calar-se, porque só o silêncio é certo.


José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)

Art (27)



Jewel Wasp

Saturday, 1 March 2014

Cenas (8)

Não concordando com tudo o que Daniel Oliveira dá a entender nesta crónica, a sua leitura não deixa de ter interesse para a análise do discurso político actual. Por um lado, não se pode comparar a atitude do PS perante a vinda da troika e seu memorando com a do PSD e CDS. Não nos podemos esquecer que o governo socialista tentou evitar este processo (bem ou mal, é outra questão) e foi a oposição dos outros dois, aliados aos restantes partidos da esquerda parlamentar, que levou ao isolamento do dito governo, ao falhanço da estratégia dos PEC (se ia servir para alguma coisa ou não é, mais uma vez, outra questão) que nos obrigou ao pedido de ajuda externa. Mais, foram o PSD e o CDS (aqui já diametralmente opostos à esquerda novamente) que celebraram a vinda da troika e o memorando que seria "o seu programa de governo" e que, uma vez lá chegados, se dispuseram até a "ir mais longe do que o memorando". Por outro lado, tem razão o Daniel Oliveira quando se queixa das "costas-largas" do memorando. Desde que ele passou a ser mau (falei disto noutro post) o governo tenta atirar para a responsabilidade do memorando (que agora diz que é do PS) as medidas mais impopulares. Se há coisa que se evita nesta governação é informar os governados com a honestidade que lhes é devida.

Por falar em honestidade, trago mais um caso em que tem faltado muita. As referências ao Rui Tavares, desde que saiu do BE mas principalmente desde que se dispôs a ajudar a criar um novo partido de esquerda, o LIVRE, têm sido sempre desde exageradas a totalmente falsas. É óbvia a tentativa de descredibilizar aquela que é a pessoa mais conhecida do novo partido, no sentido de impedir a sua implantação, vinda do típico medo do "roubo de votos" à esquerda (que interessa se o partido viria a representar melhor as ideias de alguns portugueses, votantes ou abstencionistas até então). O Rui Tavares responde neste artigo no Jornal i a várias dessas criticas, nomeadamente quanto à sua actividade no Parlamento Europeu. Vale a pena ler com atenção, para evitar "ser levado" pelas tretas de gente com intenções tudo menos francas. De resto, quanto ao LIVRE, do qual o actual porta-voz nem sequer é o Rui Tavares, faça-se uma visita ao site oficial, até porque as várias políticas e metodologias que defende estão lá bem explicitas e é nisso que se deve basear a nossa opinião de um partido, até que nos apresente candidatos específicos a cada eleição.
(disclaimer: eu sou apoiante do LIVRE, ainda não militante nem pertencente a nenhuma organização interna do partido)

Segue-se uma publicação no site do Sindicato Independente dos Médicos, que é apenas uma pequena amostra do que se tem feito ao dia a dia dos médicos, neste caso dos médicos de família, à custa de novos programas informáticos e novos processos de controlo da actividade de prescrição. Desta feita, a referência é à avaliação das prescrições médicas, sendo que, em vez de se avaliar aquilo que cada médico efectivamente leva a gastar a nível de comparticipação de medicamentos e exames auxiliares, passa-se a avaliar aquilo que é prescrito, mesmo que não seja comprado ou feito pelo utente. Ora isto vai sobrestimar os gastos associados à actividade de cada médico (pelos erros informáticos, pelas receitas que os utentes não levantam por esquecimento da validade ou por falta de dinheiro, etc.) sem qualquer benefício para o SNS. Aliás, só traz prejuízo por ser um progresso na cruzada desta governação que pretende culpabilizar o médico, como se ele fosse um ladrão do dinheiro público por prescrever os medicamentos e exames que são parte integrante da actividade clínica, dos cuidados de saúde que a população pretende e para os quais paga os seus impostos. Se isto continua assim, qualquer dia o médico tem que escolher a qual doente trata o colesterol, a qual trata a diabetes, a qual trata a hipertensão, sob pena de, tratando tudo como deve ser, ultrapassar os limites de "gastos" que lhe são impostos. Ou então, numa bela cena de hipocrisia histórica, passar a mandar os doentes pedir as prescrições num médico privado, ao contrário do que se fez em tempos.

Por fim, uma leitura essencial sobre a forma como os regimes democráticos europeus lidam com regiões ou povos com tendências separatistas, com reflexões em relação à forma como se decide da sua independência e da sua pertença ou adesão à União Europeia.
Tinha guardado este texto do Filipe Henriques para o partilhar há alguns dias, mas de repente todo este assunto se tornou ainda mais relevante pela emergência de um novo local onde se vai discutir isto, a Crimeia na Ucrânia, onde, a somar-se à autonomia da região e à quantidade de população de origem russa, temos ainda os interesses estratégicos da própria Rússia, a provável ocupação militar que já está a decorrer, a confusão ao nível da governação central ucraniana, as pressões da UE e dos EUA e a proximidade a outros territórios algo complicados. Já não era simples lidar com os separatistas dentro dos países com democracias relativamente estáveis e dentro da união, vejamos como se porta agora como força geopolítica à escala mundial.

Thursday, 27 February 2014

Penetração, a bem da nação!

Ouvi esta proclamação no Inferno (não morri, mas vejo o Canal Q) e pareceu-me uma das melhores caracterizações da política governamental que temos sofrido que eu poderia imaginar. Senão vejamos o que o governo que foi eleito com a ideia de que o português não aguenta mais nos tem dito e feito, para além do "ai aguenta, aguenta":

- começou por querer foder o estado social, para diminuir o despesismo (sempre se disse que o sexo emagrece, de facto, e eles bem falavam de gorduras);

- seguiu-se o encorajamento aos patrões: enrabem os trabalhadores, que a gente deixa! (e se alguns fugirem, arranjam-se outros, mais baratos, a quem a sodomia custe menos, a ver se aumentamos as exportações);

- houve ainda tempo para mandar os desempregados para o caralho, como quem diz, emigrar à força bruta e, como qualquer violador que se preze, acompanhado do "vais ver que vais gostar", desta feita no formato "isto é uma oportunidade";

- por fim, vêm agora pedir aos portugueses que se debrucem sobre o problema da baixa natalidade (ignore-se tudo o que fizeram antes, sob pena de isto parecer loucura, coitados) - pergunto-me se Passos também vai sortear carrões, a ver se convence os menos "abonados" a dar uso à ferramenta na esperança de um dia compensar as falhas com a aparência, e assim se multiplicar feito Coelho;

Diz que, na Europa, se diz hoje que a prostituição não pode ser uma profissão legalizada - não percebem estes tolos que assim é que nós portugueses parecemos todos desempregados? E se os mercados ouvem?

Sunday, 23 February 2014

Jorge Moreira da Silva e a desvalorização dos discursos eleitorais

Em entrevista à SIC Notícias, Jorge Moreira da Silva, actual Ministro do Ambiente e Vice-Presidente do PSD, diz que neste momento os portugueses "não querem saber quem vai vencer as eleições europeias, ou as legislativas, ou presidenciais; querem saber como é que o país vai passar de uma fase de resgate para uma fase de desenvolvimento, e isso é o essencial. Eu lamento muito, mas eu não quero contribuir com um segundo que seja para aquilo que me parece não ser o essencial. O essencial é crescer, gerar emprego, criar condições para que o país tire partido dos talentos, dos recursos, das infraestruturas, da sua história, da sua língua, e essa é a mensagem de esperança que sai deste congresso."

Aqui está um dos grandes problemas da politica partidária actual, que explica em parte a descrença das pessoas em relação ao nosso sistema democrático representativo. Ora se até este senhor, com responsabilidade no governo mas também a nível partidário, diz que os portugueses, porque preocupados com o futuro do país, não estão interessados em saber quem vai vencer (quero crer que o senhor queria dizer quem se vai candidatar) os três actos eleitorais que se seguem... O que estas frases revelam, ditas quiçá num momento de pouco cuidado e atenção, é uma de duas coisas (ou ambas):
 - que até mesmo na liderança do PSD há um reconhecimento e uma aceitação de que o discurso eleitoral e a imagem da pessoa enquanto candidato têm pouco a ver com as atitudes que são tomadas depois da eleição ganha;
 - que não interessa ao PSD e ao governo que os portugueses atentem nas discussões pré-eleitorais, porque é mais fácil lidar com eles por entre os pedidos de consenso e as despedidas da troika do que abrir caminho a escrutínio bem organizado e publicitado (como poderia ocorrer na campanha).
Depois, dizer que o que lhes interessa é gerar emprego (vejam-se os últimos números do desemprego) e que o país tire partido dos talentos (que mandam emigrar) e das infraestruturas (que privatizam ou param de desenvolver) é de uma hipocrisia dolorosa.

Os portugueses, genuinamente preocupados com o estado do seu país e do seu povo, não podem estar interessados na discussão política do futuro de Portugal e da Europa inerente às eleições europeias. Não podem igualmente querer saber quais as suas opções nas próximas eleições presidenciais, não vá isso aumentar a atenção prestada ao ridículo da nossa presidência da república. Não podem ainda querer saber de nada sobre legislativas, essas eleições absolutamente secundárias para tudo o que passam no seu dia a dia, ano após ano.
O que esta gente tem na cabeça é claro, fala por si e não augura nada de bom para o nosso futuro.

Art (24)


Dementor and Harry Potter
by Skottie Young

Sunday, 16 February 2014

Do ataque à carreira médica e ao SNS

O novo projecto de decreto-lei relativo ao internato de formação específica na profissão médica começa por dizer, no seu artigo 2º, que 

"O internato médico corresponde a um processo único de formação médica especializada, teórica e prática, que tem como objetivo habilitar o médico ao exercício tecnicamente diferenciado na respetiva área de especialização."

Depois trata de preparar um regime que vai obrigar à criação de uma franja de médicos não especializados, sem possibilidade real de fazerem a dita especialização, mas com a devida autonomia de forma a encaixar-se no mundo do trabalho, diminuindo a qualidade e a exigência em relação à profissão médica. Quem pense que isto tem outra pretensão que não enfraquecer a classe médica, piorar a visão geral do seu trabalho, diminuir mais os seus rendimentos, facilitar a médio prazo o ataque ao SNS e a criação de um sistema privado com médicos baratos e sem opções, está puramente iludido.

No artigo 6º, sobre os locais de formação, diz-se

"2 - Os critérios para a determinação de idoneidade dos estabelecimentos e serviços, referidos no número anterior, são definidos sob proposta do CCIM, ouvida a Ordem dos Médicos, por despacho do membro do Governo responsável pela área da saúde.
3 - Para efeitos do disposto no número anterior e na ausência de parecer da Ordem dos Médicos, a definição dos critérios de idoneidade é efetuada com base na proposta do CCIM, por despacho do membro do Governo responsável pela área da saúde."

Ora isto parece-me a abertura do caminho para ser o governo a poder definir, por si só, a idoneidade formativa de alguns locais. Será isto para oferecer aos privados a garantia de que poderão ter internos? Fica a dúvida.

No artigo 11º, ponto 1

"b) Prestação de prova nacional de seleção;"

Lembro-me de haver uma prova nacional de seriação, resultando numa ordem de preferência, mas não numa selecção de quem pode ou não escolher internato de formação específica.

No artigo 12º,

"2 - O médico que, tendo ingressado no internato médico, opte por se desvincular antes de concluído o respetivo programa de formação especializada, não pode candidatar-se a novo procedimento concursal de ingresso antes de decorrido um período de 2 anos civis, salvo o disposto nos n.os 1 e 2 do artigo 25.º."

Pergunto, o que farão estes médicos não especializados durante dois anos para seu sustento?

O Artigo 13º retorna à prova:

"1. O modelo da Prova Nacional de Seleção (PNS) é aprovado por despacho do membro do Governo responsável pela área da saúde."

Não era a Ordem dos Médicos (OM) que definia a exigência para a pratica da medicina? E se esta prova não é para isso, então porque raio no Artigo 14º se diz que

"Os candidatos que obtenham na PNS classificação superior a 50% da classificação máxima realizam as suas escolhas de colocação, de acordo com o mapa de vagas divulgado pela ACSS, I.P.."

Teremos nós, potencialmente, médicos que a OM considere capazes mas a quem o governo não ofereça possibilidade de formação? Ou a OM já nem vai ter nada a dizer?

No artigo 21º aparece uma nova dúvida:

"3 - Os médicos internos realizam a formação em regime de exclusividade de funções."

Significa isto que os médicos internos deixam de poder trabalhar noutras instituições, seja isso por interesse curricular, para incrementar rendimento ou para ambos?

A primeira resposta aparece no Artigo 37º:

"6. O regime previsto presente diploma aplicar-se-á na sua totalidade, pela primeira vez, aos médicos que irão realizar a Prova Nacional de Seleção em 2015 e cujo ingresso no internato médico terá lugar em 1 de Janeiro de 2016.Aos médicos abrangidos pelos nos. 2,3 e 4 do presente artigo, o exercício autónomo da Medicina, é reconhecido a partir da conclusão, com aproveitamento, do Ano Comum de formação do internato médico."

Ou seja, os médicos passam a ter autonomia a partir da conclusão do ano comum e, portanto, sem necessidade de qualquer formação especializada. Agora falta ainda saber o que vai acontecer ao certo ao ano comum. Irá ele desaparecer e ser absorvido pela especialidade, como parece dar a entender o Artigo 3º?

"4 - O internato médico é desenvolvido em conformidade com os respetivos programas de formação médica especializada. O programa de formação do 1º ano de especialização deve para o efeito contemplar os itens necessários por forma a assegurar, em pelo menos 80% do programa, uma formação comum a todas as especialidades., agrupadas em dois troncos comuns. Os troncos comuns são cirurgia geral e medicina interna."

E se sim, os próximos médicos serão autónomos à saída do curso? E, portanto, os tais médicos não aprovados na prova de selecção serão trabalho não especializado e mais barato para ser aproveitado? E se sim, será a ideia por médicos a trabalhar em estágios desestruturados e mal pagos (como é costume em Portugal) entre o final do curso e a dita prova de selecção, para depois terem vantagem no desempate, como parece dar a entender o Artigo 15º?

"3 – Se após aplicação dos critérios referidos no número anterior se verificar o empate, aplicar-se-ão os seguintes critérios, por ordem decrescente:
a) Experiência obtida em unidades de saúde do SNS, resultante de pelo menos 1 ano de atividade em ETC em cuidados de saúde primários ou em hospitais;"

Não menos importante é o facto de o governo decidir aqui a introdução da média final de curso como critério para selecção, ignorando uma discussão que já dura há anos entre as várias faculdades de medicina e a OM sobre como fazer a ponderação das médias para resolver as diferenças entre os vários cursos.


Ficam muitas questões, mas uma certeza, a de que esta alteração não é no sentido de melhorar absolutamente nada na formação especializada dos médicos, muito pelo contrário. A OM perde poderes, o governo oferece médicos baratos (sejam os internos, sejam os indiferenciados) aos privados de bandeja, afasta-se da responsabilidade de oferecer uma boa formação específica a todos os médicos (ao mesmo tempo que assume a falta de médicos em algumas áreas) e passa ao lado da necessária discussão prévia com os sindicatos e os profissionais da área.

Art (23)



Comfortably Numb

Saturday, 15 February 2014

Cenas (7)

Hoje recupero uma rubrica do blog que abandonei não sei bem porquê. Aqui ficam algumas "cenas" que encontrei por essa internet fora na última semana que achei interessantes o suficiente para partilhar:

Para começar, um pequeno texto de Daniel Oliveira no Expresso em referência ao sorteio de carros para as facturas com número de contribuinte e que conclui com um pensamento que temo reflectir muito do que vivemos enquanto manda este governo: "E corresponde ao essencial do seu pensamento ideológico: o contributo de cada indivíduo para a comunidade só faz sentido na medida em que isso corresponda a um lucro pessoal."


Segue-se Death by Finance de Dani Rodrik, professor de ciências sociais e autor na área da economia. Deixo-vos um parágrafo que demonstra bem a sua mensagem:
"The deeper problem lies with the excessive financialization of the global economy that has occurred since the 1990’s. The policy dilemmas that have resulted – rising inequality, greater volatility, reduced room to manage the real economy – will continue to preoccupy policymakers in the decades ahead."


Hoje mesmo tive o prazer de ler esta tradução publicada por Pedro Figueiredo de parte de um ensaio de Maria Pia Paganelli: "Learning from Bjartur About Today's Icelandic Economic Crises".


Por fim, partilho uma TED Talk de Jon Ronson relativa à sua pesquisa para o seu livro, The Psychopath Test, que nos deixa uma mensagem interessante não só sobre psicopatas, mas também sobre as reacções dos ditos normais em relação a isso.


Friday, 14 February 2014

East of West Vol.1: The Promise by Jonathan Hickman and Nick Dragotta

Em East of West, Jonathan Hickman e Nick Dragotta misturam alguma ficção científica com um enredo tipicamente fantástico - a besta do apocalipse - de uma forma extremamente importante. Este primeiro volume é uma apresentação das personagens, as suas histórias e motivações e a sua posição num planeta Terra com uma história alternativa. O leitor segue Morte que está aqui contra os seus três companheiros cavaleiros do apocalypse (aqui crianças) e a sua busca por vingança e pela mulher que ama. "Amar até à morte" tem todo um novo alcança em East of West, onde três personagens conseguem destruir exércitos inteiros ou determinar quem é presidente matando todos os restantes "candidatos".
É isto que quero num primeiro volume de uma série: uma história que me deixa curioso sem se revelar demasiado, personagens que de facto quero conhecer (e descobrir o que vão fazer a seguir) e um mundo intrigante, tanto tecnologica como politicamente, que mal posso esperar para ver explorado.
Li esta banda-desenhada inicialmente através do NetGalley, mas gostei tanto que acabei por comprar o volume em papel e encomendar o seguinte. Em East of West, Hickman está ao seu mais alto nível e Dragotta convence-me inevitavelmente, enquanto as suas personagens parecem viver entre o apocalipse e o armageddon.





In East of West, Jonathan Hickman and Nick Dragotta find a way to mix a few science fiction themes with a major typical fantasy plot - the beast of the apocalypse - in a very interesting way. This first volume is a presentation of the characters, their general background and drive and where they stand in this weirdly time displaced, wonderfully confused, alternate history Earth. The reader follows Death who is against his three apocalyptic siblings (here incarnated as children) and his quest for a human woman he seems to love. "I love you to death" gets a whole new meaning and scope in East of West, as a few characters get to murder entire armies or determine the results of a promotion by killing off the unwanted "candidates".
This is exactly what I enjoy in introductory volumes: a story that piques my curiosity without revealing itself too much, characters I really want to get to know, and a world intriguing enough (both technologically and politically) that I can hardly wait to see it further explored.
I got to read this first volume from NetGalley, but I liked it so much that I bought the paperback and will order the next ones This is Hickman at his usual best and Dragotta making me a fan, while their characters live between apocalypse and armageddon. 

Monday, 10 February 2014

Quote / Citação (36)

"I sometimes rise late in the night beset by anxieties, thinking that my heart is about to stop beating; that robbers lurk outside, seeking entry; or a terrible storm is about to send lightning down upon me. 1 am convinced my talent has withered, and I have grown old and foolish; that women laugh cruelly when they speak of me; and all my careful investments have collapsed, leaving me a pauper. 1 imagine that a terrible war has begun that will sweep away all we know, and silent lines of soldiers pass by in the night. I worry that lack of rest will bring my health to ruin.
And then, when I can bear it no more, the terrible, infinite depths of the night sky turn stone gray, and the sun rises again, lifting up above the horizon like a bright promise, and I realize the condition from which 1 suffer is but the human condition. Our solid lives are balanced on the edge of calamity, so much so that we do everything possible never to think of it, for contemplation drives one to despair. Despair that there is nothing we can do except promote the illusion that all is well, though we live with the secret knowledge that this is not so.
We wake in the grip of terror, the night telling us that we are utterly alone, our safe lives nothing but dreams. And our greatest fear of all—that we will be released from this world of anxiety and terror. The sun will not rise on the morrow."


Sean Russell, Sea Without a Shore (1996)

Sunday, 9 February 2014

Art (22)



Cold as Lava

Orwell às voltas na campa: da adesão ao discurso vigente ou a história da narrativa da crise

Já muito se falou daquele que é o habitual discurso do nosso governo, dos partidos da coligação e dos actores mais ou menos dispersos (ou dissimulados) pelos meios de comunicação social que os apoiam. A famosa e muito ridicularizada "narrativa" de que falou José Sócrates no seu regresso voluntário aos média nacionais não foi só uma desculpa para se fazer de incompreendido, foi também uma constatação do quão moldado está a ser o pensamento dos portugueses (e não só).

É comum a todos os momentos eleitorais ou de especial tensão política e ideológica este investimento numa forma de analisar as situações que insinue conclusões gerais o mais próximas possível do que convém a cada grupo. Não haja aqui contemplações, grande parte dos "actores" políticos está longe de querer ajudar as pessoas a compreender os meandros e os pormenores das situações que comentam. O objectivo primordial é convencer as pessoas de que este ou aquele está "certo" ou de que é o mais preocupado com a situação que fala ao coração do eleitor. Atenção que não digo que isto seja simplesmente por má vontade ou má fé, há que ter em conta que a maioria dos portugueses não tem cultura geral e muito menos conhecimentos específicos que lhe permita perceber a fundo a generalidade das questões discutidas (provavelmente um dos nossos maiores problemas).

No entanto, o que tem ocorrido nos últimos anos parece-me ir além do habitual - o que talvez se deva a estar a vivê-lo por dentro e atentamente - pelo que, ao ouvir há pouco tempo uma pessoa desempregada a dizer que nunca viveu "acima das suas possibilidades", resolvi organizar as minhas ideias e tentar dar algum contributo para a análise desta situação. Nesse sentido vou tentar passar ao lado das habituais picardias inter-partidárias, com o atirar de culpas aos que governaram anteriormente e queixas de falta de colaboração e sentido de responsabilidade, excepto quando relevantes para a discussão. Quero concentrar-me no que me parece especialmente grave no momento em que vivemos: o discurso orwelliano sobre a crise, a troika, o ajustamento e sobre as suas relações por um lado com o estado social e, por outro, com a culpabilização individual.

Os exemplos de doublethink e newspeak são tantos que nem vou tentar fazer uma listagem exaustiva. Seguem-se casos que bastam para ilustrar esta situação.

Do programa eleitoral ao memorando da troika, das gorduras aos sacrifícios, do controlo do défice pela despesa à busca pelo milagre económico:


Ainda na oposição, Pedro Passos Coelho (PPC) colocou-se contra o malfadado PEC-4 por ser demasiado punitivo para os portugueses. Depois do seu partido negociar, em conjunto com o PS e o CDS, o memorando de entendimento com a troika, passou as eleições a proclamar uma série de coisas que vale a pena lembrar: que estava bem preparado, que sabia do que o país precisava, que não iria aumentar impostos ou que não reduziria os subsídios de férias/natal. Iniciou a governação a dizer que afinal o país estava muito mal e que o seu programa era o programa da troika e que se pudesse o levaria "mais além". Enquanto a farsa da culpabilização do país pegou (a discutir abaixo), a conversa manteve-se nesta linha, mas com a descredibilização deste discurso de arranque e principalmente com o abandono de Vítor Gaspar e a demissão "irrevogável" de Paulo Portas (PP), a conversa deu uma grande volta. Afinal, a troika é muito má, o memorando é uma imposição que o PSD nem queria ou da qual não gosta mas que no fundo ainda acredita que vai funcionar. Portanto, de repente o programa da troika já não é uma perfeita panaceia, mas ainda é um bom tratamento para o problema de um país que depende de terceiros para o financiamento básico. Fica isolada como principal motivação para tudo isto a confiança dos mercados. Cumprir o memorando de entendimento e nomeadamente as metas de redução do défice passam a ser a única opção para manter a confiança de quem nos empresta dinheiro, enquanto esperamos que a economia recupere. Neste momento começa-se a reconhecer a importância da economia, do produto interno, para pagar a dívida e poder equilibrar o orçamento (até aqui o nosso problema era puramente gasto a mais e nunca produto a menos), mas mantém-se a preponderância do corte na despesa. Quem ouve o governo agora, nomeadamente o irrevogável demitido agora vice-PM, não fica a perceber nada do que se passou até aqui. Diz-se agora que o que importa é o milagre económico, que só com crescimento é que vamos pagar as dívidas, reequilibrar o orçamento, recuperar a soberania financeira. Portanto, o governo que começou por dizer que a única coisa que era necessário era cortar os gastos a mais do estado, "as gorduras" do despesismo socialista, que dizia que não se podia tentar investir na economia porque isso aumentaria a despesa, e depois que não havia alternativa aos cortes, que andávamos a viver acima das nossas possibilidades, vem agora "admitir" que a nossa esperança está na economia. Isto, claro, porque se pode agarrar a meia dúzia de indicadores que apontam para um abrandamento da nossa auto-destruição ou até mesmo um possível início de crescimento económico.
Com isto não quero dizer que as várias ideias acima enumeradas não sejam frequentemente compatíveis, em especial considerando a complexidade da economia de um país e da crise que vivemos; quero no entanto chamar à atenção para a forma como o governo e seus porta-vozes se agarram a cada pormenor, a cada objectivo como se fosse a sua única bandeira, como nunca tentam fazer um discurso integrador e explicativo e, principalmente, como nunca admitem que estavam errados. Ao jeito do partido de 1984 (Orwell é demasiado apropriado para eu conseguir evitar referi-lo repetidamente), os nossos governantes mudam de opinião como se nunca tivessem pensado de forma diferente, como se não devessem explicações a ninguém, como se mantivessem a legitimidade eleitoral obtida com um programa proposto que se evaporou. Claro que, como ainda não vivemos bem na Oceania do livro, o governo lá acaba por ser entalado de vez em quando com um resultado constante: culpa-se o governo anterior por ter deixado buracos, covas, fendas e afins falhas nas contas públicas, tão grandes mas tão bem escondidas que estes vão dando com elas aos poucos, só quando convém. Quando até isto falha, culpa-se o mau tempo. Só falta recorrer ao zodíaco.

A crise - "o que há num nome?!"


A explicação da nossa crise tem passado por um processo semelhante, mas com um impacto que vai muito além da constatação de que temos um governo de mentirosos compulsivos demonstrada acima. Inicialmente a crise portuguesa era consequência da crise internacional. Seguiu-se um período conturbado em que foi dito aos portugueses que a crise era igualmente culpa da governação de Sócrates. Depois disto, caído o governo, o problema deixou de ser só a governação de Sócrates mas as várias governações socialistas. Do outro lado da barricada mantinha-se a teoria do impacto do contexto internacional. Eleito o novo governo, manteve-se o discurso de culpabilização do PS, transportado da crise para qualquer questiúncula parlamentar. Com o passar do tempo, começa a aparecer um outro critério importante, a Europa. Parece que na causa da crise, ou pelo menos como factor agravante preponderante estava uma política de investimento público generalizado e avultado imposta pela União Europeia no sentido de aplacar a crise internacional, indicação esta que foi revogada e invertida pela actuação da troika em vários países e consequente tentativa de unificação do discurso. Agora a crise não era internacional, era culpa do despesismo e preguiça dos países da periferia, especialmente os do sul da Europa.
Temos assim passado os últimos anos com cortes de poder de compra com a justificação de que estamos a resolver uma crise. Mas afinal os sacrificados sabem o que estão a pagar? Percebem o que estão a comentar? Afinal que medidas nos trouxeram a isto? De quem é a culpa? Estamos a resolver os problemas financeiros internacionais que levaram a isto? Ou foi mesmo só culpa nossa e estamos a pagar penitência? Mas quais de nós viveram mesmo acima das possibilidades? Os países do sul têm mesmo que ter condições de vida inferior às do norte porque são essas as suas possibilidades?
Não consigo responder a isto tudo. Não sei o suficiente para ser capaz de o fazer. Sei que alguns destes argumentos são treta, ou são pelo menos mal aplicados: não se pode dizer que vivemos acima das nossas possibilidades e depois corrigir isso nas pessoas com pensões de 1000 euros; não se pode dizer que o nosso problema é défice orçamental e justificar com isso a venda de empresas que dão lucro. O que quero demonstrar aqui é a falta de qualidade do nosso sistema político actual e os seus agentes do costume. Estão a forçar-nos a empobrecer sem nos dar uma explicação satisfatória da situação a que chegámos.

Irrevogável: a palavra do ano


Votei em irrevogável para a palavra do ano 2013 porque achei que depois de ter sido tão maltratada pelo PP merecia uma compensação, uma espécie de prémio carreira, em reconhecimento pelos anos que se aguentou sem que lhe violassem o significado. Se há melhor exemplo de newspeak português do que uma "demissão irrevogável" que afinal significa promoção - embora sem alteração da ortografia - eu não conheço.
Claro que o problema não é PP ter voltado atrás com a sua decisão. Não é exactamente uma situação agradável para o país (muito menos para a tão importante confiança dos mercados) nem o seria para qualquer indivíduo em tal posição. No entanto, de cara cada vez mais bem lavada, o PP conseguiu demitir-se com pompa e circunstância (faz quase tudo com pompa e circunstância), dizendo que a sua decisão tinha sido tão bem ponderada e era de tal forma séria que era irrevogável. De seguida volta a integrar o governo, desta feita com uma posição de maior relevo e com responsabilidade na execução de um plano com o qual aparentemente discordava (não era precisamente nas medidas difíceis que Portas se baseava para justificar a sua demissão irrevogável?).
Vai-se a ver e afinal só era irrevogável a saída do cargo de ministro dos negócios estrangeiros. Devia haver alguma infestação nas instalações do ministério, tal foi a velocidade com que o novo vice-PM foi em busca de novo poiso. Infestação essa talvez explique as loucuras do novo MNE - alguma febre da carraça - que é de tal forma contraditório com o restante governo que só mesmo pelo exercício do doublethink podemos perceber que simultaneamente pertença ao executivo de PPC e diga aquelas barbaridades/verdades quando viaja. Entretanto Machete tem estado mais calado: terá sido tratado ou só silenciado? Haverá alguma diferença?

O estado social: gorduras, direitos adquiridos, sacrifícios e insustentabilidade


Uma das coisas que é inevitavelmente discutida em momentos de crise, em especial pela "direita", é o dito peso do estado social. A actual não foi excepção. Inicialmente, em alturas de oposição parlamentar, a direita opta pela acusação de despesismo ao governo socialista. Depois faz cair o governo (não sozinha, de facto) com a acusação de estar a sacrificar os portugueses. Em período eleitoral o discurso tem uma transformação maravilhosa e a direita subitamente parece socialista: os portugueses não aguentam mais; quando estivermos no governo isto vai tudo melhorar; nem pensar em mexer nos subsídios para reparar os estragos do governo anterior; só falta remover as "gorduras" do estado social para compor o país e afins promessas. Chegados ao posto pretendido, a direita no governo começa a regressar ao discurso original: afinal isto está muito mau; o governo anterior deixou isto pior do que pensávamos; vamos ter que fazer sacrifícios; o programa da troika é o nosso programa de governo. Com a progressão do chamado "ajustamento", conforme as pessoas vão percebendo que as gorduras nunca mais são identificadas e removidas e se vão cansando das desculpas com as surpresas deixadas pela governação anterior, o governo antagonizado cai na culpabilização: as pessoas viveram acima das suas possibilidades; os direitos adquiridos estão a destruir as finanças do estado; as pessoas não querem pagar o estado social a que se habituaram; o estado social é insustentável. À medida que a moral do governo vai sendo desgastada por uma luta contra o que grande parte dos portugueses querem sem qualquer possibilidade de os convencer - sem esquecer o descalabro eleitoral das autárquicas e a aproximação dos próximos momentos eleitorais - chegamos à última fase: a troika afinal enganou-se; o memorando estava desajustado; temos que recuperar a parcela de soberania que perdemos; estamos em contagem decrescente para a saída da troika; os cortes e aumentos de impostos são temporários, etc..
Apesar destas sucessivas alterações ao seu discurso, o governo não mudou praticamente nada da sua actuação. Continua o ataque ao estado social, o empobrecimento por redução de direitos e aumento de impostos (que afecta mesmo quem ganha miseravelmente a medir pelos padrões europeus), a transferência de poder económico dos trabalhadores para os patrões (veja-se a preferência pela redução do IRC num contexto de IVA e IRS elevados e sobretaxas afins). Não esquecer a privatização selectiva das empresas que dão lucro ao estado que não faz sentido associada ao discurso de um estado social estruturalmente insustentável: ou justificamos a privatização pela necessidade de livrar o estado de empresas que dão despesa com a esperança que uma gestão privada as regenere (deixo a crítica a esta ideia para outra ocasião) ou privatizamos por ideologia num momento em que o estado pode dispensar o lucro perdido, ou ainda, vendemos por desespero por precisarmos de um influxo de dinheiro imediato que só estas vendas nos possam arranjar (este obviamente não é o caso dado o dinheiro que estamos a perder com as privatizações que já ocorreram).

_________________________________________________________________


Talvez ainda mais grave do que um governo incompetente, é o efeito a longo prazo que esta governação terá. A nível económico prevê-se um longo período até que o país pelo menos volte ao que já foi. Mas a alteração da forma de ver a governação, a sociedade, a constituição, a relação entre os trabalhadores e os patrões, a relação entre os remunerados e os dependentes pode ter consequências ainda mais graves, porque mais profundas, prolongadas e perigosas. Estamos a construir um país de gente descrente na democracia, desligada dos seus representantes máximos, com desprezo pelos partidos e em guerra consigo própria: os trabalhadores contra os subsidiados, os desempregados contra os trabalhadores, todos contra os reformados que "tanto" recebem quando já nem trabalham e contra os políticos, claro. Por outro lado, é uma gente que, talvez pelo desespero aprendido, talvez pela falta de construção de uma mentalidade pró-activa e crítica, se torna relativamente pacata perante os ataques à sua qualidade de vida (ou sobrevivência), o que, a longo prazo, levará a um de dois caminhos: um Portugal de massa amorfa e meia dúzia de gente numa elite governante exploradora ou um Portugal em que já ninguém tem nada a perder e se revolta contra as instituições democráticas. Eu sei que não quero nem um, nem outro. Precisamos, todos, de partidos, políticos, comentadores e jornalistas que saibam falar para os portugueses, não só com honestidade mas com uma linguagem compreensível e coerente, quer se queira pedir sacrifícios, quer se queira considerá-los errados, quer se queira mais estado social ou menos estado social, quer se queira sair do Euro e da União Europeia quer se queira maior ligação com a comunidade ou até federalismo europeu.

Neste caminho arrisca-se tudo.



_________________________________________________________________

outras postas sobre esta temática algures na blogosfera:
http://arrastao.org/2928343.html
http://arrastao.org/2928653.html
http://365forte.blogs.sapo.pt/a-nova-normalidade-183750

Saturday, 8 February 2014

Quote / Citação (35)

"It is strange to think that I, of all people, became a smith of the language, for my relations with human kind have always been marked by a fundamental lack of commonality, as though I came from a distant land and spoke an alien tongue. I have always looked at my countrymen and thought that they slept as they walked: a sleep without dreams."


Sean Russell, Sea Without a Shore (1996)

Monday, 27 January 2014

Quote / Citação (34)

"All of the disputed territories contain valuable minerals, and some of them yield important vegetable products such as rubber which in colder climates it is necessary to synthesize by comparatively expensive methods. But above all they contain a bottomless reserve of cheap labour. Whichever power controls equatorial Africa, or the countries of the Middle East, or Southern India, or the Indonesian Archipelago, disposes also of the bodies of scores or hundreds of millions of ill-paid and hard-working coolies. The inhabitants of these areas, reduced more or less openly to the status of slaves, pass continually from conqueror to conqueror, and are expended like so much coal or oil in the race to turn out more armaments, to capture more territory, to control more labour power, to turn out more armaments, to capture more territory, and so on indefinitely. It should be noted that the fighting never really moves beyond the edges of the disputed areas.

(...)

but the balance of power always remains roughly even, and the territory which forms the heartland of each super-state always remains inviolate. Moreover, the labour of the exploited peoples round the Equator is not really necessary to the world’s economy. They add nothing to the wealth of the world, since whatever they produce is used for purposes of war, and the object of waging a war is always to be in a better position in which to wage another war.

(...)

The primary aim of modern warfare (in accordance with the principles of doublethink, this aim is simultaneously recognized and not recognized by the directing brains of the Inner Party) is to use up the products of the machine without raising the general standard of living. Ever since the end of the nineteenth century, the problem of what to do with the surplus of consumption goods has been latent in industrial society. At present, when few human beings even have enough to eat, this problem is obviously not urgent, and it might not have become so, even if no artificial processes of destruction had been at work. The world of today is a bare, hungry, dilapidated place compared with the world that existed before 1914, and still more so if compared with the imaginary future to which the people of that period looked forward. In the early twentieth century, the vision of a future society unbelievably rich, leisured, orderly, and efficient — a glittering antiseptic world of glass and steel and snow-white concrete — was part of the consciousness of nearly every literate person. Science and technology were developing at a prodigious speed, and it seemed natural to assume that they would go on developing. This failed to happen, partly because of the impoverishment caused by a long series of wars and revolutions, partly because scientific and technical progress depended on the empirical habit of thought, which could not survive in a strictly regimented society.

(...)

Nevertheless the dangers inherent in the machine are still there. From the moment when the machine first made its appearance it was clear to all thinking people that the need for human drudgery, and therefore to a great extent for human inequality, had disappeared. If the machine were used deliberately for that end, hunger, overwork, dirt, illiteracy, and disease could be eliminated within a few generations. And in fact, without being used for any such purpose, but by a sort of automatic process — by producing wealth which it was sometimes impossible not to distribute — the machine did raise the living standards of the average human being very greatly over a period of about fifty years at the end of the nineteenth and the beginning of the twentieth centuries.
But it was also clear that an all-round increase in wealth threatened the destruction — indeed, in some sense was the destruction — of a hierarchical society. In a world in which everyone worked short hours, had enough to eat, lived in a house with a bathroom and a refrigerator, and possessed a motor-car or even an aeroplane, the most obvious and perhaps the most important form of inequality would already have disappeared. If it once became general, wealth would confer no distinction.

(...)

For if leisure and security were enjoyed by all alike, the great mass of human beings who are normally stupefied by poverty would become literate and would learn to think for themselves; and when once they had done this, they would sooner or later realize that the privileged minority had no function, and they would sweep it away.


George Orwell, Nineteen Eighty-Four (1949)

Thursday, 23 January 2014

Choose my destiny - results

Ora fechadas que estão as votações, chegou a hora de publicar os resultados:

- na língua portuguesa:

- nas sagas:

- na pilha TBR:

- nos calhamaços:

- nos obrigatórios:

- na BD:

e nos emprestados:


Assim sendo, começando em Fevereiro e antes de quaisquer outros, este ano comprometo-me a ler e comentar os seguintes livros:

O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago; 

La Sombra del Viento de Carlos Ruiz Zafón; 

Fevre Dream de George R. R. Martin; 

1Q84 de Haruki Murakami; 

To Kill a Mockingbird de Harper Lee; 

The Absolute Sandman Vol.1 de Neil Gaiman; Lucifer
The Unwritten: Tommy Taylor and the Ship That Sank Twice de Mike Carey; 

If This Is a Man / The Truce de Primo Levi.

Obrigado aos 37 participantes, gostei muito de acompanhar as votações e pondero repetir a experiência, se as leituras correrem bem!

Sunday, 19 January 2014

Art (19)



Portrait III

Choose my destiny!

This is an opportunity for those who read the blog (or are just stumbling through at the moment) to choose what I'll read in 2014. I decided to ask you all which should be the first book of each of the following groups I'll read this year. I'll try to review here all of the books chosen by you. So vote away, in one to three books in each section.


Esta é uma oportunidade para os leitores do blogue escolherem o que eu vou ler em 2014. Decidi perguntar-vos por qual livro deveria começar, para cada um dos grupos definidos abaixo. Tentarei escrever uma opinião de cada um dos escolhidos no blog. Portanto votem, em um a três livros por secção!





Saturday, 18 January 2014

Royals by Lorde



Royals (written by Ella Yelich O'Connor, Joel Little)

I've never seen a diamond in the flesh
I cut my teeth on wedding rings in the movies
And I'm not proud of my address
In the torn up town, no post code envy

But every song's like:
Gold teeth
Grey Goose
Tripping in the bathroom
Bloodstains
Ball gowns
Trashing the hotel room

We don't care, we're driving Cadillacs in our dreams

But everybody's like:
Crystal
Maybach
Diamonds on your timepiece
Jet planes
Islands
Tigers on a gold leash

We don't care, we aren't caught up in your love affair

And we'll never be royals (royals)
It don't run in our blood
That kind of lux just ain't for us, we crave a different kind of buzz
Let me be your ruler (ruler)
You can call me queen bee
And baby I'll rule, I'll rule, I'll rule, I'll rule
Let me live that fantasy

My friends and I we've cracked the code
We count our dollars on the train to the party
And everyone who knows us knows
That we're fine with this, we didn't come from money

But every song's like:
Gold teeth
Grey Goose
Tripping in the bathroom
Bloodstains
Ball gowns
Trashing the hotel room

We don't care, we're driving Cadillacs in our dreams

But everybody's like:
Crystal
Maybach
Diamonds on your timepiece
Jet planes
Islands
Tigers on a gold leash

We don't care, we aren't caught up in your love affair

And we'll never be royals (royals)
It don't run in our blood
That kind of lux just ain't for us, we crave a different kind of buzz
Let me be your ruler (ruler)
You can call me queen bee
And baby I'll rule, I'll rule, I'll rule, I'll rule
Let me live that fantasy

ooh ooh oh ooh
We're better than we've every dreamed
And I'm in love with being queen

ooh ooh oh ooh
Life is great without a care
We aren't caught up in your love affair

And we'll never be royals (royals)
It don't run in our blood
That kind of lux just ain't for us, we crave a different kind of buzz
Let me be your ruler (ruler)
You can call me queen bee
And baby I'll rule, I'll rule, I'll rule, I'll rule
Let me live that fantasy

Saturday, 11 January 2014

Comissão de inquérito parlamentar: pescadinha de rabo na boca

O "Frente-a-Frente" desta semana com o Mário Crespo a moderar a discussão entre Catarina Martins e Luís Montenegro foi particularmente interessante. Não porque qualquer um deles tenha trazido novidades de monta, mas porque a conversa foi uma óptima ilustração da falta de validade de um instrumento da nossa democracia que seria, aparentemente, muito útil a complementar a acção do debate comum da assembleia da república.
Na troca de argumentos sobre as conclusões da comissão de inquérito parlamentar aos swaps, tornou-se evidente a sua total inutilidade. A maior parte da comissão é controlada pela maioria parlamentar que, na sua defesa do governo, vai muito além do simples "conflito de interesses". Assim, um inquérito feito nestes moldes permite a Luís Montenegro vir defender como verdade, como veredicto, que a culpa de tudo o que correu mal com os swaps foi do governo anterior e, em parte, dos bancos, e que nada pode ser imputado ao actual governo. Quando Catarina Martins lhe responde com casos em que os problemas advém nitidamente da actuação dos actuais governantes, o deputado do PSD esconde-se atrás da comissão parlamentar dizendo que nada disso foi concluído no inquérito. Quando a deputada do BE acusa a maioria de ter bloqueado, na própria comissão, qualquer conclusão onerosa para o actual governo, Luís Montenegro responde sorridente que a senhora deputada não pode estar à espera que os deputados dos outros partidos concordem com ela.
Ou seja, a maioria controla as conclusões da comissão de inquérito e depois usa-as para justificar os seus argumentos. É a verdadeira "pescadinha de rabo na boca".
Ora, tendo isto em conta, pergunto-me porque ainda se fazem inquéritos que podem abranger a actuação do governo em funções com comissões parlamentares. Será que somos tão cegos que ainda acreditamos que os deputados entram para a comissão e se tornam subitamente independentes e fiéis à verdade dos factos? Uma averiguação de todo o processo de contratação e cumprimento ou término dos contratos swap era obviamente necessária. Mas só é útil se pudermos confiar nas suas conclusões.

As comissões parlamentares tornam-se, assim, mais um mecanismo de atirar areia para os olhos dos demais, enquanto o governo em funções (seja ele qual for) vai actuando a seu bel-prazer. Uma tristeza para a nossa dita democracia e uma vergonha para o nosso parlamento.

Wednesday, 25 December 2013

Quote / Citação (33)

"It was at night that they came for you, always at night. The proper thing was to kill yourself before they got you. Undoubtedly some people did so. Many of the disappearances were actually suicides. But it needed desperate courage to kill yourself in a world where firearms, or any quick and certain poison, were completely unprocurable. He thought with a kind of astonishment of the biological uselessness of pain and fear, the treachery of the human body which always freezes into inertia at exactly the moment when a special effort is needed. He might have silenced the dark-haired girl if only he had acted quickly enough: but precisely because of the extremity of his danger he had lost the power to act. It struck him that in moments of crisis one is never fighting against an external enemy, but always against one’s own body. Even now, in spite of the gin, the dull ache in his belly made consecutive thought impossible. And it is the same, he perceived, in all seemingly heroic or tragic situations. On the battlefield, in the torture chamber, on a sinking ship, the issues that you are fighting for are always forgotten, because the body swells up until it fills the universe, and even when you are not paralysed by fright or screaming with pain, life is a moment-to-moment struggle against hunger or cold or sleeplessness, against a sour stomach or an aching tooth."

George Orwell, Nineteen Eighty-Four (1949)

Monday, 23 December 2013

Quote / Citação (32)

"Until they become conscious they will never rebel, and until after they have rebelled they cannot become conscious.

(...)

They were born, they grew up in the gutters, they went to work at twelve, they passed through a brief blossoming-period of beauty and sexual desire, they married at twenty, they were middle-aged at thirty, they died, for the most part, at sixty. Heavy physical work, the care of home and children, petty quarrels with neighbours, films, football, beer, and above all, gambling, filled up the horizon of their minds. To keep them in control was not difficult. A few agents of the Thought Police moved always among them, spreading false rumours and marking down and eliminating the few individuals who were judged capable of becoming dangerous; but no attempt was made to indoctrinate them with the ideology of the Party. It was not desirable that the proles should have strong political feelings. All that was required of them was a primitive patriotism which could be appealed to whenever it was necessary to make them accept longer working-hours or shorter rations. And even when they became discontented, as they sometimes did, their discontent led nowhere, because being without general ideas, they could only focus it on petty specific grievances. The larger evils invariably escaped their notice."


George Orwell, Nineteen Eighty-Four (1949)

Tuesday, 17 December 2013

Quote / Citação (31)

"Under ground, under ground! Down in the safe soft womb of earth, where there is no getting of jobs or losing of jobs, no relatives or friends to plague you, no hope, fear, ambition, honour, duty — no duns of any kind. That was where he wished to be.

Yet it was not death, actual physical death, that he wished for. It was a queer feeling that he had. It had been with him ever since that morning when he had woken up in the police cell. The evil, mutinous mood that comes after drunkenness seemed to have set into a habit. That drunken night had marked a period in his life. It had dragged him downward with strange suddenness. Before, he had fought against the money-code, and yet he had clung to his wretched remnant of decency. But now it was precisely from decency that he wanted to escape. He wanted to go down, deep down, into some world where decency no longer mattered; to cut the strings of his self-respect, to submerge himself — to sink, as Rosemary had said. It was all bound up in his mind with the thought of being under ground. He liked to think about the lost people, the under-ground people: tramps, beggars, criminals, prostitutes. It is a good world that they inhabit, down there in their frowzy kips and spikes. He liked to think that beneath the world of money there is that great sluttish underworld where failure and success have no meaning; a sort of kingdom of ghosts where all are equal. That was where he wished to be, down in the ghost-kingdom, below ambition. It comforted him somehow to think of the smoke-dim slums of South London sprawling on and on, a huge graceless wilderness where you could lose yourself for ever.

And in a way this job was what he wanted; at any rate, it was something near what he wanted. Down there in Lambeth, in winter, in the murky streets where the sepia-shadowed faces of tea-drunkards drifted through the mist, you had a submerged feeling. Down here you had no contact with money or with culture. No highbrow customers to whom you had to act the highbrow; no one who was capable of asking you, in that prying way that prosperous people have, ‘What are you, with your brains and education, doing in a job like this?’ You were just part of the slum, and, like all slum-dwellers, taken for granted. The youths and girls and draggled middle-aged women who came to the library scarcely even spotted the fact that Gordon was an educated man. He was just ‘the bloke at the library’, and practically one of themselves."

George Orwell, Keep the Aspidistra Flying (1936)

Friday, 13 December 2013

London Pleasures by Gordon Comstock [Quote / Citação (30)]

"Sharply the menacing wind sweeps over
The bending poplars, newly bare,
And the dark ribbons of the chimneys
Veer downward; flicked by whips of air,

Torn posters flutter; coldly sound
The boom of trains and the rattle of hooves,
And the clerks who hurry to the station
Look, shuddering, over the eastern rooves,

Thinking, each one, ‘Here comes the winter!
Please God I keep my job this year!’
And bleakly, as the cold strikes through
Their entrails like an icy spear,

They think of rent, rates, season tickets,
Insurance, coal, the skivvy’s wages,
Boots, school-bills, and the next instalment
Upon the two twin beds from Drage’s.

For if in careless summer days
In groves of Ashtaroth we whored,
Repentant now, when winds blow cold,
We kneel before our rightful lord;

The lord of all, the money-god,
Who rules us blood and hand and brain,
Who gives the roof that stops the wind,
And, giving, takes away again;

Who spies with jealous, watchful care,
Our thoughts, our dreams, our secret ways,
Who picks our words and cuts our clothes,
And maps the pattern of our days;

Who chills our anger, curbs our hope,
And buys our lives and pays with toys,
Who claims as tribute broken faith,
Accepted insults, muted joys;

Who binds with chains the poet’s wit,
The navvy’s strength, the soldier’s pride,
And lays the sleek, estranging shield
Between the lover and his bride."



George Orwell, Keep the Aspidistra Flying (1936)

Wednesday, 11 December 2013

Pela Sua Saúde de Pedro Pita Barros (Ensaios da Fundação #33)

A Fundação Francisco Manuel dos Santos tem publicado nesta colecção "Ensaios da Fundação" trabalhos sobre temas relevantes para pensar e repensar Portugal de uma forma informada. Fiquei logo com vontade de ler alguns, de várias áreas, com algum destaque para a saúde, a economia e o estado social. A Daniela ofereceu-me o Pela Sua Saúde, pelo que foi por este que comecei a explorar a colecção. O autor - Pedro Pita Barros - é um economista, professor catedrático e investigador nessa área e editor de revistas de Economia da Saúde, pelo que se propõe a olhar para o Serviço Nacional de Saúde analisando os seus problemas, as possíveis melhorias e os caminhos para a sua evolução, tendo particularmente em conta a limitação de recursos do estado português.
A leitura deste pequeno ensaio foi bastante enriquecedora, mesmo tendo em conta que já parti com bastante informação sobre o tema. O autor aborda de forma lúcida e relativamente isenta as principais questões de relevo na discussão da dita "sustentabilidade" de um serviço de saúde financiado pelo estado. O livro começa por uma descrição geral do SNS, segue para a análise directa da sua sustentabilidade financeira, examina a organização e funcionamento do SNS e por fim a relação entre o cidadão e o sistema, terminando com algumas considerações gerais.
Como ensaio curto, este não é um livro em que os temas sejam explorados à exaustão, com bases científicas e ideológicas explicitadas e bem destrinçadas. Um exemplo disto é a sua abordagem das taxas moderadoras, que discute tendo em conta o seu aumento e aplicação diferencial mas nunca analisando as provas (ou ausência delas) da sua eficácia como factor redutor de desperdício em saúde ou da possível criação de desigualdade e potencial impedimento de acesso a cuidados que se querem universais. No entanto, o autor consegue atingir o seu objectivo: fornecer ao leitor as bases e os pontos fulcrais para que possa pensar sobre o assunto, informar-se mais detalhadamente e participar activamente na sua discussão.
Assim sendo, recomendo a leitura de "Pela Sua Saúde" como ponto de partida para quem quer participar activamente na discussão eterna sobre o SNS, sabendo desde já que terão que progredir de seguida para outras leituras no sentido de criar e fundamentar opiniões. Pretendo ler mais livros desta colecção e agradeço recomendações a quem já tenha lido alguns.

Tuesday, 10 December 2013

Quote / Citação (29)

Something deep below made the stone street shiver. The tube-train, sliding through middle earth. He had a vision of London, of the western world; he saw a thousand million slaves toiling and grovelling about the throne of money. The earth is ploughed, ships sail, miners sweat in dripping tunnels underground, clerks hurry for the eight-fifteen with the fear of the boss eating at their vitals. And even in bed with their wives they tremble and obey. Obey whom? The money-priesthood, the pink-faced masters of the world. The Upper Crust. A welter of sleek young rabbits in thousand guinea motor cars, of golfing stockbrokers and cosmopolitan financiers, of Chancery lawyers and fashionable Nancy boys, of bankers, newspaper peers, novelists of all four sexes, American pugilists, lady aviators, film stars, bishops, titled poets, and Chicago gorillas.

George Orwell, Keep the Aspidistra Flying (1936)

Friday, 6 December 2013

Quote / Citação (28)

"It was so rarely that he could attain the peace of mind in which poetry, or prose for that matter, has got to be written. The times when he ‘could not’ work grew commoner and commoner. Of all types of human being, only the artist takes it upon him to say that he ‘cannot’ work. But it is quite true; there are times when one cannot work. Money again, always money! Lack of money means discomfort, means squalid worries, means shortage of tobacco, means ever-present consciousness of failure — above all, it means loneliness. How can you be anything but lonely on two quid a week? And in loneliness no decent book was ever written. It was quite certain that London Pleasures would never be the poem he had conceived — it was quite certain, indeed, that it would never even be finished. And in the moments when he faced facts Gordon himself was aware of this.
Yet all the same, and all the more for that very reason, he went on with it. It was something to cling to. It was a way of hitting back at his poverty and his loneliness. And after all, there were times when the mood of creation returned, or seemed to return."

George Orwell, Keep the Aspidistra Flying (1936)

Tuesday, 3 December 2013

Quote / Citação (27)

"‘Oh, leave me alone, for God’s sake!’ he said irritably, stepping out of Flaxman’s reach, and went up the stairs without looking back.
Flaxman settled his hat on his head and made for the front door, mildly offended. Gordon reflected dully that it was always like this nowadays. He was for ever snubbing friendly advances. Of course it was money that was at the bottom of it, always money. You can’t be friendly, you can’t even be civil, when you have no money in your pocket. A spasm of self-pity went through him. His heart yearned for the saloon bar at the Crichton; the lovely smell of beer, the warmth and bright lights, the cheery voices, the clatter of glasses on the beer-wet bar. Money, money! He went on, up the dark evil-smelling stairs. The thought of his cold lonely bedroom at the top of the house was like a doom before him."

George Orwell, Keep the Aspidistra Flying (1936)