Sunday, 24 February 2013

Política, Sociedade, Economia e Steampunk - progresso tecnológico vs. social

Fiquei a pensar nisto depois de ler um post no Aventar. Na verdade é algo em que penso de vez em quando, mas desta feita, foi esta história de alguém se recusar a pagar nas caixas self-service por querer manter os empregos dos operadores de caixa registadora que me trouxe ao assunto.
É claro que esta preocupação é compreensível, aliás, é até típica do momento em que vivemos. É mais sobre essa questão que me quero debruçar.

A literatura e a animação ditas steampunk (algo a que ando um pouco mais dedicado no último ano) exploram frequentemente esta questão da substituição do homem pela máquina e as consequências disto para a sociedade. Foi aliás com isto em mente e pela analogia com o momento que vivemos hoje que escrevi o texto com que participei no Almanaque Steampunk 2012. Aquela visão crítica que levou os trabalhadores contemporâneos da revolução industrial a revoltarem-se contra as máquinas e os motores a vapor é contraposta frequentemente nas obras steampunk com os benefícios que o progresso tecnológico pode trazer. As conclusões, se o livro for bom, são deixadas à discrição do leitor. Aquilo que permite esta contraposição, que nos impede de dar imediatamente razão aos trabalhadores, é a esperança, e é agarrado a ela que vem o tom positivo ou optimista que se encontra muitas vezes nestas obras. A esperança de que o progresso nos fará bem a todos, a esperança de que a sociedade vai apoiar os trabalhadores que vão sendo substituídos na sua transição para outras funções e a esperança de que isto permite que as pessoas se ocupem somente com funções em que seja mesmo essencial um ser humano ou com funções que gostem genuinamente de realizar. O progresso tecnológico deveria permitir aos seres humanos vidas cada vez mais descansadas, uma menor dependência do trabalho (principalmente o físico) ou pelo menos uma necessidade de trabalhar restrita a poucas horas ou dias, e a rentabilidade do uso de máquinas deveria resolver o problema da produtividade permitindo eliminar a diferença de qualidade de vida entre os que ganham muito e os que ganham pouco, os que têm ou deixam de ter emprego.
Infelizmente, nem que tecnologicamente tudo isto fosse possível, a nossa sociedade não está pensada dessa forma. As pessoas acreditam no valor do trabalho quase como uma definição do valor da pessoa. Se imaginássemos um mundo em que as pessoas não teriam que trabalhar praticamente nada porque as máquinas o fariam por nós, muitos nos diriam que isso seria horrível e que decerto a humanidade se perderia no ócio e se destruiria. Se isto é verdade ou não, pelos vistos não estamos perto de o descobrir.

A verdade é que as pessoas que lideram a nossa sociedade, nas sombras ou não, não querem que o progresso se faça às claras e nessa direcção. Porque isso implicaria uma divisão de recursos relativamente igualitária, implicaria que deixaríamos de ter desculpa para manter tanta gente na miséria ao mesmo tempo que sustentamos tantos milionários. Se um dia o valor de uma pessoa e o seu acesso aos produtos não for determinado pelo seu trabalho, e esse trabalho não for controlado por estes mesmos "jogadores", como é que eles se poderiam manter a viver no topo do mundo, com mais do que quaisquer outros, com tudo o que possam imaginar? Só seria possível se o progresso de facto nos levasse a uma certa utopia em que a produção fosse tão elevada e rápida que não haveria limites ao consumo para nenhuma pessoa.
Para já, o facto é que ainda não estamos perto disso, aparentemente o ser humano ainda precisa de trabalhar muito para se sustentar (ou é isso que nos querem fazer acreditar - teoria da conspiração?). Para além disso, à conta de quem nos dirige e define as nossas prioridades (não digo só a nível nacional, mas também e principalmente internacional), não temos de todo um bom sistema de suporte àqueles que, sendo substituídos nas suas funções por máquinas, perdem o emprego que justificava o seu acesso a bens e serviços. É que, no momento em que vivemos, nem há expectativa da pessoa ter outro emprego em tempo útil, nem da sociedade usar excedente para sustentar esta pessoa enquanto espera e muito menos da pessoa poder viver sem emprego e dedicar o seu tempo ao que lhe der na cabeça, por exemplo em actividades que contribuam ainda mais para o nosso progresso (demasiada utopia?).

Enquanto não nos livrarmos desta liderança, desta ditadura social e económica, desta ilusão em que nos obrigam a viver, será sempre legítimo fazer o raciocínio que Mário Teixeira partilhou no Aventar. Porque, ao contrário do que nos tentam constantemente fazer crer, mais importante do que o futuro, o progresso tecnológico, a produtividade numa tarefa específica, mais importante que tudo isso nas nossas decisões a cada momento é a pessoa, aquela mesma pessoa cujo destino estamos a decidir constantemente, sempre que optamos pela máquina e a deixamos entregue a um sistema que, como acabo de descrever, não fará nada do que promete, não a protegerá e, aliás, usará o seu desespero e o de tantos outros para lhe oferecer um trabalho ainda menos remunerado. Enquanto não nos salvarmos disto, não saberemos de facto em que ponto estamos a nível de produtividade, de rentabilidade, de possibilidades quanto à justa divisão de esforços e produtos. Infelizmente, e olhando especificamente para Portugal, não vejo maneira de isto acontecer. Todas as forças políticas de representação parlamentar e praticamente todas as opiniões mediáticas concordam pelo menos nesta ideia de valorizar os "trabalhadores" ou o "trabalho" em vez de valorizar a pessoa. A direita faz-nos crer que as pessoas têm que se esforçar para ser as melhores no seu trabalho e que assim terão uma boa vida, a esquerda agarra-se ao discurso dos direitos dos trabalhadores. Poucos conseguem pensar, ou pelo menos fazer chegar ao público, uma visão que tenha em conta este ponto, que olhe para as pessoas independentemente do trabalho, do emprego, do contributo verificável. Poucos se questionam abertamente sobre a falta de progresso social apesar do tecnológico. Agarram-se à qualidade de vida medida por bens de consumo e esquecem-se que o que queríamos do progresso tecnológico era que nos permitisse fugir da organização feudal da sociedade, em que os ricos têm tudo porque são ricos, os que trabalham têm algo porque trabalham e os que não trabalham não interessam nada. Será que ainda faz sentido, nos dias de hoje, ver as coisas assim? Será que ainda não atingimos um ponto em que é ridículo esperar que toda a gente trabalhe tanto como as leis obrigam? Não sabemos. E é assim, feito anfíbio na panela com água a aquecer, que vamos nadando de um lado para o outro enquanto nos cozem em lume brando.

Monday, 18 February 2013

Cenas (2)

No Viagem a Andrómeda, um dos blogs mais interessantes do que eu conheço da blogosfera portuguesa - e ainda por cima dedicado ao fantástico - o João Campos publicou uma discussão muito interessante sobre a eterna discussão sobre originalidade e referências nas obras de ficção tendo como ponto de partida o artigo de Paul Cook no Amazing Stories denominado The Lazy Apocalypse.

O Brain Pickings é um sítio com tanta coisa interessante que eu mal consigo ler com atenção tudo o que lá aparece, por mais que queira. Tenho quase sempre a leitura do blog com um atraso de mais de 40 posts. Falo dele desta feita porque li um post muito bom em que se comenta uma carta de Galileo depois de ser atacado pelas suas explorações e descobertas. A sua defesa e contra-ataque baseiam-se numa argumentação que devia ser reconhecida por qualquer crente de qualquer religião, mas que infelizmente ainda hoje é largamente ignorada por boa parte deles. Nunca devemos aceitar que textos escritos por homens e interpretados por homens tenham um valor mais alto do que a própria criação. Se acreditarem que um ser divino criou os humanos tal como eles são, que sentido faz proibirem alguns de usarem as capacidades que lhes foram dadas, os sentidos, a curiosidade, a inteligência? Independentemente daquilo em que acreditam, aconselho a todos a leitura deste post, em respeito à figura histórica mas principalmente porque uma boa argumentação é uma delícia de se ver.

A terceira "cena" interessante que quero partilhar é esta talk do TEDxWomen. iO Tillett Wright não só apresenta um projecto fotográfico muito interessante - Self Evident Truths - como faz uma argumentação brilhante contra o preconceito de género e sexualidade. A mim parece-me que qualquer pessoa que viva no mundo real há meia dúzia de anos já tem alguma obrigação de saber isto, mas é um facto que demasiada gente ainda tem a cabeça mais dura que um Prenocephale e faz um esforço por não estar disposto a perceber o mundo de outra forma que não aquela a que se habituou ou foi habituado, mesmo quando isso implica destruir vidas completamente.



Saturday, 16 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 - comentário geral

Finalmente consegui contactar com trabalhos de vários autores de língua portuguesa. Era algo que já queria ter feito antes, mas que nunca tive o entusiasmo necessário ou sequer uma oportunidade como esta para o levar a cabo. Os Contos Digitais do Diário de Notícias permitiram-me, de uma forma relativamente simples e gratuita, conhecer a escrita (ou pelo menos um exemplo dela) tanto de autores nos quais já tinha interesse como de outros que desconhecia por completo. Estão todos disponíveis actualmente na biblioteca digital do DN. Infelizmente, se é verdade que não parti com expectativas elevadas, mesmo assim a leitura desiludiu-me. A maioria dos 31 contos foram maus ou medíocres e são mesmo poucos os que recomendo ou que ponderaria reler.

A título de revisão, os contos que gostei e recomendo a quem estiver interessado em ficção curta de qualidade em português são:
- Cidade Líquida de João Tordo (#2), do qual comprei entretanto o livro Anatomia dos Mártires e, se gostar deste, pondero ler também As Três Vidas ou O Livro dos Homens sem Luz;
- A Queda de um Anjo de Afonso Cruz (#7), autor cuja obra já estava interessado em experimentar, comprei A Carne de Deus e tenho em vista ler também A Boneca de Kokoshka;
- A Moeda de Gonçalo M. Tavares (#8), do qual tenho já tinha lido Histórias Falsas e pretendo experimentar a série O Reino;
- Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos de Dulce Maria Cardoso (#11), autora da qual pretendo eventualmente ler O Retorno;
- Monólogo do Oriente de Patrícia Portela (#27), autora que desconhecia por completo e me deixou curioso quanto ao que fará num formato mais longo, a explorar n'O Banquete.

O meu favorito foi sem dúvida A Queda de um Anjo de Afonso Cruz. Foi uma leitura agradável, surpreendente, que resulta bem como um conto e instiga a mente a reflectir. Este, tal como os contos de Dulce Maria Cardoso e Patrícia Portela são textos que eu diria fáceis de gostar e que me parece que qualquer leitor vai encontrar facilmente algo que lhe agrade. Cidade Líquida e A Moeda, por outro lado, são contos que implicam outro esforço, uma certa abertura e mentalização para serem aproveitados ao máximo. A minha opinião do conto de João Tordo melhorou consideravelmente à segunda leitura e, quanto a Gonçalo M. Tavares, parece-me que é típico da sua obra pedir ao leitor que interprete, que leia nas entrelinhas, que faça ele próprio a maior parte do raciocínio que lhe permitirá alcançar toda a mensagem que a história traz e assim sentir-se mesmo satisfeito com a leitura.

Houve outros contos que, não sendo maus, não me conseguiram cativar tanto mas que acredito que possam ser interessantes para alguns leitores, em especial para os fãs dos respectivos autores, como Quartos de Hotel de Inês Pedrosa, Acho que Posso Ajudar de David Machado, A Balada da Vala dos Velhos de J.P. Simões, O Progresso da Humanidade de Rui Cardoso Martins, A Terrível Criatura Sanguinária de Nuno Markl, A Mina do Deus Morto de João Barreiros e Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco de Sérgio Godinho.
Os restantes contos, a meu ver, nem vale a pena experimentar a não ser que haja um especial interesse na obra completa do autor e que a motivação se mantenha mesmo depois de ler alguns comentários já partilhados no Goodreads, seja porque estão francamente mal escritos, seja porque o enredo ou o assunto são absolutamente desinteressantes. Compreendo que este comentário é genérico e algo paternalista, mas por isso mesmo incluí no final do post os links para os meus comentários para quem queira informação mais detalhada.
Uma outra nota que devo fazer é que eu li alguns destes contos em voz alta com uma amiga. Parece-me que isto teve algum impacto na forma como decorreu a sua leitura, não só porque tive imediatamente alguém com quem conversar sobre eles mas mesmo porque ter que ler alto, pronunciar as frases e as palavras e parar para pensar pelo meio alteram mesmo a experiência.

Só recentemente comecei a ler ficção curta, sempre foi algo para o qual tive um certo preconceito, na típica linha: "um conto não chega para desenvolver e aprofundar um tema ao ponto que me interessa". Entretanto, e ainda bem, as minhas leituras provaram que estava redondamente enganado e que consigo mesmo adorar alguns contos e ficar a pensar neles noite dentro. Para isto contribuiu destacadamente um livro ao qual não pude fazer justiça - por falta de tempo e cabeça na altura em que o acabei de ler - com um comentário detalhado aqui no blog: Pequenos Mistérios (The Keyhole Opera) de Bruce Holland Rogers. Aproveito pelo menos para agradecer à Cat que insistiu comigo que eu tinha que ler uma antologia de ficção curta de qualidade e me emprestou o livro, mesmo sabendo que eu vivo com dois gatos loucos. Visitem o blog dela que vale a pena (ela acompanha-me na mania dos posts gigantes o que é óptimo). Voltando ao ponto, quero com isto dizer que apesar da minha parca experiência com ficção curta, parece-me que esta colecção não resultou nem individualmente em muitos casos nem como um conjunto. Desconheço se houve alguma linha editorial, algum pedido específico aos autores ou outro factor deste tipo que tenha influenciado negativamente o resultado final, mas de qualquer forma isto poderia explicar apenas algumas das falhas. De saudar a iniciativa e a participação dos autores que destaquei inicialmente, mais do que o resultado global.

Sendo assim, aqui ficam os links para os posts com os meus comentários conto por conto:
parte 1 (#1 a #5)
parte 2 (#6 a #10)
parte 3 (#11 a #15)
parte 4 (#16 a #20)
parte 5 (#21 a #25)
parte 6 (#26 a #31)

Mais alguém que tenha lido toda a colecção? O que acharam?

Thursday, 14 February 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (6)

Este é o sexto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

Começo agora pelo conto de Manuel João Vieira, A Princesa do Gelo que é nonsense puro, daquele que nos faz acabar a leitura sem ter percebido rigorosamente nada porque parece não haver mesmo nada para perceber. Não gostei nada do conto e custou-me a acabar porque não tem piada, enredo ou personagem que interesse. Admito que o blurb é bastante bem conseguido e avisa claramente o leitor quanto que está prestes a experimentar. Percebe-se aqui uma brincadeira com a típica história de aventura, só que infelizmente sem análise ou piada que justifiquem dedicar-lhe atenção.

O conto de Patrícia Portela - Monólogo do Oriente - é tão fiel como possível ao seu título: é um monólogo de um homem que acaba por esboçar um possível planeamento duma provável viagem ao Oriente. O homem fala, fala, fala sem parar, sempre a saltar de uma decisão para outra, à medida que pondera quais as preparações necessárias para levar cada plano a cabo. Faz lembrar um pródromo de uma crise de ansiedade, em que a mente da pessoa parece voar de problema em problema, de questiúncula em questiúncula, do futuro incerto para o passado que correu mal ou para a insatisfação com o presente, do planeamento de uma tarefa para a auto-comiseração em bola de neve a descer a montanha.
O discurso chama à atenção do leitor não só porque lembra aquela típica hesitação e exagero de preocupação que costumam fazer com que as ideias morram na praia, mas também porque simultâneamente evita o melodrama e acaba por ter mesmo piada em alguns momentos.
O ponto negativo foi somente o final que, embora expectável, me pareceu de certa forma demasiado anti-climático para uma leitura de resto tão engraçada e com mais potencial.
Pondero ler mais de Patrícia Portela no futuro, dependendo da temática a que se dedica nas suas outras obras.

Segue-se O Fim da Dívida de Nuno Costa Santos. Tal como o título indica, este conto fala de dívida e tudo nele parece ser intencionalmente construído para ser uma brincadeira séria com a dita dívida e decorrente situação portuguesa nos últimos anos. Infelizmente a passagem da ideia à prática não correu bem e o texto acaba por ser pouco estimulante e completamente desinteressante.

Numa óbvia crítica à sociedade actual, em que se vive de aparências mesmo com a crise a obrigar grande parte das pessoas a mudar completamente as suas vidas, o conto de Ricardo Adolfo conta-nos a história de dois casais que se escondem em casa enquanto fingem, para si e para os outros, que viajaram para o Brasil de férias. Os miúdos, sempre honestos quando os pais precisam que eles mintam, não colaboram tanto assim e servem de comparação com os adultos que tanto se dobram a este tipo de supostas exigências sociais. Há ainda uma referência ao Fifty Shades of Grey, provavelmente para adicionar à crítica que se faz a este tipo de pessoas, fúteis e idiotas. Se isto parece ter potencial, e se calhar tem, o facto é que o conto em si é absolutamente desinteressante. Em Férias com um Casal Amigo segue-se esta gente, os seus diálogos inconsequentes - sabe-se lá porquê sem letras maiúsculas ou pontos finais - até ao clímax da idiotice, que dá em loucura e que evita uma confrontação que talvez explorasse melhor o tema. Assim, limita-se a ser uma descrição superficial de um par de dias patetas.

O penúltimo conto da colecção é Dama Polaca Voando Em Limusine Preta de Lídia Jorge. Embora haja um aparente interesse em explorar as ideias de preconceito e de reacção ao desconhecido, na prática o conto acaba por ser um aborrecimento. A escrita não é má, em especial comparando com outros contos nesta colecção, mas o esboço de enredo não segura o interesse nem me deixa a pensar em nada e as personagens são irrelevantes.

Os contos digitais DN terminam com uma história da autoria de Sérgio Godinho, Notas Soltas Da Corda E Do Carrasco. Este conto é uma leitura interessante em que se explora a mente de um carrasco que revê a sua vida no momento em que está prestes a ser submetido à pena de morte. A ironia da vida parece fazer algum sentido na cabeça do homem que vai ligando os pontos e explicando a si mesmo - e ao leitor - como é que tudo levou a esta situação. Não é um conto que me traga especial novidade, mas é sem dúvida uma leitura agradável na qual alguns pensamentos se destacam da narrativa e suscitam uma reflexão sobre o matar e o morrer.


Outros posts nesta série:
parte 1
parte 2
parte 3
parte 4

Tuesday, 12 February 2013

Brave New Worlds: Dystopian Stories edited by John Joseph Adams

I requested this anthology from NetGalley because of the name - who doesn't want to read anything good related to Brave New World? - and because it was edited by John Joseph Adams whose work I've been curious about for a while. I got this selection which consists in the three short stories added to its second edition. Another important factor was my being a fan of dystopian fiction.

The three stories have a previous sort of preface where the author is presented and the theme of the tale that follows is hinted or offered some background information.

The first story is The Cull by Robert Reed and was probably my favourite of the three. It reminded me of Wool, in which it follows a community shut off from the outside world where individuals are excluded when they step out of line apparently by sending them away from the place to an outside world where they surely can't survive. Similarities kind of end right there though. We are told the story by an android medical doctor who is a kind of keeper, simultaneously the doctor and the judge of the humans he "tends to". This tending involves the use of some brain implants that keep everyone in the community (or almost everyone) feeling happy all the time - and this is where I smiled and remembered Huxley's soma. He slowly unveils not only what happens to a kid who is becoming dangerous, behaving aggressively and rather unpredictably in various situations, but also what his intentions towards the whole community are. But he does it so slyly and slowly that the reader is as tricked as the kid or the people right to the very end and is still left questioning how to should judge the doctor's actions.

The second story, by Jennifer Pelland, is called Personal Jesus (yes, the Depeche Mode song). Here, this concept is given a very material interpretation: your Personal Jesus is an object that everyone in the country has connected to their body, forever controlling your social and personal behaviour by means of electric shocks full of divine love and care. The fact that it is written as an enumeration of rules, as if you were given the leaflet on how to live in the Ecclesiastical States of America, adds to the fun and had me laughing out loud.

The last story is The Perfect Match by Ken Liu and I'll start by saying it isn't just a romance in the dystopian age. It does have some of that, but the main focus is driven widely away from it and into the exploration of what this world of communications and informations directed by algorithms can lead us to. There were some moments where the narrator decides to tell you the interpretation you could be making on your own, which is a bit annoying specially in a story exploring this theme, but overall it's a good tale and does question very important issues. Ken Liu reminds us, on one side, that we are already being controlled by those who choose which news or updates to put up at the top of our lists or timelines, and on the other side, of what a world where we grow isolated, each one only seeing and doing what he supposedly wants or likes a priori, looks like.

The book ends with some recommendation pages, on dystopian films and books worth watching or reading. Something I should never read again, should I want to have money to buy food and pay bills and space in my room to live.
This selection worked really well as a sneak preview of the anthology, so much that I instantly added the book to my wishlist. Highly recommended for people who like dystopian works, short fiction or overall science fiction fans.


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Requisitei esta antologia no NetGalley por causa do nome - qualquer coisa relacionada com o Admirável Mundo Novo me interessa - por ter sido editada por John Joseph Adams, cujo trabalho me desperta bastante curiosidade, e por ser ficção distópica. Foi-me dado acesso a esta selecção de três histórias que foram adicionadas à primeira edição publicada.

Cada história começa com uma apresentação do seu autor e uma introdução ou referência relacionada com o tema a explorar de seguida.

A primeira história é The Cull de Robert Reed e foi provavelmente a minha favorita. Lembrou-me do Wool por ter uma sociedade isolada do mundo exterior onde indivíduos são expulsos para o exterior quando se tornam diferentes, perigosos, na expectativa de que morram sem recursos. As semelhanças, no entanto, ficam-se por aqui. Em The Cull a história é contada por um andróide que é uma espécie de pastor, simultaneamente médico e juiz dos humanos que "guarda". Tomar conta dos humanos aqui implica o uso de implantes cerebrais que o andróide controla de forma a manter toda a gente - ou quase toda - constantemente feliz (recordando-me a soma do Huxley). Ele vai-nos revelando lentamente não só o destino de um miúdo que se tornou perigoso, agressivo e imprevisível, mas também quais são as suas intenções para toda a comunidade. Mas fá-lo de tal forma, lenta e sorrateiramente, que nos engana tanto como às outras personagens e nos deixa, no final, a questionar como julgar as suas acções.

A segunda história, de Jennifer Pelland chama-se Personal Jesus (sim, a canção dos Depeche Mode). Aqui, o conceito é interpretado de uma forma muito material: o Personal Jesus é um objecto que cada pessoa no país tem inseparavelmente ligado ao seu corpo, controlando para sempre o seu comportamento pessoal e social através de choques eléctricos cheios de amor divino. O facto de estar escrito como uma enumeração de regras, como se se trata-se de um panfleto sobre como viver nos Ecclesiastical States of America, torna tudo ainda mais engraçado.

A última história é The Perfect Match de Ken Liu e começo já por informar que não é só uma história romântica como o nome poderia indicar. Aliás o conto foca-se principalmente na exploração da sociedade a que este mundo com algoritmos que controlam a informação que temos e as comunicações que vemos pode levar. Houve alguns momentos em que o narrador decide começar a oferecer a sua interpretação das coisas em vez de a deixar ao critério do leitor, algo irritante em especial dado o tema, mas em geral é uma boa história que questiona situações extremamente relevantes nos dias de hoje. O autor não só nos lembra do quão controlados somos por quem decide o que aparece nas nossas listas e timelines mas também de quais seriam as consequências de vivermos isolados, cada um exposto apenas às coisas que, a priori, é provável gostar.

O livro termina com algumas listas de recomendações de filmes ou livros distópicos, algo que eu nunca mais devia ver, sob pena de ficar sem dinheiro e espaço no quarto para viver.

Esta selecção funcionou muito bem como uma previsão da antologia, e gostei de tal forma que quero comprar o livro, que me parece de recomendar não só a quem como eu adora distopias como a fãs de ficção curta e ficção científica em geral.

Tuesday, 5 February 2013

Live Hangout com a Clockwork Portugal

Já falei anteriormente da minha colaboração com a Clockwork Portugal aqui no blog. Desta feita participei pela primeira vez numa conversa em directo com a Sofia Romualdo e a Joana Neto Lima sobre os livros que lemos ou planeamos ler, séries e filmes que gostamos, projectos futuros e até sobre o facto de eu estar sentado na cama. Com a excepção da última referência, tudo dentro do assunto do steampunk ou com ele relacionado. Foi uma experiência muito interessante, a conversa  foi variada e engraçada e pudemos responder a alguns dos comentários que nos foram deixando no youtube, no twitter ou no facebook. A repetir no futuro, sem dúvida. Se estiverem interessados, já está disponível e dura pouco mais de uma hora (não era para ser tanto mas não conseguimos parar antes):




O passatempo para ganhar um exemplar do Lisboa no Ano 2000 (organizado pelo João Barreiros e publicado na colecção Bang! da Saída de Emergência) que referimos no final já está disponível aqui e aberto até 13 de Fevereiro, participem!

Monday, 4 February 2013

Cenas (1)

Este artigo do Guardian é uma breve mas excelente leitura que relembra o fosso entre as intenções e ideais e os resultados. George Orwell comenta a visão idealista, na altura decerto considerada muito ingénua, de Oscar Wilde quanto ao socialismo. O que nos lembra este comentário é de que não é por termos conhecido os sistemas socialistas autoritários e desumanos que devemos criticar a ideologia per se. O socialismo, mesmo o considerado utópico, deve ser levado em conta sempre que pensamos o mundo humano, a sociedade e a economia, sob pena de ignorarmos algumas das mais importantes lições históricas e ideias desenvolvidas quanto ao que queremos para o futuro, que consideramos realmente necessário, bom ou justo. Ler isto inspira-nos a ter cuidado e evitar confundir os fins, os meios e os motivos iniciais, aliás, tal como, na direcção inversa, dizemos que os fins não justificam os meios.

Queria também recomendar a leitura deste post de Pacheco Pereira que resume bem a actual vida política portuguesa, incluindo no que se refere aos comentadores e bloggers. Infelizmente, ele tem toda a razão. Pensar e gerir um país como se fosse uma luta de claques de futebol numa mesa de matraquilhos só pode resultar em desastre, a curto e a longo prazo.

Por fim, vi recentemente o filme-documentário-entrevista Examined Life, partilhado pel'O Germe e adorei. Se há alguns problemas a nível da realização, filmagem e banda sonora, a verdade é que tudo isso é secundário e quase irrelevante perante o interesse do discurso dos vários convidados, aos quais são dados dez minutos para comentar uma determinada questão: Cornel West fala de verdade, Peter Singer de ética, Slavoj Žižek de ecologia, Avital Ronell de significado ou sentido, Martha Nussbaum de justiça, Michael Hardt de revolução, Kwame Anthony Appiah de cosmopolismo e Judith Butler com Sunaura Taylor de interdependência. Vale muito a pena ver e pensar em como a filosofia faz parte da vida e não é, tanto como se pensa, somente uma ocupação de mentes académicas superiores ou afastadas da realidade.
Se eu pudesse dedicar a minha vida a estes assuntos, da forma como eles são, embora superficialmente, explorados nesta obra, não tenham dúvida que o faria. Sou um viciado em pensar e em discutir estes conceitos ou questões e só assim percebo que possa valer a pena viver. A humanidade como um todo melhora ou evolui somente através deste exercício. 

Sunday, 3 February 2013

The Massive Volume 1: Black Pacific by Brian Wood

I knew Brian Wood from his Northlanders and X-Men work, so when I heard he was starting a comic based on a post-apocalyptic environmental dystopia I was sure I'd eventually get to read it and probably like it. As luck had it, this was the first comic I got from NetGalley to review and I must say my expectations were met.

The Massive is a story placed on a Planet Earth after all environmental hazard-hell broke loose, and follows a group of environmental activists, as they deal with the new world, find their place in it and travel in their boat, The Kapital, searching for their lost fellow ship, The Massive. This isn't so much an exploration of the fallout - the "Crash" - as it is an exploration of humanity after the society is no more, after everything changes almost instantaneously, in an unrecognisable world. And this is the first thing I liked about it because it's much more interesting to analyse the environment question as ways to avoid apocalypse or how are we to live after it than the usual cinema overused "day after tomorrow" formula. 

"This new world we're living in? It's not always going to afford us the luxury of a personal moral code."

The way the author shows us what happened to the planet is by short reports of localized events and then using them to return to the narrative. Associated to these moments, the narrator sometimes reminds us of a documentary-like voice which is not only adequate considering the theme but also contributes to the immersion of the reader in that world.
The broken society here doesn't limit itself to the street riots, looting and the usual first day after the end ideas. In the world of The Massive the civilization in no more. Countries that still exist are isolated, international commerce and consumerism is gone, cities are controlled by gangs and militias, pure drinkable water is harder to find than oil or pirates.
This first volume introduces the crew of The Kapital, the concept of their peaceful organization - Ninth Wave - and their current main purpose: surviving while searching The Massive. Here again I must praise the author's skill in the way he shows who these people are, both with the multiple situations they must face right now and with the flashbacks that tells us where they come from and how they ended up being who they are and where they are. Of all of them, Callum - the leader - is undoubtedly the most interesting, though he is by no means the single focus of the story. What I do feel is that all the others are more close to the typical stereotypes in these stories and serve as a good structure on which to show and develop Callum. Despite all this, all the crew ends up feeling like a believable group of people that will be interesting to follow in the times to come. 

The illustration is wonderful, both in the storytelling moments and in the world-building ones and the people seem real, their faces are distinct and emotional and their world is astonishing. Kristian Donaldson, Garry Brown and Dave Stewart do an excellent job of making Brian Wood's story seem real, plausible, "just around the corner" but also surprising and at times quite terrifying. I must emphasize the colorist's great work, at the same time helping to unify the whole book but also distinguishing the different narrative timelines and places.

All in all, this comic has an interesting setting with lots of space to grow, action and adventure enough and characters worth following. This first part does feel a bit introductory, as is usual and unavoidable in this kind of series, and I'm happy to have read it as a collected volume.

Wednesday, 30 January 2013

Quote / Citação (4)

"He sounded flustered. Juliette watched him busy about the stove, his movements jerky and manic, and realized she was the one cloistered away and ignorant, not him. He had all these books, decades of reading history, the company of ancestors she could only imagine. What did she have as her experience? A life in a dark hole with thousands of fellow, ignorant savages? She tried to remember this as she watched him dig a finger in his ear and then inspect his fingernail."


Hugh Howey, Wool (2012)

Tuesday, 29 January 2013

Wool Omnibus by Hugh Howey

Li Wool aconselhado por um amigo e porque queria experimentar um trabalho que foi self-published. Reconheço que a minha expectativa em relação a estas publicações são sempre mais baixas, não por não terem passado pelo crivo de qualquer editora mas porque há um exagero de treta em forma de livro pela internet fora, mas Hugh Howey surpreendeu-me e convenceu-me. Devo dizer que há muito que um livro não me dava tanta vontade de continuar a ler noite dentro tal era a minha curiosidade não só quanto ao enredo como quanto ao próprio mundo criado pelo autor. Terminei a leitura no dia 31 de Dezembro do ano passado, mas na altura estava tão ocupado que me foi impossível escrever uma opinião como deve ser. Por outro lado, também não gosto de escrever tanto tempo depois de o ter lido, pois temo deixar-me levar pela ideia geral com que fiquei e esquecer pormenores importantes para a análise do trabalho, e acabar com uma opinião quase irrelevante. No entanto senti que, no caso do Wool, seria uma injustiça maior deixar passar em claro uma das leituras mais surpreendentes de 2012.
Li o Wool Omnibus que colecciona as primeiras cinco partes da história do mundo criado por Hugh Howey. Vou evitar o mais possível descrever o que acontece porque se há coisa que está bem feita nesta obra é a manutenção do suspense e da curiosidade do leitor em relação ao mundo que sente sempre estar a ver por uma pequena janela.

Esta é uma obra pós-apocalíptica, na qual conhecemos uma pequena sociedade que vive isolada do mundo num silo gigantesco enterrado no solo. Os únicos a quem é "permitido" sair do silo são os piores criminosos, especialmente os sonhadores que acreditam que é possível experimentar e tentar de novo viver "lá fora". Os restantes vêem a pessoa que sai - tal qual execução medieval - a morrer rapidamente apesar do fato protector, sem antes, talvez estranhamente, se dedicar a limpar os sensores que permitem ao silo observar esta pequena parte do terrível mundo exterior.
O autor mostra-nos o enredo alternando sempre entre pontos de vista de uma ou outra personagem, evitando um narrador omnisciente que poderia prejudicar aquela sensação de suspense que arrepia a pele e ocupa a mente com a procura de soluções para os mistérios de Wool. O mundo é revelado com uma calma e cadência magistrais, com recurso a flashbacks e narrações paralelas extremamente bem encadeadas. Mesmo lendo o omnibus não há como escapar à noção de que estamos a ler cinco partes escritas separadamente, ainda que correspondam essencialmente a duas histórias. No entanto isto não prejudica a experiência da leitura, talvez até muito pelo contrário lhe dê uma certa originalidade na forma de contar a história, embora eu tenha ficado muito contente por ter todos os livros para ler seguidos sem parar. 
O sistema político é, como é quase obrigatório num contexto destes, baseado no controlo da informação e definição dos papéis sociais e profissionais, num distanciamento mais que físico das pessoas e na proibição não só de certas conversas mas mesmo do uso de algumas palavras ou expressões. Um autêntico "Big Brother is watching you" com a eficácia previsível numa sociedade fechada num silo, com a utilização dos vários andares para separar os vários grupos sócio profissionais. Este não se limita a estar aqui para criar a barreira porque o autor aproveita ao máximo o conceito de espaço e recursos limitados com um impacto na organização social e na vida pessoal dos indivíduos muito bem explorado e por vezes até mesmo doloroso. A sociedade de Wool é ultra-regulada, o seu valor máximo é a segurança, as pessoas sabem apenas o que é essencial para sobreviver e trabalhar e são controladas pelo medo, de forma que dá a sensação de que cada uma não parece ter outro objectivo na vida do que manter tudo a correr bem, como sempre correu, sem arriscar, sem levantar ondas, sem mudar nada. Toda esta sensação é transmitida pelo autor especialmente em algumas descrições de procedimentos corriqueiros e quase irrelevantes, especificados etapa a etapa e ao pormenor de tal forma que, se por vezes se torna algo cansativo ou exagerado, é por outro lado eficaz para colocar a mente do leitor dentro daquele mundo.
As personagens são interessantes e têm profundidade, e embora por vezes me parecessem ter reacções pouco maduras ou ponderadas, pergunto-me se isso não é mais um resultado natural da vida que tiveram (e que não tiveram) do que propriamente de alguma falha do autor. A evolução das personagens, por outro lado, está muito bem conseguida, talvez com uma só excepção que por vezes me pareceu de menor credibilidade.

Wool é, assim, um óptimo exemplo do que se pode alcançar com uma história distópica futurista pós-apocalíptica, com um mundo surpreendente mas credível e personagens interessantes com quem se consegue empatizar, que nos levam numa viagem excelente e assustadora e que nos fazem pensar no que está de facto no âmago da humanidade, no quê que sobra mesmo depois de sermos sujeitos ao desastre global e a centenas de anos de isolamento e mentira. Não há melhor ficção científica, aliás, não há melhor literatura do que aquela em que o mundo construído e as personagens que o habitam colaboram na mensagem que passam ao leitor e nunca se abafam ou se perdem um no outro. Fiquei fã desta história e mal posso esperar para ler mais do autor, algo que está prestes a acontecer dado Howey já ter começado a publicar alguns volumes de Shift, a prequela de Wool.
Por fim, fico contente por saber que o autor não só teve imenso sucesso com o livro, ao qual a editora Random House (Century) se rendeu e agora publica em papel, como vendeu os direitos à Fox para um filme que poderá vir a ser realizado por Ridley Scott.


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I decided to read Wool following a friend's suggestion and also because I was curious to read a self-published work. I must say I usually have low expectations for these books, not only for failing to be published by a house (that can be for a lot of reasons beyond the work's quality) but also because there's a load of crap e-published these days. Hugh Howey had me surprised and convinced and I had to force myself to stop reading it all night long, such was my curiosity about the plot and the world he created.
I couldn't write a proper review by the time I finished reading but although I don't like writing about a book long after I read it for fear of my opinion loosing quality and detail, I felt it was unfair not to share how much I liked this work. I'll avoid a synopsis or plot details as much as possible because one of the best things about reading Wool is the suspense felt throughout and that feeling one is looking into a new world through a tiny window. I read the omnibus version, collecting all the five parts of this story. 

Wool is a post-apocalyptic story, in which we are shown a small society living isolated from the world in an underground silo. The only ones "allowed" outside are the worst criminals, mainly the ones who dream exactly of going out and exploring the world once more. The rest of the people are left viewing the one leaving - as if it was a medieval execution - dying quickly in spite of the protective suit, though not before he has time to clean the sensors that allow the silo to see that part of the outside world.
The author alternates between some characters' point-of-view, avoiding a typical omniscient narrator that would spoil the skin-crawling mystery and the tendency the reader can't help but have to try and solve it over and over again. The world and the plot is revealed remarkably slow and steady, with some flashbacks and parallel stories without ever becoming tiresome. Even reading the omnibus one notices the five separate parts that in fact correspond to two stories, but it has no negative effect on the reading experience. If any, it felt even more interesting, though I was happy to have all the volumes to read non-stop.
The political system is, as one would expect in this setting, based on the control of information and social and professional status, a more than physical distancing between the people and the prohibition of certain conversations, expressions or words. A matter-of-fact "Big Brother is watching you" with the predictable efficacy of being applied to an enclosed society, with the silo's levels used to separate the social groups. The silo isn't only here to create a limit, the author makes the most of the concept of limited space and resources and it's impact on the organization of the community and on each one's personal life that is at times actually painful to think of. Wool's society is ultra-regulated, with it's foremost value being security and some associated predictability of people's behaviour, so that they are only allowed to know what is essential for their survival and contribution to the community and live in a conformed fear. One feels that they survive with the single purpose of surviving, doing everything just the same as always and expecting everything to keep going smoothly and unwavering. This is all conveyed by the author especially with some of his descriptions of daily unremarkable procedures, that are specified step by step and to such detail that, if sometimes almost over the top, on the other hand is awesome in placing one's mind exactly where it should be to feel Wool.
The characters are interesting, have depth, and though sometimes acting a bit too immaturely, I was left thinking if that is more due to their life (or absence of life experiences) than to some kind of failure by the author. Their development was very well executed with perhaps one less credible exception.

As it is, Wool is a great example of what one can achieve with a dystopian  futuristic work with a surprising but believable world and interesting characters with whom one can empathize and who take us on an excellent if often scary voyage and leave us thinking about what is the core of the human being, what is left after all of us have been destroyed, isolated, lied to and controlled for hundreds of years. There is no better science fictions, or actually no better literature, than that where the world-building and the characters the inhabit it cooperate in conveying the message to the reader, never overwhelming or dissolving themselves on each other. I'm a fan of this story and of the author and I can't wait to get my hands on the recently published Shift, prequel to Wool.
Lastly, I must also congratulate Hugh Howey on his accomplishment, not only for his perseverance but also for the quality of his work (now published on paper by Century - Random House Books) and for selling the rights for a film that Fox is producing and Ridley Scott might be directing.

You can visit the book's website at www.thisiswool.co.uk

Quote / Citação (3)

"He’d only ever seen a gun once, a smaller one on the hip of that old deputy, a gun he’d always figured was more for show. He stuffed a fistful of deadly rounds in his pocket, thinking how each one could end an individual life, and understanding why such things were forbidden. Killing a man should be harder than waving a length of pipe in their direction. It should take long enough for one’s conscience to get in the way."


Hugh Howey, Wool (2012)

Sunday, 27 January 2013

Chronicle by Josh Trank

I love this overused concept of regular people getting superpowers. I've watched Heroes, The 4400, Alphas, I Am Number 4, Push, a bit of Misfits, well, any thing that explores this idea. Chronicle is another attempt at this very same thing, regular guys, this time high-school aged, who are exposed to something and get, all three of them, telekinesis. There are, though, two things that give it some originality, one is the "footage found" filming - originating a film where you only see, hear, know what the camera knows - and the other is that these guys have a very different approach to having powers: they just try them. They don't become instant super-heroes or super-villains, they don't start fighting around to see who's the boss, they don't get followed by aliens or X-files like agents or whatever, they don't have a legacy, an ancient tutor, a prophecy, nothing. They get to live their lives however they decide to do it, with a growing power of telekinesis changing it progressively. So this is the best part of Chronicle, the story of three very different guys with extremely different lives, thoughts, beliefs and purposes that are suddenly hanging out everyday like best friends trying to figure out how much their lives and their world might be about to change. But they still get to play some pranks on people just for fun!
The main character, or at least the one we follow more closely because he is the one with the freak habit of filming everything he does, and also the one who gets more powerful with the telekinesis, is the messed up kid. His mother is dying of some chronic disease, his father is an ex-firemen living off the disability insurance pay after some accident and is a violent, frustrated and alcoholic man, he gets bullied at school, he's the prototypical messed up kid. And the film lets us see who he was, who he can become when things go better, but also how terrible he gets when they go wrong. His cousin Matt is a guy that has lived through high-school in the background because it's all too shallow and pointless and is now starting to understand he also let the not at all shallow stuff pass him by, even though he still had a philosopher's quote for ever situation. The third one, Steve, is the popular kid, but not into the I bully everyone motto, more of an I am a nice guy, cool all the time, no trouble, no complaints, all fun and games kind of guy.
It's of course the filming and the way the power is explored that get this plot away from the typical high-school boring film it could perfectly have become. But what adds to all this is that the messed up kid - his name is Andrew by the way - not only has the getting out of his shell, shyness and comfort zone kind of character development we're all tired of, he starts to look at himself all powerful and capable from an existential point of view, he gets that he is now the superior being, not any more just a human, and that leads to a better story (though not entirely original, of course).
The film does have some weird, not so well accomplished scenes, the camera is referenced too many times. the sharing between the new found mates seems at times hurried and unnatural. I also see the potential for a deeper look into these matters, I can clearly see how this could have been much better from the philosophical point of view, with a slower and more fleshed out development of the three characters.
As it is, Chronicle is no masterpiece but it is a good film, better than the average superpower myth stories, with a different direction and argument, without the tiresome submission of the main plot to a love interest.

Saturday, 26 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (5)

Este é o quinto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Cerimónia de João Bonifácio é o discurso de um homem a um agiota e seus capangas com cassetetes - entenda-se aqui a metáfora que aprouver - no momento em que este lhe tira os seus últimos bens. O homem fala da morte da mãe, da morte do pai, das chatices com a família e com a ex-família, da sua vida, frequentemente em relação a uma mesma música, que no fim se revela ser o mote para tamanha indignação e imparável discurso. Se por um lado é interessante esta forma de contar a história, com um narrador desesperado a falar sem parar na tentativa de convencer alguém insensível das suas necessidades, por outro também se torna cansativo porque o autor conta tudo o resto - o contexto, o passado pessoal do narrador e por aí fora - dentro de parêntesis. Ora parêntesis enormes no meio de um texto com frases de si enormes não gera uma boa experiência de leitura, não me faz empatizar com o homem, com a sua depressão, com a sua insónia, com o seu sofrimento, com as ridículas exigências que lhe fizeram a vida inteira, com o que quer que seja. Contada de outra forma, a ideia deste conto poderia originar uma história muito boa. Assim, não foi mau, mas foi sem dúvida abaixo do seu potencial, confuso e, dez minutos depois de acabar a leitura, pouco relevante.

No Muro é uma história que inclui duas ideias muito boas. A primeira é a do indivíduo que descobre a biblioteca que o pai lhe deixou e, embora inicialmente impelido a explorá-la em busca de dinheiro, acaba por decidir folhear os livros para contactar com as histórias que, no fundo e em conjunto, representam um pouco do seu pai. A outra é a sua decisão de a preservar no muro, livro por livro em cada tijolo, muro este que depois testemunha, de forma engraçada e até irónica, uma série de eventos, uns corriqueiros e outros longe disso. Infelizmente, ideias interessantes não fazem uma boa obra nem chegam para tornar a experiência de leitura agradável e David Soares falhou em tudo o resto. Por um lado temos a necessidade de demonstrar o seu conhecimento extenso do vocabulário não corrente, sem um texto interessante ao ponto de me fazer querer ir procurar os significados das palavras que desconhecia de todo. Por outro, e no seguimento desta ideia, temos um narrador que é quase uma outra personagem de tão diferente que é da personagem principal. A personagem nunca leu nada, falta-lhe a cultura e a inteligência, o narrador faz comentários e análises elaborados que se tornam estranhos, principalmente quando imediatamente apostos aos pensamentos do indivíduo. A leitura soa instantaneamente a uma mistura entre uma história e uma explicação do autor. Metáforas e comparações sobre-explicadas como a do faroleiro contribuem para esta sensação. Também não é compreensível que um indivíduo que tão recentemente se habituou a folhear os livros para estar mais próximo ou para conhecer melhor o pai (ou qualquer que seja o motivo) decida com tanta facilidade enfiá-los todos num muro onde jamais lhes poderá pegar.
Se escrito de outra forma, este conto poderia ter sido dos meus favoritos da colecção. Sendo assim, resta-me ter esperança de gostar mais da próxima obra de David Soares que vou ler, A Conspiração dos Antepassados, livro que comprei há uns anos mas que ainda não tive entusiasmo para começar.

Segue-se O Filho Do Pai Manel de Pedro Santo. Tenho alguma dificuldade em comentar este conto. Não porque esteja mal escrito - há muito piores nesta colecção - nem porque me tenha irritado especialmente - mais uma vez há outros que o conseguiram com incomparável eficácia. O problema deste conto é a sua inutilidade. A história não passa do que nos é dito na descrição, da vida de um homem entre os dois destinos que o pai lhe vaticinou e que na verdade nunca consegue alcançar realmente os seus objectivos nem cumprir destinos até ao final. Infelizmente isto não chegou para me despertar interesse no desfecho, na personagem, no que quer que fosse.

Jean-Charles, Amor de Calções de Onésimo Teotónio de Almeida é a colecção dos e-mails trocados entre um homem a escrever uma tese de mestrado na área da literatura e o seu orientador. Enquanto o orientador tenta que o aluno mantenha a sua concentração, abandone a sua obsessão por estar sempre a estudar mais e mais fundamentação teórica e finalmente escreva a tese, o aluno tenta convencer o orientador a escrever um conto. Nesse sentido vai-lhe pedindo para contar várias histórias do filho, um rapaz engraçado com hábito de ter sempre a resposta na ponta da língua, honesta, irónica e de certa forma desarmante. No meio destas conversas acabamos por ler várias histórias do rapaz que por vezes são realmente engraçadas e outras tantas são cliché do miúdo argumentativo precoce. Há ainda tempo para discutir um pouco o conceito de conto, os requisitos mínimos, o que é importante e o que é desnecessário ou irrelevante, uma discussão interessante mas que preferia ter lido noutro contexto. A nível da escrita tem apenas um defeito, talvez apenas uma questão pessoal, que é o facto das personagens porem constantemente a palavra em inglês do que estão a tentar dizer em português entre parêntesis. Mesmo quando já discutiram antes essa mesma tradução. Percebo a ideia, mas num pequeno conto torna-se cansativo e inconsequente excepto na quebra da fluidez da leitura. De resto a história em si não me trouxe especial mensagem nem fiquei com vontade de ler mais seja destas personagens (excepto talvez o Jean-Charles) seja do autor, a não ser que a temática em si me conquiste a priori.

O conto de Mário Zambujal - Um Velório Alegre - consiste no depoimento de um senhor ao inspector. O depoente fala tanto que o inspector não chega a ter que perguntar nada. Seguimos a história toda do que lhe aconteceu, cheia de rodeios e mal-entendidos, e no fim o conto acaba, sem nós percebermos exactamente o que se concluiu com a investigação, ou sequer com o conto em si. A escrita e o humor não estão mal, mas também não são uma maravilha que justifique por si só a leitura. No entanto talvez experimentasse ler outra obra do autor.


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Saturday, 19 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (4)

Este é o quarto post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.


A Balada da Vala dos Velhos é um conto em forma de carta de um senhor de 78 anos que está prestes a morrer por eutanásia dirigida a um director de um jornal contando o último episódio relevante da sua vida. J.P. Simões aproveita o mote para comentar várias situações da actualidade, fazendo crítica social e política, nomeadamente quanto à forma como as pessoas abandonam os seus velhos, ou a forma como são tratados em muitos lares, à antiga medicina paternalista, aos sucessivos governantes que nunca querem realmente mudar um sistema de si injusto, à classe média seduzida pelos empréstimos fáceis, e por aí fora. Tudo isto enquanto nos conta o que um amigo seu decidiu criar, no final da sua vida, no fundo em resposta a parte destes problemas e por outro lado lembrando que a idade não implica inactividade, nem física, mas muito menos mental.
É uma carta bem escrita, num tom credível de um homem algo farto do mundo em que viveu, de todas as coisas que vê mal resolvidas ou agravadas depois de tantos anos. Não é tanto um "Velho do Restelo" ou um pessimista, como alguém que percebe que a solução existe mas que não é pensada ou aplicada, seja intencionalmente seja por puro desinteresse. Há no entanto momentos em que a crítica é tão literal que parece que o autor está a mandar recados directos ao leitor, algo que nem sempre me pareceu estar bem integrado na carta prejudicando, por isso, o ritmo e sensação da leitura.

Rui Cardoso Martins traz-nos, em O Progresso da Humanidade, uma investigação policial da morte violenta de um indivíduo, em condições pouco claras, através do bloco de notas /  diário do falecido. Aparentemente era um homem estranho, misterioso, com afiliações com ideais fascistas e que parecia ficar facilmente obcecado com algumas ideias ou situações. A exploração do mistério é engraçada, a intercalação entre a leitura do diário e as conclusões do investigador está bem conseguida, e o final irónico finaliza bem o conto. No entanto não consegui deixar de sentir, constantemente, que estava a ler um esboço de uma história, na qual se explorariam muito mais cada um dos episódios da vida do Oliveira e até o que lhe teria passado pela cabeça, aludindo mais ainda à ideia de progresso da humanidade no geral, e não só naquela que é mais directamente consequente do último episódio da vida do indivíduo. Nunca tinha lido ficção de Rui Cardoso Martins e, embora este conto não me tenha convencido completamente, pondero ler algo mais do autor, noutro formato.

Para quem ouve os programas de rádio do Nuno Markl há algum tempo, um conto cómico não é de todo inesperado. A Terrível Criatura Sanguinária é uma história sobre um autor que é encorajado pelo editor a escrever sobre vampiros ou lobisomens e incluir muita sensualidade, porque é isso que está a vender de momento. O autor notoriamente não tem qualquer interesse nisso, mas por outro lado vê-se entre a espada e a parede e pondera começar por escrever o que o lhe é pedido até estar numa posição em que possa publicar o que quer. De seguida vemos o processo de criação de uma história em que o autor tenta fazer a vontade ao editor sem conseguir fugir às suas ideias, sendo o resultado algo estranho, surpreendente talvez tanto para o autor como para o editor.
Não é um conto para causar gargalhadas a toda o momento, mas não deixa de ser engraçado, fazendo uma crítica não tanto ao que as pessoas gostam mas ao vazio do conceito ou à parte a que nos agarramos naquilo que gostamos, tornando óbvia a sinédoque a que recorremos quando queremos explicar ou justificar porque gostamos de uma coisa ou outra. O importante não era ter sexo e uma criatura que da noite que bebe sangue? Não chega isto para corresponder à metáfora que anda aí desde o Dracula?

A Mina do Deus Morto deixou-me de certa forma com opiniões contraditórias. Por um lado, o começo é estranho, com uma escrita pesada, um texto que dá a sensação de ter sido demasiado planeado, palavra a palavra, tudo adjectivado e comparado à exaustão, com recurso a um linguajar atípico que nos faz quase contar palavras em vez de ler e se torna um entrave à entrada na história. Admito que se reconhece no narrador a voz do João Barreiros e lembrei-me que este conto resultaria bem em formato de audiobook, lido pelo autor. Por outro lado, e ultrapassada esta confusão, A Mina do Deus Morto traz umas ideias interessantes, abordadas superficialmente, desde partículas criadoras de vida e energia quase gratuita como um novo olhar sobre a nossa dependência de certos recursos limitados, à inteligência mecânica e exploração humana em nome da pátria (ou do que seja). Mas o melhor do conto é sem dúvida a descrição da descida dos mineiros às profundezas e o efeito das partículas do deus morto neles. É principalmente este conceito, uma novidade refrescante nestas conversas já gastas, que me deixa com vontade de ler mais do autor, coisa que de qualquer forma já vou fazer dado ter comprado o Lisboa no Ano 2000 – Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu, livro que partilha o mesmo universo ficcional deste conto.

Ninfas e Adamastores de Raquel Ochoa é um conto sobre um emigrante do Magrebe em S. Miguel e a sua família. Não estando mal escrito, também não foi história que me despertasse especial interesse, as personagens não são desenvolvidas ao ponto de nos ligarmos a elas e o enredo é o de "mais uma" novela televisiva. Aliás, só à terceira tentativa consegui ler o conto até ao fim. Há ali a possibilidade de explorar ideias, desde a da situação do imigrante, da interação entre o judeu e os católicos daquelas paragens, a luta contra preconceitos até do sacrifício pela família, mas ou a estrutura e tamanho não o permitiram ou a autora não as escreveu na história como que quereria.


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Tuesday, 15 January 2013

Pensamento

Desde há muito tenho um caderno guardado para escrever. Foi-me oferecido e imediatamente decidi que só escreveria lá algo que valesse a pena. Passou-me pela cabeça escrever lá esboços de histórias que invento, citações de outros que julgasse de interesse para mim, coisas que não quisesse nunca esquecer. É um caderno que gosto muito, como objecto e como objectivo. Talvez seja esse o motivo de tanta hesitação quanto ao que fazer com ele. Talvez seja mais por eu ser como sou, e nunca achar que é desta que tenho a ideia certa para o começar, ou nunca achar que estou no momento certo para começar a escrever, ou então achar mas não ter a certeza e precisar de ter a certeza.

Assim chego ao dia em que finalmente, depois de muito tempo, me apeteceu escrever no bloco. Não tenho o pensamento perfeito, nem sequer um novo, mas tenho vontade. Fui buscar o bloco e deparei-me com um novo problema. Perdi a caneta com que queria iniciar a escrita no bloco. Ela sempre esteve aqui, já a usei para muita coisa, mas hoje não a consigo encontrar. Na minha ânsia de inaugurar o bloco, procurei debaixo da cama, dos tapetes, arredei móveis, usei a lanterna, esvaziei gavetas. Nada. A caneta desapareceu, talvez escondida pelos gatos, talvez levada por alguém que precisou de uma. Afinal, a caneta sempre esteve por aí pela casa, disponível. Menos agora.
Fui buscar outra caneta. Finjo que tem o mesmo significado que a outra e que não tem problema. Depois constato que isto não é verdade. Tento associar a inauguração do bloco à de uma caneta nova, guardada numa caixa bonita que alguém me ofereceu em tempos. É mentira. Nenhuma caneta tem o significado daquela. Talvez nem aquela. A verdade é que talvez ainda não tenha ultrapassado o primeiro problema, talvez ainda não esteja convencido que deva começar a escrever no meu bloco. Mas não passa de hoje. Vou escrever agora mesmo. Mal pare de escrever aqui. Porque raio vim eu escrever para o blog num momento destes, em que devia estar a escrever no bloco?

Hesitações. A vida é uma mistura de oportunidades, ideias, meios e motivação. Eu sempre tive a caneta, o pensamento, o bloco. Agora que pensei que tinha a motivação, perder a caneta fez-me pensar que desperdicei muitas oportunidades.


De escrever no bloco? Também. Culpa minha? Tantas vezes quantas tive o controlo da minha motivação, da minha força de vontade e da minha autoconfiança. Alguma vez? Não sei.

Um gato está a miar, deve querer comida.

Friday, 11 January 2013

Siegfried Volume 1 by Alex Alice

Siegfried é o primeiro de três volumes do projecto de Alex Alice, em que pretende reinterpretar a história desta figura da mitologia nórdica, não só em forma de banda-desenhada como em filme de animação. Admite inspirar-se no Anel dos Nibelungos de Wagner, na Völsungasaga e outras fontes menos directas como por exemplo a obra de Tolkien. Este volume inclui, para além da história propriamente dita, um entrevista com o autor em que ele fala da elaboração do projecto. Li a tradução em inglês.
O enredo aqui não é surpresa nenhuma para quem conhece a mitologia nórdica. Pareceu-me no entanto algo rápido demais para um primeiro de três volumes. Há algumas alterações em relação à história original, mas nada que não faça sentido.
O melhor de Siegfried é, sem dúvida, a ilustração. Embora as personagens estejam bem desenhadas, em especial o Mime, é tudo o resto que é realmente espectacular, as outras personagens, os animais, a casa deles, a floresta...
O meu momento favorito desta leitura foi a conversa entre o Odin e o Mime, mas não posso deixar de destacar a escolha do autor de utilizar a Völva como narradora, algo que funcionou extremamente bem.
Em conclusão, uma leitura que vale a pena para qualquer fã de banda-desenhada, mas que recomendo principalmente para os interessados na mitologia.

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Alex Alice set himself up to reinterpret the Saga of the Völsungs, The Ring of the Nibelung, inspired by Wagner and some other sources, and make both a graphic novel and an animated film.  This is the first of the three volumes of the resulting graphic novel. Apart from the story itself, this also includes an interview with the artist where he explains the creative process of the project. I read it in English.
The story here is no surprise for anyone who knows the old Norse Mythology, though it felt a bit too quick. There were some changes from the original tales, but it all makes sense anyway. 
The strong point of Siegfried is, without a doubt, the art. The main characters are nicely drawn, mostly Mime, but it's everything else that is truly surprising, the other characters, the animals, the house, the forest...
My favourite moment was the riddling conversation between Odin and Mime, but I also want to praise the use of the Völva as a narrator which worked out really well helping the story progress.
All in all, it's worth reading for any comics fan but recommended the most for those who like Norse Mythology.

Can't wait for the film!


Tuesday, 8 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (3)

Este é o terceiro post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital

Um conto absolutamente contemporâneo, Coisas Que Acarinho E Me Morrem Entre Os Dedos é aparentemente escrito para o leitor dos dias de hoje, que, sob o manto de referências à internet na nossa vida e à televisão, mesmo as notícias, como distracção dos nossos problemas, trabalha principalmente a nossa expectativa e a forma como reagimos a ela e ao medo da sua violação. Isto visto em relação ao Bangladesh - "When's Bangladesh going to disappear?" - à pesquisa na internet e criação de uma ideia de algo antes de o conhecer - "(...) Podia ser só uma questão de estilo. Mas quis acreditar que não e li como se fosse verdade" - à vontade de criar uma boa primeira impressão e à falta de vontade de arriscar um encontro em condições menos que perfeitas (todas?) - à insegurança em relação a mudanças, à procura de soluções fáceis ainda que superficiais e disfarçadas, à vontade de desistir. É, no fundo, um conto sobre uma pessoa e o que lhe passa pela cabeça no decorrer do seu dia a dia, num equilíbrio entre a vontade de conhecer e o medo do desconhecido, da desilusão e da possibilidade de perda. A contraposição entre os dois psicólogos é também inteligente neste contexto - um referindo-se mais ao abismo vertiginoso do auto-(des)conhecimento e o outro à dor do contraste com os outros, que, superficialmente, como quem vê de fora, nos parecem melhores e nos magoam talvez por tornarem tão claros os defeitos que vemos em nós - e é fechada com chave de ouro com a decisão de controlar os ataques de pânico com químicos que, embora não lhe resolvam a origem do problema, pelo menos não a desiludem com outra tentativa de explicação metafórica das suas emoções.
Identifiquei-me muito com a personagem e claramente gostei muito da leitura, mas continuo com a sensação que esta história tem mais para dar, com uma leitura mais atenta que a minha. Nunca li nada de Dulce Maria Cardoso. Talvez seja altura de começar.

Conheço Pedro Mexia da sua participação no Governo Sombra e de alguns textos da revista Ler, mas Defensor do Vínculo foi o meu primeiro contacto com a sua ficção. Infelizmente, não fiquei bem impressionado. Este conto, sobre o defensor do vínculo que, num processo de pedido de anulação do casamento, tem a função de defender o casamento como instituição, explora a comparação entre o fracasso e a nulidade, no paralelo entre a verdade e a validade, ao mesmo tempo que a personagem tem uma crise de crença na sua própria função. Apesar de haver alguns pormenores engraçados e da visão ridicularizada do casamento como algo que se supõe superior à relação que representa, a prosa não é fluída, com frases longas, expressões e termos incomuns que contribuíram para alguma confusão na primeira leitura. Numa segunda tentativa o conto é melhor, ou pelo menos mais claro, mas ainda assim a prosa não me convenceu nem me deu especial prazer na leitura.
Apesar de tudo gostei da ideia que é explorada e continuo com curiosidade em ler um trabalho de Pedro Mexia noutro formato.

Nunca li nada de Fernando Alvim, embora o conheça dos meios audiovisuais. Amo-te Para Sempre parece ser uma tentativa de explorar a expectativa de um casal, um em relação ao outro, a vontade de mudar pelo outro ou a vontade de ver o outro mudado para corresponder a uma versão idealizada. Acaba recordando o leitor que, para além do problema inerente a levar estas vontades ao extremo, as vontades em si, as ideias, as opiniões, os sentimentos, tudo é efémero e é preciso ter cuidado com decisões e atitudes definitivas, sem retorno, com base neles. Não é uma simples crítica, e até há a personagem à qual o autor permite a mudança, a evolução, talvez por ter percebido que ama a pessoa e afinal não quer que ela seja vazia ao ponto de mudar completamente por vontade de outra. Não é uma ideia nova mas podia ter sido interessante, não fosse a escrita absolutamente contra-produtiva. O narrador não passa de um apresentador de um late night show, a contar a história aos bocados, interrompendo-a com os seus comentários com intenção de ter piada e parecer irreverente e talvez até gozar um pouco com quem quer parecer irreverente. Isto exagerado ao ponto de quase abafar a história e lhe remover a réstia de interesse que poderia ter.

O conto de Possidónio Cachapa - O Homem Que Existia Demais - não me disse mais do que o que se lê no título. O narrador conta alguns episódios da história de Savage Danny, um homem auto-confiante, com uma vida fora do comum e uma atitude na linha do carpe diem. Infelizmente o conto parece, ainda que bem escrito, absolutamente desnecessário. Eu até estou interessado numa história sobre um Savage Danny, mas não uma que serve somente para tentar dar contexto ao título e fica a saber a introdução. Apesar deste não me ter convencido, não está fora de questão ler outro trabalho do autor, talvez num formato diferente.

David Machado traz um conto com um tom mais infantil que os anteriores na colecção, mas nem por isso menos interessante. A história trata de uma rapariga que acha sempre que pode ajudar, seja o problema qual for, e rapidamente recorre à solução que imaginou sem especial ponderação. Acho que posso ajudar é uma breve e superficial referência à falta de análise das situações, à acção imprudente ou negligente e que nos lembra que por vezes mais vale dar um passo atrás que insistir num caminho com constantes danos colaterais. Pondero ler mais trabalhos de David Machado. Deixo uma nota final para as ilustrações de Mafalda Milhões, adequadas à história e ao tom em que é contada, dando-lhe um toque colorido que é muito bem-vindo.


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Thursday, 3 January 2013

Tale of Sand by Jim Henson, Jerry Juhl and Ramón Pérez

A minha decisão de ler Tale of Sand foi algo instintiva. Li um ou dois textos sobre o livro na altura em que foi publicado, vi-o na loja de BD habitual - Mundo Fantasma - e comprei. Depois passou cerca de um ano sem eu lhe pegar. Entretanto soube que ganhou o Eisner Award, o que poderia ter motivado a minha leitura, mas a verdade é que só agora cheguei a ele. Foi a minha primeira leitura de 2013, um começo definitivamente estranho.
Tale of Sand é uma obra existencialista, de exploração do ser humano pela exteriorização do seu íntimo através de uma história surreal, absurda que por motivos indefinidos é imposta a um protagonista sem grande introdução. Dito isto, é uma obra muito confusa. Não sei se por ser um guião (encontrado recentemente, nunca convertido em filme) transformado em banda-desenhada, se o guião em si já implicava todo este absurdo incompreensível, o que faz algum sentido tratando-se dos autores por trás do The Muppet Show. Para os fãs e conhecedores da obra de Jim Henson e Jerry Juhl, que para além dos Marretas inclui igualmente a Rua Sésamo, há aqui um bónus, a utilização de várias ideias que foram mais tarde aproveitadas noutros trabalhos mundialmente famosos.
Seguimos um homem numa travessia do deserto numa aparente corrida ou fuga / perseguição da qual desconhece condições ou regras e para a qual tem apenas um aparente mapa do percurso mas que não é de fiar. No deserto acontecem-lhe as coisas mais inesperadas possível, desde passar por um homem a correr que carrega um cubo de gelo gigante o qual vai derretendo até ao momento em que, chegado ao tamanho normal, é colocado num cocktail de uma mulher a apanhar sol à beira de uma piscina com um tubarão, até encontrar um interruptor dia/noite numa pedra e ser perseguido por uma equipa de futebol americano, tudo isto enquanto é perseguido por um inimigo misterioso com uma pala num olho.
A arte de Ramón Pérez, por outro lado, não deixa quaisquer dúvidas. Este livro tem da melhor arte que já vi em banda-desenhada, em especial considerando que é a ilustração que conta a história, com muito pouca ajuda do texto. O desenho, o arranjo gráfico, a cor, tudo aqui está próximo da perfeição e merece sem dúvida as nomeações e prémio que ganhou.
Se eu percebi o livro, a tal análise absurdista da existência do indivíduo? Não, embora a revelação final mostre bem o objectivo da história. Mas fiquei com vontade de o reler, noutro momento, com outra atenção. Porque definitivamente vale a pena.


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I first decided to buy Tale of Sand out of instinct, having read a couple of news about it being published and taking a brief look at it at my usual comics store. Later I heard it won the Eisner Award, but still I kept postponing it until now. It became my first read of 2013, and an odd start at that.
Tale of Sand is existentialist  an exploration of the human being through the external materialization of himself in an absurd and surreal story imposed to an unknown individual for unknown reasons. Having said that, it is a very confusing work of art. I don't know if that stems from it being an adaptation of a lost script for a film that never was or if the script itself already defined all that incomprehensible plot. Probably the latter, seeing that Jim Henson and Jerry Juhl were the creators of The Muppet Show and Sesame Street. For their fans, there's a bonus in this book, considering all the ideas that are both present here and used later on their work.
One follows a man traversing the desert (what's more metaphoric for a depressive introspection than that?) in an apparent race / escape of which he knows no rules or conditions apart from a map that he's told is not to be trusted. In the desert, the most unpredictable stuff happen to him, from a man carrying a giant ice cube that melts to the perfect size right when he puts it on a woman's drink (one who is sunbathing by a pool with a shark), to finding a day/night switch on a rock and being followed by a football team, all this while being persecuted by a mysterious enemy with an eye-patch.
Ramón Pérez's art, on the other hand, convinced me right away. This book has some of the best illustration I've seen in sequential art, specially considering it is the image that tells the story with little occasional help from text. The drawing, the design, the colour, everything here is near perfection and deserves all the nominations and award it got.
Did I understand that absurdist analysis of the human or the man's existence? Not at all, though the final revelation does show the purpose of the story more clearly. But I do mean to read it again, on a more appropriate moment, when I can dedicate more time and pay much more attention to it. Because it's definitely worthwhile.

Wednesday, 2 January 2013

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (2)

Este é o segundo post a comentar os Contos Digitais do DN, disponíveis gratuitamente na sua biblioteca digital.

O sexto conto da colecção - Quartos de Hotel - é da autoria de Inês Pedrosa. O leitor vai espreitando os pensamentos de várias pessoas, uma após outra, conforme entram nos seus quartos de hotel. Inicialmente, a autora não revela o que os motiva a estar ali, não nos oferece contexto para além do que cada personagem vai mostrando, aos poucos. À medida que conhecemos as histórias de cada um, percebemos que todos já se encontraram neste mesmo hotel e estão de volta para mais um congresso. São autores, editores, críticos, organizadores, todos pertencentes à indústria dos livros. Mas neste conto a profissão deles não passa de um bom motivo para se encontrarem. O enfoque aqui é nas pessoas por detrás da profissão. Quem ama para sempre e quem desespera por regressar a paixões antigas, quem não esquece os bons tempos, quem viu a sua carreira destruída, quem quem se sente realizado, quem já olha a morte de frente e já só está disposto a viver se não tiver que sacrificar demasiado do que lhe apetece fazer. É uma narrativa simples mas interessante, bem elaborada e que sem almejar a ser inovadora acaba por ser refrescante excepto naqueles momentos em que há adjectivação estranhamente em demasia ou metáforas demasiado trabalhadas e mal integradas na restante prosa.

A Queda de um Anjo foi até agora o melhor conto da colecção. Afonso Cruz domina não só a arte de escrever como também este formato. A história segue uma mulher que se encontra no paraíso, onde sente falta do seu marido que, assume, terá ido para o inferno. Começa por nos descrever o que vai vendo, enquanto toma a decisão de, dado não lhe trazerem o marido, descer até ao inferno para ir ter com ele. Assim, de seguida é a altura de acompanharmos a sua passagem pelos sete "círculos" do paraíso até à chegada ao R/C, o prólogo e revelação final deste conto. A personagem vai, ao longo desta viagem, recordando vários momentos e pessoas da sua vida, revelando opiniões e pensamentos, hábitos e sentimentos, analisando tudo com o maior pragmatismo imaginável. A sensação é de estar a espreitar a mente de de uma pessoa tola, que se alegra e surpreende com as coisas mais simples, que faz o que quer porque a faz feliz, pouco se importando com o que os outros pensam, que ama o seu marido e assume que ele a ama de volta, ainda que ele dedique o seu tempo ao jornal desportivo. É como uma criança que já viveu várias décadas mas cujo espírito não amadureceu - ou envelheceu - nem um pouco (se calhar ainda bem!). É um texto naturalmente engraçado, que faz rir às gargalhadas sem forçar mas que termina de uma forma surpreendente que obriga o leitor a rever a história toda, como se agora tivesse toda uma nova narrativa para construir, ou reler. Já estava nos meus planos, principalmente desde que o vi e ouvi no Fórum Fantástico, mas agora não tenho qualquer dúvida que vou ler mais trabalhos da autoria de Afonso Cruz.

Gonçalo M. Tavares, do qual já tinha lido Histórias Falsas, traz-nos A Moeda, um conto pequeno e de leitura rápida, com uma escrita seca e directa, sem grande floreado, mas denso em food for thought e eficaz a transmitir mensagem. A história segue um indivíduo, Vass Kartopeck, um labrego que detesta ter que viver na cidade, que não se conforma àquele estilo de vida como a massa amorfa que o rodeia e que tem manchas estranhas a aparecer-lhe na pele da face. O que nos é mostrado aqui é a sua interação com uma prostituta, com pessoas numa sala de espera e com um médico. Um dos seus hábitos, que mostra a sua desadequação ao meio, é o do andar sempre com moedas com as quais espera pagar os favores que lhe fazem. A simbologia da moeda como meio de troca e transacção, chama logo à atenção numa história que explora a comunicação entre um indivíduo e a sociedade e a tentativa desta última de uniformizar os indivíduos (e as trocas) e talvez por isso seja ela a dar nome ao conto. Em contraponto com a moeda está a face, que no caso de Kartopeck, por estar manchada, o torna impróprio para comunicar com a sociedade. O seu valor é de tal forma diminuído que acaba por ser ainda mais incomodativo para as pessoas do que a presença da prostituta, que chega a gozar com ele. A sala de espera do consultório torna-se o cúmulo desta situação, no momento em que as pessoas abandonam o local e esquecem o que as levou lá por não quererm estar com ele. A figura do médico serve várias funções. Por um lado, ele permite o desenlace da metáfora das manchas na pele, no momento em que informa Kartopeck que ele não está doente, que as manchas não refletem nenhum problema orgânico - dando aqui a entender que um indivíduo que não de adapta, que não se conforma completamente, que é diferente das "massas", não tem necessariamente a culpa ou sequer um problema intrínseco, apontando de certa forma o dedo à sociedade, às suas convenções impostas. Por outro lado o médico é também representante dessa mesma sociedade e do poder, mostrando a típica reacção social à diferença quando diz a Kartopeck que dado não ter nenhuma doença, se ele se chateia por causa das manchas, problema dele, ele que resolva, que se adapte.
É também possível ver aqui uma referência ao paradigma da medicina tradicional, em que o que não é orgânico não é doença e o médico dá a entender que se ele não consegue lidar com as suas manchas (representativas de uma desadequação social, de certa forma uma objectivação de um problema psicológico) então é fraco, que se amanhe, que se conforme porque "o que tem que ser tem muita força".
Esta é uma história pejada de simbologia, onde não é por acaso que só a personagem principal tem nome, e todos os restantes funcionam principalmente como representantes metafóricos para se contrapor a ele. Só perde pela escrita pouco embelezada, algo seca e por isso menos empolgante do que poderia ser. Uma boa forma de mostrar a qualidade deste conto, é o facto de ter passado quase uma hora a discutir a sua interpretação e as temáticas que traz à luz.

O nono conto da colecção, de Manuel Jorge Marmelo, é As saudades que tenho de Inácia. Nunca li nada do autor, pelo que não tenho ponto de comparação ou conhecimento do seu estilo pessoal e temática habitual, mas posso dizer que, depois de ler isto, fiquei totalmente desinteressado. O texto não tem uma história ou um enredo, limita-se a dactilografar os pensamentos de um homem que tem saudades do sexo com Inácia. Gosto que o autor não tema usar calão e ir directo ao ponto enquanto descreve a mulher ou o que a personagem gostava que ela fizesse na cama. Mas convém que isto seja uma base para nos transmitir algo, e não nos pareça somente que estamos a ouvir um velho no café a falar com os amigos por entre cerveja e tremoços. Neste caso, não passou disso. Há duas mensagens principais que podemos encontrar nesta leitura, ambas entregues de bandeja pelo narrador: as aparências iludem ("quem vê caras não vê corações", "não julgues um livro pela capa", "nem tudo o que reluz é ouro" ou outra variação) e as memórias enganam, no sentido em que ao longo do tempo nos convencemos que nos lembramos de coisas que podem estar somente a ser fabricadas pela nossa mente para corresponder a uma ou outra ideia. Não é uma leitura agradável, não é interessante, não traz novidade.

Termino este post com o comentário ao conto de Mário de Carvalho, A Porrada. Este conto muito curto tem uma referência a dois temas, a vida caseira e de aparências de uma provável aristocracia e a vida secreta do marido num fight club lusitano. Infelizmente, a história fica-se pela ligeira referência e nem esboça o desenvolvimento do que quer que seja. Pode haver aqui um conto interessante, se Mário de Carvalho alguma vez o deixar germinar e voltar a escrever.

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parte 1