Thursday, 27 December 2012

Tabu by Miguel Gomes

Começo por confessar que não tenho hábito de ver cinema português. Tabu foi-me aconselhado como um filme de alta qualidade, do melhor que se fez em 2012.
O filme tem duas partes muito distintas entre si e que correspondem aproximadamente a duas metades das quase duas horas de filme.
A primeira - "Paraíso perdido" - segue a vida de Pilar e Aurora, duas vizinhas, não só de rua mas também numa certa sensação de solidão. Pilar é uma mulher insistentemente mostrada como boa pessoa, amiga e preocupada com os outros, mas que vive só e cujo aparente interesse amoroso lhe interessa francamente pouco - de uma piedade católica dolorosa. Aurora é a sua vizinha, mais velha, que vive com a sua empregada Santa e abandonada pela filha que terá emigrado para o Canadá. Se inicialmente a história nos é mostrada do ponto de vista de Pilar, vai-se percebendo que o real mistério a ser explorado no filme pertence ao passado de Aurora, que ainda hoje a apoquenta. Esta primeira parte peca por ser lenta demais. Há momentos em que se torna quase uma tortura o silêncio inactivo e consecutivo ao longo de quase uma hora. Mas, se aguentarmos, chegamos ao momento final, em que nos é revelado o motivo pelo qual houve esta introdução, na comparação entre a boa pessoa, injustamente solitária e a culpada, que se sente a pagar penitência por erros passados. Pilar vai ao encontro de um suposto velho amigo de Aurora e é ele, Ventura, que passa a ser o narrador, introduzindo a segunda parte do filme - "Paraíso".
Aqui vemos a juventude de Aurora, a adopção do crocodilo, o seu casamento, gravidez, a relação com Ventura, os seus pecados e a forma como acabaram ambos em Portugal. A segunda parte é substancialmente melhor que a anterior, e, embora não lhe note a genialidade que outras criticas lhe conferem, justifica bem a hora que lhe é dedicada e o tempo que se perdeu à espera dela. O narrador funciona muito bem, a fotografia é fenomenal, os silêncios são naturais, a ligação ao início da guerra colonial fornece-lhe um contexto interessante e o crocodilo como testemunha dá-lhe uma certa graça. Se as as actrizes tinham estado óptimas em "Paraíso perdido", não há nada a apontar aos protagonistas de "Paraíso". O enredo, no entanto, (SPOILERS) não passa de um amor proibido entre a mulher casada e o amigo da família, ainda por cima baterista de uma banda, que a leva a atitudes de que ambos se arrependem para o resto das suas vidas.

Logo pelo título das duas partes, que mostra a diferença entre a vida boa de Aurora na juventude em Moçambique e a penitência da sua velhice em Portugal, percebe-se que este é um filme pejado de simbologia. A filmagem a preto e branco, os silêncios contemplativos, a introdução, o crocodilo, a descrição do sonho de Aurora, houve um enorme investimento nos símbolos, de certa forma afogando o que resta de filme.
Aquilo que se torna o seu pior problema é, no entanto, a duração da primeira parte. A mesma  mensagem poderia ter sido passada em metade do tempo, dando-lhe uma progressão que não sendo rápida ao ponto de perder a sensação de solidão e melancolia, deixaria de ser lenta ao ponto de se tornar soporífera. É um defeito comum no cinema português, do que eu conheço dele.
Acaba por tudo isto por ser um filme que será aproveitado ao máximo e adorado por uma minoria do grande público, já cansada do cinema anglo-saxónico mainstream e preparada para uma obra que tem um pendor intelectual bem introduzido no enredo embora não muito elaborado ou surpreendente e sem grande investimento no entretenimento. Vale a pena ver, mas sem grandes expectativas e com uma certa preparação mental.

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I'm not used to watching Portuguese films, but Tabu was recommended as one of the best films in 2012 so I decided to give it a chance.
Tabu has two very distinct main parts, roughly one hour each. The first - "Paradise lost" - follows Pilar and Aurora, two neighbours who share not only the location but also a certain feeling of solitude. Pilar is persistently shown as a good person, friendly and worried about others, living alone, with little interest in her supposed love interest - a painful catholic piety through and through. Aurora is her elder neighbour, lives with Santa - the maid - having been apparently abandoned by her daughter who has moved to Canada. The story is initially told from Pilar's point of view, but one eventually understands that it's Aurora's troublesome past that will end up being explored in the rest of the film. This first part is by far too slow, with some of the consecutive silent moments becoming almost torture. If one keeps watching though, the purpose of this first part is revealed, in the comparison between the good woman, whose solitude is unfair, and the guilty one, who feels she is paying for her sins. Eventually Pilar looks for Aurora's long lost friend, Ventura, who becomes the narrator for the second part of the film: "Paradise".
Here we get to watch Aurora's youth, the adoption of the crocodile, her marriage, pregnancy, her relationship with Ventura, her sins and how they both ended up living separately in Portugal. This second part is much better than the first and, though far from being ingenious as I've read on other reviews, it does deserve it's duration and how much one waited for it. The narrator works really well, the photography is astonishing, the silences are natural, the connection with the beginning of the colonial war gives it an interesting context and the crocodile as witness comes as a funny but not goofy detail. If the actresses were great in "Paradise lost", the main actor and actress in "Paradise" were also flawless. The plot, though, (SPOILERS) is nothing but the typical forbidden love between the married woman and the friend of the family and drummer in a band, which eventually leads to some actions - mainly hers - that both regret for the rest of their lives.

This is a film fraught with symbols, from the names of the parts - showing the difference between her good life in Mozambique and the penitence of her old age in Portugal - and the black and white image to the contemplative silences, the introduction, the crocodile, Aurora's dream. The investment in symbology is so much it drowns the rest of the film.
Despite what I just said, the worst part of Tabu is, undoubtedly, the length of the first part. The same message could have been delivered in half the time, giving it the pacing it needed, not too quick that it lost the feeling of loneliness and melancholy but also not as slow, becoming quite soporific. From what I've seen, the slow pacing and exaggerated use of silence are common problems in Portuguese cinema.
For all this, Tabu ends up being a film to be truly enjoyed by few, tired of the mainstream Anglo-Saxonic cinema and prepared for a quite intellectual tendency, nicely woven into the plot though not deeply worked or really surprising, and little investment in entertainment. It's worth watching, though one should avoid high expectations and be on the right mindset.


Wednesday, 26 December 2012

Saga Volume 1 by Brian K. Vaughan and Fiona Staples

Esta série foi tão recomendada na internet e na minha loja habitual de BD que eu não resisti a comprar. Ainda por cima já tinha lido um pouco e gostado de Y: The Last Man de Brian K. Vaughan pelo que parti para a leitura com elevadas expectativas.
A história segue uma família improvável - Alana pertencia às forças de um planeta há muito tempo em guerra com uma lua e tem asas como uma fada; Marko pertencia ao exército da lua, tem cornos como um fauno e sabe magia, mas decidiu recusar a violência pelo que se entregou ao inimigo, tendo encontrado Alana - e começa pelo parto da filha deles.
Claro que, dado o contexto, somos logo de seguida embrenhados numa fuga interplanetária, combates inevitáveis e conversas sobre que nome dar à criança. Mas isto é ao mesmo tempo o ponto central do enredo e a desculpa para o autor mostrar os limites da sua imaginação. Desde assassinos a soldo galácticos, um com demasiadas patas para o conforto de aracnofóbicos, outro com um gato que avisa quando alguém mente, uma suposta floresta de naves espaciais, a fantasmas que defendem um planeta e uma realeza cujas cabeças são televisores, não é possível adivinhar o que vamos encontrar de seguida no mundo de Saga. Há aqui um elemento típico destas histórias, o facto de um dos lados usar magia e o outro ser mais evoluído ao nível da tecnologia que, dependendo de como for desenvolvido ou deixado como contexto, pode aproximar-se ou divergir do cliché. A avaliar pelo primeiro volume, vai valer a pena. Mas não é só desta mistura de fantasia e ficção científica e de amores proibidos que vive Saga. Logo no primeiro volume, o autor não teve qualquer problema em tocar questões como as crenças, tradições pessoais, familiares ou planetárias, a guerra do ponto de vista do cumprimento cego de ordens superiores, a facilidade com que se mata alguém quando há acesso a armas e até o tráfico e exploração sexual de crianças.
A arte é fenomenal, tanto a nível de desenho como de coloração. As personagens têm personalidade, expressões faciais e corporais que não podiam contar melhor a história. A ilustração do mundo, de vários locais em diferentes planetas, é rica e variada e ajuda a mente a acreditar que estamos a viajar pelo espaço. A magia tem sido desenhada de uma forma subtil, o que a torna mais credível do que os raios e coriscos a que nos fomos habituando, mas a necessitar por vezes de ingredientes imprevisíveis o que lhe dá uma plausibilidade interessante.
Como começo de uma série, coleccionando os primeiros seis fascículos, misturando magia, ficção científica, personagens genuínas com diálogos engraçados, sexo inter-racial, eventos e locais imprevisíveis e temas relevantes, não posso pedir mais. Vou comprar o segundo volume sem dúvida e mal esteja disponível.


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Saga was so recommended all over the internet and at my local comics store that I couldn't have avoided buying it. I had read a bit of  Y: The Last Man by Brian K. Vaughan before and liked it, so I had high expectations for this one.
The story follows an unlikely couple - Alana, from the planetary forces long at war with a moon and with vestigial "fairy" wings; Marko, horned as a faun, spellcaster, soldier of the moon's army, renounced violence and surrendered to the enemy and meeting Alana while imprisioned - and starts off with Alana giving birth to their daughter.
After this, we are right away thrown into an interplanetary escape, unavoidable fights and talks about the child's name. But this is at the same time the central focus of the plot and an excuse for the author to show the limits of his imagination. From professional assassins for hire, one with too many legs (beware arachnophobia) and other with a cat that works as a lie detector, a legendary spaceship forest to ghosts that are supposed to defend their planet and a royal family with television sets for heads, one cannot guess what is going to appear next in the world of Saga. It includes a typical element of these stories, the fact that one side of the war uses magic and the other is more tech-savy, which, depending on how it is developed or kept as background, might become or totally diverge from the cliché. If the first part is any indication, it's going to be worth paying attention. But it's not only of this blending of fantasy and science fiction and forbidden loves that Saga lives. Right on the first volume, the author has no trouble handling problems such as belief, tradition, war from the soldier following orders point of view, the ease with which one kills when weapons are accessible and even sexual abuse and exploitation of children.
The art is phenomenal, both in terms of the drawing and the colours. The characters have personality, facial and body expressions that couldn't do better storytelling. The illustration of the worlds, the multiple places and planets, is rich and varied and helps trick the mind into believing we are really travelling through space. The magic is subtly added to scenes, making it more credible than the lightning and sparking on might be used to and sick of. The fact that some spells need odd unpredictable ingredients (and I'm not talking about mushrooms or crystals or such typical stuff) makes the whole setting more plausible.
As the starting point of a series - the first six numbers - mixing magic, sci-fi, genuine characters with funny remarks, interracial sex, unpredictable places and relevant themes, I can't really ask for more. I'll definitely buy the next volume as soon as possible.

Sunday, 23 December 2012

The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ by Philip Pullman

Decidi ler este livro por três motivos: sou fã do Philip Pullman desde que li a sua trilogia His Dark Materials, interesso-me por explorações da história das religiões e o título é curioso e engraçado.

The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ, traduzido para português para algo como O Bom Jesus e o Infame Cristo, revisita a história do homem e da figura mitológica dividindo-o em dois irmãos gémeos, Jesus e "Cristo". Isto permite-lhe ao mesmo tempo repensar a origem do cristianismo como credo e como igrejas ou organizações, tal como criar duas pessoas muito mais credíveis que o relato do "messias" que nos é trazido pelo novo testamento, os evangelhos seleccionados e as suas interpretações pelas várias igrejas. O primeiro passo nesse sentido é retirar-lhes a primeira prova de divindade, sendo que aqui Maria não está grávida de deus mas de um homem que se faz passar por anjo e a convence que está a fazer a vontade divina.
Nesta história, Jesus é o profeta bíblico, o que faz discursos para a população, o que anuncia a vinda do reino de deus, o que provoca as instituições religiosas e administrativas. No início ele tem fé absoluta em deus e em tudo o que diz, mas à medida que o tempo passa e Jesus se vê sem respostas da parte de deus e sem evidência da vinda do seu reino, começa a questionar-se: "If that makes me a fool, I'm one with all the fools you made. (...) Is that what you're saying to me? That when I hear the wind, I hear your voice? When I look at the stars I see your writing, or in the bark of a tree, or the ripples on the sand at the edge of the water? (...) So, what's the answer?  These things are full of your words, and we just have to persevere till we can read them? Or they're blank and meaningless? (...) No answer, naturally. Listen to that silence. Not a breath of wind; the little insects scratching away in the grasses; Peter snoring over there under the olives; a dog barking on some farm out behind me in the hills; an owl down in the valley; and infinite silence under it all. You're not in the sounds, are you. There might be some help in that. (...) If I thought you were in those sounds, I could love you with all my heart, even if those were all the sounds you made. But you're in the silence. You say nothing. God, is there any difference between saying that and saying you're not there at all? I can imagine some philosophical smartarse of a priest in years to come pulling the wool over his poor followers' eyes: "God's great absence is, of course, the very sign of his presence" or some such drivel.(...) When the fool prays to you and gets no answer, he decides that God's absence means he's not bloody well there." Este é o homem que acreditava no deus do antigo testamento, no deus que cria, que fala, que se mostra, que castiga e perdoa e que em nome dele pedia às pessoas para deixarem tudo para trás e trabalharem apenas para corresponder à sua ideia de santidade. E esse homem nunca poderia ser, ao mesmo tempo, defensor do deus dos homens, do deus ausente, do deus implícito, suposto, provável, do deus que fala através de interpretações de escritos de homens e de instituições auto-proclamadas. No seguimento da conversa que citei parcialmente acima, Jesus diz: "Lord, if I thought you were listening, I'd pray for this above all: that any church set up in your name should remain poor, and powerless, and modest. That it should wield no authority except that of love. That it should never cast anyone out. That it should own no property and make no laws. That it should not condemn, but only forgive.".
Por outro lado, "Cristo" - que aqui é alcunha, para se não se identificar de início qual o seu real papel na história - é um homem estudioso, inteligente, que sabe as escrituras de cor, que argumenta com os adultos, que tem visão a longo prazo. É este que, com a influência de um indivíduo que ele pensa ser um anjo, começa a preparar a criação de uma igreja. Entenda-se que ele o faz com as melhores das intenções, mas - e como é típico daquilo que conhecemos hoje das igrejas cristãs - com o maior dos paternalismos. Cristo pensa ser necessária essa organização - o pastor - para levar as pessoas - as ovelhas - no caminho certo de acordo com o que deus quer (ou o que ele acha que ele quer). Não consigo deixar de ver aqui uma bela referência à moralidade de rebanho que Nietzsche acusa as igrejas judaico-cristãs de induzir no povo europeu e que tanto atrasou o nosso progresso cultural e social. No sentido de criar essa igreja, Cristo não se importa de relatar a vida de Jesus modificando vários factos, nem sempre pormenores, de forma a criar milagres, a fazê-lo parecer menos homem e mais divino, e até inventando coisas como a ideia de ele querer que Pedro funde tal igreja ou de lhe tencionar dar as chaves do céu. Convence-se que está a fazer o correcto com frases como: "There is time, and there is beyond time. History belongs to time, but truth belongs to what is beyond time. In writing of things as they should have been, you are letting truth into history. You are the word of God.".

A intenção não é provar nada, o livro não é uma investigação factual, nem um documentário, embora se baseie nos supostos relatos dos factos e mantenha grande parte do que hoje se crê ter sido a vida de Jesus. The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ assume-se como uma história mas também e essencialmente como uma exploração da origem das histórias e uma provocação à mente do leitor, deixando-o a pensar ou repensar Jesus, deus ou a religião em geral e suas instituições. Tudo isto escrito por uma pessoa que notoriamente tem um conhecimento profundo da bíblia. É por isso um livro que pode ser de interesse tanto para ateus e agnósticos como para cristãos ou crentes de outras religiões.
Há mais dois pontos que me parece importante comentar. Philip Pullman não é insultuoso nem desrespeita os cristãos com este livro. O seu tom não é tanto o de lhes mostrar que são tolos, burros, idiotas (como acontece frequentemente com o discurso de muitos ateus militantes), mas muito mais o de lhes mostrar que não devem acreditar cegamente na igreja. Há uma diferença entre acreditar na mensagem de Jesus, acreditar que ele era filho de deus e acreditar nas igrejas que apareceram entretanto e dizem ser representantes dessas mesmas divindades. Uma crítica que, no entanto, não posso deixar de fazer, é de que o autor foi demasiado directo em algumas mensagens. O leitura teria sido bastante mais agradável se as personagens não falassem tão claramente para o leitor, se as mensagens fossem um pouco mais implícitas.

Este livro pertence a uma colecção de vários trabalhos sobre mitos, na qual fiquei agora bastante  interessado.

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I decided to read this book because I'm a fan of Philip Pullman since I read His Dark Materials, I'm interested in the exploration of the history and foundation of religions and I thought the title was curious and funny.

The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ revisits the story of the man that became a myth dividing him in two twin brothers, Jesus and "Christ". This allows him both to rethink  the origin of christianity as a belief and religious organizations and create two men who are much more believable than the usual messiah as reported in the selected gospels and their official interpretations. The first step to achieve this is stripe them off their granted divinity, writing them into this story not as the sons of god but of a man that passed himself of as an angel doing god's will and convinced Mary she had to have sex with him.
Jesus becomes the biblical prophet, the one who gives the speeches, who announces and the coming of the kingdom of god, who provokes the religious and administrative institutions of his time. He starts of a true believer both in god and in the things he says about him, his wishes and his kingdom. But as time goes by and he never hears a thing from god, never gets an answer to his prayers, never sees any evidence of the kingdom, he starts questioning himself: "If that makes me a fool, I'm one with all the fools you made. (...) Is that what you're saying to me? That when I hear the wind, I hear your voice? When I look at the stars I see your writing, or in the bark of a tree, or the ripples on the sand at the edge of the water? (...) So, what's the answer?  These things are full of your words, and we just have to persevere till we can read them? Or they're blank and meaningless? (...) No answer, naturally. Listen to that silence. Not a breath of wind; the little insects scratching away in the grasses; Peter snoring over there under the olives; a dog barking on some farm out behind me in the hills; an owl down in the valley; and infinite silence under it all. You're not in the sounds, are you. There might be some help in that. (...) If I thought you were in those sounds, I could love you with all my heart, even if those were all the sounds you made. But you're in the silence. You say nothing. God, is there any difference between saying that and saying you're not there at all? I can imagine some philosophical smartarse of a priest in years to come pulling the wool over his poor followers' eyes: "God's great absence is, of course, the very sign of his presence" or some such drivel.(...) When the fool prays to you and gets no answer, he decides that God's absence means he's not bloody well there." This is the man who believed in the god of the old testament, the one who creates, speaks, shows himself (if indirectly), who punishes and forgives, and in his name asked all men to leave all behind and work only to become almost saints. And that man could never be the one who stands for a god of men, absent, implicit, assumed, likely, a god who speaks only through the interpretations of people's words and self-proclaimed institutions. Further ahead in the same conversation from which I quoted above, Jesus says: "Lord, if I thought you were listening, I'd pray for this above all: that any church set up in your name should remain poor, and powerless, and modest. That it should wield no authority except that of love. That it should never cast anyone out. That it should own no property and make no laws. That it should not condemn, but only forgive.".

The purpose here isn't to prove anything new, the book is no investigation, no documentary, though it is based on the supposed factual reports and does keep most of the story of what we now believe might have been the life of Jesus. The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ presents itself as a story, but also and essentially as an exploration of the origin of stories and a provocation to the reader's mind, making him think or rethink Jesus, god or religion and its institutions. All this written by a man who clearly has a profound knowledge of the scriptures. It's an interesting book both to atheists and agnostics, christians and other believers.
There are two other comments I must add. Philip Pullman isn't insulting or disrespectful towards christians in the book. His tone is not that much one to make them feel foolish or stupid (as ends up happening a lot with militant atheists), but more to make them question the absolute belief in a church. There is a big difference between believing in Jesus' message, believing he was the son of god and believing in the churches that spawned around and presume to represent him. The negative criticism I have is that the author was too direct, too straightforward in his messages. It might have been better, both to read and to achieve any result, if those messages were a bit more implicit.

The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ is part of a collection of works on myth in which I'm now very interested.

Quote / Citação (2)

"Waste of time," said the leper. "There's a dozen or more beggars who come here every day, pretending to be cripples, hiring themselves out to the holy men. A couple of drachmas and they'll swear they've been crippled or blind for years then stage a bloody miraculous recovery. Holy men? Healers? Don't make me laugh."
"But this man is different," said Christ.
"I remember him," said the blind man. "Jesus. He come here on the sabbath, like a fool. The priests wouldn't let him heal anyone on sabbath. He should've known that."
"But he did heal someone," said the lame man. "Old Hiram. You remember that. He told him to take up his bed and walk."
"Bloody rubbish," said the blind man. "Hiram went as far as the temple gate, then he lay down and went on begging. Old Sarah told me. He said what was the use of taking his living away? Begging was the only thing he knew how to do. You and your blether about goodness," he said, turning to Christ, "where's the goodness in throwing an old man out into the street without a trade, without a home, without a penny? Eh? That Jesus is asking too much of people."
"But he was good," said the lame man. "I don't care what you say. You could feel it, you could see it in his eyes."
"I never saw it," said the blind man.



Tuesday, 18 December 2012

Contos Digitais do Diário de Notícias 2012/2013 (1)

O Diário de Notícias está a publicar, entre Outubro de 2012 e Janeiro de 2013, uma colecção de 31 contosde autores portugueses em formato ebook. Os contos são de aparente tema livre, independentes uns dos outros e vão desde histórias supostamente baseadas em factos reais a pura ficção especulativa, desde drama a comédia ou suspense. Estão disponíveis na biblioteca digital do DN, à qual podem aceder aqui. Decidi ler toda a colecção dado conhecer pouco do trabalho dos autores portugueses contemporâneos e poder assim, em formato de conto relativamente rápido de ler, contactar com a escrita de vários. A colecção não se limita no entanto a escritores estabelecidos, incluindo igualmente histórias de outras personalidades do país. Este é o primeiro de vários posts a comentar os vários contos publicados.

O primeiro conto é de Pedro Paixão e foi para mim um mau começo. A Musa Irrequieta é um drama emocional romântico muito exagerado e com demasiado palavreado para a história que conta. Trata da relação entre um professor e uma aluna a que ele se refere como sua musa e por quem fica literalmente perdido de amores. O homem torna-se uma personagem insuportável na forma como se descontrola em relação aos seus sentimentos e de como fica obcecado pela rapariga. O conto acaba por ser uma enumeração dos seus pensamentos sobre ela. O final, apesar de triste e algo cliché, poderia ser a melhor parte, mais realista, mas uma referência à possível relação com factos reais deu-me a sensação de me quererem forçar reacções emocionais. Pode ter sido só impressão, mas piorou a minha opinião final.


Segue-se Cidade Líquida de João Tordo, este sim um conto bem escrito, que rapidamente coloca o leitor numa incerteza absoluta em relação ao que é real ou imaginado. Senti-me a ver a história através de uma mente cujos delírios são como que metáforas para o que lhe acontece e em especial para a separação ou ausência da esposa. Há personagens e situações cuja verdadeira essência (real ou delírio) ainda não consegui destrinçar (e acho que nem quero!). Entretanto o autor estabelece um certo paralelismo com o que ocorre no filme Cidade Líquida do realizador Roque dos Santos, ele próprio personagem, que o narrador vai descrevendo e que aponta para a confusão mental, a variedade de perspectivas sobre uma mesma história e ainda a ideia de esquecimento e  recalcamento. Um conto intrigante que explora a mente humana e que quero sem dúvida reler. Fiquei não só curioso em relação ao outro conto em que estas personagens aparecem mas também com vontade de ler algo mais e noutro formato da sua autoria.

Um Romance é um conto sobre um jantar "romântico" que o narrador observa da mesa ao lado e que serve de esqueleto - ou desculpa - para Rui Zink gozar com uma série de preconceitos e outras tolices da sociedade contemporânea. O narrador fala directamente para o leitor, o que ajuda para este tipo de mensagem e pode até conferir-lhe o pretendido tom humorístico. Infelizmente, a meu ver, o conto não resultou tão bem como poderia. Há uma tentativa de fazer o leitor repensar ideias pré-concebidas, com comentários sobre a inexistência dos telemóveis ou o hábito de ir ao teatro nos anos 80, algo muito engraçado não me parecesse desajustado do público alvo desta colecção (quem é que vai ler isto e não sabe ou pensa neste tipo de coisas?). A crítica, trazida aqui pela exposição do que é esperado do homem e da mulher num encontro e também pela forma como o Artur acaba por resolver a situação, resulta bem neste tipo de história. O conto é prejudicado principalmente pelo exagero de comentários, de piadas, de "bocas", que chegam ao ponto de fazer o leitor sentir que o autor o acha estúpido. Alguma subtileza ou pelo menos contenção no tom e quantidade destes reparos e acusações teria tornado o texto mais engraçado e a leitura agradável e, quiçá, provocado mais eficazmente as mentes a quem se dirigem.

O quarto conto desta colecção é Mania de Luísa Costa Gomes, autora de quem nunca li qualquer trabalho. Não consegui bem perceber o que a autora pretendeu criar com esta história, mas o resultado final foi um conto de mistério, cujo potencial suspense foi destruído pela absoluta confusão criada pela personagem e pela escrita. O enredo decorre de forma pouco linear, desconexa, o que poderia funcionar neste tipo de história, não estivesse aliado a uma personagem com completa dissonância entre o que é, o que diz e o que faz. Sáurio, em quem se centra a história, não sofre tanto de mania (indicada pelo título), como de má conceptualização por parte da autora. Um escritor que decide aproveitar-se de um telefonema enganado para ir ao mundo real procurar matéria prima para a escrita, Sáurio acaba por passar o conto a fazer o que diz não querer fazer, sem que isso faça sentido, que não seja para a progressão do enredo. Tira conclusões sobre as pessoas que mal conhece baseadas em dados nunca disponibilizados para o leitor, tem suspeições e toma decisões pouco ou nada explicadas e ainda consegue intercalar vários momentos com pensamentos sobre a morte, caídos "do céu", sem que nunca tenham conclusão ou ligação ao conto. Estes parecem-me apenas aforismos de suposta profundidade existencial sem ancoragem no enredo. Há no entanto bons exemplos de momentos de descrição, em especial enquanto a personagem caminha ou observa a rua. 
Talvez o objectivo fosse criar páginas de puro nonsense à volta de um escritor que, na senda por inspiração, se coloca numa situação arriscada e à volta da qual, por não a conhecer totalmente, vive de certa forma uma ficção dentro da ficção. Se era essa a intenção, só posso dizer que não resultou.

O pior conto até agora, Um rio chamado Angústia de Eduardo Madeira consiste na exploração da história do rio e dos povos e pessoas que com ele se relacionam, em busca da razão do seu nome. A escrita lembra um guião de stand-up comedy, cheio de nomes de países e pessoas que pretendem ser engraçados e cujas histórias vão sendo enumeradas sem grande sentido. Terminei a leitura sem me rir com o nonsense e sem me interessar pelo Angústia.


Continua num próximo post!

Monday, 17 December 2012

Portugal e a Grécia: dialética da crise e do ajustamento

Desde que se tornou público que Portugal pertencia, tal como a Grécia e a Irlanda, ao conjunto de países em crise das dívidas soberanas, os nossos políticos, comentadores e jornalistas todos passaram a comentar regularmente a comparação entre o nosso caso e o dos gregos. Não vou  falar agora sobre o que levou à crise, de quem ou do quê é a culpa, deixo esse tópico para outra altura. Interessa-me desta vez observar apenas esta comparação que se tornou ubíqua na conversa sobre a crise em Portugal.
Começo pelo princípio, como ditam as regras. Faz sentido ou não fazer a comparação? Parece-me claro que sim. Somos países com problemas diferentes mas comparáveis e sob programas de empréstimo internacional que trazem políticas impostas dentro da mesma linha ideológica, se é que se pode chamar isso à dita "austeridade".
Depois pergunto-me, porque será que se mantém a comparação com a Grécia, e não se faz com a mesma frequência ou profundidade a comparação com a Irlanda, ou com outros países "intervencionados" anteriormente ou até mesmo com países cujas intervenções foram menores, ou diferentes, ou estão pendentes ou consideradas prováveis? Será que é porque a nossa situação é mais semelhante à da Grécia? Não deve ser, se estão constantemente a dizer que estamos longe da Grécia, que somos diferentes da Grécia, que vamos divergir da Grécia, que a Europa nos distingue da Grécia, que os senhores mercados (pois de a chanceler também é senhora, porque não serão os mercados tratados com o mesmo cuidado?) têm mais confiança em nós que na Grécia. E se assim é, não faria todo o sentido falar também do quão diferentes somos da Irlanda, da Islândia, da Espanha, da Itália, do Brasil, da Argentina, do Equador?
Há aqui uma qualquer coisa estranha que não está bem explicada. Afinal será que nós somos mesmo é tão parecidos com a Grécia que não podem deixar de nos comparar com ela? Será que nos estão a mentir? Os políticos, os troikanos, os europeus, os mercados (se bem que nunca ouvi nenhum a falar, mas que se fala deles, isso fala), estarão todos eles a convencer-nos que estamos a fugir da situação dos gregos, quando afinal se estão a agarrar às ligeiras diferenças entre os nossos casos para nos convencer que tudo podia ser pior? Que temos que estar contentes com a forma como o nosso "ajustamento" está a decorrer? Que temos que evitar comparar-nos com a Grécia há anos atrás, para não repararmos que afinal a maior diferença entre nós é os anos que passaram primeiro por eles?
Mas falta ainda abordar a mais importante questão aqui, aquela que motivou a elaboração deste texto. Quem é a Grécia? O que é a Grécia? Como está a Grécia? Como vivem - ou sobrevivem - os gregos? É que de tanto nos compararem com a Grécia, é muito pouca a informação que temos sobre o país e as pessoas que lá estão. Ouvimos falar de algumas manifestações, por vezes "violentas" (tão violentas como as medidas que lhes são impostas?) sabemos, ou achamos que sabemos, que por vezes não cumprem o que lhes é exigido pela troika deles, dizem-nos que eram um país muito corrupto (ainda mais que nós!) e por fim ainda descobrimos que vão ter mais tempo para pagar a dívida a essa mesma troika, mas que isso é muito mau sinal porque os senhores mercados vão ficar chateados com eles muito mais tempo do que connosco. Saber isto, presumindo a veracidade das fontes, o que já é ir longe, está perigosamente próximo de saber nada. Sem comparações profundas, elaboradas, cuidadas, com a complexidade que exige a diferença entre dois países e duas situações como os nossos, a referência constante à Grécia não passa de mais uma forma de fingir que nos dizem muito, sem nos dizer nada, tentando transmitir uma tranquilidade sem raízes no conhecimento da realidade.

A Grécia, hoje em dia em Portugal, não é um país, não é um grupo são pessoas, não é sequer uma fonte de dados ou de aprendizagem. A Grécia é uma cortina de fumo, com que nos cobrem o caminho que percorremos, as opções de desvio e o resultado final. E nós, tal como carros a subir o alto de espinho no IP4, numa noite de inverno por entre chuva e nevoeiro, vamos confiando nas luzes que aparecem à frente e no pouco que vemos das guias brancas na estrada, deixando-nos andar a 50 km/h com deslizes por causa do gelo, à espera de chegar ao topo da montanha em vez do fundo do vale. 

The DAY I swapped my DAD for TWO GOLDFISH by Neil Gaiman and Dave Mckean


The name of this book was enough to convince me to read it. The fact that it was written by Neil Gaiman and illustrated by Dave McKean just raises my expectations through the roof. This is a book that follows a typical family, mom, dad, son and daughter, on the day that the son actually managed to swap his dad for a couple of goldfish. We can't blame him, though, his dad pays attention to one thing only: the newspaper. Why does he need him? At least goldfish are cool to look at. But then mom comes home and makes him give the fish back and retrieve his father. How could he do that? How could he ever even consider trading his own father? And his sister, how could she let him? The world isn't never as simple as that, though. The boy to whom he traded his dad quickly understood how useless he is and has already traded him with another. And this other... and the next... The kids spend their day looking for their father, from house to house. It seems that no one finds a use for such a thing as a newspaper reading dad and there is always someone willing to trade, the ones who don't have that dad do believe he must be good for something. In the end (SPOILERS HERE) they find him on a girl's house who left him in her rabbit's former fence, and he's eating a carrot and reading the newspaper. They bring him home and the boy promises he'll never trade his dad again, he understands his dad's value, he must be a very good dad, in order for his mother to be so mad and for him to have to go through so much trouble to retrieve him, newspaper and all. He never promised not to trade his sister though, and she has been threatening to spread some rumours about him around the school so...

The illustration is, as usual from McKean, perfect. Even the lettering here adds to the feeling. The fact that the mother and father are never really characterized - the father never peeks from behind the newspaper - indicates a generalized interpretation is warranted. This story is about any dad, any mom, any children who feel in some way ignored by their parent and obviously answer in the same way, feeling the uselessness of that person in their house, considering how they would be better of with their neighbour's really cool pet, or toy or whatever. Add those details that determine the flow of the story and have the reader look around, such as "said my sister" written below and outside her speech balloons, and you got yourself a really good, fast paced, but also witty and interesting read.

This must be a really fun story to read as a kid or to a kid, but an adult also has something to think about after reading this. Isn't the boy right? From his point of view, how could he not trade dad for the goldfish? And in the end, even if we tell him how important a parent is, does he really understand? Or does he only get that it is forbidden for some reason. It's hard to make children accept these ideas that we take for granted, such as the importance of parents, when we don't show it on a daily basis in a way that they get to feel it for themselves.

Saturday, 15 December 2012

The Hobbit: An Unexpected Journey by Peter Jackson

Sou fã de Tolkien e da trilogia Lord of The Rings de Peter Jackson. Teria por isso enormes expectativas em relação ao The Hobbit, não fosse por saber já que este filme é somente a primeira parte de mais uma trilogia. Já li o livro há dez anos, mas ainda me lembro o suficiente para saber que não fornece argumento para três filmes de três horas.

The Hobbit: An Unexpected Journey deu-me razão e este tornou-se a minha maior crítica ao filme: a história teve que ser arrastada para durar as três horas e mesmo assim não me parece que tenha sobrado material suficiente para outros dois. The Hobbit podia e devia ter sido planeado para dois filmes, eliminando a necessidade de preencher tempo com cenas, lutas e caminhadas desnecessárias. Tenho que admitir que ver a Nova Zelândia é sempre uma maravilha e que as referências aos filmes anteriores são uma delícia, mas ainda assim, preferia que fosse o enredo deste filme a ser a principal motivação para eu estar colado ao ecrã. Há duas cenas em especial que deveriam ter sido diminuídas ou excluídas, a introdução (por mais engraçado que seja ver o Frodo e fazer a ligação com a outra trilogia) e a luta das "montanhas". Estes humanóides gigantes feitos de rocha a batalhar sabe-se lá porquê resultam bem melhor num livro do que visualmente e geraram uma das situações mais dramáticas e menos credíveis do filme.

Fora este problema e mais alguns pormenores, gostei muito de An Unexpected Journey e vou tentar falar mais dos pontos positivos.
Quanto às personagens, começo por Ian Mckellen. O Gandalf é a alma deste filme, é o que lhe dá sentido e consistência e o actor é absolutamente genial na sua interpretação. Obrigado Ian Mckellen e os meus parabéns. Não quero com isto dizer que os restantes actores não estiveram bem, muito pelo contrário. Martin Freeman foi um bom Bilbo Baggins, muito embora esta primeira parte pudesse ter explorado melhor a sua transformação fruto da luta interior entre o medo e o espírito aventureiro. O Thorin também foi bem interpretado por Richard Armitage e lembrou-me a sensação com que fiquei quando li o livro. O príncipe é um idiota imaturo a maior parte do tempo e precisa que alguém lhe atire com a realidade à cara de forma a perceber que tem que ouvir os outros e pensar um bocado antes de tomar decisões e dar ordens. Este filme não é no entanto o melhor para conhecer esta personagem, dado que a sua evolução é essencialmente depois do momento em que acabou a primeira parte. O resto dos anões são precisamente o que eu estava à espera, uma companhia, um grupo alegre de amigos que se lançam nesta aventura principalmente porque querem seguir Thorin e não tanto por vontade de vingança ou pela necessidade de reconquistar a pátria perdida (embora também sintam isso). São a principal fonte de comic relief do filme e muito eficazes nesse sentido. Claramente estou em discordância com muitos críticos neste ponto, mas eu não senti a necessidade de maior desenvolvimento destas personagens individualmente. Parece-me que até resultam melhor como grupo e penso que tenham sido escritas mesmo com essa intenção, embora haja uma ou outra característica que os distingue (o gordo, o velho, o que tem pontaria com a besta, etc.). Também gostei dos três trolls e do rei gordo dos goblins, embora a cena de luta e fuga das cavernas tenha demorado demais. Não posso igualmente esquecer Radagast o feiticeiro castanho, tão peculiar e engraçado como eu esperava, e também Gollum, mais uma vez interpretado genialmente por Andy Serkis mas agora com uma imagem melhorada.
Foi muito bom ver novamente Cate Blanchett, Hugo Weaving e Christopher Lee - Galadriel, Elrond e Saruman - na reunião do Conselho Branco. No entanto Saruman pareceu-me demasiado presunçoso perante os restantes e a deferência de Gandalf em relação a Galadriel foi exagerada, considerando quem ele é realmente. Se isto é de facto o início do enredo para o segundo ou terceiro filme, então posso dizer que foi bem introduzido.
Ao mais alto nível, tal como as paisagens neozelandesas e o CGI, está a música de Howard Shore, que junto com as imagens da terra média me levou a sentir-me de volta a casa.
Quanto ao enredo propriamente dito, consiste quase directamente no que me lembro do livro, com uma ou outra cena adicionada. De destacar aqui a presença de Azog, adaptada de duas personagens diferentes na história de Tolkien (Azog e o filho), de forma a criar um anátema para concentrar as atenções da audiência e permitir situações de drama e vingança pessoal que de outra forma seriam reservadas apenas para os outros dois filmes. Pareceu-me esta opção um excesso desnecessário, o enredo estava bem para primeiro filme sem este novo inimigo, mantendo apenas os trolls, os wargs, o rei dos goblins das cavernas, Gollum e a referência distante a Smaug e a um mal ainda pior. De resto, a história é desenvolvida lentamente, tal como já expliquei acima, mas ainda assim é consistente e um bom argumento para uma primeira parte de uma trilogia de aventura e fantasia.

Uma triste nota final, mas que não posso deixar de fazer, é que houve um erro sistemático na legendagem em português, trocando Erebor por Eriador. Ora Eriador é o nome de uma enorme região da terra média, que inclui o Shire e territórios envolventes, entre as Montanhas Nebulosas e as Montanhas Azuis e entre o antigo reino de Angmar e Gondor, muito diferente de Erebor, a Montanha Solitária que os anões querem de facto conquistar.

Depois de ter visto e adorado o Lord of the Rings, não posso deixar de compara-lo com The Hobbit: An Unexpected Journey. Isto e o facto de ter gostado muito do livro e por isso não conseguir evitar criar alguma expectativa, levaram a que eu tenha aparentemente muito mais de mau do que de bom a dizer do filme. Por isso tenho que ressalvar, em jeito de conclusão, que este foi um bom filme, que vale muito a pena ver para quem é fã de Tolkien e Peter Jackson e até mesmo, embora nem tanto, para fãs de aventuras e fantasia que não conheçam os livros ou a trilogia de filmes anterior. Os seus pontos fortes são sem dúvida o visual (a caracterização, a filmagem, os efeitos digitais), a música e os actores (tenho que lembrar novamente o Gandalf e o Gollum). Os pontos fracos seriam todos resolvidos com uma só alteração: fazer dois em vez de três filmes.

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I'm a huge fan of Tolkien and of the Lord of the Rings film trilogy by Peter Jackson. I'd have gone to the cinema with great expectations if not for knowing that this was only going to be the first part of another trilogy. I've read the book a decade ago, but I can still tell there's not enough plot to convert it into three films.
This first part, The Hobbit: An Unexpected Journey, proved me right and this is my main criticism to the film - the story is dragged out to last the 3 hours and still probably not leave enough material to give us another two parts. This a story that can and should have been planned for two films. As it is, the viewer has to endure through too many filler scenes. One must admit that New Zealand is insanely beautiful and that references to the Lord of the Rings are a treat, but when we watch a film, we don't want a documentary, we want its own particular plot to be the main interest and drive us through the three hours it lasts. There are two particular scenes that could have been reduced or outright removed from the script. The first one is the introduction: though it's nice to remember Frodo and Bilbo from LotR, I didn't need such a long scene, more so when this is a 3 hour story where that particular part doesn't fit at all. The second is the earth/rock elementals' fight. First of all, it works better written than seen. Then, it's totally unnecessary, hardly believable and overly dramatic compared with the rest of the film. Many other moments could have been shorter and simplified without any loss of plot or character development.

Now to speak more of what I enjoyed, because I must say that in spite of all I've said, An Unexpected Journey is a good film and I really liked watching it.
I must begin with addressing the characters and actors and, before anything else, give all the praise I can to Ian Mckellen. He is the soul of this film, not only because it's his character - Gandalf - that holds the story together, but because he acts as no other on this and most films nowadays. Thank you. Don't get me wrong though, I did like the rest of the cast. Martin Freeman is a good Bilbo, though I'd have liked the first film to focus on his inner struggle a bit more, his fear versus his adventurous spirit playing out and creating the hobbit we see by the end of the film. Thorin was also well interpreted by Richard Armitage, giving precisely the same impression the character had left on me in the book. Thorin is an immature bully most of the time and needs to be smacked on his face with reality before he understands he has to listen to others and think before deciding and ordering everyone around. This first story is not really friendly towards his character because most of his evolution is beyond this part of the plot. The rest of the dwarves are precisely what I expected and I say this in every possible sense. They are mostly seen as a company and a merry group of friends with a common goal that are there more because they want to follow Thorin than any revenge or need to belong to a place (not that they don't feel that too, of course) and provide good comic relief. I know I disagree with most of the critics saying that in three hours we should have had more character development, because I believe that those dwarves were never created as individuals, but as a group where each one is rarely memorable but has one or two different traits (Kili is good with a crossbow, Bombur is fat, Balin is older, etc.).  I also liked the three trolls and the fat goblin king, though the fighting scene in the goblin caves lasted too long. One can't forget Radagast the Brown who was as quirky as I imagined and made me smile often and also Andy Serkis who is as good as always as Gollum, though this time he looks even better.
It was very nice to see Cate Blanchett, Hugo Weaving and Christopher Lee back as Galadriel, Elrond and Saruman, at the White Council meeting. Though I feel Saruman was too smug and Gandalf's deference to Galadriel was a bit too much, considering who he really is. If I'm right and this is the beginning of the plot line for the second or the third films, it was quite well introduced.
Right there with the beautiful landscape and really good CGI we have another marvellous contribution to the film in Howard Shore's score. It was when his music connected with the visual Middle Earth that I really felt I was there and back again.
On the plot itself, this is The Hobbit through and through, with few things added, only one of them really unnecessary, Azog the Defiler. I understand the argument cut in three felt to far from Sauron or Smaug to use them as main antagonist in the first part, but the journey itself, the goblin king and even the - again - amazing Gollum were more than enough. The story is, as I said before, developed slowly, but it's still a fairly good adventure plot for a film that is never supposed to close plot lines.

After having seen and really loving the Lord of the Rings, one can't help but compare The Hobbit: An Unexpected Journey with the previous trilogy. This and the fact that I like the book and can't help but have some expectations about its adaptation, are the reasons for me apparently having a lot more bad than good things to say about it. So don't get me wrong, this is a good film, worth watching for Tolkien and Peter Jackson's fans and even (though not nearly as much) for adventure and fantasy fans new to Middle Earth. Its strong points are undoubtly the visuals, the music and the acting (more praise to Gandalf and Gollum). Its weak points would all be solved with one single decision: making two instead of three films.

Monday, 10 December 2012

The Power of Outrospection by RSA and Roman Krznaric

Roman Krznaric is an author and philosopher who works as a professor and usually speaks on topics such as empathy, the future of work and the art of living. One of his books, The Wonderbox: Curious histories of how to live is already on my wishlist. If you're interested in knowing more about him and what he does do visit www.romankrznaric.com. The video below is a marvellous collaboration between him and RSA Animate. I can't quite stress enough how much of a must see this is, please watch The Power of Outrospection:



I've got nothing else to say.

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Apesar de ter sido coincidência descobrir isto agora, não podia ter melhor mensagem para mostrar e apoiar depois do comentário ao Sobrevida que acabo de publicar aqui.

Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa

Tive o prazer de ver a exposição e estar presente no lançamento de Sobrevida no Mundo Fantasma e conhecer os seus autores. Carlos Pinheiro e Nuno Sousa ainda fizeram o favor de autografar, com direito a desenho personalizado e tudo, a cópia que decidi imediatamente comprar. Agora que li, fico ainda mais contente por ter aproveitado a oportunidade.

Sobrevida é um trabalho a dois com paralelismos a vários níveis entre as visões de cada autor, explorando a área semântica do conceito que lhe dá nome. Temos a primeira e a segunda parte, a noite e o dia, um grupo e um individuo, a acção e a introspecção, duas demonstrações do que pode ser sobreviver, continuar a viver depois da morte de outro ou da morte de parte de nós ou resistir e escapar a situações potencialmente fatais, mas também significar viver pouco, sem qualidade, no limiar, satisfazendo somente as necessidades básicas. Mesmo a palavra sobrevida pode ter aqui uma interpretação dupla, por um lado a ideia de ser um trabalho sobre a vida, por outro referir-se ao conceito médico de sobrevida que corresponde ao tempo de vida após diagnóstico de doença fatal. A capa funde estas duas visões na capa, em que o estilo do Nuno Sousa ilustra uma cena da história de Carlos Pinheiro e avisa o leitor de que, mesmo havendo as duas partes, é no todo que se interpreta esta obra.
A primeira parte da história é "a noite" de Carlos Pinheiro, onde seguimos um grupo de jovens que fingem morrer (ou morrem mesmo de tédio) e depois, libertados por essa transição, pela perda do que os prende à vida - ou será do que os prende na vida? - saem pela cidade onde, sozinhos e sem controlo externo, a exercem a sua liberdade através de atitudes desde a violência à sexualidade. Aqui temos um desenho a preto e branco, com poucas pistas descritivas da acção que decorre, em jeito de diário. A segunda parte é "o dia" de Nuno Sousa, no qual espreitamos a mente de um indivíduo mais velho cuja vida - estilo de vida? qualidade de vida? - foi destruída e avalia o seu quotidiano, quase em discurso directo para o leitor. Aqui o tédio e a desmotivação permeiam toda a história até ao apogeu final. A ilustração é agora a cores, com o texto, seja descrição, seja pensamento do personagem, seja até diálogo entre dois, sempre numa só caixa.
Sobrevida é uma banda-desenhada simples e intimista, que pede algum envolvimento emocional ao leitor e que acabou por me deixar a pensar que sobreviver não tem qualquer interesse, que mais vale viver com tudo o que a vida parece ter para oferecer ou então morrer mesmo, que o intermédio, a espera, a moratória, o limiar, o básico não passa de uma tortura.
Não consigo deixar de relacionar o que senti com esta leitura com o que acontece no mundo hoje em dia. A ideia de austeridade, de sacrificar tudo em nome de um qualquer futuro, de outra geração, de cumprir compromissos de outros não passa de um embuste cujo objectivo é criar um grupo de indivíduos sobreviventes conformados que na verdade nunca vão viver, vão apenas ser escravos entre o tédio e o suplício à espera da sua libertação, nem que seja pela morte.

Se ainda encontrarem cópias à venda folheiem e se, como eu, forem fãs da ilustração e da temática, comprem que não se vão arrepender e vale sempre a pena apoiar estes projectos e seus autores. Para espicaçar a curiosidade, deixo-vos com o texto que serve tanto de blurb como de final da história:

"Dizem que a Sobrevida é a existência - ou coisa parecida - de quem já não vive neste mundo, mas ainda não encontrou o seu rumo. Da vida real apenas conserva a semelhança. Alimenta-se das suas imagens (venera-as, são o seu amuleto), ronda-as em círculos a cada volta mais distantes do centro.
A Sobrevida, diz-se, é uma espécie de revivescência - sensação de vida.
Espíritos, espectros, almas penadas perseguem aquilo que já foram, podiam ter sido ou virão a ser (para sempre, nunca mais).
Diz-se que da Sobrevida apenas podemos conhecer aquilo que se conta. Diz-se muita coisa e tudo é insuficiente (ainda).
De qualquer forma, já cá não está quem falou."

Sunday, 9 December 2012

Nanozine nº 7

Confesso não ser um leitor habitual de revistas, impressas ou electrónicas, mas tive oportunidade de ler algumas recentemente, uma delas a Nanozine nº 6, dedicada ao Steampunk e à venda na EuroSteamCon 2012 - Porto.  Como gostei da experiência decidi, mal soube da disponibilidade do número seguinte, começar a ler de imediato. No entanto esta Nanozine nº 7 fica aquém das expectativas que criei com o número anterior. Desta feita o objectivo editorial temático na escolha dos contos parece ter sido a presença de elementos do horror, o que para mim não seria de todo um problema. Na minha opinião, o que mais prejudica a leitura deste número é a assimetria da qualidade dos contos.
Das várias submissões incluídas, gostei de ler O Solucionador de Telmo Marçal, A Última Viagem do Sud Expresso de Carlos Silva, O Livro das Horas de Célia Loureiro e O Fruto Proibido de Pedro Cipriano. São contos bem escritos, com temas interessantes sem no entanto encher realmente as medidas, seja pela abordagem relativamente simplista dos temas seja pela superficialidade do enredo. Destes destaco O Fruto Proibido, talvez aquele cuja resolução foi mais bem conseguida, com a referência à imagem bíblica da busca pelo conhecimento contra os avisos ou ordens de poderes superiores aplicada a um cenário pós-apocalíptico. Quero também deixar aqui uma nota positiva sobre O Desenho de Rui Tinoco, que me fez mandar uma gargalhada inesperada.
Pela negativa, não posso deixar de me questionar sobre a inclusão do conto Carrosséis de Marcelina Leandro. Não só a temática me parece mal explorada como o texto em si está mal escrito, com frases confusas e ideias misturadas que dificultam a leitura e impedem a imersão na história que, de outra forma, poderia ser de todas a mais aterradora. Já li melhor desta autora, nomeadamente na Lusitânia, já comentada aqui no blog. A leitura de Destilação de Olinda Gil, embora melhor, foi de certa forma banal e inconsequente, sem nenhum detalhe que o salve do esquecimento quase imediato.
Restam O Salteador de Joel Puga e A Sopa de Joel G. Gomes, nem especialmente bons nem maus, trazem ideias que, trabalhadas de outra forma, poderiam tornar-se bastante interessantes.
A revista termina com duas entrevistas, das quais destaco a primeira. Muito embora desconhecesse a autora Carla M. Soares e o seu livro Alma Rebelde se integre numa temática que não me desperta curiosidade, gostei bastante de ler a conversa.

Termino com desejos de que o próximo número volte à qualidade do anterior e me surpreenda com a temática erótica já anunciada.

Friday, 7 December 2012

The Alloy of Law by Brandon Sanderson

I read Brandon Sanderson's Mistborn trilogy last year and it is one of my favourite epic fantasy works. I hope that one day I can actually review those books here, maybe after reading them again, but for now I'll just say that I became a fan of Sanderson's writing, his world building and the way he tackles a lot of interesting and important issues throughout the trilogy's plots. He has said, to my absolute delight, that his intention for that world was to produce three trilogies in different times. Meanwhile, he seems to have decided to give Mistborn fans a dessert with The Alloy of Law.
This book has a short story, a typical gunslinger-western plot with the addition of Mistborn's magic system, happening 300 years after the events of the original trilogy. It follows Waxillium Ladrian, a noble turned lawkeeper, initially in the Roughs (the rural part of that civilization) and then as he comes back to the big city somewhat forced to assume his role as the family's heir. Although there are some references to Wax relearning to live with the aristocracy after spending years away, that's by no means the main focus of the book. There are also some steampunk elements, namely the introduction of guns, cars, trains, lamps in a magical and somewhat unindustrialised world, the emancipation of women, or even the main character with his tendency to individualism - a typical "I'll change the world by myself" kind of mind - and his do-it-yourself science (here in the form of alloying). Despite all this I wouldn't consider The Alloy of Law a steampunk novel. The plot is first and foremost that of a crime thriller and a very good one at that, with a bit of mystery kept until the end. The reference and description of the multiple weapons used adds to the western feel of the book. The characters are very believable, if somewhat predictable, though the plans they concoct aren't as obvious and keep the story quite interesting all the way through. The action is also constantly present, giving the plot a fluid and exciting development.
The fusion of magic and technology was very well done and I actually wish I could read more stories exploring the possibilities Sanderson's allomancy/feruchemy/hemalurgy system allows in multiple contexts (in other words, I can't wait for his urban fantasy and sci-fi story arcs). The way the gun fights are enhanced by the movement the magic allows, the increased bullet power, a kind of kinetic shield, the time warps and the healing ability had really cool consequences. Another marvellous addition is the association with the previous trilogy, mostly through religious (which for those who have read Mistborn is particularly good) and historical references. The characters I knew and liked became legends for this society, used as moral examples but also as everyday expressions, in Scadrial's own versions of "oh my god" or the even the boogieman.
One particular theme I enjoyed seeing explored was the effects of taking ideals as your only compass, here shown by a character who doesn't mind harming or killing innocent people in the name of his own revolution, his war against injustice and exploration. For those who have read the previous trilogy, another thing one must notice is the recurrence of nobility systems. It seems that whatever cataclysm this world goes through, the society ends up organizing itself in a similar manner, despite the consequences such injustices have had before.
The one negative claim I can make is that, probably to try to make the book readable as a stand alone story, there are some moments where the narrator slows the action and dumps some information. But I should add that this is by no means too frequent or considerably damaging to the reading experience.
With The Alloy of Law, Brandon Sanderson offers both a bonus read for Mistborn fans and a genre bending humorous and very refreshing story, probably as a bridge to his second arc in that same world, establishing a new social and technological context and defining a mythology based on the events of the first trilogy. If this is in any way a sample of what's to come, good for us all.

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A versão portuguesa desta opinião foi publicada no Clockwork Portugal.

Thursday, 6 December 2012

Quote / Citação (1)

"The measure of a person is not how much they have lived. It is not how easily they jump at a noise or how quick they are to show emotion. It's in how they make use of what life has shown them."
(Waxillium Ladrian)

Brandon Sanderson, The Alloy of Law (2011)

Wednesday, 5 December 2012

Beyond Good and Evil by Friedrich Nietzsche

Finalmente chega o momento de falar do livro que mais tempo demorei a ler em toda a minha vida, Beyond Good and Evil (BGE) ou, em português, Para Além do Bem e do Mal de Friedrich Nietzsche. Este autor praticamente dispensa apresentações, quase todo o mundo conhece o seu nome e o associa pelo menos a um certo sentimento contra a moralidade judaico-cristã ou à frase "Gott ist tot" - Deus está morto. Tendo eu sido criado por uma família de tradição católica moderada - mas com direito a baptismo, comunhões e crisma - cedo comecei a duvidar de muito do que me era impingido na dita catequese ou na missa e um dos primeiros nomes que me apareceu não sei se nas minhas pesquisas, na TV, ou em conversas, foi precisamente ele. Parece-me importante fazer a ressalva de que esta é uma opinião de um agnóstico educado previamente como católico porque as ideias de Nietzsche são polarizantes em relação a esse assunto. No entanto, não foi em busca de leitura sobre religião que escolhi pegar em BGE, mas porque li em algumas resenhas que era o livro em que estavam presentes quase todas as ideias do filósofo, em especial ao nível da ética, incluindo a sua desconstrução do moralismo. Outra ressalva é admitir a minha parca experiência em literatura filosófica o que limitou claramente o aproveitamento do texto.

BGE foi escrito como um prelúdio da filosofia do futuro dividido em prefácio, partes de 1 a 9 em que e o autor trata temas específicos e epodo. O corpo principal está ainda subdividido em 296 secções cujo tamanho varia de uma frase só ao estilo de aforismo a duas páginas de texto tentando delimitar a discussão de um aspecto específico. Apesar de ser um trabalho filosófico, não se lê como um texto técnico. Nietzsche era um homem culto, inteligente e aparentemente com sentido de humor e gosto pela ironia e isso transparece ao longo de toda a obra, escrita na transição entre a literatura e o discurso formal informativo. Torna-se um monólogo com perguntas retóricas e exclamações que, a ter direito a resposta "em directo", se tornaria numa das conversas mais relevantes da minha vida. Há no entanto que dizer que o estilo cíclico com que tenta transmitir a enorme quantidade de informação em BGE se torna por vezes cansativo ou confuso e exige um leitor pleno, atento e preparado para aproveitar ao máximo a leitura, algo que eu nem sempre pude ser.

A minha versão - colecção Penguin Classics - tem uma introdução de Michael Tanner (autor do livro Nietzsche: A Very Short Introduction) tanto sobre o BGE como sobre o próprio Nietzsche e a sua obra que, em 20 páginas e de forma muito eficaz, fornece contexto a quem como eu nunca tiver lido nada do autor, em especial ao nível de alguns conceitos que ele refere ou discute.
BGE propriamente dito começa pelo prefácio onde Nietzsche torna já bastante claro aquilo que vai defender. Se começa com um estranho "Supposing truth to be a woman", de forma a mostrar como os filósofos dogmáticos são tão maus a explorar a verdade como a tentar conquistar uma mulher, o autor rapidamente começa a explicar o quão limitante têm sido o dogmatismo e a moral judaico-cristã para os pensadores europeus, dizendo ter esperança de que corresponda apenas a uma fase de preparação cujo abandono permitirá o aparecimento de uma filosofia livre e verdadeira. Entretanto faz uma breve referência ao perspectivismo, antes de terminar com a ideia de que ele e outros espíritos livres e bons europeus ainda poderão ter sucesso nesta tarefa de criar ou pertencer à tal nova geração de filósofos.

"... we good Europeans and free, very free spirits - we have it still, the whole need of the spirit and the whole tension of its bow! And perhaps also the arrow, the task and, who knows? the target..."

Começa de seguida o corpo principal do trabalho, pela sua primeira parte denominada On the Prejudices of Philosophers (sobre os preconceitos dos filósofos), onde Nietzsche argumenta ser errado não só dividir o mundo entre verdadeiro e errado como também sequer acreditar na existência de verdades absolutas. Lembrando as consequências dos nossos preconceitos na percepção e no pensamento e negando anteriores noções de separação antitética entre o instinto e o raciocínio, o autor discorre sobre o tema tomando como exemplo vários filósofos anteriores a ele, como os estóicos, Platão, Kant, Descartes, Spinoza ou Schopenhauer. De referir ainda dois exemplos interessantes de situações em que se tem como verdades conclusões de processos enviesados à partida: o primeiro sendo a constituição de fenómenos como causa e efeito, ambos conceitos que são mais necessários à nossa compreensão da realidade do que parte da realidade em si mesma; o segundo o facto do nosso raciocínio poder ser dirigido pelas regras gramaticais da língua que nos permite estruturá-lo. Levando este ponto de vista mais além, Nietzsche ainda questiona a utilidade da verdade ou o valor real da busca pela verdade absoluta.
Segue-se The Free Spirit (o espírito livre) onde o autor prossegue na desconstrução do conceito de verdade e conhecimento, desta feita argumentando que tudo o que é de conhecimento geral foi necessariamente simplificado e portanto alterado a partir da realidade ou dos dados que dela se possam obter, por exemplo pela adequação à linguagem. Um dos exemplos de destacar é a questão do ritmo: diz Nietzsche que é uma das coisas mais difíceis de traduzir e que "It is dificult to be understood, especially when one thinks and lives gangasrotogati among men who think and live otherwise, namely kurmagati or at best as the frog goes, mandeikagati..." (quem pensa depressa - presto como o Ganges - dificilmente é entendido por quem pensa lento, como a tartaruga, ou como o sapo, staccato). De acordo com ele vivemos num mundo fabricado, numa espécie de realidade imaginada delimitada pelos nossos sentidos e a interpretação dos dados que nos chegam à nossa maneira. A ideia de espírito livre aqui refere-se aos novos filósofos que não se deixam limitar pelos preconceitos, pelos dogmas, pela moralidade, pela necessidade de aceitação geral. São estes que, segundo ele e com ele, vão criar uma nova filosofia - sem medo de experimentar, de mudar de ideias, de ser contradito por outros, de serem incompreendidos pela generalidade das pessoas - e assim fazer progredir a humanidade. Ainda nesta parte é introduzido o conceito de Will to Power (vontade de poder), aqui começando pela afirmação de que a única coisa que temos certeza é das vontades e de que são essas mesmas vontades, por vezes até inconscientes, que motivam todo o nosso comportamento. O filósofo considera que a motivação fundamental que dirige o ser humano é a vontade de poder, um conceito que, apesar de me parecer uma generalização exagerada e explicação insuficiente, permite compreender vários comportamentos individuais e sociais e gera uma discussão na qual vale a pena atentar.
Na terceira parte, denominada The Religious Essence (a essência da religião), Nietzsche explica como a o cristianismo, pela sua santificação de sensações ou atitudes à partida negativas, como a castidade, o isolamento, a humildade (no sentido da diminuição da auto-estima), origina uma sociedade em que as pessoas sacrificam as suas vontades, deixam de exercer a sua força, e se constituem numa massa amorfa que tem menos, sabe menos, sofre mais e acha que está a cumprir a sua função existencial. É esta slave morality que Nietzsche critica nos seus contemporâneos, que vivem na mediocridade conformada de aceitar os seus defeitos em vez de os querer combater ou ultrapassar e parecem não ter motivação para a realização pessoal.
De seguida, em Maxims and Interludes (máximas e interlúdios), o autor lista mais de uma centena de aforismos, versando os temas a que o livro alude, de certa forma simplificados, como que para mais fácil recordação e repetição. De notar aqui que aqueles em que se refere às mulheres são geralmente preconceitos absurdos e depreciativos. A título de exemplo, partilho três da minha preferência:
 - ""I have done that," says my memory. "I cannot have done that" - says my pride, and remains adamant. At last - memory yields."
 - "There are no moral phenomena at all, only a moral interpretation of phenomena..."
 - "The thought of suicide is a powerful solace: by means of it one gets through many a bad night."
A quinta parte - On the Natural History of Morals (sobre a história natural da moral) - é uma lição para criar "mentes abertas", em que o autor discorre sobre o desenvolvimento da moralidade essencialmente no sentido de mostrar que conhecendo não só a história da nossa moral como também contrapondo com as outras poderemos ultrapassar os limites que nos impõe. Prossegue com a argumentação de que a moral aceite globalmente (slave morality) produz a tal massa amorfa, uma sociedade-rebanho fraca e paralisada, que santifica todos os pobres e critica todos os fortes, ricos e poderosos. Nietzsche está contra esta generalização de critérios que deveriam ser essencialmente individualizados e nesse sentido chega até considerar a democracia somente mais uma forma de nos obrigar a sermos todos iguais. A will to power reaparece aqui na discussão do que afinal é bom ou mau. Um bom exemplo seria o conceito de altruísmo, que o autor considera ser uma forma velada de satisfazer a vontade de um indivíduo de se sentir bem consigo mesmo e vir a poder beneficiar de retorno do outro. Não estará o altruísta simplesmente a colocar-se na situação de superioridade - de poder - em que ele determina o que faz pelo outro e reserva a dívida para quando e como precisar?
De seguida, em We Scholars (nós académicos), o autor argumenta que a importância e progresso da ciência e a procura da objectividade estão a influenciar os filósofos do seu tempo, limitando a sua criatividade. Para Nietzsche, o cepticismo é ambivalente, na medida em que a dúvida pode levar o filósofo a rejeitar certas questões ou formas de alcançar novas respostas mas por outro lado pode também combater o dogmatismo, quebrar preconceitos e permitir novas perspectivas.
A sétima parte trata de Our Virtues (as nossas virtudes) e o autor volta ao perspectivismo e à critica que fez à moralidade e à generalização de critérios, desta feita aplicados ao que se consideram boas e más características ou atitudes de cada pessoa. É aqui que Nietzsche revela a sua divisão da humanidade em estratos, em que há indivíduos cujos espíritos são simplesmente elevados em relação a outros, algo que me parece - proposto como se fosse algo pré-definido ou imutável - completamente errado. Ainda neste capítulo, o filósofo admite que há em cada indivíduo um conjunto de crenças e opiniões que são básicas, quase inalteráveis, mas que nem por isso menos limitantes. Quanto às suas, ele dá o exemplo da sua visão das mulheres como superficiais, mesquinhas e intelectualmente inferiores aos homens. Ainda que admita a sua própria estupidez, isso não o desculpa por explanar todos os argumentos enviesados com que sustenta tal opinião e critica o feminismo. Revela-se aqui a minha maior crítica a Nietzsche, a sua tendência a ver as pessoas como puros estereótipos, sejam as mulheres, sejam os cristãos ou os judeus, sejam os alemães ou os ingleses.
Peoples and Fatherlands (povos e pátrias) é a parte designada à discussão desse estereótipo aplicado a todo o povo de cada país, mas também à critica do nacionalismo. Aliás, Nietzsche admite que algum sentimento nacionalista é comum e que ele próprio poderá senti-lo, mas que não deixa de ser uma visão limitada das coisas. É interessante ver como ele desenvolve, aqui por outra perspectiva, a sua ideia de uma Europa conjunta, mostrando-se por um lado fã da variedade como no caso da origem dos alemães - cuja vantagem é precisamente serem uma amalgama de vários povos, uma ideia que a dialéctica nazi inverteu - mas por outro sendo antagónico das ideias de democracia que lhe parecem ser mais indutoras de um rebanho de pessoas iguais do que facilitador do seu desenvolvimento como indivíduos. Pergunto-me se Nietzsche não confundiria a democracia com as ideias socialistas/comunistas, essas sim habitualmente mais merecedoras desse receio. Das suas ideias sobre os vários povos europeus, com as quais discordo na generalidade por serem simples preconceitos, ficou-me a sensação de que o filósofo não vê pessoas com a clareza e definição que vê as ideias e tende por isso a pensar cada povo como se fosse uma imitação barata de uma pintura impressionista de um qualquer campo de feno. Uma outra ideia a destacar aqui é a sua opinião sobre os judeus, dado tanto ser dito da associação dele com os ideais do regime nazi, havendo dois pontos em que facilmente se demonstra que são, neste caso, diametralmente opostos. Primeiro, Nietzsche é da opinião de que os judeus não querem conquistar a Europa, mas na verdade simplesmente integrar-se e poder "pertencer" a essa sociedade. Depois, o filósofo considera que os povos europeus só têm a ganhar com a inclusão dos judeus, povo que, apesar da sua moralidade anteriormente criticada, já muito havia trazido e criado na Europa, acusando os alemães anti-semitas de cobardia e inveja.
A última parte é denominada What is Noble? (o que é nobre?) e nela volta-se a aplicar o perspectivismo às motivações por detrás de certos actos de forma a desmistificar a ideia de boa pessoa. Por outro lado culmina aqui a explicação de Nietzsche da ideia de elite, algo que por melhor argumentado que tenha sido nunca me consegue convencer. Para ele a sociedade europeia, na sua variedade, serviria para gerar essa elite, uma aristocracia de espírito e mente superiores, que deveria liderar sem oposição os destinos de todos. Não nego que em cada momento da história há indivíduos com melhor capacidade para tomar certo tipo de decisões ou cujos ideais me parecem mais indicados como orientação para o povo europeu. O que recuso é a presunção que certos sábios podem ser deixados, na sua superioridade, a liderar toda uma sociedade sem que os restantes elementos tenham algo a dizer. Recuso ainda que devam ou possam ser solitários, isolados da massa amorfa que os rodeia, ou que se tornem superiores por alguma tendência ancestral. Parece-me melhor, mais próximo do ideal, que as direcções sejam constantemente discutidas, votadas, decididas por todos os indivíduos da sociedade, ainda que com o parecer ou as propostas daqueles que, em cada momento, estejam melhor preparados para as produzir. E nesse sentido, será sempre importante que esta preparação lhes seja reconhecida, não por eles próprios, mas pela restante população. Admito no entanto que uma grande parte da população, mesmo hoje em dia, não seja minimamente capaz de uma avaliação correcta dos problemas que enfrenta, quanto mais de tomar decisões ou votar de forma informada nas resoluções propostas.

Nietzsche escolheu terminar BGE com uma ode em quinze estrofes na qual complementa a mensagem do prefácio. Em tom de despedida, tanto dos velhos amigos como de si próprio, parece querer dar a entender que depois de tudo o que explorou no livro, das ideias que abandonou, das conclusões que tirou, é agora um ser humano diferente que vive como os outros não sabem viver, como um caçador solitário num deserto, recuperando aqui a metáfora da seta e fazendo até referência à procura por novas amizades e àquela que tem agora, com Zarathustra. Na edição que li o tradutor optou por fazer a passagem para o inglês sob forma de prosa poética com um parágrafo correspondente a cada estrofe, o que me pareceu uma boa escolha, dado que numa tradução para poesia, na tentativa de obedecer ao estilo e às regras, poderiam perder-se mais pormenores ao nível do sentido do texto e dos subterfúgios da linguagem.

Nietzsche foi um importante pensador do séc. XIX, com ideias revolucionárias na filosofia, ética, psicologia, sociologia, para além de se dedicar à poesia, composição musical e crítica de arte. No entanto não é só pelo interesse histórico do autor que recomendo a leitura deste livro mas porque muitas das ideias exploradas parecem ainda não ter tido o impacto necessário na sociedade. Uma grande parte de nós, talvez por insuficiência dos sistemas educativos, talvez por falta de interesse, ainda vivemos ancorados ao mesmo moralismo que Nietzsche identificou como prisão para o nosso progresso, ainda continuamos a discutir verdades ou factos ignorando as lições do perspectivismo, ainda sucumbimos ao nacionalismo, ao racismo e erros afins. Eu discordo do autor em muitos pontos, em especial na misoginia (que o próprio reconhece) e na defesa do conceito de elite superior (próximo por vezes da eugenia), mas não posso deixar de imagina-lo a viver hoje em dia, a escrever muito do que escreveu há mais de cem anos, a continuar a ter razão e a ficar desiludido com a falta de progresso dos costumes e ideias da humanidade como um todo.

De resto, e para quem ainda não leu Nietzsche, deixo duas recomendações. Em primeiro lugar, esqueçam os comentários que associam o filósofo aos nazis. Os seus trabalhos foram alterados de forma a serem utilizados na propaganda e as versões que Hitler leu e segundo se relata adorou foram aparentemente editadas pela irmã do autor de forma a aproxima-lo do anti-semitismo, eliminando muitas das suas opiniões. As versões publicadas hoje em dia diferem dessas e devemos aborda-las livres desse preconceito até porque, como demonstrei acima, as suas ideias são por vezes opostas às dos nazis. Por fim, lembrem-se que, como perspectivista que era, Nietzsche não escrevia para ser levado à letra, para dogmáticos, crentes na sua opinião. A enumeração de aforismos e as argumentações acutilantes servem mais o propósito de espicaçar a mente do leitor e de apontar uma linha de pensamento crítico e atento a todos os seus limites do que a formular verdades. Aliás, como eu disse acima, o próprio começa por questionar o valor da busca pela verdade. Nesse sentido torna-se interessante voltar atrás e ver como o próprio Nietzsche - obedecendo à sua ideia de que os filósofos gostam de esconder as suas verdades fundamentais - acaba por brincar com as próprias opiniões, contradizendo-se várias vezes ao longo de BGE sendo o exemplo perfeito o caso do preconceito que ele inicialmente critica, mas noutro momento usa claramente quando se refere às mulheres ou aos povos europeus. No fundo, ficamos sempre sem saber quanto do que estamos a ler é realmente correspondente ao que o autor acredita e quanto é simplesmente um meio para ele passar uma mensagem ou nos fazer repensar certas questões.

Lido que está Beyond Good and Evil e ainda quanto a Nietzsche, pondero agora se prefiro experimentar um livro de estilo mais literário, como o Thus Spoke Zarathustra ou prosseguir para outro trabalho de extrema importância, supostamente autobiográfico e em tom de retrospectiva da sua obra, o Ecce Homo. De resto, quero continuar a embrenhar-me na filosofia, sem pressas ou objectivos definidos excepto o de ir aprendendo cada vez mais. Só assim, a pensar, a pensar sobre pensar e a pensar sobre nós é que nós humanos podemos aproveitar o nosso potencial e sentir que a nossa existência valeu a pena, seja para a realização pessoal seja para a globalidade.

Sunday, 2 December 2012

Z by Manuel Alves

Z é um conto de Manuel Alves, de quem já tinha lido o Coração Atómico incluído no Almanaque Steampunk 2012, de forma que parti para a sua leitura com alguma expectativa. 
A história aborda a inteligência artificial e os terrores que a busca pelo conhecimento científico podem trazer quando o investigador ignora as considerações éticas. Está muito bem escrito, começando por uma conversa inteligente que deixa o leitor imediatamente curioso, depois deixando o enrado revelar-se lentamente e acabando sem um final determinado. A alteração de ponto de vista num capítulo retrospectivo em que se associa a uma alteração da descrição das personagens (p.e. o "professor" passa a ser a máquina branca com garras) é um pormenor delicioso que me fez sorrir de satisfação.
Desconheço se é intenção do autor, mas esta ideia parece-me um esboço interessante para um romance que eu decerto compraria.


Disponível gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/255680

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Z is a short story about artificial intelligence and the terrors that come when the search for scientific knowledge has the investigator ignore all the ethical limitations. It's very well written, starting with a smart conversation to pique the readers interest, then slowly unfolding the plot and ending with no clear resolution. The shift in point of view allied with a change in the description of the characters (for example, the professor and his hands turn to the white monster and his claws) is really well done and actually made me smile. Though it might not be the author's intention, this does seem like a good idea for a full length novel, one that, having read this, I'd surely buy.

Available for free at https://www.smashwords.com/books/view/256358

Sucker Punch by Zack Snyder

Ontem forcei-me a rever este filme, no fundo a dar-lhe uma segunda oportunidade dado que a primeira vez que o vi mal consegui prestar atenção. Detestei. O que Sucker Punch me fez pensar foi, no fundo, de um projecto escolar ou académico, provavelmente com o objectivo de testar meia dúzia de efeitos especiais e de técnicas de realização. Como é que isto acabou no cinema, não entendo.
O filme baseia-se na ideia de uma rapariga que, numa situação terrível, deixa a sua mente escapar para um mundo interior, imaginado ou sonhado, que acaba de servir não só para sublimar as suas emoções mas também como metáfora para a sua tentativa de escapar. É este mundo imaginado que permite a exploração dos tais efeitos especiais. Este conceito, que poderia tornar-se muito interessante, resultou num filme absolutamente desinteressante que não faz qualquer sentido, com personagens ridículas e uma realização muito forçada, para não falar do exagero de CGI. Nem as referências aos desenhos animados ou jogos de computador servem para redimir o enredo e parecem igualmente forçadas. No meio de tudo isto, ainda se conseguiu encaixar uma típica guerra de meninas pelo papel de liderança como se estivéssemos a ver um filme de adolescentes no liceu antes do baile de finalistas. A revelação final podia ter sido uma boa surpresa, se o enredo me conseguisse manter interessado até esse momento.
O único pormenor de que gostei em Sucker Punch foi a progressão do contexto da terra imaginada: de cada vez que lá voltamos as raparigas são colocadas em momentos cada vez mais tardios da história da humanidade, lutando contra desde samurais até soldados das grandes guerras e finalmente robôs.
Assim, Sucker Punch é um filme francamente mau, sem credibilidade, ao ponto de se tornar irritante mesmo como barulho de fundo na sala de estar e uma má exploração de problemas sérios como a exploração sexual e o tráfico de mulheres.

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I have just forced myself to re-watch this film and I hate it. It reminds me of some kind of school project gone bad. There's a nice idea, of a girl whose mind escapes into a dreamland where she sublimates all her energy against what's happening and serves as a metaphor for her escape plan. There's also a lot of room for special effects and CGI work. What might have been interesting concepts or good opportunities ended up generating a completely uninteresting film, with a nonsensical plot, ridiculous characters and overdone direction and computer special effects. All those cartoon and computer games' references are forced and mostly uncalled for. In the middle of this, there's also time for the typical girl fight for the leadership role as if it's a high school flick. The final twist might have been a nice surprise if only the plot was believable enough to keep me interested until then.
The one good thing about the film is the progression of the context of her dreamland: every time she goes back the seems to be at a different time in history, from samurai to world war to robots.
Sucker Punch is terrible, unbelievable, annoying even as background TV noise while you work, and a really bad take on a serious problem of women enslavement and sexual abuse.

Saturday, 1 December 2012

Cloud Atlas by Tom Twyker, Andy Wachowski and Lana Wachowski

O Cloud Atlas é difícil de comentar sem revelar demasiado e estragar a experiência de quem ainda não viu, pelo que me vou conter o mais possível. Sim, admito que isto é também uma boa desculpa para o facto de me ser impossível fazer um comentário que lhe faça realmente justiça. O filme segue meia dúzia de personagens em várias alturas da história da humanidade, explorando as ligações entre eles através daquilo que lhes acontece ou da forma como eles reagem às situações. É um trabalho fenomenal, com um argumento perfeito, uma realização impecável e actores que estão ao melhor nível das suas carreiras. É de uma beleza visual surpreendente mas não se fica por aí, tendo-me deixado a pensar e questionar uma variedade de coisas que nem consigo enumerar, desde moralidade, medo, coragem ou covardia, sacrifício, até destino, recorrência de situações na história, ou a tendência da humanidade para a distopia ou a destruição. Este é um filme que merece ser visto e revisto. Mas Cloud Atlas não é, no entanto, somente um trabalho filosófico, tendo momentos de acção, suspense, violência, comédia, romance e drama. Quanto aos actores, não consigo escolher a melhor performance. Se os meus favoritos foram variando, desde Jim Broadbent como Timothy Cavendish, Ben Whishaw como Robert Frobisher ou Doona Bae como Sonmi-451, não posso esquecer Hugo Weaving (em especial a enfermeira Noakes), Jim Sturgess, James D'Arcy (o Archivist), Susan Sarandon, Hugh Grant, Halle Berry (Luisa Rey, Meronym) e até mesmo Tom Hanks como Zachry (embora como de costume ele dê às personagens menos personalidade e energia do que elas me parecem pedir). Quero igualmente destacar a maravilhosa música de Cloud Atlas, que, para além de valer a pena ouvir por si só, contribui para a ideia de ligação transcendental que permeia o filme.
De todas as ideias na minha cabeça - sinceramente ainda "nas nuvens" - quero destacar duas. Primeiro a ideia de recorrência eterna (que estou a roubar deliberadamente do Nietzsche) que no filme se pode interpretar tanto como associada ao destino transcendente do mundo ou da humanidade que nos obriga a passar por certo tipo de situações várias vezes, ou por outro lado vê-la como resultado de nunca aprendermos o suficiente com a nossa própria história ou de termos alguma tendência como espécie para criarmos essas situações. Depois, quanto a uma outra ideia, o conceito de motivação e vontade, o filme acabou por reforçar a minha opinião de que os seres humanos querem, no fundo e acima de tudo, mais. No entanto, se é fácil notar esta "vontade de mais" (sim, estou a adaptar do will to power do Nietzsche) na sociedade consumista contemporânea ou até mesmo na altura das grandes guerras, torna-se muito mais dificil de argumentar quando se consideram as atitudes de cada indivíduo.
A minha única crítica negativa ao Cloud Atlas refere-se ao progresso lento do enredo até cerca de metade do filme, embora admita que não vejo melhor forma de contar aquela história. Se ainda não o viram, vão ao cinema assim que seja possível e aproveitem!

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Cloud Atlas is the kind of film you can't really review in detail for fear of spoiling other people's first experience. It follows various characters in different times and explores the connections between them through similarities both in what happens to them and in how they react to events. It's a powerful work, where the argument has been perfectly built, the direction is impeccable and the actors are with no exception at their best performances ever. It's both beautiful for the eye and for the mind, providing more food for thought than I've been able to digest until now. Touching concepts from morality, general belief, fear, courage and cowardice, self-sacrifice, up to things like destiny, recurrence and humanity's tendency for distopia or destruction, this is a film that deserves to be re-watched. This isn't, however, a purely philosophical work, and I must remark that there are moments of action, suspense, violence, comedy, romance and drama. About the actors, it's hard to pick a favourite, a best performance. At times it was Jim Broadbent as Timothy Cavendish, others Ben Whishaw as Robert Frobisher, and, of course, Doona Bae as Sonmi-451. But can we forget Hugo Weaving (Nurse Noakes - yes! - and others), Jim Sturgess (lots of them), James D'Arcy (Archivist), Susan Sarandon, Hugh Grant, Halle Berry (Luisa Rey, Meronym), or even Tom Hanks' Zachry (though, as usual, he gives the characters less energy and personality than they apparently deserve)? Another thing of note is the soundtrack, it's amazing and really adds to that idea of transcendental connection.
Of all the things flying inside my "clouded" mind at the moment, I wish to emphasize the idea of eternal recurrence and humans and humanity's true will. The eternal recurrence as seen here can be interpreted both as a transcendental destiny, meaning we are bound to live through and create certain situations, even if then we can act differently on them, but also as a kind of history repeats itself concept, blaming humanity for not learning with past mistakes or considering humans have certain characteristics that eventually lead us into doing those same mistakes over and over again. On the matter of motive and will, the story reinforced my opinion that, bottom line, humans are mostly and essentially driven by a "will to more", be it possessions, power, knowledge or feeling, something easily spotted on contemporary consumer society or even when looking back at the time of the world wars, but harder to argument when observing some individual actions.
My only possible negative criticism to Cloud Atlas is the slow development of the overall story up to half it's length. If you haven't yet, go to the cinema and enjoy!