Saturday, 15 December 2012

The Hobbit: An Unexpected Journey by Peter Jackson

Sou fã de Tolkien e da trilogia Lord of The Rings de Peter Jackson. Teria por isso enormes expectativas em relação ao The Hobbit, não fosse por saber já que este filme é somente a primeira parte de mais uma trilogia. Já li o livro há dez anos, mas ainda me lembro o suficiente para saber que não fornece argumento para três filmes de três horas.

The Hobbit: An Unexpected Journey deu-me razão e este tornou-se a minha maior crítica ao filme: a história teve que ser arrastada para durar as três horas e mesmo assim não me parece que tenha sobrado material suficiente para outros dois. The Hobbit podia e devia ter sido planeado para dois filmes, eliminando a necessidade de preencher tempo com cenas, lutas e caminhadas desnecessárias. Tenho que admitir que ver a Nova Zelândia é sempre uma maravilha e que as referências aos filmes anteriores são uma delícia, mas ainda assim, preferia que fosse o enredo deste filme a ser a principal motivação para eu estar colado ao ecrã. Há duas cenas em especial que deveriam ter sido diminuídas ou excluídas, a introdução (por mais engraçado que seja ver o Frodo e fazer a ligação com a outra trilogia) e a luta das "montanhas". Estes humanóides gigantes feitos de rocha a batalhar sabe-se lá porquê resultam bem melhor num livro do que visualmente e geraram uma das situações mais dramáticas e menos credíveis do filme.

Fora este problema e mais alguns pormenores, gostei muito de An Unexpected Journey e vou tentar falar mais dos pontos positivos.
Quanto às personagens, começo por Ian Mckellen. O Gandalf é a alma deste filme, é o que lhe dá sentido e consistência e o actor é absolutamente genial na sua interpretação. Obrigado Ian Mckellen e os meus parabéns. Não quero com isto dizer que os restantes actores não estiveram bem, muito pelo contrário. Martin Freeman foi um bom Bilbo Baggins, muito embora esta primeira parte pudesse ter explorado melhor a sua transformação fruto da luta interior entre o medo e o espírito aventureiro. O Thorin também foi bem interpretado por Richard Armitage e lembrou-me a sensação com que fiquei quando li o livro. O príncipe é um idiota imaturo a maior parte do tempo e precisa que alguém lhe atire com a realidade à cara de forma a perceber que tem que ouvir os outros e pensar um bocado antes de tomar decisões e dar ordens. Este filme não é no entanto o melhor para conhecer esta personagem, dado que a sua evolução é essencialmente depois do momento em que acabou a primeira parte. O resto dos anões são precisamente o que eu estava à espera, uma companhia, um grupo alegre de amigos que se lançam nesta aventura principalmente porque querem seguir Thorin e não tanto por vontade de vingança ou pela necessidade de reconquistar a pátria perdida (embora também sintam isso). São a principal fonte de comic relief do filme e muito eficazes nesse sentido. Claramente estou em discordância com muitos críticos neste ponto, mas eu não senti a necessidade de maior desenvolvimento destas personagens individualmente. Parece-me que até resultam melhor como grupo e penso que tenham sido escritas mesmo com essa intenção, embora haja uma ou outra característica que os distingue (o gordo, o velho, o que tem pontaria com a besta, etc.). Também gostei dos três trolls e do rei gordo dos goblins, embora a cena de luta e fuga das cavernas tenha demorado demais. Não posso igualmente esquecer Radagast o feiticeiro castanho, tão peculiar e engraçado como eu esperava, e também Gollum, mais uma vez interpretado genialmente por Andy Serkis mas agora com uma imagem melhorada.
Foi muito bom ver novamente Cate Blanchett, Hugo Weaving e Christopher Lee - Galadriel, Elrond e Saruman - na reunião do Conselho Branco. No entanto Saruman pareceu-me demasiado presunçoso perante os restantes e a deferência de Gandalf em relação a Galadriel foi exagerada, considerando quem ele é realmente. Se isto é de facto o início do enredo para o segundo ou terceiro filme, então posso dizer que foi bem introduzido.
Ao mais alto nível, tal como as paisagens neozelandesas e o CGI, está a música de Howard Shore, que junto com as imagens da terra média me levou a sentir-me de volta a casa.
Quanto ao enredo propriamente dito, consiste quase directamente no que me lembro do livro, com uma ou outra cena adicionada. De destacar aqui a presença de Azog, adaptada de duas personagens diferentes na história de Tolkien (Azog e o filho), de forma a criar um anátema para concentrar as atenções da audiência e permitir situações de drama e vingança pessoal que de outra forma seriam reservadas apenas para os outros dois filmes. Pareceu-me esta opção um excesso desnecessário, o enredo estava bem para primeiro filme sem este novo inimigo, mantendo apenas os trolls, os wargs, o rei dos goblins das cavernas, Gollum e a referência distante a Smaug e a um mal ainda pior. De resto, a história é desenvolvida lentamente, tal como já expliquei acima, mas ainda assim é consistente e um bom argumento para uma primeira parte de uma trilogia de aventura e fantasia.

Uma triste nota final, mas que não posso deixar de fazer, é que houve um erro sistemático na legendagem em português, trocando Erebor por Eriador. Ora Eriador é o nome de uma enorme região da terra média, que inclui o Shire e territórios envolventes, entre as Montanhas Nebulosas e as Montanhas Azuis e entre o antigo reino de Angmar e Gondor, muito diferente de Erebor, a Montanha Solitária que os anões querem de facto conquistar.

Depois de ter visto e adorado o Lord of the Rings, não posso deixar de compara-lo com The Hobbit: An Unexpected Journey. Isto e o facto de ter gostado muito do livro e por isso não conseguir evitar criar alguma expectativa, levaram a que eu tenha aparentemente muito mais de mau do que de bom a dizer do filme. Por isso tenho que ressalvar, em jeito de conclusão, que este foi um bom filme, que vale muito a pena ver para quem é fã de Tolkien e Peter Jackson e até mesmo, embora nem tanto, para fãs de aventuras e fantasia que não conheçam os livros ou a trilogia de filmes anterior. Os seus pontos fortes são sem dúvida o visual (a caracterização, a filmagem, os efeitos digitais), a música e os actores (tenho que lembrar novamente o Gandalf e o Gollum). Os pontos fracos seriam todos resolvidos com uma só alteração: fazer dois em vez de três filmes.

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I'm a huge fan of Tolkien and of the Lord of the Rings film trilogy by Peter Jackson. I'd have gone to the cinema with great expectations if not for knowing that this was only going to be the first part of another trilogy. I've read the book a decade ago, but I can still tell there's not enough plot to convert it into three films.
This first part, The Hobbit: An Unexpected Journey, proved me right and this is my main criticism to the film - the story is dragged out to last the 3 hours and still probably not leave enough material to give us another two parts. This a story that can and should have been planned for two films. As it is, the viewer has to endure through too many filler scenes. One must admit that New Zealand is insanely beautiful and that references to the Lord of the Rings are a treat, but when we watch a film, we don't want a documentary, we want its own particular plot to be the main interest and drive us through the three hours it lasts. There are two particular scenes that could have been reduced or outright removed from the script. The first one is the introduction: though it's nice to remember Frodo and Bilbo from LotR, I didn't need such a long scene, more so when this is a 3 hour story where that particular part doesn't fit at all. The second is the earth/rock elementals' fight. First of all, it works better written than seen. Then, it's totally unnecessary, hardly believable and overly dramatic compared with the rest of the film. Many other moments could have been shorter and simplified without any loss of plot or character development.

Now to speak more of what I enjoyed, because I must say that in spite of all I've said, An Unexpected Journey is a good film and I really liked watching it.
I must begin with addressing the characters and actors and, before anything else, give all the praise I can to Ian Mckellen. He is the soul of this film, not only because it's his character - Gandalf - that holds the story together, but because he acts as no other on this and most films nowadays. Thank you. Don't get me wrong though, I did like the rest of the cast. Martin Freeman is a good Bilbo, though I'd have liked the first film to focus on his inner struggle a bit more, his fear versus his adventurous spirit playing out and creating the hobbit we see by the end of the film. Thorin was also well interpreted by Richard Armitage, giving precisely the same impression the character had left on me in the book. Thorin is an immature bully most of the time and needs to be smacked on his face with reality before he understands he has to listen to others and think before deciding and ordering everyone around. This first story is not really friendly towards his character because most of his evolution is beyond this part of the plot. The rest of the dwarves are precisely what I expected and I say this in every possible sense. They are mostly seen as a company and a merry group of friends with a common goal that are there more because they want to follow Thorin than any revenge or need to belong to a place (not that they don't feel that too, of course) and provide good comic relief. I know I disagree with most of the critics saying that in three hours we should have had more character development, because I believe that those dwarves were never created as individuals, but as a group where each one is rarely memorable but has one or two different traits (Kili is good with a crossbow, Bombur is fat, Balin is older, etc.).  I also liked the three trolls and the fat goblin king, though the fighting scene in the goblin caves lasted too long. One can't forget Radagast the Brown who was as quirky as I imagined and made me smile often and also Andy Serkis who is as good as always as Gollum, though this time he looks even better.
It was very nice to see Cate Blanchett, Hugo Weaving and Christopher Lee back as Galadriel, Elrond and Saruman, at the White Council meeting. Though I feel Saruman was too smug and Gandalf's deference to Galadriel was a bit too much, considering who he really is. If I'm right and this is the beginning of the plot line for the second or the third films, it was quite well introduced.
Right there with the beautiful landscape and really good CGI we have another marvellous contribution to the film in Howard Shore's score. It was when his music connected with the visual Middle Earth that I really felt I was there and back again.
On the plot itself, this is The Hobbit through and through, with few things added, only one of them really unnecessary, Azog the Defiler. I understand the argument cut in three felt to far from Sauron or Smaug to use them as main antagonist in the first part, but the journey itself, the goblin king and even the - again - amazing Gollum were more than enough. The story is, as I said before, developed slowly, but it's still a fairly good adventure plot for a film that is never supposed to close plot lines.

After having seen and really loving the Lord of the Rings, one can't help but compare The Hobbit: An Unexpected Journey with the previous trilogy. This and the fact that I like the book and can't help but have some expectations about its adaptation, are the reasons for me apparently having a lot more bad than good things to say about it. So don't get me wrong, this is a good film, worth watching for Tolkien and Peter Jackson's fans and even (though not nearly as much) for adventure and fantasy fans new to Middle Earth. Its strong points are undoubtly the visuals, the music and the acting (more praise to Gandalf and Gollum). Its weak points would all be solved with one single decision: making two instead of three films.

Monday, 10 December 2012

The Power of Outrospection by RSA and Roman Krznaric

Roman Krznaric is an author and philosopher who works as a professor and usually speaks on topics such as empathy, the future of work and the art of living. One of his books, The Wonderbox: Curious histories of how to live is already on my wishlist. If you're interested in knowing more about him and what he does do visit www.romankrznaric.com. The video below is a marvellous collaboration between him and RSA Animate. I can't quite stress enough how much of a must see this is, please watch The Power of Outrospection:



I've got nothing else to say.

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Apesar de ter sido coincidência descobrir isto agora, não podia ter melhor mensagem para mostrar e apoiar depois do comentário ao Sobrevida que acabo de publicar aqui.

Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa

Tive o prazer de ver a exposição e estar presente no lançamento de Sobrevida no Mundo Fantasma e conhecer os seus autores. Carlos Pinheiro e Nuno Sousa ainda fizeram o favor de autografar, com direito a desenho personalizado e tudo, a cópia que decidi imediatamente comprar. Agora que li, fico ainda mais contente por ter aproveitado a oportunidade.

Sobrevida é um trabalho a dois com paralelismos a vários níveis entre as visões de cada autor, explorando a área semântica do conceito que lhe dá nome. Temos a primeira e a segunda parte, a noite e o dia, um grupo e um individuo, a acção e a introspecção, duas demonstrações do que pode ser sobreviver, continuar a viver depois da morte de outro ou da morte de parte de nós ou resistir e escapar a situações potencialmente fatais, mas também significar viver pouco, sem qualidade, no limiar, satisfazendo somente as necessidades básicas. Mesmo a palavra sobrevida pode ter aqui uma interpretação dupla, por um lado a ideia de ser um trabalho sobre a vida, por outro referir-se ao conceito médico de sobrevida que corresponde ao tempo de vida após diagnóstico de doença fatal. A capa funde estas duas visões na capa, em que o estilo do Nuno Sousa ilustra uma cena da história de Carlos Pinheiro e avisa o leitor de que, mesmo havendo as duas partes, é no todo que se interpreta esta obra.
A primeira parte da história é "a noite" de Carlos Pinheiro, onde seguimos um grupo de jovens que fingem morrer (ou morrem mesmo de tédio) e depois, libertados por essa transição, pela perda do que os prende à vida - ou será do que os prende na vida? - saem pela cidade onde, sozinhos e sem controlo externo, a exercem a sua liberdade através de atitudes desde a violência à sexualidade. Aqui temos um desenho a preto e branco, com poucas pistas descritivas da acção que decorre, em jeito de diário. A segunda parte é "o dia" de Nuno Sousa, no qual espreitamos a mente de um indivíduo mais velho cuja vida - estilo de vida? qualidade de vida? - foi destruída e avalia o seu quotidiano, quase em discurso directo para o leitor. Aqui o tédio e a desmotivação permeiam toda a história até ao apogeu final. A ilustração é agora a cores, com o texto, seja descrição, seja pensamento do personagem, seja até diálogo entre dois, sempre numa só caixa.
Sobrevida é uma banda-desenhada simples e intimista, que pede algum envolvimento emocional ao leitor e que acabou por me deixar a pensar que sobreviver não tem qualquer interesse, que mais vale viver com tudo o que a vida parece ter para oferecer ou então morrer mesmo, que o intermédio, a espera, a moratória, o limiar, o básico não passa de uma tortura.
Não consigo deixar de relacionar o que senti com esta leitura com o que acontece no mundo hoje em dia. A ideia de austeridade, de sacrificar tudo em nome de um qualquer futuro, de outra geração, de cumprir compromissos de outros não passa de um embuste cujo objectivo é criar um grupo de indivíduos sobreviventes conformados que na verdade nunca vão viver, vão apenas ser escravos entre o tédio e o suplício à espera da sua libertação, nem que seja pela morte.

Se ainda encontrarem cópias à venda folheiem e se, como eu, forem fãs da ilustração e da temática, comprem que não se vão arrepender e vale sempre a pena apoiar estes projectos e seus autores. Para espicaçar a curiosidade, deixo-vos com o texto que serve tanto de blurb como de final da história:

"Dizem que a Sobrevida é a existência - ou coisa parecida - de quem já não vive neste mundo, mas ainda não encontrou o seu rumo. Da vida real apenas conserva a semelhança. Alimenta-se das suas imagens (venera-as, são o seu amuleto), ronda-as em círculos a cada volta mais distantes do centro.
A Sobrevida, diz-se, é uma espécie de revivescência - sensação de vida.
Espíritos, espectros, almas penadas perseguem aquilo que já foram, podiam ter sido ou virão a ser (para sempre, nunca mais).
Diz-se que da Sobrevida apenas podemos conhecer aquilo que se conta. Diz-se muita coisa e tudo é insuficiente (ainda).
De qualquer forma, já cá não está quem falou."

Sunday, 9 December 2012

Nanozine nº 7

Confesso não ser um leitor habitual de revistas, impressas ou electrónicas, mas tive oportunidade de ler algumas recentemente, uma delas a Nanozine nº 6, dedicada ao Steampunk e à venda na EuroSteamCon 2012 - Porto.  Como gostei da experiência decidi, mal soube da disponibilidade do número seguinte, começar a ler de imediato. No entanto esta Nanozine nº 7 fica aquém das expectativas que criei com o número anterior. Desta feita o objectivo editorial temático na escolha dos contos parece ter sido a presença de elementos do horror, o que para mim não seria de todo um problema. Na minha opinião, o que mais prejudica a leitura deste número é a assimetria da qualidade dos contos.
Das várias submissões incluídas, gostei de ler O Solucionador de Telmo Marçal, A Última Viagem do Sud Expresso de Carlos Silva, O Livro das Horas de Célia Loureiro e O Fruto Proibido de Pedro Cipriano. São contos bem escritos, com temas interessantes sem no entanto encher realmente as medidas, seja pela abordagem relativamente simplista dos temas seja pela superficialidade do enredo. Destes destaco O Fruto Proibido, talvez aquele cuja resolução foi mais bem conseguida, com a referência à imagem bíblica da busca pelo conhecimento contra os avisos ou ordens de poderes superiores aplicada a um cenário pós-apocalíptico. Quero também deixar aqui uma nota positiva sobre O Desenho de Rui Tinoco, que me fez mandar uma gargalhada inesperada.
Pela negativa, não posso deixar de me questionar sobre a inclusão do conto Carrosséis de Marcelina Leandro. Não só a temática me parece mal explorada como o texto em si está mal escrito, com frases confusas e ideias misturadas que dificultam a leitura e impedem a imersão na história que, de outra forma, poderia ser de todas a mais aterradora. Já li melhor desta autora, nomeadamente na Lusitânia, já comentada aqui no blog. A leitura de Destilação de Olinda Gil, embora melhor, foi de certa forma banal e inconsequente, sem nenhum detalhe que o salve do esquecimento quase imediato.
Restam O Salteador de Joel Puga e A Sopa de Joel G. Gomes, nem especialmente bons nem maus, trazem ideias que, trabalhadas de outra forma, poderiam tornar-se bastante interessantes.
A revista termina com duas entrevistas, das quais destaco a primeira. Muito embora desconhecesse a autora Carla M. Soares e o seu livro Alma Rebelde se integre numa temática que não me desperta curiosidade, gostei bastante de ler a conversa.

Termino com desejos de que o próximo número volte à qualidade do anterior e me surpreenda com a temática erótica já anunciada.

Friday, 7 December 2012

The Alloy of Law by Brandon Sanderson

I read Brandon Sanderson's Mistborn trilogy last year and it is one of my favourite epic fantasy works. I hope that one day I can actually review those books here, maybe after reading them again, but for now I'll just say that I became a fan of Sanderson's writing, his world building and the way he tackles a lot of interesting and important issues throughout the trilogy's plots. He has said, to my absolute delight, that his intention for that world was to produce three trilogies in different times. Meanwhile, he seems to have decided to give Mistborn fans a dessert with The Alloy of Law.
This book has a short story, a typical gunslinger-western plot with the addition of Mistborn's magic system, happening 300 years after the events of the original trilogy. It follows Waxillium Ladrian, a noble turned lawkeeper, initially in the Roughs (the rural part of that civilization) and then as he comes back to the big city somewhat forced to assume his role as the family's heir. Although there are some references to Wax relearning to live with the aristocracy after spending years away, that's by no means the main focus of the book. There are also some steampunk elements, namely the introduction of guns, cars, trains, lamps in a magical and somewhat unindustrialised world, the emancipation of women, or even the main character with his tendency to individualism - a typical "I'll change the world by myself" kind of mind - and his do-it-yourself science (here in the form of alloying). Despite all this I wouldn't consider The Alloy of Law a steampunk novel. The plot is first and foremost that of a crime thriller and a very good one at that, with a bit of mystery kept until the end. The reference and description of the multiple weapons used adds to the western feel of the book. The characters are very believable, if somewhat predictable, though the plans they concoct aren't as obvious and keep the story quite interesting all the way through. The action is also constantly present, giving the plot a fluid and exciting development.
The fusion of magic and technology was very well done and I actually wish I could read more stories exploring the possibilities Sanderson's allomancy/feruchemy/hemalurgy system allows in multiple contexts (in other words, I can't wait for his urban fantasy and sci-fi story arcs). The way the gun fights are enhanced by the movement the magic allows, the increased bullet power, a kind of kinetic shield, the time warps and the healing ability had really cool consequences. Another marvellous addition is the association with the previous trilogy, mostly through religious (which for those who have read Mistborn is particularly good) and historical references. The characters I knew and liked became legends for this society, used as moral examples but also as everyday expressions, in Scadrial's own versions of "oh my god" or the even the boogieman.
One particular theme I enjoyed seeing explored was the effects of taking ideals as your only compass, here shown by a character who doesn't mind harming or killing innocent people in the name of his own revolution, his war against injustice and exploration. For those who have read the previous trilogy, another thing one must notice is the recurrence of nobility systems. It seems that whatever cataclysm this world goes through, the society ends up organizing itself in a similar manner, despite the consequences such injustices have had before.
The one negative claim I can make is that, probably to try to make the book readable as a stand alone story, there are some moments where the narrator slows the action and dumps some information. But I should add that this is by no means too frequent or considerably damaging to the reading experience.
With The Alloy of Law, Brandon Sanderson offers both a bonus read for Mistborn fans and a genre bending humorous and very refreshing story, probably as a bridge to his second arc in that same world, establishing a new social and technological context and defining a mythology based on the events of the first trilogy. If this is in any way a sample of what's to come, good for us all.

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A versão portuguesa desta opinião foi publicada no Clockwork Portugal.

Thursday, 6 December 2012

Quote / Citação (1)

"The measure of a person is not how much they have lived. It is not how easily they jump at a noise or how quick they are to show emotion. It's in how they make use of what life has shown them."
(Waxillium Ladrian)

Brandon Sanderson, The Alloy of Law (2011)

Wednesday, 5 December 2012

Beyond Good and Evil by Friedrich Nietzsche

Finalmente chega o momento de falar do livro que mais tempo demorei a ler em toda a minha vida, Beyond Good and Evil (BGE) ou, em português, Para Além do Bem e do Mal de Friedrich Nietzsche. Este autor praticamente dispensa apresentações, quase todo o mundo conhece o seu nome e o associa pelo menos a um certo sentimento contra a moralidade judaico-cristã ou à frase "Gott ist tot" - Deus está morto. Tendo eu sido criado por uma família de tradição católica moderada - mas com direito a baptismo, comunhões e crisma - cedo comecei a duvidar de muito do que me era impingido na dita catequese ou na missa e um dos primeiros nomes que me apareceu não sei se nas minhas pesquisas, na TV, ou em conversas, foi precisamente ele. Parece-me importante fazer a ressalva de que esta é uma opinião de um agnóstico educado previamente como católico porque as ideias de Nietzsche são polarizantes em relação a esse assunto. No entanto, não foi em busca de leitura sobre religião que escolhi pegar em BGE, mas porque li em algumas resenhas que era o livro em que estavam presentes quase todas as ideias do filósofo, em especial ao nível da ética, incluindo a sua desconstrução do moralismo. Outra ressalva é admitir a minha parca experiência em literatura filosófica o que limitou claramente o aproveitamento do texto.

BGE foi escrito como um prelúdio da filosofia do futuro dividido em prefácio, partes de 1 a 9 em que e o autor trata temas específicos e epodo. O corpo principal está ainda subdividido em 296 secções cujo tamanho varia de uma frase só ao estilo de aforismo a duas páginas de texto tentando delimitar a discussão de um aspecto específico. Apesar de ser um trabalho filosófico, não se lê como um texto técnico. Nietzsche era um homem culto, inteligente e aparentemente com sentido de humor e gosto pela ironia e isso transparece ao longo de toda a obra, escrita na transição entre a literatura e o discurso formal informativo. Torna-se um monólogo com perguntas retóricas e exclamações que, a ter direito a resposta "em directo", se tornaria numa das conversas mais relevantes da minha vida. Há no entanto que dizer que o estilo cíclico com que tenta transmitir a enorme quantidade de informação em BGE se torna por vezes cansativo ou confuso e exige um leitor pleno, atento e preparado para aproveitar ao máximo a leitura, algo que eu nem sempre pude ser.

A minha versão - colecção Penguin Classics - tem uma introdução de Michael Tanner (autor do livro Nietzsche: A Very Short Introduction) tanto sobre o BGE como sobre o próprio Nietzsche e a sua obra que, em 20 páginas e de forma muito eficaz, fornece contexto a quem como eu nunca tiver lido nada do autor, em especial ao nível de alguns conceitos que ele refere ou discute.
BGE propriamente dito começa pelo prefácio onde Nietzsche torna já bastante claro aquilo que vai defender. Se começa com um estranho "Supposing truth to be a woman", de forma a mostrar como os filósofos dogmáticos são tão maus a explorar a verdade como a tentar conquistar uma mulher, o autor rapidamente começa a explicar o quão limitante têm sido o dogmatismo e a moral judaico-cristã para os pensadores europeus, dizendo ter esperança de que corresponda apenas a uma fase de preparação cujo abandono permitirá o aparecimento de uma filosofia livre e verdadeira. Entretanto faz uma breve referência ao perspectivismo, antes de terminar com a ideia de que ele e outros espíritos livres e bons europeus ainda poderão ter sucesso nesta tarefa de criar ou pertencer à tal nova geração de filósofos.

"... we good Europeans and free, very free spirits - we have it still, the whole need of the spirit and the whole tension of its bow! And perhaps also the arrow, the task and, who knows? the target..."

Começa de seguida o corpo principal do trabalho, pela sua primeira parte denominada On the Prejudices of Philosophers (sobre os preconceitos dos filósofos), onde Nietzsche argumenta ser errado não só dividir o mundo entre verdadeiro e errado como também sequer acreditar na existência de verdades absolutas. Lembrando as consequências dos nossos preconceitos na percepção e no pensamento e negando anteriores noções de separação antitética entre o instinto e o raciocínio, o autor discorre sobre o tema tomando como exemplo vários filósofos anteriores a ele, como os estóicos, Platão, Kant, Descartes, Spinoza ou Schopenhauer. De referir ainda dois exemplos interessantes de situações em que se tem como verdades conclusões de processos enviesados à partida: o primeiro sendo a constituição de fenómenos como causa e efeito, ambos conceitos que são mais necessários à nossa compreensão da realidade do que parte da realidade em si mesma; o segundo o facto do nosso raciocínio poder ser dirigido pelas regras gramaticais da língua que nos permite estruturá-lo. Levando este ponto de vista mais além, Nietzsche ainda questiona a utilidade da verdade ou o valor real da busca pela verdade absoluta.
Segue-se The Free Spirit (o espírito livre) onde o autor prossegue na desconstrução do conceito de verdade e conhecimento, desta feita argumentando que tudo o que é de conhecimento geral foi necessariamente simplificado e portanto alterado a partir da realidade ou dos dados que dela se possam obter, por exemplo pela adequação à linguagem. Um dos exemplos de destacar é a questão do ritmo: diz Nietzsche que é uma das coisas mais difíceis de traduzir e que "It is dificult to be understood, especially when one thinks and lives gangasrotogati among men who think and live otherwise, namely kurmagati or at best as the frog goes, mandeikagati..." (quem pensa depressa - presto como o Ganges - dificilmente é entendido por quem pensa lento, como a tartaruga, ou como o sapo, staccato). De acordo com ele vivemos num mundo fabricado, numa espécie de realidade imaginada delimitada pelos nossos sentidos e a interpretação dos dados que nos chegam à nossa maneira. A ideia de espírito livre aqui refere-se aos novos filósofos que não se deixam limitar pelos preconceitos, pelos dogmas, pela moralidade, pela necessidade de aceitação geral. São estes que, segundo ele e com ele, vão criar uma nova filosofia - sem medo de experimentar, de mudar de ideias, de ser contradito por outros, de serem incompreendidos pela generalidade das pessoas - e assim fazer progredir a humanidade. Ainda nesta parte é introduzido o conceito de Will to Power (vontade de poder), aqui começando pela afirmação de que a única coisa que temos certeza é das vontades e de que são essas mesmas vontades, por vezes até inconscientes, que motivam todo o nosso comportamento. O filósofo considera que a motivação fundamental que dirige o ser humano é a vontade de poder, um conceito que, apesar de me parecer uma generalização exagerada e explicação insuficiente, permite compreender vários comportamentos individuais e sociais e gera uma discussão na qual vale a pena atentar.
Na terceira parte, denominada The Religious Essence (a essência da religião), Nietzsche explica como a o cristianismo, pela sua santificação de sensações ou atitudes à partida negativas, como a castidade, o isolamento, a humildade (no sentido da diminuição da auto-estima), origina uma sociedade em que as pessoas sacrificam as suas vontades, deixam de exercer a sua força, e se constituem numa massa amorfa que tem menos, sabe menos, sofre mais e acha que está a cumprir a sua função existencial. É esta slave morality que Nietzsche critica nos seus contemporâneos, que vivem na mediocridade conformada de aceitar os seus defeitos em vez de os querer combater ou ultrapassar e parecem não ter motivação para a realização pessoal.
De seguida, em Maxims and Interludes (máximas e interlúdios), o autor lista mais de uma centena de aforismos, versando os temas a que o livro alude, de certa forma simplificados, como que para mais fácil recordação e repetição. De notar aqui que aqueles em que se refere às mulheres são geralmente preconceitos absurdos e depreciativos. A título de exemplo, partilho três da minha preferência:
 - ""I have done that," says my memory. "I cannot have done that" - says my pride, and remains adamant. At last - memory yields."
 - "There are no moral phenomena at all, only a moral interpretation of phenomena..."
 - "The thought of suicide is a powerful solace: by means of it one gets through many a bad night."
A quinta parte - On the Natural History of Morals (sobre a história natural da moral) - é uma lição para criar "mentes abertas", em que o autor discorre sobre o desenvolvimento da moralidade essencialmente no sentido de mostrar que conhecendo não só a história da nossa moral como também contrapondo com as outras poderemos ultrapassar os limites que nos impõe. Prossegue com a argumentação de que a moral aceite globalmente (slave morality) produz a tal massa amorfa, uma sociedade-rebanho fraca e paralisada, que santifica todos os pobres e critica todos os fortes, ricos e poderosos. Nietzsche está contra esta generalização de critérios que deveriam ser essencialmente individualizados e nesse sentido chega até considerar a democracia somente mais uma forma de nos obrigar a sermos todos iguais. A will to power reaparece aqui na discussão do que afinal é bom ou mau. Um bom exemplo seria o conceito de altruísmo, que o autor considera ser uma forma velada de satisfazer a vontade de um indivíduo de se sentir bem consigo mesmo e vir a poder beneficiar de retorno do outro. Não estará o altruísta simplesmente a colocar-se na situação de superioridade - de poder - em que ele determina o que faz pelo outro e reserva a dívida para quando e como precisar?
De seguida, em We Scholars (nós académicos), o autor argumenta que a importância e progresso da ciência e a procura da objectividade estão a influenciar os filósofos do seu tempo, limitando a sua criatividade. Para Nietzsche, o cepticismo é ambivalente, na medida em que a dúvida pode levar o filósofo a rejeitar certas questões ou formas de alcançar novas respostas mas por outro lado pode também combater o dogmatismo, quebrar preconceitos e permitir novas perspectivas.
A sétima parte trata de Our Virtues (as nossas virtudes) e o autor volta ao perspectivismo e à critica que fez à moralidade e à generalização de critérios, desta feita aplicados ao que se consideram boas e más características ou atitudes de cada pessoa. É aqui que Nietzsche revela a sua divisão da humanidade em estratos, em que há indivíduos cujos espíritos são simplesmente elevados em relação a outros, algo que me parece - proposto como se fosse algo pré-definido ou imutável - completamente errado. Ainda neste capítulo, o filósofo admite que há em cada indivíduo um conjunto de crenças e opiniões que são básicas, quase inalteráveis, mas que nem por isso menos limitantes. Quanto às suas, ele dá o exemplo da sua visão das mulheres como superficiais, mesquinhas e intelectualmente inferiores aos homens. Ainda que admita a sua própria estupidez, isso não o desculpa por explanar todos os argumentos enviesados com que sustenta tal opinião e critica o feminismo. Revela-se aqui a minha maior crítica a Nietzsche, a sua tendência a ver as pessoas como puros estereótipos, sejam as mulheres, sejam os cristãos ou os judeus, sejam os alemães ou os ingleses.
Peoples and Fatherlands (povos e pátrias) é a parte designada à discussão desse estereótipo aplicado a todo o povo de cada país, mas também à critica do nacionalismo. Aliás, Nietzsche admite que algum sentimento nacionalista é comum e que ele próprio poderá senti-lo, mas que não deixa de ser uma visão limitada das coisas. É interessante ver como ele desenvolve, aqui por outra perspectiva, a sua ideia de uma Europa conjunta, mostrando-se por um lado fã da variedade como no caso da origem dos alemães - cuja vantagem é precisamente serem uma amalgama de vários povos, uma ideia que a dialéctica nazi inverteu - mas por outro sendo antagónico das ideias de democracia que lhe parecem ser mais indutoras de um rebanho de pessoas iguais do que facilitador do seu desenvolvimento como indivíduos. Pergunto-me se Nietzsche não confundiria a democracia com as ideias socialistas/comunistas, essas sim habitualmente mais merecedoras desse receio. Das suas ideias sobre os vários povos europeus, com as quais discordo na generalidade por serem simples preconceitos, ficou-me a sensação de que o filósofo não vê pessoas com a clareza e definição que vê as ideias e tende por isso a pensar cada povo como se fosse uma imitação barata de uma pintura impressionista de um qualquer campo de feno. Uma outra ideia a destacar aqui é a sua opinião sobre os judeus, dado tanto ser dito da associação dele com os ideais do regime nazi, havendo dois pontos em que facilmente se demonstra que são, neste caso, diametralmente opostos. Primeiro, Nietzsche é da opinião de que os judeus não querem conquistar a Europa, mas na verdade simplesmente integrar-se e poder "pertencer" a essa sociedade. Depois, o filósofo considera que os povos europeus só têm a ganhar com a inclusão dos judeus, povo que, apesar da sua moralidade anteriormente criticada, já muito havia trazido e criado na Europa, acusando os alemães anti-semitas de cobardia e inveja.
A última parte é denominada What is Noble? (o que é nobre?) e nela volta-se a aplicar o perspectivismo às motivações por detrás de certos actos de forma a desmistificar a ideia de boa pessoa. Por outro lado culmina aqui a explicação de Nietzsche da ideia de elite, algo que por melhor argumentado que tenha sido nunca me consegue convencer. Para ele a sociedade europeia, na sua variedade, serviria para gerar essa elite, uma aristocracia de espírito e mente superiores, que deveria liderar sem oposição os destinos de todos. Não nego que em cada momento da história há indivíduos com melhor capacidade para tomar certo tipo de decisões ou cujos ideais me parecem mais indicados como orientação para o povo europeu. O que recuso é a presunção que certos sábios podem ser deixados, na sua superioridade, a liderar toda uma sociedade sem que os restantes elementos tenham algo a dizer. Recuso ainda que devam ou possam ser solitários, isolados da massa amorfa que os rodeia, ou que se tornem superiores por alguma tendência ancestral. Parece-me melhor, mais próximo do ideal, que as direcções sejam constantemente discutidas, votadas, decididas por todos os indivíduos da sociedade, ainda que com o parecer ou as propostas daqueles que, em cada momento, estejam melhor preparados para as produzir. E nesse sentido, será sempre importante que esta preparação lhes seja reconhecida, não por eles próprios, mas pela restante população. Admito no entanto que uma grande parte da população, mesmo hoje em dia, não seja minimamente capaz de uma avaliação correcta dos problemas que enfrenta, quanto mais de tomar decisões ou votar de forma informada nas resoluções propostas.

Nietzsche escolheu terminar BGE com uma ode em quinze estrofes na qual complementa a mensagem do prefácio. Em tom de despedida, tanto dos velhos amigos como de si próprio, parece querer dar a entender que depois de tudo o que explorou no livro, das ideias que abandonou, das conclusões que tirou, é agora um ser humano diferente que vive como os outros não sabem viver, como um caçador solitário num deserto, recuperando aqui a metáfora da seta e fazendo até referência à procura por novas amizades e àquela que tem agora, com Zarathustra. Na edição que li o tradutor optou por fazer a passagem para o inglês sob forma de prosa poética com um parágrafo correspondente a cada estrofe, o que me pareceu uma boa escolha, dado que numa tradução para poesia, na tentativa de obedecer ao estilo e às regras, poderiam perder-se mais pormenores ao nível do sentido do texto e dos subterfúgios da linguagem.

Nietzsche foi um importante pensador do séc. XIX, com ideias revolucionárias na filosofia, ética, psicologia, sociologia, para além de se dedicar à poesia, composição musical e crítica de arte. No entanto não é só pelo interesse histórico do autor que recomendo a leitura deste livro mas porque muitas das ideias exploradas parecem ainda não ter tido o impacto necessário na sociedade. Uma grande parte de nós, talvez por insuficiência dos sistemas educativos, talvez por falta de interesse, ainda vivemos ancorados ao mesmo moralismo que Nietzsche identificou como prisão para o nosso progresso, ainda continuamos a discutir verdades ou factos ignorando as lições do perspectivismo, ainda sucumbimos ao nacionalismo, ao racismo e erros afins. Eu discordo do autor em muitos pontos, em especial na misoginia (que o próprio reconhece) e na defesa do conceito de elite superior (próximo por vezes da eugenia), mas não posso deixar de imagina-lo a viver hoje em dia, a escrever muito do que escreveu há mais de cem anos, a continuar a ter razão e a ficar desiludido com a falta de progresso dos costumes e ideias da humanidade como um todo.

De resto, e para quem ainda não leu Nietzsche, deixo duas recomendações. Em primeiro lugar, esqueçam os comentários que associam o filósofo aos nazis. Os seus trabalhos foram alterados de forma a serem utilizados na propaganda e as versões que Hitler leu e segundo se relata adorou foram aparentemente editadas pela irmã do autor de forma a aproxima-lo do anti-semitismo, eliminando muitas das suas opiniões. As versões publicadas hoje em dia diferem dessas e devemos aborda-las livres desse preconceito até porque, como demonstrei acima, as suas ideias são por vezes opostas às dos nazis. Por fim, lembrem-se que, como perspectivista que era, Nietzsche não escrevia para ser levado à letra, para dogmáticos, crentes na sua opinião. A enumeração de aforismos e as argumentações acutilantes servem mais o propósito de espicaçar a mente do leitor e de apontar uma linha de pensamento crítico e atento a todos os seus limites do que a formular verdades. Aliás, como eu disse acima, o próprio começa por questionar o valor da busca pela verdade. Nesse sentido torna-se interessante voltar atrás e ver como o próprio Nietzsche - obedecendo à sua ideia de que os filósofos gostam de esconder as suas verdades fundamentais - acaba por brincar com as próprias opiniões, contradizendo-se várias vezes ao longo de BGE sendo o exemplo perfeito o caso do preconceito que ele inicialmente critica, mas noutro momento usa claramente quando se refere às mulheres ou aos povos europeus. No fundo, ficamos sempre sem saber quanto do que estamos a ler é realmente correspondente ao que o autor acredita e quanto é simplesmente um meio para ele passar uma mensagem ou nos fazer repensar certas questões.

Lido que está Beyond Good and Evil e ainda quanto a Nietzsche, pondero agora se prefiro experimentar um livro de estilo mais literário, como o Thus Spoke Zarathustra ou prosseguir para outro trabalho de extrema importância, supostamente autobiográfico e em tom de retrospectiva da sua obra, o Ecce Homo. De resto, quero continuar a embrenhar-me na filosofia, sem pressas ou objectivos definidos excepto o de ir aprendendo cada vez mais. Só assim, a pensar, a pensar sobre pensar e a pensar sobre nós é que nós humanos podemos aproveitar o nosso potencial e sentir que a nossa existência valeu a pena, seja para a realização pessoal seja para a globalidade.

Sunday, 2 December 2012

Z by Manuel Alves

Z é um conto de Manuel Alves, de quem já tinha lido o Coração Atómico incluído no Almanaque Steampunk 2012, de forma que parti para a sua leitura com alguma expectativa. 
A história aborda a inteligência artificial e os terrores que a busca pelo conhecimento científico podem trazer quando o investigador ignora as considerações éticas. Está muito bem escrito, começando por uma conversa inteligente que deixa o leitor imediatamente curioso, depois deixando o enrado revelar-se lentamente e acabando sem um final determinado. A alteração de ponto de vista num capítulo retrospectivo em que se associa a uma alteração da descrição das personagens (p.e. o "professor" passa a ser a máquina branca com garras) é um pormenor delicioso que me fez sorrir de satisfação.
Desconheço se é intenção do autor, mas esta ideia parece-me um esboço interessante para um romance que eu decerto compraria.


Disponível gratuitamente em https://www.smashwords.com/books/view/255680

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Z is a short story about artificial intelligence and the terrors that come when the search for scientific knowledge has the investigator ignore all the ethical limitations. It's very well written, starting with a smart conversation to pique the readers interest, then slowly unfolding the plot and ending with no clear resolution. The shift in point of view allied with a change in the description of the characters (for example, the professor and his hands turn to the white monster and his claws) is really well done and actually made me smile. Though it might not be the author's intention, this does seem like a good idea for a full length novel, one that, having read this, I'd surely buy.

Available for free at https://www.smashwords.com/books/view/256358

Sucker Punch by Zack Snyder

Ontem forcei-me a rever este filme, no fundo a dar-lhe uma segunda oportunidade dado que a primeira vez que o vi mal consegui prestar atenção. Detestei. O que Sucker Punch me fez pensar foi, no fundo, de um projecto escolar ou académico, provavelmente com o objectivo de testar meia dúzia de efeitos especiais e de técnicas de realização. Como é que isto acabou no cinema, não entendo.
O filme baseia-se na ideia de uma rapariga que, numa situação terrível, deixa a sua mente escapar para um mundo interior, imaginado ou sonhado, que acaba de servir não só para sublimar as suas emoções mas também como metáfora para a sua tentativa de escapar. É este mundo imaginado que permite a exploração dos tais efeitos especiais. Este conceito, que poderia tornar-se muito interessante, resultou num filme absolutamente desinteressante que não faz qualquer sentido, com personagens ridículas e uma realização muito forçada, para não falar do exagero de CGI. Nem as referências aos desenhos animados ou jogos de computador servem para redimir o enredo e parecem igualmente forçadas. No meio de tudo isto, ainda se conseguiu encaixar uma típica guerra de meninas pelo papel de liderança como se estivéssemos a ver um filme de adolescentes no liceu antes do baile de finalistas. A revelação final podia ter sido uma boa surpresa, se o enredo me conseguisse manter interessado até esse momento.
O único pormenor de que gostei em Sucker Punch foi a progressão do contexto da terra imaginada: de cada vez que lá voltamos as raparigas são colocadas em momentos cada vez mais tardios da história da humanidade, lutando contra desde samurais até soldados das grandes guerras e finalmente robôs.
Assim, Sucker Punch é um filme francamente mau, sem credibilidade, ao ponto de se tornar irritante mesmo como barulho de fundo na sala de estar e uma má exploração de problemas sérios como a exploração sexual e o tráfico de mulheres.

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I have just forced myself to re-watch this film and I hate it. It reminds me of some kind of school project gone bad. There's a nice idea, of a girl whose mind escapes into a dreamland where she sublimates all her energy against what's happening and serves as a metaphor for her escape plan. There's also a lot of room for special effects and CGI work. What might have been interesting concepts or good opportunities ended up generating a completely uninteresting film, with a nonsensical plot, ridiculous characters and overdone direction and computer special effects. All those cartoon and computer games' references are forced and mostly uncalled for. In the middle of this, there's also time for the typical girl fight for the leadership role as if it's a high school flick. The final twist might have been a nice surprise if only the plot was believable enough to keep me interested until then.
The one good thing about the film is the progression of the context of her dreamland: every time she goes back the seems to be at a different time in history, from samurai to world war to robots.
Sucker Punch is terrible, unbelievable, annoying even as background TV noise while you work, and a really bad take on a serious problem of women enslavement and sexual abuse.

Saturday, 1 December 2012

Cloud Atlas by Tom Twyker, Andy Wachowski and Lana Wachowski

O Cloud Atlas é difícil de comentar sem revelar demasiado e estragar a experiência de quem ainda não viu, pelo que me vou conter o mais possível. Sim, admito que isto é também uma boa desculpa para o facto de me ser impossível fazer um comentário que lhe faça realmente justiça. O filme segue meia dúzia de personagens em várias alturas da história da humanidade, explorando as ligações entre eles através daquilo que lhes acontece ou da forma como eles reagem às situações. É um trabalho fenomenal, com um argumento perfeito, uma realização impecável e actores que estão ao melhor nível das suas carreiras. É de uma beleza visual surpreendente mas não se fica por aí, tendo-me deixado a pensar e questionar uma variedade de coisas que nem consigo enumerar, desde moralidade, medo, coragem ou covardia, sacrifício, até destino, recorrência de situações na história, ou a tendência da humanidade para a distopia ou a destruição. Este é um filme que merece ser visto e revisto. Mas Cloud Atlas não é, no entanto, somente um trabalho filosófico, tendo momentos de acção, suspense, violência, comédia, romance e drama. Quanto aos actores, não consigo escolher a melhor performance. Se os meus favoritos foram variando, desde Jim Broadbent como Timothy Cavendish, Ben Whishaw como Robert Frobisher ou Doona Bae como Sonmi-451, não posso esquecer Hugo Weaving (em especial a enfermeira Noakes), Jim Sturgess, James D'Arcy (o Archivist), Susan Sarandon, Hugh Grant, Halle Berry (Luisa Rey, Meronym) e até mesmo Tom Hanks como Zachry (embora como de costume ele dê às personagens menos personalidade e energia do que elas me parecem pedir). Quero igualmente destacar a maravilhosa música de Cloud Atlas, que, para além de valer a pena ouvir por si só, contribui para a ideia de ligação transcendental que permeia o filme.
De todas as ideias na minha cabeça - sinceramente ainda "nas nuvens" - quero destacar duas. Primeiro a ideia de recorrência eterna (que estou a roubar deliberadamente do Nietzsche) que no filme se pode interpretar tanto como associada ao destino transcendente do mundo ou da humanidade que nos obriga a passar por certo tipo de situações várias vezes, ou por outro lado vê-la como resultado de nunca aprendermos o suficiente com a nossa própria história ou de termos alguma tendência como espécie para criarmos essas situações. Depois, quanto a uma outra ideia, o conceito de motivação e vontade, o filme acabou por reforçar a minha opinião de que os seres humanos querem, no fundo e acima de tudo, mais. No entanto, se é fácil notar esta "vontade de mais" (sim, estou a adaptar do will to power do Nietzsche) na sociedade consumista contemporânea ou até mesmo na altura das grandes guerras, torna-se muito mais dificil de argumentar quando se consideram as atitudes de cada indivíduo.
A minha única crítica negativa ao Cloud Atlas refere-se ao progresso lento do enredo até cerca de metade do filme, embora admita que não vejo melhor forma de contar aquela história. Se ainda não o viram, vão ao cinema assim que seja possível e aproveitem!

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Cloud Atlas is the kind of film you can't really review in detail for fear of spoiling other people's first experience. It follows various characters in different times and explores the connections between them through similarities both in what happens to them and in how they react to events. It's a powerful work, where the argument has been perfectly built, the direction is impeccable and the actors are with no exception at their best performances ever. It's both beautiful for the eye and for the mind, providing more food for thought than I've been able to digest until now. Touching concepts from morality, general belief, fear, courage and cowardice, self-sacrifice, up to things like destiny, recurrence and humanity's tendency for distopia or destruction, this is a film that deserves to be re-watched. This isn't, however, a purely philosophical work, and I must remark that there are moments of action, suspense, violence, comedy, romance and drama. About the actors, it's hard to pick a favourite, a best performance. At times it was Jim Broadbent as Timothy Cavendish, others Ben Whishaw as Robert Frobisher, and, of course, Doona Bae as Sonmi-451. But can we forget Hugo Weaving (Nurse Noakes - yes! - and others), Jim Sturgess (lots of them), James D'Arcy (Archivist), Susan Sarandon, Hugh Grant, Halle Berry (Luisa Rey, Meronym), or even Tom Hanks' Zachry (though, as usual, he gives the characters less energy and personality than they apparently deserve)? Another thing of note is the soundtrack, it's amazing and really adds to that idea of transcendental connection.
Of all the things flying inside my "clouded" mind at the moment, I wish to emphasize the idea of eternal recurrence and humans and humanity's true will. The eternal recurrence as seen here can be interpreted both as a transcendental destiny, meaning we are bound to live through and create certain situations, even if then we can act differently on them, but also as a kind of history repeats itself concept, blaming humanity for not learning with past mistakes or considering humans have certain characteristics that eventually lead us into doing those same mistakes over and over again. On the matter of motive and will, the story reinforced my opinion that, bottom line, humans are mostly and essentially driven by a "will to more", be it possessions, power, knowledge or feeling, something easily spotted on contemporary consumer society or even when looking back at the time of the world wars, but harder to argument when observing some individual actions.
My only possible negative criticism to Cloud Atlas is the slow development of the overall story up to half it's length. If you haven't yet, go to the cinema and enjoy!

Thursday, 29 November 2012

Killing Them Softly by Andrew Dominik

Baseado no livro de George V. Higgins, Killing Them Softly (Matando-os Suavemente - sim, a tradução é mesmo esta) faz uma alegoria da crise através da observação do colapso de uma economia de poker ilegal. Inicialmente segue as duas personagens ingénuas, diria mesmo burras, a quem é proposto o roubo que dá o mote ao filme. Scoot McNairy e Ben Mendelsohn estiveram muito bem, sempre estranhos e engraçados. A sua conversa enquanto um deles está sob efeito de heroína arrancou-me gargalhadas. O ponto de vista muda entretanto para Jackie, contratado para investigar o roubo e lidar com os culpados. Brad Pitt esteve bem como é costume, muito embora a sua personagem esteja frequentemente na linha entre o misterioso e o simplesmente absurdo. Ainda quando aos actores, de destacar James Gandolfini cujo Mickey, um assassino a soldo peculiar, serviu bem de comic relief.
As cenas de pancada e homicídio são para mim das melhores do filme: brutais, mas tanto e não mais que a realidade.
Ao longo do desenvolvimento da história são ouvidos ou mostrados vários discursos de George W. Bush ou Barack Obama, colocando-se contemporâneo à primeira eleição deste último e com isso clarificando (por vezes até demasiado) o paralelismo que se pretende fazer entre os EUA e a situação ilustrada no filme. No final há uma cena em que Jackie acaba mesmo por discursar, revelando o propósito do filme, fazendo ele próprio a comparação entre o país e um negócio, tendo-se tornado a meu ver no pior momento do filme. Killing Them Softly foi tão óbvio que bombardear a audiência com a conclusão que deveria simplesmente estar implícita, ou à qual poderiam chegar pensando um pouco sobre o filme, é absurdo e estraga o fim da história.
Outra questão a apontar é o ritmo do filme, demasiado lento e com mais que muitos momentos de silêncio no meio das conversas, desnecessários e por vezes irritantes.
Em jeito de conclusão, dizer apenas que Killing Them Softly é um filme engraçado, com um bom enredo e baseado numa metáfora inteligente, que contradiz a velha ideia da terra da oportunidade e liberdade e mostra as consequências da destruição de uma economia - como de resto ocorre hoje em dia com a nossa - mas que, por causa de alguns erros de realização e argumento, ficou aquém da excelência que poderia alcançar.

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Based on the novel by George V. Higgins, Killing Them Softly is an allegory of the american and global economic crisis, here explored through the disruption of a gambling community. It initially follows a couple of naive run of the mill dumb ex-cons who are given the "opportunity" of making money stealing from the poker gamers and letting another take the fall for it. Scoot McNairy and Ben Mendelsohn make for two really funny characters and their conversation while one of them is heroin-high had me laughing throughout. The point of view then changes mostly for Jackie, the "enforcer" hired to investigate the heist and deal with the culprits. Brad Pitt is as good as usual, though his character sometimes walks the line between being mysterious and just outright nonsensical. Speaking of performances, I must also give thumbs up for James Gandolfini as Mickey, a good comic relief halfway through the film.
The predictable beatings and deaths are very well depicted, realistic even, nor too much nor too little bloody or gory and for me became some of the best visual scenes. All along the film we are shown, in parallel to the plot, multiple speeches both from GW Bush and Obama, making clear (sometimes even too much) the point of the film. By the end there is a scene where Jackie is far too straightforward and, first while critiquing one of Obama's speeches and after while talking with his contractor, says word by word what the plot was supposed to make you think about. This was for me the worst moment of the film, absurd, unnecessary and spoiling the end.
The other down point of Killing Them Softly is the pace. It is too slow, had a dozen too many silent moments in the middle of otherwise normal conversations and had me eye-rolling once in a while.
All in all a fun film with a good plot and an intelligent if far too literal metaphor, that rejects that fake awe-inspiring idea of land of freedom and opportunity, shows what can happen when the economy is as broken as ours is right now, but sadly fails to excel.




Tuesday, 27 November 2012

Lusitânia - Número 1


Comprei a Lusitânia no dia do seu lançamento, no Fórum Fantástico 2012, e li-a quase de uma assentada só. Trata-se, no fundo, duma pequena antologia de contos que não só se localizam geograficamente em Portugal como pretendem explorar a mitologia e cultura típicas do país. Na maioria dos casos os contos que a constituem contribuem para a sensação geral de que se está a ler sobre Portugal e os portugueses, se não os reais, pelo menos o país ou o povo que podem ou poderiam ser, dado se tratar de ficção especulativa.

Quanto à edição em geral há algumas coisas que merecem referência. A opção de colocar um padrão de fundo nas páginas de cada conto e que varia de um para outro, de certa forma individualizando cada história, parece-me uma ideia interessante, contribui até para a atmosfera que o conjunto cria, mas em dois casos - "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" e "A Cidade das Luzes" - o padrão foi demasiado forte ou confuso prejudicando a leitura do texto. Uma outra questão, a melhorar em posteriores edições ou números, foi a existência de erros ortográficos ou de edição, destacando aqui o conto "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata", de todos o único cuja leitura foi afectada significativamente por este facto. Outra situação que me parece de relevo, da qual me parece que muitos trabalhos deste tipo sofrem, é a grande diferença de qualidade entre os vários textos. Não sei se isto se deve à falta de submissões de qualidade, se à vontade de cumprir uma certa deadline, se é somente uma questão de perspectiva e opinião pessoal, mas vejo isto em muitas antologias e revistas.

Quanto aos contos em si, vou tentar fazer-lhes justiça comentando-os individualmente.
"Sonhos Numa Noite de Natal" de Marcelina Leandro é uma história pequena e simples que traz consigo uma ideia muito interessante sobre o mundo dos sonhos e a previsão do futuro que sem dúvida merece ser explorada num texto maior e mais elaborado para atingir o seu potencial.
"Vinho Fino" de Inês Montenegro é na minha opinião o melhor conto desta Lusitânia. O conceito já sobejamente utilizado de alienígenas parasitas tem aqui uma visão refrescante, com uma escrita e um contexto diferentes dos da ficção científica "habitual" e que me deixaram com vontade de ler mais, tanto desta história como da sua autora.
"Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" de Catarina Lima é para mim o pior dos contos incluídos o que não se deve somente aos erros acima referidos, mas essencialmente a uma história que parece forçada e mal desenvolvida. Se a ideia na qual se baseia é interessante: as bruxas a voar nas suas vassouras Portugal fora, uma Hogwarts / Brakebills no Chiado e até um mercado mágico no Martim Moniz, o enredo e a cadência da escrita não envolvem o leitor, pelo que acabei por dar comigo a ler alguns parágrafos "na diagonal".
"A Guerra do Fogo" por Nuno Almeida é um conto de especulação fantástica e histórica - como o próprio nome indica - em simultâneo, que está bastante bem imaginado e escrito e que cumpre à medida as intenções anunciadas da Lusitânia. Como única crítica negativa poderia apontar talvez o desenvolvimento lento da história relativamente ao enredo que traz.
"A Cidade das Luzes" deixou-me algo confuso. É um conto eminentemente visual, que nos pede para visualizar cada cena (perdoem-me o pleonasmo) e fazer um filme imaginado com o enredo que nos é entregue, algo que destaco como a sua melhor característica. Infelizmente o enredo nem sempre consegue manter o interesse, é uma distopia à qual falta mais contexto para se tornar credível e nos fazer esquecer a estranheza de imaginar luzes/cores sair do peito das pessoas em direcção aos céus. Por um lado, a ideia da investigação do tratamento do daltonismo em macacos, ainda que dê alguma explicação, aparentemente assumindo o texto como típica ficção científica, não consegue dar à história toda a verosimilhança que necessitaria. Por outro lado cansa esta comum associação da emoção ao peito, ao coração, aqui referida pela forma como as luzes saem do corpo, ainda por cima em direcção aos céus, que corresponde decerto mais a um problema pessoal do que a falta de qualidade do conto em si.
"A Passagem Uivante" de Pedro Cipriano é uma história breve mas arrepiante que lembra o leitor que por detrás das máquinas de guerra estão pessoas que muitas vezes levam pouco mais que ordens e instinto de sobrevivência, sem saber as reais motivações da sua liderança para arriscar as suas vidas e as dos inimigos naquele momento ou naquela situação. Isto é particularmente verdade dos cidadãos de países sujeitos a sistemas totalitários para os quais a única liberdade, ainda que relativa, pode ser, quando muito, a de escolher a hora da morte.

Lusitânia afigura-se assim um projecto que se distingue por se afirmar português não só na autoria, mas na temática em si, dando oportunidade a vários autores de mostrar o que valem na ficção especulativa curta e na exploração da nossa história, da nossa mitologia, da nossa cultura, no fundo, de parte do que nos dá uma identidade colectiva. Os meus parabéns pela iniciativa e pelo resultado final, fica aqui o meu desejo de que continue, que melhore sempre, e que para a próxima seja maior! O entusiasmo da equipa, em especial do Carlos Silva com quem falei mais proximamente, permite-me acreditar que assim será.

Em jeito de disclaimer devo informar que participei neste número através da Clockwork Portugal que teve a oportunidade de contribuir com um pequeno texto em jeito de referência ao nosso trabalho.

Tuesday, 20 November 2012

American History X by Tony Kaye

Este filme explora um tema muito importante mas igualmente complexo. Diria que é provavelmente impossível tratar tudo o que há para tratar quanto ao racismo, às suas raízes, às motivações das pessoas para agir e nesse sentido para agir de determinada forma ou doutra. 
Em American History X - em português América Proibida - a história é contada do ponto de vista de um neo-nazi essencialmente em três momentos da sua vida, aquele em que se torna líder de um grupo de jovens racistas - skin heads - até ao ponto em que é preso, o seu tempo na prisão em que vai mudando de atitude e finalmente a saída, após três anos, em liberdade condicional, quando tenta salvar o seu irmão de percorrer o mesmo caminho e proteger a família. A progressão temporal não é linear o que de certa forma aumenta o valor e o interesse de cada parte da história. Esta personagem principal, Derek Vineyard - interpretada genialmente por Edward Norton -, está muito bem desenvolvida e permite uma observação interessante do pensamento e da dialéctica racista. A sua progressão ao longo da história é credível e chama à atenção para comportamentos que é importante conhecer e analisar como o são a liderança e o recrutamento de membros para o seu gang/exército. As restantes personagens têm um papel puramente de suporte, fornecendo o contexto e algumas motivações para o que Derek vai pensando e fazendo, não passando em si mesmas de simples clichés.
De notar que o filme mostra muita violência, por vezes ao ponto de dar vontade de virar a cara ou tapar os olhos, mas que sem dúvida faz sentido nesta história e nesta temática, de forma que em momento algum senti que fosse gratuita ou exagerada.
O meu maior problema com América Proibida consiste nas justificações das mudanças de Derek, demasiado simplistas e típicas, primeiro a morte do pai que parece ser a força motriz para os comportamentos racistas iniciais, depois o seu sofrimento e vontade de proteger a família que o fazem mudar de atitude e criticar as suas acções anteriores e aqueles que assim continuam. Há no entanto duas situações a este nível que merecem destaque pela positiva, tanto pela forma credível como foram apresentadas como pelo interesse para a temática do racismo e dos gangs: a relação de amizade que Derek consegue estabelecer com um prisioneiro negro e a figura de Cam, um nazi mais velho que influencia nos bastidores a criação e gestão destes exércitos de skin heads.
Assim, considero American History X um muito bom filme, daqueles que vale a pena ver, rever e deixar-se ficar a pensar.

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This is a film that tries to tackle a very important but also very complex issue. It's probably impossible to handle all of what can be said on racism, on why people feel it, on why they act on it and how they choose how they act.
In American History X, we are shown the point of view of a neo-nazi. We are shown, in a non linear time scrambling way, his change first towards neo-nazism, then his slow and doubtful turning back from it. I think the main character was well built - Edward Norton is marvellous as Derek Vineyard - and the depiction of the racist thought and dialectic are well put. The rest of the characters are mostly supportive, providing context and motive for the main one, showing nothing beyond the clichés. Derek's transformation into a leader and his recruitment process in order to organize his gang/army were also well developed. There is also a lot of violence in the film, sometimes making you really want to turn your face from the screen, but by no means over the top or beyond what makes sense in this context.
My biggest grudge with American History X are the reasons given for Derek's actions, far too simple and typical, the father killed driving him towards racism and then his own suffering and the will to protect his family causing his repent and changed behaviour. The two good things here are the development of a friendly relationship between him and a black man in prison and the noted smooth background influence of an older nazi first on him and then his brother.
All in all a very good film, worth rewatching and thinking about for a while.

Monday, 19 November 2012

Steampunk and Clockwork Portugal or the story of where I've been all this time

Como acontece ciclicamente comigo, mais uma vez passei uma temporada sem produzir conteúdo para o blog. Não que não tenha o que dizer ou vontade de escrever no blog, mas porque o tempo é pouco, a capacidade de concentração é esgotada pelo trabalho e porque há novos projectos a ocupar o que resta de ambos. É disso que decidi falar desta feita, porque este ano tem sido marcado pela minha participação num projecto que envolveu outro blog, um tumblr, uma webseries e uma convenção: a Clockwork Portugal - uma comunidade portuguesa dedicada ao steampunk em todas as suas vertentes.

Nesse sentido, parece-me útil começar por falar do steampunk, mas não me proponho fazer uma definição absoluta ou uma listagem exaustiva do que a ele pertence, somente focar-me no que eu procuro ou no que me promete o steampunk. Apesar de ser fã de ficção especulativa, tanto na literatura como no cinema ou nos jogos, desconhecia o steampunk como género até há bem pouco tempo. Há no entanto elementos tipicamente explorados nos trabalhos que nele se inserem que me interessam particularmente, nomeadamente o impacto na sociedade do desenvolvimento tecnológico e a alteração dos valores e costumes sociais desenvolvida a partir de um contexto extremo como é o do mundo da revolução industrial, do império britânico vitoriano, do declínio do escravagismo, da emancipação da mulher, não só pelo interesse histórico autocrítico e pela exploração do que é ou tem sido a humanidade, mas também pelo paralelismo com o que vivo e vejo na sociedade contemporânea. Aquilo que torna o steampunk reconhecidamente distinto dos restantes tipos de ficção especulativa não é, no entanto, nada disto, mas sim o facto da tecnologia explorada ser a do vapor e das engrenagens. É talvez por esta característica que o steampunk é hoje muito conhecido, associando-se a um autêntico movimento estético, grupos de cosplayers e roleplayers (aqui também a importante influência da roupa e costumes da Inglaterra vitoriana, claro), desenho, pintura, jogos e até um revivalismo das máquinas a vapor ou a corda, das engrenagens visíveis, dos metais não pintados. É importante referir que isto ultrapassa o aspecto estético, havendo vários criadores que trabalham novamente com esta tecnologia para obter gadgets que funcionantes num espirito do-it-yourself que tem estado muito associado ao movimento steampunk. Uma das características importantes da tecnologia da era do vapor, que lhe permite ocupar este lugar de destaque, é o facto de se localizar claramente, do ponto de vista dos leigos, na distinção entre a ciência e a magia. Aliás, tal como Arthur C. Clarke disse no Profiles of the Future"any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic" e de facto nunca mais, desde ultrapassada a era do vapor, nós pudemos dizer que percebemos bem o funcionamento das máquinas das quais o nosso dia a dia e a nossa sociedade dependem. Talvez seja também por isso que nas obras steampunk se vê frequentemente um cruzamento entre a ficção científica e fantasia com feitiçaria, demónios ou monstros, normalmente em conflito uns com os outros. Sendo este um dos tais elementos que me estimula a procurar trabalhos deste género, o outro não menos importante é o facto de permitir explorar e questionar os costumes, a moral, o que é suposto ser ou fazer, o tradicional "tem que ser". O tal espírito autocrítico, de repensar a sociedade e a humanidade, em especial no que toca a estas temáticas, é algo que não só me interessa como me parece de especial utilidade na nossa evolução. Não chega saber a história, não chega aprender com o que aconteceu, é importante explorar bem os processos, o que levou a certo tipo de acontecimentos, a cada organização ou estratificação da sociedade, a certa definição do que está certo ou errado, do que é melhor ou pior, etc.. Só assim podemos ultrapassar os preconceitos estabelecidos que nos prendem e nos limitam o raciocínio e a acção sobre as pessoas e o mundo. A ficção especulativa de grande qualidade sempre teve esse papel, seja a ficção científica futurista ou espacial, seja a ficção histórica, seja a distópica, e neste contexto o steampunk tem um papel especial por se localizar temporalmente num momento da nossa história do qual conhecemos muito do que correu bem e mal, do que aconteceu antes, durante e depois, e acima de tudo, porque é muito claro o sistema de valores e moralidade vigente na altura o que torna mais fácil jogar com tudo isto ou tentar prever as consequências de alterar algum factor. Desde a igualdade de direitos entre os sexos e raças, da importância de cada indivíduo se submeter ao que a sociedade lhe força ou pelo contrário seguir o seu próprio caminho contra tudo o que é suposto, ao valor do e segurança no trabalho e à dependência crescente da sociedade de fontes de energia específicas e muito mais, são várias as situações que uma obra steampunk pode usar para nos dar food for thought. Claro que nenhuma obra trata tudo isto, e alguns livros supostamente steampunk fazem pouco mais que incluir um herói e um cientista maluco com máquinas a vapor, mas são estas possibilidades que me mantém interessado no género literário.

Explicado que está o meu gosto pelo steampunk como temática, percebe-se porque me senti aliciado a ajudar as minhas amigas com o seu projecto de criar uma comunidade steampunk portuguesa e preparar a participação do nosso país na EuroSteamCon, uma convenção internacional multicêntrica simultânea. Se inicialmente a minha oferta de ajuda foi algo genérica, acabei por me tornar parte integrante da equipa, junto com a Sofia Romualdo, a Joana Lima e o Rogério Ribeiro. A princípio a minha ideia era ajudar com o blog, escrever sobre livros, séries, jogos, notícias, mas de repente dei por mim a filmar uma webseries sobre obras steampunk (ver links abaixo) e a ficar responsável pelo tumblr onde partilhamos trabalhos que se integram no género. Como se isto não chegasse, ainda conseguimos decidir que a nossa participação na EuroSteamCon - ainda que a primeira e apesar da inexperiência da maior parte da equipa - seria uma convenção propriamente dita, com direito a dois dias de programação. Parece que isto chegaria para ocupar o que resta do nosso tempo livre (em especial considerando que a minha participação se cinge às horas livres após emprego oficial) e da nossa margem de manobra financeira (patrocínios em € = 0) mas na verdade não ficámos por aqui. Decidimos preparar para este momento um Almanaque Steampunk, para o qual aceitámos trabalhos submetidos por qualquer pessoa no final de Julho e primeira quinzena de Agosto. A escolha dos textos, preparação das nossas próprias participações, edição e afins tarefas ocuparam muito mais tempo e deram muito mais trabalho do que o que eu esperava (e lembrar que foi neste momento que, no contexto de fazer o trabalho de design para o almanaque, conseguimos mais uma colaboradora, a Joana Maltez), mas tenho que admitir que ter o livro na mão e depois lança-lo na convenção me deu uma sensação de realização pessoal raramente atingida noutras situações. A EuroSteamCon - Porto, que tivemos o prazer de realizar no Parnaso, foi um desses momentos: os convidados foram fenomenais, tivemos casa cheia nos dois dias e a interacção com as pessoas foi fantástica. Temos o hábito de falar do quanto "outras pessoas" conseguem fazer, de quantas coisas acontecem "noutro lugar" e de repente provámos a nós próprios que mesmo sem apoio monetário, mesmo a começar do nada, com esforço e dedicação algumas coisas são possíveis. Tenho que dizer claramente que não estou com isto a tentar glorificar o trabalho voluntário, aliás a minha experiência permite-me afirmar com facilidade que um projecto como este com pessoas remuneradas, com horas dedicadas e fundo de maneio correria ainda melhor, tanto para os organizadores como para os participantes. Mas olhando para o que conseguimos, para os projectos de que fiz parte ao longo deste ano, só posso sentir orgulho.

Para quem quiser saber mais sobre tudo isto:


 - Tumblr (o meu novo trabalho a tempo inteiro :)

 - Diários Steampunk (a tal webseries)

 - Almanaque Steampunk (ler, ler!)


Por fim, há mais um motivo para eu não ter tempo para escrever no blog: agora tenho dois gatos, um que dorme em cima de mim quando estou ao computador ou então tenta trepar cortinas e outro que só se estiver a dormir é que para de por a minha casa em perigo de precisar de um "Extreme Makeover".

Wednesday, 6 June 2012

Skottie Young

I'm a sucker for graphic art. I love drawings, paintings, graphic design, etc.. I usually lurk at deviantART, 500px and a variety of blogs or websites just looking at some wonderful stuff people put online.
Today I felt I needed to talk about one artist in special, Skottie Young. I've known him for quite a while for his work in comics, having read X-Men: Divided We StandMagneto: Not a Hero and checked some of his Darkstalkers and Street Fighter illustrations. The man can draw, and the man can write.

Nowadays I pay more attention to what he posts on his site or his dA account and it's just amazing. I usually have to stop myself from flooding my favourites list with his work. Not only does he have an original style, completely unmistakeable, he also achieves some beautiful and meaningful illustrations of a lot - and I mean a lot - of characters and concepts. His daily sketches, posted on his blog, sometimes thematic, others by request, are so surprising, funny, witty and overall really awesome, that I could just keep featuring them here. But well, I think it might be better for you to just go check it out: www.skottieyoung.com. Not only is his drawing style that good, he also has a really cool sense of colour use. A good example is his Mind the Gap cover (above).
Obviously, his work on the L. Frank Baum's Land of Oz with Eric Shanower is on my to read list. If only I had more time and money!

I leave you with yet another example of how fun Skottie can be:


















Enjoy!


Wednesday, 16 May 2012

Beasts of Burden - Animal Rites by Evan Dorkin and Jill Thompson

This book was recommended to me by a friend and I'd like to start by thanking him. Beasts of Burden was totally worth it and I'd keep on reading if only there was more of it in my shelves. This comment was wrote a few months ago but I decided to come back to it to try and recall what I feel about it now and publish it here.
Now to speak of the book itself, I'll start by saying this isn't your everyday children's fable, far from it, and for me that's the first good thing about it. And to think it all started as a short story for The Dark Horse Book of Hauntings. To give you a short and as unpoiling as possible description of Beasts of Burden - Animal Rites, it's about a group of dogs and one cat that live on Burden Hill, talk to each other like regular friends and before long are running from and fighting the likes of witches, zombies and other typical horror stories' creatures. And yes, there are wise magical dogs and the witches have black cat familiars. While you follow them on these adventures, the author takes you on a tour about friendship, heroism and self-preservation, racism, responsability and dealing with consequences and suffering. Of course, these themes are only slightly explored in so little time, but you can feel the potential of this set-up. Then there are details that make the reading experience so much better: the personalities matching the species, races and even names of the characters, the chapters' names reminding you of famous fantasy or horror books - "Something whiskered this way comes" - the way they all talk about humans, the fact that they have their own religion and much more. 
If Evan Dorkin did his job well, what can I say of Jill Thompson? The illustration makes the story work, but more than that, sometimes you just feel like checking the artwork for itself, some pages are literally out of this world. Even the lettering here was perfectly adapted to the context and the drawing.
All in all an awesome book, recommended for all who don't mind talking cats and dogs of fun and games. Just don't let young children read it before bedtime or you might be in for a rough night. Give it to them the next day and be sure to check it out yourself beforehand, you won't regret it!

Monday, 23 April 2012

The Hunger Games by Suzanne Collins

Ladies and gentlemen, I proudly present humanity.
Well, proudly might be precisely the wrong word to use here, but there you have it, The Hunger Games is a bold and downright wounding depiction of what human society is. The fiction just makes it possible to have some kind of fun while taking it all in. I read up to the 8th chapter of Suzanne Collins' book before I went to the film première and then read the rest as fast as I could. I'll start by stating that the film is worth on its own as a dystopian future based story. The characters are believable and you can't help relating with some and hating others with every cell in your body. Anyone who has heard about it will already know that Jennifer Lawrence was awesome playing Katniss, so I'll just add that the rest of the cast was at least as good. Of note are Stanley Tucci and Elizabeth Banks who, with the help of an amazing production, went above and beyond to become the horrible representatives of the dumb consumer TV-educated population.
Now to talk about the plot I'll essentially report to the book, because as usual its thicker and better developed there than it could possibly be in little more than two hours of film. Suzanne starts by presenting Katniss, the character that the reader will follow throughout the story, seeing that it is told always from her point of view. The reader knows what she knows, when she finds it out which adds to the overall credibility of the storytelling. The fact that the author was so effective creating a teenager Katniss means that I often felt like I was way ahead of her in terms of understanding the workings of her own world, but this is in itself another compliment to Suzanne Collins. The story then grows towards presenting her family, neighbours, district and the whole of Panem. This is a country that, after a ravaging war, has lived almost 75 years under an authoritarian government centralized in one of its regions, the Capitol. The rest of the country is divided in twelve districts, distinct in their purpose (for example 12 is where coal is mined, 11 is where most of the food is grown, etc.) and kept separated with no communication so that each district's people have little knowledge of what goes on in others. The population is kept under control by the usual measures but also by an annual event that reminds everyone of how far the Capitol will go to keep its grip on power, the Hunger Games. To this effect, two children of each of the twelve districts are picked (or offer themselves) and taken to an arena where they are supposed to fight for survival until there is only one alive. This victor becomes one of the richest people in his district and a mentor to the next tribute children in the games to come.
If this is a good starting point and defines a typical dystopian young adult book, the skill of the author and the things she inserts into the plot and the descriptions of the events around this teenager makes this a good read for anyone far beyond early adulthood. This world is truly believable, the politics, the social interactions, the personal expectations, the feelings, everything seems real and this sensation grows towards the end of the story, in the third book.

In Catching Fire, the second book in the series, the reader is shown the extent of the Capitol's power but also more detail about how life is in other districts and, as one expected ever since learning about Panem, how likely a revolution is. After The Hunger Games, I was a bit tired of being inside the mind of a teenage girl, and one who up to now has lived in such a closed world she is still childish at times. But actually this is because the author was so good at creating a teenager in a dystopian world, avoiding those unbelievably mature decisions or  premeditated heroic deeds out of nowhere the so typically spoil these stories for me. This book has a different pace and though some parts are surprisingly similar to the first one, it ends up being a means to let the reader know more about the overall situation but also to let the characters grow and their relationships to develop and even to bring some new important people to the picture. It's as well written as the first one so if you liked The Hunger Games you won't be in for a big let down and the cliffhanger had me pick up the next book right away.

Finally to speak of Mockingjay, the grand finale. This was for me, undoubtedly, the best book in the series, not because it ties up loose ends, not because of the ending itself, but because Suzanne Collins perfected her writing and the way she led the story allowed her to create moments when you can't stop reading, you almost can't breath, your skin has goosebumps, your heart races but you just have to keep reading. It took me two nearly sleepless nights to finish Mokingjay. I believe that if I didn't have to go to work I'd have skipped sleeping all together to keep on reading. This is a book (and avoid these SPOILERS if you haven't read it) where you are presented to the true hardship of being part of a revolution and waging a war against a system like this. People die, decisions that lead to murder are made, friends die, people are manipulated, manoeuvres to achieve power are intermingled with the revolution effort. Yes, reading about people fighting against the authoritarian government felt good. But what felt amazing was how I suffered through it with Katniss. Because I'm sick and tired of storytelling where revolutions are shown as a soft breeze that blows the pollution away. War is bad either way, even when its purpose is good, even if you are fighting for basic rights, for freedom, for lives, the war will be bad. And even when surrounded by the very people who stemmed a revolution, one should always remember that one of them might be waiting to replace the leader instead of replacing the system and might use everything and everyone he can in his own game. Again I should compliment the author on the rest of the characters. People in this story seem real, they sometimes do what you expect, other times surprise you completely, some are more intuitive, others are stupid and others yet are downright mad. As a last note, and because this is presented as a young adult book, I have to make a reference to the romance. Yes, in the middle of this, just as in real life, there is romance and yes, it develops as the story goes right up to the very end but it is by no means the main focus of the storytelling or even the drive behind the events as one might be used to in other books referred to as young adult literature.

From The Hunger Games to Mockingjay, Suzanne Collins reminds us that the world is a board, that politics are chess, that pawns are sacrificed, people are really knocked over in plays for power but that in the end, victory is possible and some fights might be needed to transform society into a better place for us.