Tuesday, 27 November 2012

Lusitânia - Número 1


Comprei a Lusitânia no dia do seu lançamento, no Fórum Fantástico 2012, e li-a quase de uma assentada só. Trata-se, no fundo, duma pequena antologia de contos que não só se localizam geograficamente em Portugal como pretendem explorar a mitologia e cultura típicas do país. Na maioria dos casos os contos que a constituem contribuem para a sensação geral de que se está a ler sobre Portugal e os portugueses, se não os reais, pelo menos o país ou o povo que podem ou poderiam ser, dado se tratar de ficção especulativa.

Quanto à edição em geral há algumas coisas que merecem referência. A opção de colocar um padrão de fundo nas páginas de cada conto e que varia de um para outro, de certa forma individualizando cada história, parece-me uma ideia interessante, contribui até para a atmosfera que o conjunto cria, mas em dois casos - "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" e "A Cidade das Luzes" - o padrão foi demasiado forte ou confuso prejudicando a leitura do texto. Uma outra questão, a melhorar em posteriores edições ou números, foi a existência de erros ortográficos ou de edição, destacando aqui o conto "Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata", de todos o único cuja leitura foi afectada significativamente por este facto. Outra situação que me parece de relevo, da qual me parece que muitos trabalhos deste tipo sofrem, é a grande diferença de qualidade entre os vários textos. Não sei se isto se deve à falta de submissões de qualidade, se à vontade de cumprir uma certa deadline, se é somente uma questão de perspectiva e opinião pessoal, mas vejo isto em muitas antologias e revistas.

Quanto aos contos em si, vou tentar fazer-lhes justiça comentando-os individualmente.
"Sonhos Numa Noite de Natal" de Marcelina Leandro é uma história pequena e simples que traz consigo uma ideia muito interessante sobre o mundo dos sonhos e a previsão do futuro que sem dúvida merece ser explorada num texto maior e mais elaborado para atingir o seu potencial.
"Vinho Fino" de Inês Montenegro é na minha opinião o melhor conto desta Lusitânia. O conceito já sobejamente utilizado de alienígenas parasitas tem aqui uma visão refrescante, com uma escrita e um contexto diferentes dos da ficção científica "habitual" e que me deixaram com vontade de ler mais, tanto desta história como da sua autora.
"Como Portugal foi salvo pelos Pastéis de Nata" de Catarina Lima é para mim o pior dos contos incluídos o que não se deve somente aos erros acima referidos, mas essencialmente a uma história que parece forçada e mal desenvolvida. Se a ideia na qual se baseia é interessante: as bruxas a voar nas suas vassouras Portugal fora, uma Hogwarts / Brakebills no Chiado e até um mercado mágico no Martim Moniz, o enredo e a cadência da escrita não envolvem o leitor, pelo que acabei por dar comigo a ler alguns parágrafos "na diagonal".
"A Guerra do Fogo" por Nuno Almeida é um conto de especulação fantástica e histórica - como o próprio nome indica - em simultâneo, que está bastante bem imaginado e escrito e que cumpre à medida as intenções anunciadas da Lusitânia. Como única crítica negativa poderia apontar talvez o desenvolvimento lento da história relativamente ao enredo que traz.
"A Cidade das Luzes" deixou-me algo confuso. É um conto eminentemente visual, que nos pede para visualizar cada cena (perdoem-me o pleonasmo) e fazer um filme imaginado com o enredo que nos é entregue, algo que destaco como a sua melhor característica. Infelizmente o enredo nem sempre consegue manter o interesse, é uma distopia à qual falta mais contexto para se tornar credível e nos fazer esquecer a estranheza de imaginar luzes/cores sair do peito das pessoas em direcção aos céus. Por um lado, a ideia da investigação do tratamento do daltonismo em macacos, ainda que dê alguma explicação, aparentemente assumindo o texto como típica ficção científica, não consegue dar à história toda a verosimilhança que necessitaria. Por outro lado cansa esta comum associação da emoção ao peito, ao coração, aqui referida pela forma como as luzes saem do corpo, ainda por cima em direcção aos céus, que corresponde decerto mais a um problema pessoal do que a falta de qualidade do conto em si.
"A Passagem Uivante" de Pedro Cipriano é uma história breve mas arrepiante que lembra o leitor que por detrás das máquinas de guerra estão pessoas que muitas vezes levam pouco mais que ordens e instinto de sobrevivência, sem saber as reais motivações da sua liderança para arriscar as suas vidas e as dos inimigos naquele momento ou naquela situação. Isto é particularmente verdade dos cidadãos de países sujeitos a sistemas totalitários para os quais a única liberdade, ainda que relativa, pode ser, quando muito, a de escolher a hora da morte.

Lusitânia afigura-se assim um projecto que se distingue por se afirmar português não só na autoria, mas na temática em si, dando oportunidade a vários autores de mostrar o que valem na ficção especulativa curta e na exploração da nossa história, da nossa mitologia, da nossa cultura, no fundo, de parte do que nos dá uma identidade colectiva. Os meus parabéns pela iniciativa e pelo resultado final, fica aqui o meu desejo de que continue, que melhore sempre, e que para a próxima seja maior! O entusiasmo da equipa, em especial do Carlos Silva com quem falei mais proximamente, permite-me acreditar que assim será.

Em jeito de disclaimer devo informar que participei neste número através da Clockwork Portugal que teve a oportunidade de contribuir com um pequeno texto em jeito de referência ao nosso trabalho.

Tuesday, 20 November 2012

American History X by Tony Kaye

Este filme explora um tema muito importante mas igualmente complexo. Diria que é provavelmente impossível tratar tudo o que há para tratar quanto ao racismo, às suas raízes, às motivações das pessoas para agir e nesse sentido para agir de determinada forma ou doutra. 
Em American History X - em português América Proibida - a história é contada do ponto de vista de um neo-nazi essencialmente em três momentos da sua vida, aquele em que se torna líder de um grupo de jovens racistas - skin heads - até ao ponto em que é preso, o seu tempo na prisão em que vai mudando de atitude e finalmente a saída, após três anos, em liberdade condicional, quando tenta salvar o seu irmão de percorrer o mesmo caminho e proteger a família. A progressão temporal não é linear o que de certa forma aumenta o valor e o interesse de cada parte da história. Esta personagem principal, Derek Vineyard - interpretada genialmente por Edward Norton -, está muito bem desenvolvida e permite uma observação interessante do pensamento e da dialéctica racista. A sua progressão ao longo da história é credível e chama à atenção para comportamentos que é importante conhecer e analisar como o são a liderança e o recrutamento de membros para o seu gang/exército. As restantes personagens têm um papel puramente de suporte, fornecendo o contexto e algumas motivações para o que Derek vai pensando e fazendo, não passando em si mesmas de simples clichés.
De notar que o filme mostra muita violência, por vezes ao ponto de dar vontade de virar a cara ou tapar os olhos, mas que sem dúvida faz sentido nesta história e nesta temática, de forma que em momento algum senti que fosse gratuita ou exagerada.
O meu maior problema com América Proibida consiste nas justificações das mudanças de Derek, demasiado simplistas e típicas, primeiro a morte do pai que parece ser a força motriz para os comportamentos racistas iniciais, depois o seu sofrimento e vontade de proteger a família que o fazem mudar de atitude e criticar as suas acções anteriores e aqueles que assim continuam. Há no entanto duas situações a este nível que merecem destaque pela positiva, tanto pela forma credível como foram apresentadas como pelo interesse para a temática do racismo e dos gangs: a relação de amizade que Derek consegue estabelecer com um prisioneiro negro e a figura de Cam, um nazi mais velho que influencia nos bastidores a criação e gestão destes exércitos de skin heads.
Assim, considero American History X um muito bom filme, daqueles que vale a pena ver, rever e deixar-se ficar a pensar.

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This is a film that tries to tackle a very important but also very complex issue. It's probably impossible to handle all of what can be said on racism, on why people feel it, on why they act on it and how they choose how they act.
In American History X, we are shown the point of view of a neo-nazi. We are shown, in a non linear time scrambling way, his change first towards neo-nazism, then his slow and doubtful turning back from it. I think the main character was well built - Edward Norton is marvellous as Derek Vineyard - and the depiction of the racist thought and dialectic are well put. The rest of the characters are mostly supportive, providing context and motive for the main one, showing nothing beyond the clichés. Derek's transformation into a leader and his recruitment process in order to organize his gang/army were also well developed. There is also a lot of violence in the film, sometimes making you really want to turn your face from the screen, but by no means over the top or beyond what makes sense in this context.
My biggest grudge with American History X are the reasons given for Derek's actions, far too simple and typical, the father killed driving him towards racism and then his own suffering and the will to protect his family causing his repent and changed behaviour. The two good things here are the development of a friendly relationship between him and a black man in prison and the noted smooth background influence of an older nazi first on him and then his brother.
All in all a very good film, worth rewatching and thinking about for a while.

Monday, 19 November 2012

Steampunk and Clockwork Portugal or the story of where I've been all this time

Como acontece ciclicamente comigo, mais uma vez passei uma temporada sem produzir conteúdo para o blog. Não que não tenha o que dizer ou vontade de escrever no blog, mas porque o tempo é pouco, a capacidade de concentração é esgotada pelo trabalho e porque há novos projectos a ocupar o que resta de ambos. É disso que decidi falar desta feita, porque este ano tem sido marcado pela minha participação num projecto que envolveu outro blog, um tumblr, uma webseries e uma convenção: a Clockwork Portugal - uma comunidade portuguesa dedicada ao steampunk em todas as suas vertentes.

Nesse sentido, parece-me útil começar por falar do steampunk, mas não me proponho fazer uma definição absoluta ou uma listagem exaustiva do que a ele pertence, somente focar-me no que eu procuro ou no que me promete o steampunk. Apesar de ser fã de ficção especulativa, tanto na literatura como no cinema ou nos jogos, desconhecia o steampunk como género até há bem pouco tempo. Há no entanto elementos tipicamente explorados nos trabalhos que nele se inserem que me interessam particularmente, nomeadamente o impacto na sociedade do desenvolvimento tecnológico e a alteração dos valores e costumes sociais desenvolvida a partir de um contexto extremo como é o do mundo da revolução industrial, do império britânico vitoriano, do declínio do escravagismo, da emancipação da mulher, não só pelo interesse histórico autocrítico e pela exploração do que é ou tem sido a humanidade, mas também pelo paralelismo com o que vivo e vejo na sociedade contemporânea. Aquilo que torna o steampunk reconhecidamente distinto dos restantes tipos de ficção especulativa não é, no entanto, nada disto, mas sim o facto da tecnologia explorada ser a do vapor e das engrenagens. É talvez por esta característica que o steampunk é hoje muito conhecido, associando-se a um autêntico movimento estético, grupos de cosplayers e roleplayers (aqui também a importante influência da roupa e costumes da Inglaterra vitoriana, claro), desenho, pintura, jogos e até um revivalismo das máquinas a vapor ou a corda, das engrenagens visíveis, dos metais não pintados. É importante referir que isto ultrapassa o aspecto estético, havendo vários criadores que trabalham novamente com esta tecnologia para obter gadgets que funcionantes num espirito do-it-yourself que tem estado muito associado ao movimento steampunk. Uma das características importantes da tecnologia da era do vapor, que lhe permite ocupar este lugar de destaque, é o facto de se localizar claramente, do ponto de vista dos leigos, na distinção entre a ciência e a magia. Aliás, tal como Arthur C. Clarke disse no Profiles of the Future"any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic" e de facto nunca mais, desde ultrapassada a era do vapor, nós pudemos dizer que percebemos bem o funcionamento das máquinas das quais o nosso dia a dia e a nossa sociedade dependem. Talvez seja também por isso que nas obras steampunk se vê frequentemente um cruzamento entre a ficção científica e fantasia com feitiçaria, demónios ou monstros, normalmente em conflito uns com os outros. Sendo este um dos tais elementos que me estimula a procurar trabalhos deste género, o outro não menos importante é o facto de permitir explorar e questionar os costumes, a moral, o que é suposto ser ou fazer, o tradicional "tem que ser". O tal espírito autocrítico, de repensar a sociedade e a humanidade, em especial no que toca a estas temáticas, é algo que não só me interessa como me parece de especial utilidade na nossa evolução. Não chega saber a história, não chega aprender com o que aconteceu, é importante explorar bem os processos, o que levou a certo tipo de acontecimentos, a cada organização ou estratificação da sociedade, a certa definição do que está certo ou errado, do que é melhor ou pior, etc.. Só assim podemos ultrapassar os preconceitos estabelecidos que nos prendem e nos limitam o raciocínio e a acção sobre as pessoas e o mundo. A ficção especulativa de grande qualidade sempre teve esse papel, seja a ficção científica futurista ou espacial, seja a ficção histórica, seja a distópica, e neste contexto o steampunk tem um papel especial por se localizar temporalmente num momento da nossa história do qual conhecemos muito do que correu bem e mal, do que aconteceu antes, durante e depois, e acima de tudo, porque é muito claro o sistema de valores e moralidade vigente na altura o que torna mais fácil jogar com tudo isto ou tentar prever as consequências de alterar algum factor. Desde a igualdade de direitos entre os sexos e raças, da importância de cada indivíduo se submeter ao que a sociedade lhe força ou pelo contrário seguir o seu próprio caminho contra tudo o que é suposto, ao valor do e segurança no trabalho e à dependência crescente da sociedade de fontes de energia específicas e muito mais, são várias as situações que uma obra steampunk pode usar para nos dar food for thought. Claro que nenhuma obra trata tudo isto, e alguns livros supostamente steampunk fazem pouco mais que incluir um herói e um cientista maluco com máquinas a vapor, mas são estas possibilidades que me mantém interessado no género literário.

Explicado que está o meu gosto pelo steampunk como temática, percebe-se porque me senti aliciado a ajudar as minhas amigas com o seu projecto de criar uma comunidade steampunk portuguesa e preparar a participação do nosso país na EuroSteamCon, uma convenção internacional multicêntrica simultânea. Se inicialmente a minha oferta de ajuda foi algo genérica, acabei por me tornar parte integrante da equipa, junto com a Sofia Romualdo, a Joana Lima e o Rogério Ribeiro. A princípio a minha ideia era ajudar com o blog, escrever sobre livros, séries, jogos, notícias, mas de repente dei por mim a filmar uma webseries sobre obras steampunk (ver links abaixo) e a ficar responsável pelo tumblr onde partilhamos trabalhos que se integram no género. Como se isto não chegasse, ainda conseguimos decidir que a nossa participação na EuroSteamCon - ainda que a primeira e apesar da inexperiência da maior parte da equipa - seria uma convenção propriamente dita, com direito a dois dias de programação. Parece que isto chegaria para ocupar o que resta do nosso tempo livre (em especial considerando que a minha participação se cinge às horas livres após emprego oficial) e da nossa margem de manobra financeira (patrocínios em € = 0) mas na verdade não ficámos por aqui. Decidimos preparar para este momento um Almanaque Steampunk, para o qual aceitámos trabalhos submetidos por qualquer pessoa no final de Julho e primeira quinzena de Agosto. A escolha dos textos, preparação das nossas próprias participações, edição e afins tarefas ocuparam muito mais tempo e deram muito mais trabalho do que o que eu esperava (e lembrar que foi neste momento que, no contexto de fazer o trabalho de design para o almanaque, conseguimos mais uma colaboradora, a Joana Maltez), mas tenho que admitir que ter o livro na mão e depois lança-lo na convenção me deu uma sensação de realização pessoal raramente atingida noutras situações. A EuroSteamCon - Porto, que tivemos o prazer de realizar no Parnaso, foi um desses momentos: os convidados foram fenomenais, tivemos casa cheia nos dois dias e a interacção com as pessoas foi fantástica. Temos o hábito de falar do quanto "outras pessoas" conseguem fazer, de quantas coisas acontecem "noutro lugar" e de repente provámos a nós próprios que mesmo sem apoio monetário, mesmo a começar do nada, com esforço e dedicação algumas coisas são possíveis. Tenho que dizer claramente que não estou com isto a tentar glorificar o trabalho voluntário, aliás a minha experiência permite-me afirmar com facilidade que um projecto como este com pessoas remuneradas, com horas dedicadas e fundo de maneio correria ainda melhor, tanto para os organizadores como para os participantes. Mas olhando para o que conseguimos, para os projectos de que fiz parte ao longo deste ano, só posso sentir orgulho.

Para quem quiser saber mais sobre tudo isto:


 - Tumblr (o meu novo trabalho a tempo inteiro :)

 - Diários Steampunk (a tal webseries)

 - Almanaque Steampunk (ler, ler!)


Por fim, há mais um motivo para eu não ter tempo para escrever no blog: agora tenho dois gatos, um que dorme em cima de mim quando estou ao computador ou então tenta trepar cortinas e outro que só se estiver a dormir é que para de por a minha casa em perigo de precisar de um "Extreme Makeover".

Wednesday, 6 June 2012

Skottie Young

I'm a sucker for graphic art. I love drawings, paintings, graphic design, etc.. I usually lurk at deviantART, 500px and a variety of blogs or websites just looking at some wonderful stuff people put online.
Today I felt I needed to talk about one artist in special, Skottie Young. I've known him for quite a while for his work in comics, having read X-Men: Divided We StandMagneto: Not a Hero and checked some of his Darkstalkers and Street Fighter illustrations. The man can draw, and the man can write.

Nowadays I pay more attention to what he posts on his site or his dA account and it's just amazing. I usually have to stop myself from flooding my favourites list with his work. Not only does he have an original style, completely unmistakeable, he also achieves some beautiful and meaningful illustrations of a lot - and I mean a lot - of characters and concepts. His daily sketches, posted on his blog, sometimes thematic, others by request, are so surprising, funny, witty and overall really awesome, that I could just keep featuring them here. But well, I think it might be better for you to just go check it out: www.skottieyoung.com. Not only is his drawing style that good, he also has a really cool sense of colour use. A good example is his Mind the Gap cover (above).
Obviously, his work on the L. Frank Baum's Land of Oz with Eric Shanower is on my to read list. If only I had more time and money!

I leave you with yet another example of how fun Skottie can be:


















Enjoy!


Wednesday, 16 May 2012

Beasts of Burden - Animal Rites by Evan Dorkin and Jill Thompson

This book was recommended to me by a friend and I'd like to start by thanking him. Beasts of Burden was totally worth it and I'd keep on reading if only there was more of it in my shelves. This comment was wrote a few months ago but I decided to come back to it to try and recall what I feel about it now and publish it here.
Now to speak of the book itself, I'll start by saying this isn't your everyday children's fable, far from it, and for me that's the first good thing about it. And to think it all started as a short story for The Dark Horse Book of Hauntings. To give you a short and as unpoiling as possible description of Beasts of Burden - Animal Rites, it's about a group of dogs and one cat that live on Burden Hill, talk to each other like regular friends and before long are running from and fighting the likes of witches, zombies and other typical horror stories' creatures. And yes, there are wise magical dogs and the witches have black cat familiars. While you follow them on these adventures, the author takes you on a tour about friendship, heroism and self-preservation, racism, responsability and dealing with consequences and suffering. Of course, these themes are only slightly explored in so little time, but you can feel the potential of this set-up. Then there are details that make the reading experience so much better: the personalities matching the species, races and even names of the characters, the chapters' names reminding you of famous fantasy or horror books - "Something whiskered this way comes" - the way they all talk about humans, the fact that they have their own religion and much more. 
If Evan Dorkin did his job well, what can I say of Jill Thompson? The illustration makes the story work, but more than that, sometimes you just feel like checking the artwork for itself, some pages are literally out of this world. Even the lettering here was perfectly adapted to the context and the drawing.
All in all an awesome book, recommended for all who don't mind talking cats and dogs of fun and games. Just don't let young children read it before bedtime or you might be in for a rough night. Give it to them the next day and be sure to check it out yourself beforehand, you won't regret it!

Monday, 23 April 2012

The Hunger Games by Suzanne Collins

Ladies and gentlemen, I proudly present humanity.
Well, proudly might be precisely the wrong word to use here, but there you have it, The Hunger Games is a bold and downright wounding depiction of what human society is. The fiction just makes it possible to have some kind of fun while taking it all in. I read up to the 8th chapter of Suzanne Collins' book before I went to the film première and then read the rest as fast as I could. I'll start by stating that the film is worth on its own as a dystopian future based story. The characters are believable and you can't help relating with some and hating others with every cell in your body. Anyone who has heard about it will already know that Jennifer Lawrence was awesome playing Katniss, so I'll just add that the rest of the cast was at least as good. Of note are Stanley Tucci and Elizabeth Banks who, with the help of an amazing production, went above and beyond to become the horrible representatives of the dumb consumer TV-educated population.
Now to talk about the plot I'll essentially report to the book, because as usual its thicker and better developed there than it could possibly be in little more than two hours of film. Suzanne starts by presenting Katniss, the character that the reader will follow throughout the story, seeing that it is told always from her point of view. The reader knows what she knows, when she finds it out which adds to the overall credibility of the storytelling. The fact that the author was so effective creating a teenager Katniss means that I often felt like I was way ahead of her in terms of understanding the workings of her own world, but this is in itself another compliment to Suzanne Collins. The story then grows towards presenting her family, neighbours, district and the whole of Panem. This is a country that, after a ravaging war, has lived almost 75 years under an authoritarian government centralized in one of its regions, the Capitol. The rest of the country is divided in twelve districts, distinct in their purpose (for example 12 is where coal is mined, 11 is where most of the food is grown, etc.) and kept separated with no communication so that each district's people have little knowledge of what goes on in others. The population is kept under control by the usual measures but also by an annual event that reminds everyone of how far the Capitol will go to keep its grip on power, the Hunger Games. To this effect, two children of each of the twelve districts are picked (or offer themselves) and taken to an arena where they are supposed to fight for survival until there is only one alive. This victor becomes one of the richest people in his district and a mentor to the next tribute children in the games to come.
If this is a good starting point and defines a typical dystopian young adult book, the skill of the author and the things she inserts into the plot and the descriptions of the events around this teenager makes this a good read for anyone far beyond early adulthood. This world is truly believable, the politics, the social interactions, the personal expectations, the feelings, everything seems real and this sensation grows towards the end of the story, in the third book.

In Catching Fire, the second book in the series, the reader is shown the extent of the Capitol's power but also more detail about how life is in other districts and, as one expected ever since learning about Panem, how likely a revolution is. After The Hunger Games, I was a bit tired of being inside the mind of a teenage girl, and one who up to now has lived in such a closed world she is still childish at times. But actually this is because the author was so good at creating a teenager in a dystopian world, avoiding those unbelievably mature decisions or  premeditated heroic deeds out of nowhere the so typically spoil these stories for me. This book has a different pace and though some parts are surprisingly similar to the first one, it ends up being a means to let the reader know more about the overall situation but also to let the characters grow and their relationships to develop and even to bring some new important people to the picture. It's as well written as the first one so if you liked The Hunger Games you won't be in for a big let down and the cliffhanger had me pick up the next book right away.

Finally to speak of Mockingjay, the grand finale. This was for me, undoubtedly, the best book in the series, not because it ties up loose ends, not because of the ending itself, but because Suzanne Collins perfected her writing and the way she led the story allowed her to create moments when you can't stop reading, you almost can't breath, your skin has goosebumps, your heart races but you just have to keep reading. It took me two nearly sleepless nights to finish Mokingjay. I believe that if I didn't have to go to work I'd have skipped sleeping all together to keep on reading. This is a book (and avoid these SPOILERS if you haven't read it) where you are presented to the true hardship of being part of a revolution and waging a war against a system like this. People die, decisions that lead to murder are made, friends die, people are manipulated, manoeuvres to achieve power are intermingled with the revolution effort. Yes, reading about people fighting against the authoritarian government felt good. But what felt amazing was how I suffered through it with Katniss. Because I'm sick and tired of storytelling where revolutions are shown as a soft breeze that blows the pollution away. War is bad either way, even when its purpose is good, even if you are fighting for basic rights, for freedom, for lives, the war will be bad. And even when surrounded by the very people who stemmed a revolution, one should always remember that one of them might be waiting to replace the leader instead of replacing the system and might use everything and everyone he can in his own game. Again I should compliment the author on the rest of the characters. People in this story seem real, they sometimes do what you expect, other times surprise you completely, some are more intuitive, others are stupid and others yet are downright mad. As a last note, and because this is presented as a young adult book, I have to make a reference to the romance. Yes, in the middle of this, just as in real life, there is romance and yes, it develops as the story goes right up to the very end but it is by no means the main focus of the storytelling or even the drive behind the events as one might be used to in other books referred to as young adult literature.

From The Hunger Games to Mockingjay, Suzanne Collins reminds us that the world is a board, that politics are chess, that pawns are sacrificed, people are really knocked over in plays for power but that in the end, victory is possible and some fights might be needed to transform society into a better place for us.

Monday, 12 March 2012

Black Swan (2010) by Darren Aronofsky

I finally got myself some quality time to watch Black Swan and I am still overwhelmed by all it made me feel and think. It seems some people say, after watching it, that it is a film about a crazy ballerina. Well, that's at the same time quite correct and also the understatement of the decade.
Black Swan is indeed about this young girl who struggles and gets the part of swan queen on the Swan Lake ballet and then practices and transforms herself into the perfect white and black swan up until the première, when it ends. That is just the skeleton for a couple of hours where one is literally flown through the mindscape of a mentally unstable, eager but naive girl as she gets to know the black swan in her. From the very beginning one understands that Nina is an obsessed perfectionist and dances extremely well. As the story progresses that obsession turns out to be so much more, taking her - and the viewer - into the dark climax that finishes the piece and the film.
Darren Aronofsky did an awesome job with Black Swan, but I must emphasise Natalie Portman's and Mila Kunis' parts. I was left dumbfound at their amazing acting, I don't believe it could have been done any better and they deserve recognition above and beyond all the awards they won or were nominated for.

I recommend watching Black Swan to anyone who likes cinema and specially for those who like films exploring obsession, sacrifice and anguish beyond what is regularly expected.


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Finalmente consegui ver o Black Swan - Cisne Negro - e fiquei esmagado por tudo o que senti e pensei. Há quem diga que é um filme sobre uma bailarina louca e se isso é de facto verdade, não deixa de ser uma observação por demais limitada.
O Cisne Negro é um filme sobre uma rapariga que se esforça ao máximo, consegue obter o papel principal do Lago dos Cisnes e depois treina e investe toda a sua energia de forma a transformar-se no perfeito cisne branco/preto para a estreia. Isto é também simplesmente uma estrutura que é usada para nos levar numa viagem através da mente de uma rapariga instável, ávida mas ingénua, enquanto ela conhece o seu lado lunar e encarna o cisne negro. Desde o princípio do filme percebe-se que Nina, a personagem principal, é uma perfecionista obcecada e uma bailarina exímia, mas a história progride para algo mais do que uma performance, levando-nos a um clímax tenebroso com o qual acaba não só a peça, como também o filme.
O realizador foi fenomenal, e aqui gostava de comentar o excelente uso de efeitos especiais, com moderação, nos momentos certos e com a intensidade e envolvência que permitiram que fossem um complemento e não o foco do filme ou um obstáculo à sua visualização. Mas aquilo que quero acima de tudo enfatizar é o quanto me apaixonei pela actuação de Natalie Portman e Mila Kunis. Ainda estou estupefacto, não me parece haver melhores actrizes para os estes papéis nem é possível melhor performance que a delas.
Recomendaria o Black Swan a qualquer pessoa que goste de cinema, mas em especial, claro, aos que gostam de histórias em que se explora a mente humana, a obsessão, o sacrifício, a sanidade, a angústia.

Saturday, 25 February 2012

Bad Science by Ben Goldacre

I ordered Bad Science because it was recommended by Amazon.co.uk. I knew nothing about this book or Ben Goldacre before reading it but I risked it because the description and people's reviews piqued my curiosity. Right from its cover one understands the author proposes to clarify a lot of the supposedly science-based bullshit going on in the mass-media and health market nowadays. Being a recently graduated doctor does mean that I am aware of most of it already, but its still interesting both to read about it from someone who just wants to clear stuff up, explain basic statistics and expel the drama associated with most health news today and also to get to know some of the most strikingly absurd examples of such nonsense. After reading it during my vacations - which means I had the concentration and attention span needed to understand and be critical about it - I must say that Ben Goldacre nailed it. But first things first: let me talk about what's going on in the book before trying to convince anyone to read it. And here is a nice way to do it, a talk by the author at TEDGlobal 2011:



I admit he sounds a bit deranged, as he often does in the book, although there he has more space to explain, provide reference and overall be less hurried which is much more rewarding to the reader.
Bad Science - the book - includes comments on people who consistently advertise conclusions based on bad science and on some of the most reported cases of the same bad science in the media. But what I consider the true achievement of the book and the reason why I recommend it is the way the author takes from these examples and explains the scientific method applied to health issues, its benefits and its flaws and how they are exploited to take advantage of the general public and sometimes ignored by the so called science reporters. After this, the reader will be armed with enough knowledge to appraise claims of scientific proof and decide for themselves whether they are total bullshit, just not enough to believe or something to be trusted, at least enough to consult someone who has more information about them. Of note are chapters such as "Homeopathy", "The Placebo Effect", "How the Media Promote the Public Misunderstanding of Science", "Why Clever People Believe Stupid Things", "Bad Stats" and "Health Scares". To further celebrate Ben Goldacre's achievement I'll just add, as an example, that he isn't limited to telling you how the placebo effect influences the results of studies or fakes the consequences of apparently awesome treatments. That's what you can get by reading the first result of a google search on the placebo effect. He goes from there to predict how the knowledge of what generates such effect might be used in the medical practice, for example in the way health care is organized, how treatments are explained, how health care personnel talks to patients. 
His real purpose seems not only to be the disillusionment of the people who are cheated by those who take advantage of bad science but also the utilization of the knowledge gained to improve our quality of life. All in all a very informative and interesting read which deals with concepts that all people in contemporary society should master while discrediting astonishing health scares and false propaganda.
For more information on Ben Goldacre's activities or opinions check his website at http://www.badscience.net or his Bad Science column in the Guardian.


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Encomendei Bad Science após me ter sido recomendado em Amazon.co.uk. Antes deste livro não conhecia Ben Goldacre mas decidi arriscar porque a descrição no site e as críticas de outros leituras me deixaram curioso. O livro existe traduzido para língua portuguesa na colecção A Máquina do Mundo da Editorial Bizâncio com o título Ciência da Treta. Esta opinião é, no entanto, baseada na versão original pelo que não posso comentar a qualidade da tradução. O autor propõe-se a clarificar muita da conversa da treta pseudo-científica que constitui grande parte da informação sobre saúde que os media e a indústria farmacêutica (e não só) transmitem hoje em dia. O facto de ser um médico recém-formado implica que já estou familiarizado com isto, mas ainda assim pode ser muito interessante ler sobre estes temas, em especial quando escritos com a intenção de esclarecer, explicar estatística básica e desdramatizar algumas das notícias sobre saúde que enchem os meios de comunicação social hoje em dia. Li o livro durante as minha férias, pelo que, ao contrário do habitual, tinha a concentração necessária para fazer uma leitura atenta e crítica e tenho que admitir que o autor atingiu os seus objectivos. O vídeo acima é uma boa forma de se perceber a preocupação de Ben Goldacre com estes temas e e conhecer o discurso que acaba por ser aprofundado e mais bem fundamentado no livro. O autor parece algo exasperado, mais no vídeo que no livro onde se permite um tom mais explicativo e inclui referências para o que discute o que se torna mais gratificante para quem lê.
Bad Science contém comentários do autor sobre algumas personalidades que estão constantemente a anúnciar conclusões deturpadas sobre estudos científicos, alguns deles desde o princípio mal planeados ou com a intenção de produzir resultados falsos e também sobre alguns dos escândalos sobre saúde e outros casos de má comunicação científica ou pseudo-científica. Mas aquito que considero o real feito deste livro e que me faz recomenda-lo é a forma como o autor parte destes casos e explica o método científico aplicado às ciências da saúde, os benefícios e os limites da sua utilização, a forma como estes são dobrados ou ignorados pelos meios de comunicação social de forma a poderem aproveitar-se do público. Depois de Bad Science o leitor estará "armado" com conhecimento suficiente para analisar as alegações de prova científica, tão comuns em anúncios nos dias que correm, e decidir por si se não tem informação suficiente, se a que tem lhe permite perceber que não passa de exagero ou mentira ou se deve procurar alguém com conhecimento que o possa aconselhar. São de referir capítulos sobre a homeopatia, o efeito placebo, How the Media Promote the Public Misunderstanding of Science (Como a comunicação social promove a má compreensão ou interpretação da ciência), Why Clever People Believe Stupid Things (Porquê que pessoas inteligentes acreditam em coisas estúpidas), Bad Stats (estatísticas mal utilizadas) e Health Scares (sustos sobre saúde). Para louvar ainda mais este livro resta-me falar um pouco, a título de exemplo, do que Ben Goldacre diz sobre o efeito placebo. Não se limita a mostrar que influencia o resultado dos estudos ou que pode ser usado intencionalmente para criar supostos resultados positivos em relação a determinados tratamentos, para saber isso basta uma simples pesquisa no Google. O autor procede daí para prever ou propor melhoramentos das práticas em saúde a partir do que se conhece do efeito placebo, nomeadamente na organização dos serviços de saúde, na forma como se propõem e explicam tratamentos e em geral na maneira como os profissionais falam com os pacientes.
O real propósito deste livro parece ser não só desenganar aqueles que são constantemente iludidos por quem se aproveita desta dita ciência da treta mas também usar este conhecimento como for possível para melhorar sempre a nossa qualidade de vida. Torna-se assim numa leitura informativa e interessante que lida com conceitos que deviam ser dominados por toda a gente hoje em dia.
Para mais informações sobre o autor pode sempre visitar-se o seu website em http://www.badscience.net e  ele continua a publicar as suas opiniões na crónica do mesmo nome no jornal britânico the Guardian.

Sunday, 22 January 2012

All kinds of mind, knowledge and perception

The world seems to be going towards a reality where people have to be and/or become precisely what the society expects of them if they have any hope of living beyond basic needs. Living in western society is becoming more and more expensive and the states are no longer spending money on anything beyond what they consider fundamental for most people (except when the decision makers benefit themselves, but that's a whole other discussion). The thing is, in a world where only the regular people, the ones considered normal, the ones who need nothing special to thrive can really thrive, humanity as a whole won't. People with different kinds of perception, knowledge, minds will not only be put aside, they will also stop contributing to progress. The two following TED talks illustrate this very well. Daniel Tammet and Temple Grandin are two people I am glad the world allowed to grow and belong, not only for their own sake but for what they give us all. Daniel Tammet's talk will awe just about anyone while showing how a synaesthetic mind works. Temple Grandin's goes more to the point on what I've been talking about. This lady even has a film done about her, Temple Grandin, which I haven't yet seen but am now quite interested in. The world should pay attention if it expects to survive itself.



O mundo parece estar tornar-se uma realidade onde as pessoas têm que ser ou passar a ser precisamente aquilo de que a sociedade precisa se quer ter esperança de viver acima do limiar de sobrevivência. Viver na sociedade ocidental é cada vez mais caro e os estados já não gastam dinheiro em nada que não considerem fundamental para a maioria (ou então para beneficiar os próprios governantes). O problema é que num mundo em que só mesmo aqueles considerados normais, que não precisam de condições especiais para prosperar, conseguem prosperar, a humanidade como um todo não prospera. Pessoas com diferentes modos de percepção, conhecimento, com mentes atipicas, serão não só postas de lado, como não mais contribuirão para o progresso mundial. As duas TED talks acima ilustram tudo isto muito bem. Daniel Tammet e Temple Grandin são duas pessoas que felizmente o mundo deixou crescer e fazer parte dele, o que me agrada não só por eles mas pelo que nos dão a todos. O Daniel Tammet deixa qualquer um de queixo caído ao mostrar como funciona uma mente sinestésica. A Temple Grandin fala acerca do que eu tenho estado aqui a comentar. Esta senhora fez de tal forma a diferença que há um filme sobre ela, Temple Grandin, que ainda não tive oportunidade de ver com a devida atenção. O mundo devia atentar nestas pessoas se espera sobreviver.
   

Tuesday, 20 December 2011

Set Fire to the Rain by Adele

It's amazing when a live performance of a music you've already heard dozens of times can still give you goose bumps. Adele not only sings but interprets the lyrics in a deep emotional yet very believable way. I dare to say she feels it as few singers today seem to. Here is her performance of Set Fire to the Rain at The Royal Albert Hall, an awesome song for a December night. (Unfortunately, as this one is shared through Vevo, one must go to YouTube to watch)



Let it burn...

Tuesday, 15 November 2011

Prescrição obrigatória por DCI

Na sequência do Prós e Contras de hoje, em que os bastonários da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Farmacêuticos foram convidados a discutir a questão da prescrição obrigatória por Denominação Comum Internacional (DCI) e as condições em que está a ser legislada actualmente, não resisti a dar a minha opinião sobre o assunto.

Antes de mais, eu sou a favor da prescrição por DCI e da atribuição de liberdade de escolha e responsabilidade ao utente, desde que haja conhecimento, condições de segurança e confiança que o permitam.
Infelizmente continua-se constantemente a tentar dizer que, como os genéricos em geral são óptimos, não se pode usar argumentos baseados em casos esporádicos para contrariar a prescrição por DCI. Discordo em absoluto. A troca cega por qualquer genérico para cada princípio activo deve ser permitida apenas se estivermos certos de que cada produto, cada genérico de cada princípio activo é seguro e equivalente ao original e também entre si! Dado que notoriamente não se tem feito isso, devido quiçá à existência de quantidades ridiculamente grandes de genéricos e à falta de controlo do infarmed na sua introdução no mercado, isto não pode acontecer. Ou o infarmed passa a funcionar, ou se passa a fazer concurso público para cada princípio activo limitando-se o número de medicamentos disponíveis para venda e aumentando-se o controlo e a confiança nos mesmos.
Dizer que a prescrição por DCI dá liberdade ao doente é ignorar que a liberdade implica informação. Já hoje se vê a confusão dos utentes com consequências como por exemplo a duplicação de tomas. Mesmo em relação ao preço, como é que se assegura que o utente pode escolher o mais barato? Como é que ele sabe? Quem é que consegue saber, para cada medicamento e a cada momento, quais os genéricos disponíveis e quais os mais baratos? Basta a pessoa que o atende dizer que há deste ou daquele e que não há do outro e acabou-se a liberdade do utente.
Passar o poder do médico para a pessoa que atende na farmácia não elimina a corrupção, só muda os intervenientes. Vejo semanalmente vários casos de trocas por medicamentos mais caros nas farmácias, mesmo com a cruz que em tempos teoricamente a proibía. Alegar que "é preciso confiar no farmacêutico" dá vontade de responder "é preciso confiar no médico" e com isso justificar manter o poder de prescrição tal como estava. Pura treta. Vale sempre a pena lembrar que as farmácias são estabelecimentos comerciais, com o natural objectivo de ter lucro, e que este advém do dinheiro que os utentes pagam pelos medicamentos, pelo que há um notório conflito entre o interesse do utente e o do dono da farmácia.
Assim sendo, dizer que se está a por a escolha na mão dos utentes é mais que demagogia, é pura mentira.
Por fim, e em tom de aviso aos que tenham tido a paciência de ler isto, lembro que estando o estado a comparticipar os medicamentos cada vez mais em quantias absolutas e não em percentagem, quem vai pagar a diferença nas trocas por medicamentos mais caros será directamente cada utente comprador. Daí a falta de preocupação dos governantes com este problema, não lhes afecta os números.

Mais, e como disse hoje o bastonário da Ordem dos Médicos, se a ideia fosse passar para o mais barato sem outras considerações, bastaria uma lei que o obrigasse. Não faria sentido passar essa escolha para o farmacêutico ou quem quer que seja. O utente informaria apenas se preferiria comprar o medicamento prescrito, igual ao que tomava antes ou mudar, nesse caso obrigatoriamente para o mais barato. Até parece simples.

Wednesday, 28 September 2011

Paradise by Coldplay

I am a confessed fan of Coldplay. This one was actually the first music preview of their next album that gave me hope I might like it a lot and almost instantly convinced me to get it when it's released:




Paradise
(Berryman / Buckland / Champion / Martin)

When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach so
She ran away in her sleep
and dreamed of
Para-para-paradise, Para-para-paradise, Para-para-paradise
Every time she closed her eyes

When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach
and the bullets catch in her teeth
Life goes on, it gets so heavy
The wheel breaks the butterfly
Every tear a waterfall
In the night the stormy night she’ll close her eyes
In the night the stormy night away she'd fly

and dreams of
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Oh oh oh oh oh oh-oh-oh
She’d dream of
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Oh oh oh oh oh oh-oh-oh-oh

lalalalalalalalalalala
And so lying underneath those stormy skies
She’d say, "oh, ohohohoh I know the sun must set to rise"

This could be
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Para-para-paradise
Oh oh oh oh oh oh-oh-oh
This could be
Para-para-paradise
Para-para-paradise
This could be
Para-para-paradise
Oh oh oh oh oh oh-oh-oh-oh

Saturday, 24 September 2011

"every passing minute"

‎"...every passing minute is another chance to turn it all around" (David, Vanilla Sky)

Yet, knowingly, we keep on wasting a bunch of them on a whole lot of stuff which comprise what we call everyday life, and with that wasting the chance, if we ever had one, of finding ourselves a real one, happiness, fulfilment, of finding whatever there is when you "turn it all around".

Tuesday, 16 August 2011

Desespero: medidas e discursos do XIX Governo Constitucional de Portugal

Sua excelência o nosso excelente Primeiro-Ministro espera que as excelentes famílias portuguesas "compreendam" que ele tem que cortar as despesas de forma excelente. Não se preocupe Pedro Passos Coelho, estou certo que os portugueses desempregados, sem dinheiro para pagar electricidade (alguns nem mesmo antes dos aumentos), casa, comida e por aí fora terão muito tempo para usar da sua capacidade de compreensão. Embora talvez não queiram, quando repararem que as pessoas eleitas para governar o seu país não conseguem, antes de tirar o pão da mesa dos menos afortunados, tentar balançar as contas do estado indo poupar nos ordenados, pensões, reformas dos milionários, nas parcerias público-privadas, aumentando os impostos sobre os maiores ordenados ou as grandes riquezas ou a banca (ou várias outras medidas - parece-me que por uma questão de justiça geral não se deve mexer nem num cêntimo de pessoas que vivem com até 500 euros por mês enquanto há tanta gente a viver com milhares ou dezenas de milhares de euros por mês). Talvez, dado ser impossível compreender isto quando nem se tem dinheiro para ligar a ventoinha a meio da tarde para refrescar a casa mal isolada que alugaram porque cabiam com os seus dois filhos esfomeados e não ficavam absurdamente longe do trabalho, talvez nesse momento prefiram não gastar o seu tempo a "compreender" as palavras e acções de Coelho e companhia. Talvez (e reforço sempre o uso da palavra talvez, porque, ao contrário dele, eu não "estou certo" de nada do que as pessoas pensam antes delas o dizerem) prefiram usar o seu tempo e imaginação a tentar arranjar uma maneira de não gastar tanto dinheiro, não pagar tantos impostos, roubar aos que têm muito dinheiro e, no desespero, mesmo aos que não têm assim tanto, para pelo menos poderem alimentar os filhos e pagar o tecto onde eles dormem. Estou certo de que argumentos como "o que estamos a fazer ficará na história", que não queremos o "caminho da conflitualidade", que temos que gastar (na Saúde) menos 10 a 15% do que em 2011 e "não há outra possibilidade" farão uma diferença importante no dia a dia das famílias que a crise e o governo colaboram para empobrecer, de forma que elas compreenderão tudo o que Pedro Passos Coelho quiser.

Já que estamos cheios de compreensão, porque não tentar compreender também que o Primeiro-Ministro de Portugal venha desconsiderar de tal forma o povo grego como num destes pobres discursos em que celebrou o facto de Portugal não ser visto como a Grécia (como quem diz, nós somos bons e eles são maus e na Europa percebem a diferença), isto dias depois de andarmos todos a queixar-nos de que lá fora viam Portugal como um bando de preguiçosos burros demais para se saberem gerir. Não seremos agora, por culpa de sua excelência o nosso Primeiro-Ministro, culpados precisamente da mesma coisa perante os gregos? De os ver como preguiçosos, como incompetentes e pouco compreensivos, conflituosos perante estas medidas, este discurso do "tem que ser"? Não estarão eles a lutar como nós devíamos lutar? Não deviam estar eles a discursar, queixando-se que lutam quase sozinhos contra as políticas que nos empobrecerão a todos? Que não temos outra forma de nos defender? Que os portugueses estão a ser tolos ao aceitar isto tudo pacificamente?

Tenho vergonha de pertencer a um país que elegeu para seu governador e representante esta figura. Tenho pena de pertencer de certa forma a este povo que, como alguém dizia noutro dia, é pacato e se deixa maltratar sem luta. Nunca como hoje pensei tanto em emigrar e não só por motivos económicos mas por vergonha e desespero. Por outro lado quero ficar cá, quero tentar o mais possível mudar o que quer que seja, nem que seja só um bocado, quase nada, para não deixar destruir Portugal.

Tuesday, 9 August 2011

Blackbird by The Beatles

This song has been living in my mind for some days now, after I saw its performance by Paul McDonald and Kendra Chantelle in American Idol's 10th season. I'm quite interested in following Paul's career, he has an unique voice and attitude and I'd love to know where he takes it. Anyway, I now wake up thinking about it Blackbird, I drive singing it (some might say it's hard to call it singing but I try), I go to sleep humming it. And now, with so much social tension around the world, there's no better time to share it here:


Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free

Blackbird fly, blackbird fly
Into the light of the dark black night

Blackbird fly, blackbird fly
Into the light of the dark black night

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise


Thank you Paul McCartney, Thank you Beatles

Monday, 8 August 2011

Repo Men (2010) by Miguel Sapochnik

Recently I got to watch Repo Men and was really surprised. I had seen the trailer when the film was released but it didn't interest me enough to get me to see it. Or maybe I just didn't have the opportunity, you see, I can't really remember. Anyway, the film is really good, brings up a lot of food for thought about the society and has surprises well kept until the very end.
The film is placed in a futuristic Earth where a company named Union has created a way to produce artificial organs and sells them to the sick people at high costs which people are forced to pay by their credit line at overwhelming interest rates. The viewer is shown mostly the point of view of one of the repo men (Remy), the ones that recover, by any means necessary, the organs of the people that fail to pay, here played really well by Jude Law and being knocked out four times. In the beginning he and his friend and co-worker Jake (Forest Whitaker) may feel quite scary, being totally unaffected by the nature of their job and the unfairness of the system they are a part of. Gladly, the film isn't at all limited to showing a bit of bloodshed and despair, and Remy is eventually forced into rethinking all this, both by his wife and after a life-changing event in the course of one of his jobs. Saying anything more about the plot would be spoiling the experience of surprise and suspense weaved into Repo Men. If you are already interested, go watch it before reading anything else.
The best thing I got from this film was the way you can analyse the situation removing the specifics. This story could be about an organ selling company that kills people to take back the item from the ones that can't pay their absurd rates as much as it could be about banks getting people's houses and cars, leaving them not dead but most certainly dying in more ways than one. I was even thinking about the recent crisis in Ireland, Greece and Portugal and looking at the way the people in these countries are being forced to lose quality of life, lose jobs, lose the food on their tables because the "state" owes a lot of money after it was somehow forced into accepting some enormous interest rates. I'm not even going to discuss if the people should be paying this debt, I don't think so and even less in these conditions but that's another matter entirely. Even if one believes that the austerity policies are the best ones to solve this problem, can we really accept that people should lose their homes, their healthcare and even starve to death because the state owes money to some banks and even more so if we understand the manoeuvres by which that debt was increased?
Another very interesting theme that comes to mind after watching Repo Men follows the often repeated sentence in the film itself: "a job is just a job". But is it? Can one really agree that when he is doing his job he does not need to worry about its nature, its consequences, its impact on other people's lives, on other living beings, on Earth itself? I certainly don't. A job is not just a job, it is what it is, and as Remy learns (or does he?) by the end of the story, your job is a part of who you are. As characters in many other films and books often state, its not who you are but what you do that defines you. And this repo work wasn't wrong only because they accepted to kill people to get unpaid organs, it was even worse because they knew the way those unpayable credits were forced to the costumers who had no other choice than to submit or die without the transplant. All along the film Remy seems to only doubt continuing with his work when it affects his own life and only towards the end does he actually show an understanding of the unfairness of the system itself. But to be honest, if as an outsider, it's easy to say he is a bloodthirsty beast for doing what he does, would it be as simple to say the same about our own everyday job? Do we look at our jobs in terms of impact, justice, consequence and consider leaving them? Or do we rest every night confident that we did what we had to do in order to survive and that thought brings peace to our minds and avoids weighting on our consciousness. An amazing example of how radical events can open one's eyes to the nature of their jobs and their responsibility for following orders is Vincent Hughes, an Irish man who abandoned his job in a bank for feeling ashamed to be a part of the financial system that was behind the crisis that affects his people.
My only grudge with Repo Men was that, again, a romantic interest had to come and play an important part of everything happening. It's not that it didn't fit into the story or that I didn't like Alice Braga, I did, but after so many films one starts to feel that the industry wants you to believe that romantic passion is the one and only drive for change in this world, concept with which I thoroughly and deeply disagree.
This is, for me, what makes a very good film, its ability to make me reflect about old and new themes, to bring new ideas to mind, to make me rethink my opinions or even my whole life.

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Vi recentemente o Repo Men e fui genuinamente surpreendido. Tinha visto o trailer na altura em que o filme saiu mas não fiquei suficientemente interessado. Ou talvez simplesmente não tenha tido oportunidade para o ir ver. De qualquer forma, o filme é muito bom, surpreendeu-me até ao final e deixou-me a pensar.
A história leva-nos a uma Terra futurista, na qual uma companhia chamada Union descobriu uma forma de produzir órgãos artificialmente e vende-os às pessoas doentes a preços elevados de forma que eles acabam por ter que pagar submetendo-se a um crédito com juros exagerados. O filme segue quase sempre Remy - com uma interpretação impecável por Jude Law - um dos homens que trabalha para a Union, recuperando os órgãos de clientes que não conseguem pagar as prestações, mesmo que para ísso tenham que morrer. No início do filme ele e o seu amigo e colega Jake (Forest Whitaker) são de certa forma assustadores, tal é a sua despreocupação perante o tipo de trabalho que realizam e a injustiça da qual fazem parte. Felizmente, o filme não se limita a mostrar desespero e sangue derramado, e depressa leva Remy ao ponto em que é pressionado a reavaliar a sua vida, tanto por parte da esposa como por um acontecimento que muda a sua perspectiva. Dizer algo mais do argumento de Repo Men seria estragar a experiência de suspense e surpresa que consegue proporcionar. Se por esta altura já despertei interesse, então o melhor é ver o filme antes de ler o resto.
Uma das melhores coisas deste filme é o quanto pode ser descontextualizado e aplicar o raciocínio que dele provém a várias outras situações. Esta história é credível tanto sendo baseada na Union como no contexto das instituições bancárias que acabam por penhorar a casa e o carro aos clientes que não conseguem pagar os empréstimos, por vezes deixando-os não mortos como no caso da Union mas com poucas possibilidades de sobreviver. Lembrei-me igualmente das recentes crises na Irlanda, Grécia e Portugal, onde as pessoas estão a perder qualidade de vida, o emprego e até o sustento porque o "estado" deve quantidades inacreditáveis de dinheiro depois de ter sido de certa forma forçado a aceitar taxas de juro absurdas. Não quero estar agora a discutir porque nem sequer acho que as pessoas devam estar a pagar estas crises e muito menos nestas condições, porque não é esse o intuito deste texto. Mas ainda que alguém possa acreditar que as políticas de austeridade são a melhor forma de resolver estes problemas, pode ele mesmo aceitar que as pessoas percam casa, cuidados de saúde e até a comida da mesa porque o estado deve dinheiro a alguns bancos (e mais se perceber as manobras que levaram à criação das ditas dívidas)?
Outro tema vem à cabeça no seguimento da frase tantas vezes repetida no filme: "um trabalho é só um trabalho". Será? Poderá alguém concordar que quando está a trabalhar não precisa de se preocupar com a natureza, as consequências, o impacto desse mesmo trabalho nas vidas das outras pessoas, noutros seres vivos ou até no próprio planeta Terra? Eu decerto não. Um trabalho não é, simplesmente, um trabalho, é o que é e, como Remy percebe (ou parece perceber) no final da história, é também uma parte de quem cada um é. Como muitas personagens de vários filmes e livros já disseram, não é quem nós somos mas aquilo que fazemos que nos define. Este emprego não é só condenável por consistir em matar pessoas para recuperar órgãos que não pagaram, é-o ainda mais por eles saberem a forma como os créditos de pagamento quase certamente impraticável eram impingídos a clientes cuja outra hipótese era morrer sem o transplante. Ao longo do filme Remy parece apenas reconsiderar este trabalho quando ele o afecta directamente e só no final parece mostrar alguma compreensão da injustiça do sistema do qual fez parte. Mas sejamos honestos, se de fora é fácil vê-lo como um monstro sanguinário, seria assim tão simples analisar da mesma forma o nosso próprio emprego? Será que levamos mesmo em conta o seu impacto, a justiça, as consequências e a considera-las, seriamos capazes de o deixar de imediato? Ou será que descansamos todas as noites convictos de que só fazemos o que temos que fazer para sobreviver e chega este pensamento básico para descansar a nossa consciência? Um exemplo fantástico de como acontecimentos extremos nos podem abrir os olhos é Vincent Hughes, um Irlandês que se demitiu do seu emprego num banco por se sentir culpado por pertencer ao sistema financeiro que provocou a crise que tanto prejudica o seu povo. Tomei conhecimento disto numa notícia recente no Diário Económico, para a qual deixo aqui a ligação.
Aquilo de que menos gostei em Repo Men foi aquela típica e francamente cansativa necessidade de incluír um interesse romântico como força motriz. Não que não fizesse sentido no momento da história ou que eu não gostasse da interpretação de Alice Braga, muito pelo contrário, mas depois de já ter visto o mesmo conceito usado ad nauseum dá a sensação de que a industria cinematográfica mainstream quer fazer-nos acreditar que a paixão romântica é a única motivação para a mudança neste mundo, ideia com a qual eu discordo profundamente.
De resto, isto é para mim o que faz de umas horas de filmagem um bom filme, a sua capacidade de me pôr a reflectir sobre coisas novas ou antigas, oferecer novas ideias e me obrigar a reconsiderar as minhas opiniões ou a minha vida em geral.

Saturday, 6 August 2011

Martin Rowson

Martin Rowson is a British cartoonist and novelist who I discovered today, after paying more attention to The Guardian's cartoon section. He has been spot on, illustrating the latest events on world economy and politics. One of my favourites is his take "on the US debt ceiling negotiations", but I advise anyone to just check all the cartoons and have a laugh at the ridicule - The Guardian comment cartoon - or just subscribe to the webfeed. As another good example, the picture to left is his cartoon on the US debt deal and links to the original web page at guardian.co.ok.
According to Wikipedia his works are also published in The Independent, the Daily Mirror and Morning Star and he is also a novelist - I'm actually considering looking for his book The Dog Allusion: Gods, Pets and How to Be Human although I am almost sure I'll disagree that keeping pets is a waste of time.

Why pay or get paid for sex? - Guardian.co.uk

I just read a very interesting article about this theme in the guardian, one of my favourite on-line journalism sources, and decided to share it. It doesn't answer these questions, it wouldn't be as simple as that, but it collects letters from some sexual workers and clients with different points of view. I'm wish this issue could be talked/written about in public media without restraint or submission to the typical prejudices. We need eye-openers here and now, to stop believing all the workers are forced into it or desperate addicts. If your curiosity is piqued, follow this link. The one thing that makes the article feel thoroughly incomplete is that all the stories are from female workers and male clients, which contributes to the stereotypical idea of this business, but it is explained because the material belongs to the author's projects Letters from Johns and Letters from Working Girls, comments collected by Susannah Breslin from 2008 to 2009 and probably worth a look too.

Tuesday, 2 August 2011

The Wonderful Wizard of Oz and The Marvellous Land of Oz by L. Frank Baum

I've recently read, while travelling around Scotland (which, by the way, is one of the most beautiful places I've ever been to), both The Wonderful Wizard and The Marvellous Land of Oz in e-book format on my Galaxy Tab. First of all I must say that reading in the tab was surprisingly good, I was expecting to miss the book experience much more than I actually did, but that being said, I still prefer real books. Then I'd like to talk about Project Gutenberg. It's a database of over 36 thousand free e-books in either ePub, Kindle, HTML or simple text format. Anyone who's interested in reading classics with expired copyrights go ahead and pay the site a visit, you surely won't regret it and if you want to you can even contribute to the adaptation process.
Now to talk about the books on the Land of Oz, I must start by saying that, of course, I had already seen the film, I knew most of the first story by heart and wasn't really expecting a lot of surprises. And I didn't get them. The author proposes to write a book "for the children of today", trying to keep the wonders and remove the nightmares and moralist elements from the stories, and he ends up managing that quite well, although he couldn't - or perhaps never really wanted to - avoid the transmission of morals as I show ahead. It's a fairly easy read, quick and seemingly uncomplicated with few hidden senses to it. It all starts with Dorothy being thrown into the Land of Oz by a cyclone and then travelling through the place to find some way to get back to her home and family. In her travels she gets to know many different places and people and brings with her the Scarecrow, the Tin Woodman and the Lion, who hope the Wizard can help them get brains, heart and courage respectively. There are two things that stand out as the main messages of these stories, introduced in The Wonderful Wizard of Oz and further developed in The Marvellous Land of Oz. One is the idea of attribution of an ability or characteristic to something objective (beware: SPOILERS ahead) - the intelligence to the brain, the emotion to the heart - associated with the belief that such things cannot be developed or discovered in oneself and must be innate or given to you by an authority - the courage the wizard gave to the lion by having him "drink it". The other is the fallacy known as the appeal to (inappropriate) authority, seen here in the figure of the Wizard of Oz, who, for being the most powerful man in the land would surely know how to give brains, heart, courage and even how to send Dorothy back home. This absurd fact is further enhanced when, in the second book (again, careful with SPOILERS), the characters show that they still believe the Wizard of Oz was very powerful, apart from the fact that they themselves found out he was a fake wizard, because only one with such astonishing abilities could have given them the high quality brains and heart they now believe to be using. Two other noticeable things that contribute to the reader's perception of this are the lack of change to the Scarecrow's intelligence or the Tin Woodman's emotionality and also the lack of considerable difference between the Scarecrow and other characters in terms of said intelligence, even though they do ask him to use his brain to solve some problems, they also believing him to be the smartest of the group. These developments aside, the second book feels much more as a classical fantastic story, with a king overthrown, a rogue wicked witch, some magical feats and even a lost princess, though the author does start being bolder in terms of experimenting and introduces things such as a creature made by magic that wishes to be dead and even gender-changes. The relationship between Jack Pumpkinhead and Tip is also quite interesting and often comic.
These books weren't really exciting, not that they don't have good plots or that they don't bring any food for thought, but in the end I think what really didn't work out for me was the writing. They're books to be enjoyed by children and I believe I would have liked them a lot more years ago. I'm still glad I read them! Next on my list were Alice in Wonderland and Through the Looking-Glass and I am also slowly reading Beyond Good and Evil by Friedrich Nietzsche, but only when my mind feels rested and concentrated enough. Yesterday I started reading A Dance With Dragons by George R.R. Martin which I am hoping to find amazing!

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Li recentemente, durante uma viagem pela Escócia (um dos sítios mais bonitos que já vi), O Maravilhoso Feiticeiro de Oz e a sua sequela (The Wonderful Wizard of OzThe Marvellous Land of Oz) em formato e-book na minha Galaxy Tab. Começo por dizer que ler na tab foi surpreendentemente bom, estava à espera de sentir muito mais falta do livro como objecto e como experiência, mas mantenho a preferência pela leitura tradicional. Quero também divulgar o Project Gutenberg, uma base de dados com mais de 36 mil e-books em vários formatos e de acesso gratuito por já terem expirado os direitos de autor. Interessados em ler clássicos não se vão arrepender de ir dar uma vista de olhos.
Agora para comentar os livros sobre Oz propriamente ditos, começo por admitir que já tinha visto o filme e conhecia bem a história do primeiro livro, pelo que não esperava surpresas e, de facto, não fui surpreendido. No prefácio, Frank Baum propõe-se a escrever um conto para as "crianças modernas", mantendo elementos fantásticos alegres mas evitando os pesadelos e os moralismos. O autor conseguiu na minha opinião atingir estes objectivos, excepto na evicção dos elementos transmissores de morais - que, quem sabe, talvez nunca tenha realmente querido - como comentarei mais à frente. O texto é fácil, de leitura rápida e aparentemente simples, com poucos segundos sentidos. A primeira história inicia-se com Dorothy a ser transportada para Oz por um ciclone, partindo depois ao encontro do Feiticeiro de Oz, viagem que serve para integrar todo o enredo e as diversas personagens. Dorothy acaba por ser acompanhada por um espantalho, um lenhador de lata e um leão que esperam que o Feiticeiro lhes possa dar um cérebro, um coração e coragem, respectivamente. Há essencialmente duas mensagens que se destacam no primeiro livro e são aprofundadas no segundo (cuidado com SPOILERS daqui em diante). Uma é a atribuição simples e directa de uma capacidade a algo objectivo, um órgão, como a inteligência ao cérebro ou o sentimento ao coração, associada à ideia de que as mesmas capacidades não podem ser desenvolvidas ou encontradas no próprio, tendo que ser inatas ou então criadas ou atribuidas por uma entidade externa, poderosa, aqui na forma do Feiticeiro de Oz, ilustrada na forma como dá ao leão uma bebida que o torna corajoso. A outra é a falácia do apelo à autoridade, neste caso a do Feiticeiro que, por ser considerado o homem mais poderoso de Oz, certamente saberia como dar cérebro, coração, coragem e mesmo transportar Dorothy de volta para casa. Esta ideia é enfatizada no segundo livro, onde se mostra que as mesmas personagens que descobriram que ele os tinha enganado, continuam a afirmar que o Feiticeiro teria que ser muito poderoso caso contrário não lhes poderia ter dado os órgãos de elevada qualidade que agora possuem e que acreditam ser a causa da sua inteligência e sensibilidade/emocionalidade, respectivamente. Isto é ainda ilustrado de mais duas formas, tanto por não se notar qualquer alteração na inteligência do espantalho ou na emocionalidade do  homem de lata depois de terem obtido os ditos órgãos, como por, em especial no caso do espantalho, não haver diferença significativa entre a capacidade intelectual por mostrada e a das restantes personagens da história, isto apesar de em várias situações lhe pedirem que use o seu cérebro para resolver problemas. De resto, o segundo livro acaba por ser bastante mais próximo da típica história fantástica, com um rei deposto, uma bruxa má, algumas feitiçarias e até uma princesa perdida, embora o autor comece também a ser mais irreverente ao introduzir uma criatura criada por magia que quer morrer e até o conceito de alteração do sexo naturalmente aceite pelas restantes personagens. A relação entre o Jack Pumpkinhead e o Tip é também muito interessante e engraçada ao ponto de me por a rir sozinho a olhar para o texto.
Estes livros não foram realmente excitantes, não que não tivessem bons enredos ou que não oferecessem coisas em que pensar, mas julgo que o que falhou foi a escrita de Frank Baum não é, de todo, apaixonante. São livros para serem lidos na infância e parece-me que teria gostado bastante deles há alguns anos atrás. De qualquer forma, estou satisfeito por finalmente os ter lido! Tenho estado agora a ler Alice no País das Maravilhas e a sua sequela, de Lewis Carrol e quando me sinto concentrado o suficiente, Além do Bem e do Mal de Friedrich Nietzsche. Comecei ontem a ler A Dance with Dragons de George R. R. Martin que, a avaliar pelos livros anteriores, vai ser fenomenal!